Arquivo de Categorias: Democracia

Convicções

Por uma destas tardes, enquanto fazia algumas arrumações domésticas, revi um episódio contado por João Bénard da Costa num recorte do antigo diário Independente. O semanário, acessível nos arquivos, que nos lembra os longínquos dias em que pairava sobre o Portugal pós-revolucionário a ideia de que era possível ver uma direita jovem, culta e inteligente a nascer do nada. Contava-se nesse recorte que na noite de 17 de Maio de 1945, quando no cinema Politeama o filme Casablanca estreou em Portugal, no momento em que no ecrã A Marselhesa abafou Die Wacht am Rhein, o cântico alemão saído da Guerra Franco-Prussiana utilizado pelos nazis, o público lisboeta se pôs de pé, cantando também, em uníssono e alta voz, a canção que em 1796 se tornou o hino da França revolucionária e republicana. (mais…)

    Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

    Ser solidário

    O sociólogo Émile Durkheim falava da solidariedade como um elo moral capaz de unir os indivíduos do mesmo grupo e de funcionar como fator de coesão. Sem ela, as sociedades dissolver-se-iam e os humanos voltariam a viver em bandos, centrados na sobrevivência e numa interminável guerra de todos contra todos. Porém, ela não traduz apenas uma ética de governação que impõe a proteção dos mais fracos: integra um sentido mais completo, capaz de incluir um sentimento de proximidade, entreajuda e comunhão. Diariamente alimentado, este sentimento assegura aos diversos grupos uma lógica de autoproteção que os defende do exterior e lhes confere autonomia e protagonismo. Sob os regimes autoritários, esse dever de solidariedade foi frequentes vezes subvertido, trocado por uma escravizante diluição do indivíduo no todo. Por isso as democracias, que se desejam emancipatórias, o valorizam tanto. (mais…)

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      Um feriado mal passado

      No princípio o 10 de Junho metia-me medo. A partir dos treze ou catorze passei a odiá-lo. Apesar da atitude ter mudado, o motivo era o mesmo: a experiência traumática de ver na televisão de canal único, a preto e branco, a cerimónia integral com a «veneranda figura do Chefe de Estado», de alva farda marítima, ou com os ministros do governo, invariavelmente de escuro cinza, a aporem medalhas de bronze – as de ouro e prata estavam reservadas para os mais dignos – em homens e mulheres trajados de negro, recém-chegados nos seus fatos domingueiros de aldeias recônditas ou de bairros degradados. Lá estavam eles nervosos e chorosos no Terreiro do Paço, com «as tropas dispostas em parada», a receber, ano após ano, em complemento de um cumprimento rápido e ritual, o pequeno símbolo metálico com o qual a Pátria, supostamente reconhecida, premiava os seus filhos mortos, os seus maridos desaparecidos, os seus irmãos que haviam perdido a razão, a alma ou os tímpanos numa guerra sem saída. Mesmo após a instauração da democracia, aqueles que haviam crescido a observar esse rito anual jamais esqueceram as manhãs de verão durante as quais, a cada ano, se transformava aquele feriado num funeral da pátria. (mais…)

        Atualidade, Democracia, Memória, Opinião

        Coimbra, cidade aberta

        coimbra69
        Coimbra69 – Fot. Fernando Marques «Formidável»

        A partir de hoje passo a reproduzir aqui alguns dos artigos de opinião publicados regularmente no Diário As Beiras, de Coimbra. Por vezes com pequenas revisões. Num caso ou noutro – como acontece com este texto – os temas abordados poderão ter maior relevância para os leitores (ou para os passageiros) da cidade.

        A primeira memória que tenho de Coimbra liga-se a uma frase enigmática do meu pai. Um dia, ao passarmos na Portagem, junto ao antigo Café Montanha, apontou para um grupo de rapazes e de raparigas de roupa negra, muito justa, e avisou-me: «Olha, aqueles ali são os existencialistas». Deve ter acontecido por volta de 1960 e muitos anos depois, ao folhear uma coleção do jornal Via Latina, percebi que nessa época estava de facto em curso na academia coimbrã um combate de ideias entre estudantes católicos mais ou menos conservadores e um grupo de defensores do «existencialismo francês», reconhecendo estes sermos nós os primeiros responsáveis pelo destino que escolhemos. O episódio ficou registado e creio ter sido ele a fazer com que passasse a ver a cidade, apesar da sua estreita dimensão – então menos de metade dos habitantes de hoje –, como um território aberto à novidade do mundo e aos seus dilemas. (mais…)

          Apontamentos, Coimbra, Democracia, Memória

          Política da amizade

          Fotografia de Constantine Volo
          Fotografia de Constantine Volo

          Ao refletir no posfácio que ocupa quase metade da recém-saída edição nacional de O Amigo, de Giorgio Agamben (n. 1942), o seu autor, António Caselas, sublinha um aspecto que resulta fulcral no texto do filósofo italiano: «A amizade é essencial ao relacionamento político e não um artifício privativo que disfarça uma falta.» E, no entanto, é justamente a confusão entre estas duas leituras, e principalmente o destaque dado à segunda aceção, que denuncia o modo como o conceito tem vindo ser progressivamente vulgarizado, ou mesmo depreciado, no domínio do público. No limite, os conceitos de «amigo» e de «amizade» presentes hoje nas redes sociais são contaminados por aquela presunção segundo a qual eles representam um relacionamento privado e entre indivíduos. Ao mesmo tempo, porém, o próprio conceito de rede questiona esta perspetiva, uma vez que a ligação pessoal é publicamente exposta, a uma escala nunca vista, passando a assumir uma dimensão social que lhe confere um significado inevitavelmente político. (mais…)

            Cibercultura, Democracia

            40a. Avenida

            De vez em quando recupero dos arquivos deste blogue textos não desatualizados aos quais vale a pena sacudir o pó.

            Seguro a bela edição da Antígona, já com mais de vinte anos, de Nós, concluído em 1921 por Ievgueni Zamiatine (1884-1937), e regresso ao último parágrafo, sublinhando a sua derradeira paisagem. De um entusiasmo tão simulado quanto assustador, que deveria prefigurar esse futuro industrial, radioso, perfeito e desapiedado da sociedade inventada cujo destino histórico, tão «real» quanto imperfeito, hoje podemos conhecer: «Conseguimos construir um muro temporário de ondas de alta voltagem na transversal da 40ª. Avenida. Tenho a esperança de que venceremos. Mais do que isso, tenho a certeza de que a vitória é nossa. Porque a racionalidade tem de triunfar.» (mais…)

              Democracia, História

              A abolição do humanismo

              Distopia, por Strelok86
              Distopia

              Numa reportagem publicada há dias pelo diário i sobre as consequências sociais da crise e da austeridade, alguém declarava ao jornalista: «O humanismo desapareceu e o que eu vi na Grécia foi mesmo isso, uma catástrofe social em que o humanismo desapareceu.» Por humanismo entende-se aqui, parece claro, não a corrente cultural antropocentrista mas uma valorização da solidariedade que reconhece no semelhante um ser humano idêntico a nós, diante do qual temos obrigações de respeito e proteção tal como ele as tem para connosco. E é esta solidariedade, essência, instrumento e objetivo do humanismo, que falha no justo momento em que mais dela necessitarmos, quando o empobrecimento e a perda de direitos exigiriam um esforço de entreajuda e uma luta comum ainda mais intensa. Mas os culpados da crise e os seus atuais gestores sabem bem como seria perigosa tal política de aproximação, tal lógica de combativa partilha: ela iria transformar-se num inoportuno fator de resistência às políticas que procuram impor. Como essa resistência as tornaria inexequíveis, tudo fazem para alimentar os antagonismos que fazem renascer o «homem lobo do homem», assim justificando, como teorizou o filósofo Thomas Hobbes há perto de 350 anos, a intervenção desse Estado-Leviatã, mais juiz e polícia que equilibrador e paternal. (mais…)

                Atualidade, Democracia, Opinião

                Solitários e solidários

                O filósofo basco Fernando Savater (n. 1947), prémio Sakharov em 2000, descobriu Camus no início da adolescência. Conta neste depoimento de que forma, desde o combate contra a ditadura franquista à oposição aos atentados da ETA, o pensamento do autor de A Peste jamais deixou de o acompanhar e de o guiar nas suas escolhas políticas e até pessoais, sempre revelado como uma lição de coragem e de lucidez.
                Publicado em «Albert Camus. La Pensée Révoltée», no. especial da Philosophie Magazine, Abril-Maio de 2013. Testemunho recolhido por Sven Ortoli. Trad. ATN.

                Comecei a ler Camus pelos 14 anos. Vivia em Espanha – bem dentro dos anos da ditadura franquista – quando li nos jornais a notícia do seu desaparecimento. Essa morte repentina perturbou-me. Ao reconhecê-lo como grande escritor, de uma vida fulminante, tomou-me logo uma vontade de o ler. Tirando O Estado de Sítio e os artigos sobre a guerra civil espanhola, não era difícil então encontrar traduções de Camus em espanhol, quase todas elas vindas da América do Sul. De certa maneira, Camus beneficiava da anuência dos padres espanhóis (os grandes censores!): diziam eles que, como Sartre, não acreditava em Deus, mas ao contrário deste «procurava-o». Li pois, em primeiro lugar, O Mito de Sísifo, e logo a seguir O Homem Revoltado. Um pouco mais tarde, em 1971 – já quase no final do franquismo – assisti igualmente a uma representação de Calígula, interpretada pelo grande ator José Maria Rodero, que me impressionou imenso (sim, nessa época o teatro entusiasmava-me mais que a filosofia…). Senti-me maravilhado, mas ao falar com os meus amigos universitários – éramos todos antifranquistas – concluímos rapidamente que Camus era um pouco suspeito. Repare-se que para a ortodoxia antifranquista, ele não estava do seu lado da barricada, uma vez que não era marxista e tinha dito coisas muito duras sobre a realidade do comunismo… Ninguém queria parecer estar intelectualmente demasiado próximo dele. (mais…)

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                  Por onde andam?

                  imigrante

                  Enquanto este blogue passa por uns dias de pousio, retomo um apontamento já com dois anos.

                  As preocupações são constantes, muitas, em demasia. A maioria dos portugueses conta e reconta o que tem ou pode obter para conservar uma vida digna. Alguns já nem isso conseguem. O horizonte permanece instável, da cor negra da tempestade. E em épocas como esta, cada um, cada família, cada grupo, cada rua ou vilarejo, procura acima de tudo preservar o seu nicho de vida, a bolha de oxigénio que ainda lhe permite respirar um pouco e seguir em frente. Ainda assim, como é possível – se retirarmos as notícias doentias sobre eletricistas assassinos ou tristonhas mulheres da noite que aparecem nos tablóides – que os imigrantes, ou a inquietação com as suas precárias existências, tenham desaparecido por completo dos telejornais, das capas dos diários, das nossas preocupações? Por onde andam as suas vidas silenciosas e invisíveis?

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                    A distopia da qual se fala

                    Quando se buscam os fatores partilhados de disfunção da grande utopia comunista que conduziram os Estados do «socialismo realmente existente» à situação cataléptica que decidiu a sua morte, alguns revelam-se particularmente evidentes. Desde logo aqueles que se reportam às rígidas políticas de engenharia social que determinaram êxodos de povos inteiros, fomes que poderiam ter sido evitadas ou uma atitude política de exclusão determinada pela origem social do reprimido, ainda que esta se encontrasse associada a uma quota significativa da população. São também recorrentemente mencionadas as condições de ausência de liberdade de crítica, que bloquearam as sociedades e até os próprios partidos no poder, assim como o espartilho de uma economia rigidamente planificada e burocratizada, através da qual se assinou a sentença de morte de um crescimento equilibrado e a incapacidade de suprir as necessidades reais da população. Outro aspeto conhecido mas habitualmente menos abordado diz respeito à formação e ao funcionamento das elites políticas e administrativas, as chamadas nomenklaturas, que emergiram da conceção leninista do partido como vanguarda e «exército de revolucionários profissionais» para se destacarem progressivamente como casta privilegiada, inamovível e cega face às transformações de um mundo em constante e cada vez mais rápida mudança. (mais…)

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                      A paz justa, um dia

                      Absorvidos pelas urgências da política doméstica ou pelas grandes preocupações que assolam a casa europeia – isto é, mais diretamente envolvidos nos assuntos que nos dizem respeito porque nos afetam os bolsos e as vidas –, temos esquecido, ou passado para segundo plano, os dramas um pouco mais distantes. É o que tem sucedido, por exemplo, com a guerra civil na Síria, empurrada para as pequenas notícias de pé de página no preciso momento em que o número de mortos, feridos, desaparecidos e desalojados continua a crescer numa escala perturbante. Mais: temo-nos dado ao luxo de a seu respeito deixar passar versões simplistas e parciais de uma realidade complexa, nas quais se transformam os carrascos em vítimas ou se simplifica, como num mero combate entre o Bem e o Mal, aquilo que, em Damasco ou Alepo, de facto não é simples. O mesmo está a acontecer com as ocorrências do interminável conflito israelo-palestiniano, do qual nos tem chegado informação aparentemente repetitiva, dando a entender que tudo está na mesma quando na realidade, embora lentamente, algo tem vindo a mudar. Parte desta novidade surge agora justamente de onde os mais distraídos ou irredutivelmente maniqueístas tendem a nada esperar de bom. (mais…)

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                        A voz dos outros

                        Não tenho muito mais a dizer sobre esta novela ruidosa, acompanhada de exacerbadas petições favoráveis ou desvaforáveis, projetada a propósito do anunciado regresso de José Sócrates, na qualidade de comentador político, a um espaço semanal na RTP. Cinco curtos parágrafos apenas:

                        1. Não conheço Sócrates em carne e osso e admito que possa até ser excelente pessoa. Mas desde que ganhou notoriedade política vi-o sempre como alguém com uma pose pouco dialogante e um discurso ideologicamente insípido, numa atitude que culminou, após a ascensão à chefia do Partido Socialista, com o isolamento da sua ala esquerda, por ele repetidamente apelidada de «velha», «caduca», em favor dos setores essencialmente técnicos e mergulhados na gestão «pura», próximos da já então moribunda Terceira Via. (mais…)

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                          O inútil caminho do ódio

                          O ódio contra alguém começa devagar, mas se não é atalhado não para de crescer. Ele parte de uma aversão nebulosa, alimentando-se do rancor e jogando-se na inimizade e na repulsa que afastam até um ponto de não retorno. Mas não é meramente passivo: o ódio leva quem o vive a tentar isolar, a procurar destruir, a tudo fazer para abalar as ideias, a forma de estar, o passado, o presente e o futuro de quem tanto se detesta. É um sentimento mórbido, que cega sem remissão, que avilta, que nada produz, que coage a liberdade e tiraniza quem o vive. Além disso, raramente age de forma frontal: por regra denigre, insinua, alimentando-se de rumores, de meias-verdades e de mentiras. Nada tem a ver com o reconhecimento da diferença ou com o combate limpo contra as ideias da pessoa da qual se discorda, de quem não se gosta e que se rejeita. (mais…)

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                            Um cartaz perigoso

                            Há cerca de duas semanas, quando nele reparei pela primeira vez, pareceu-me de imediato que valeria a pena comentar um dos mais divulgados dos cartazes com os quais a CGTP procurou mobilizar os cidadãos para as manifestações deste 16 de fevereiro contra as políticas antissociais do governo. A maior parte da propaganda difundida falava aliás, preferencialmente, de «trabalhadores», não de «cidadãos», menosprezando a mudança semântica que nas últimas décadas envolveu aquela palavra. Agora reforçada, aliás, no contexto de um alastramento dramático do desemprego, do trabalho precário, da desqualificação profissional e da pauperização da classe média. Tomei na altura algumas notas, mas não escrevi logo um post pois de modo algum queria, por ínfima que pudesse ser a sua divulgação, que este pudesse ser interpretado como um apelo à desmobilização de um combate imprescindível e agregador que é urgente travar. Ultrapassadas essas circunstâncias e de um modo agora mais sereno, vou direto ao assunto. (mais…)

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                              Por uma cultura mais sóbria

                              Gilles Lipovetsky é um dos filósofos, críticos da superação hedonista e individualista da modernidade, mas ao mesmo tempo adversários de um coletivismo historicista que constrange a liberdade, cuja obra mais cedo e de forma mais substancial foi traduzida em Portugal. A Era do Vazio, saída em 1983, indiciava já aquela que, sob diferentes formas, será mantida como a sua interrogação maior, a saber: perante as contingências de uma época na qual deixou de existir a noção de finalidade histórica, como olhar o fenómeno inverso de em nada crer, por nada se bater, pois tudo é efémero? Em A Sociedade da Deceção (Edições 70), pequeno livro resultante de uma entrevista concedida a Bertrand Richard em 2006 e agora traduzido, Lipovetsky aborda os malefícios morais produzidos por essa «sociedade da abundância» que tende a depreciar, a esvaziar, o valor de todas as coisas, conduzindo à ideia de que nada, nem mesmo o sentimento de posse de determinados bens, a todo o instante substituídos por outros, vale realmente a pena. Nestas condições, prevê um aumento do mal-estar, mas pensa que o consumismo capitalista acabará por se cansar de si mesmo, invertendo a marcha rumo a uma cultura necessariamente mais sóbria e mais humana. Capaz de produzir os seus próprios anticorpos, entre estes o papel do voluntariado, um ecologismo responsável, a ideia de comércio justo e de desenvolvimento sustentável, e até a capacidade crítica induzida pelas redes sociais. Associado à errância das convicções, o mercado conseguiu alterar valores e estados de espírito, mas não comercializá-los de todo. Para Lipovetsky é, pois, possível o levantar de uma democracia pós-consumista. (Gilles Lipovetsky, A Sociedade da Deceção. Trad. Luis Filipe Sarmento. Edições 70. 114 págs.)

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                                Uma outra Segunda Guerra Mundial

                                Antony Beevor
                                Antony Beevor

                                O coreano Yang Kyoungjong saiu do esquecimento durante o trabalho de arquivo. Tratava-se de um pobre homem de origem rural, recrutado à força sucessivamente pelo Exército Imperial Japonês, pelo Exército Vermelho e pela Wehrmacht, que foi feito prisioneiro pelos americanos na Normandia em junho de 1944. O seu trágico destino, com toda a probabilidade partilhado com muitos outros, funciona como um bom indicador da primeira intenção de Antony Beevor ao propor-se escrever aquela que poderia ter sido apenas mais uma entre centenas de sínteses sobre o conflito que identificou como «o maior desastre da História produzido pelo próprio homem». Neste A Segunda Guerra Mundial, editado já em 2012, Beevor procurou de facto ultrapassar os relatos que a espartilham com base numa separação rigorosa dos diferentes espaços envolvidos – a Europa a leste dos Pirinéus, o norte de África até à Abissínia, a imensa região do Pacífico, o Extremo-Oriente –, contornando o ponto de vista eurocêntrico e estabelecendo uma linha de continuidade entre as campanhas ocorridas nos múltiplos teatros de operações. Aliás, não é por casualidade que, como numa viagem de circum-navegação, o relato começa em agosto de 1939, com a vitória dos soviéticos sobre os japoneses em Khalkin-Gol, entre a Mongólia e a Manchúria, e encerra seis anos mais tarde, em agosto de 1945, precisamente na mesma região, com a invasão do norte da China pelo Exército Vermelho. (mais…)

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