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Serenidade


A chama olímpica passou por Pyongyang, a capital da Coreia do Norte. Sem registo de incidentes, naturalmente. E sem a necessidade da presença de agentes de Pequim com bandeiras impecavelmente engomadas a fazerem de «manifestantes pró-chineses». Por ali o povo permanece sereno.

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    O que a gente lê

    Se aquilo que António Cunha Vaz diz hoje em entrevista saída no Público com chamada de primeiríssima página, o padrão ético que transpira, as atitudes que insinua, a pesporrência que exibe, as rasteirinhas que passa, são coisas para levar a sério, chamar-lhe-ia um exercício público de abjecção. Se está a brincar connosco, chamar-lhe-ia um excelente momento de parvoíce.

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      A vida a 26

      Deixei de frequentar «cerimónias comemorativas» de Abril. Sessões de reprise, quase sempre organizadas por pessoas com saudades de si próprias ou por autarcas com escassez de imaginação. Transformadas tantas vezes em dever. Repetindo, ano após ano, as mesmas palavras de ordem, as mesmas canções, as mesmas histórias, o mesmo cravo vermelho ao peito «que a todos fica bem». Sempre o que se me afigura uma idêntica, pesada e opressiva nostalgia. Aborrecem-me, admito. Aborrecem-me quase tanto quanto aborrecem a generalidade dos portugueses normais com menos de quarenta e oito anos. Transferi pois o 25 de Abril para a memória-cache, como parte central da minha vida e como âncora da memória colectiva que partilho. Como uma dobra, separando o que ficou para trás – a desigualdade como princípio, a vida triste, a fealdade no poder, o medo persistente como a caspa – de tudo aquilo que ali mesmo começou. Um campo aberto a sucessivos trilhos, a mil e uma quimeras, a todos os desígnios e precipícios possíveis e impossíveis. Mesmo aos piores. Prefiro por isso falar do 24. E de como a vida a 26 se tornou infinitamente mais trepidante, mais bela, melhor apesar de tudo. Graças a um 25 inesquecível para quem o viveu.

      PS1 (a 25) – Estou a tornar-me repetitivo, eu sei.
      PS2 (a 26) – Cruzo este post com este outro que escreveu Luís Januário.

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        Dupla personalidade

        Não há muito mais para dizer sobre a posição frouxa do Sr. Silva durante a visita à Madeira. Onde, de sorriso nos lábios, contemporizou com o colérico soba local na desqualificação agressiva desse «bando de loucos» que tem a suprema ousadia de se opor à sua administração populista e prepotente. O Presidente Cavaco, aquele cavalheiro discreto, de atitude aparentemente equidistante, carnes secas e pose indulgente, que nos habituámos a ver à distância nos últimos tempos, voltou a recordar-nos o homem sisudo, inflexível, sem dúvidas ou enganos, que foi o primeiro chefe de governo da III República totalmente liberto da «mácula» de ter resistido ao regime que Abril fechou. O conformismo cultivado durante a juventude deixa sempre marcas para o resto da vida.

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          Originalidade regional

          A proposta de criminalização da toxicodependência na Madeira parece passar por ser mais uma originalidade regional ou uma daquelas brincadeiras de mau gosto de A. J. Jardim. Mas ela não pode tolerar um encolher de ombros idêntico àquele que tem caído sobre outras acções passadas e presentes do seu governo relacionadas com a saúde pública, como o retardamento em anos do uso obrigatório do cinto de segurança, a tentativa de camuflar alguns surtos epidémicos, a grave demora na entrada em vigor da lei sobre a interrupção voluntária da gravidez, ou a inexistência de um plano sistemático de combate ao alcoolismo na zona do país onde a sua incidência mais se faz sentir (e a campanha até poderia começar pela festança anual do Chão da Lagoa). Para além da favorecer os traficantes, a ser aplicada, justamente numa das regiões onde o flagelo da dependência da droga atinge das mais elevadas taxas de incidência, a medida configurará mesmo o crime de genocídio.

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            Gota de água

            Generación Y, o blogue havanês já aqui referenciado há meses atrás, é uma das publicações que acaba de receber o Prémio de Jornalismo Ortega y Gasset, atribuído por um júri nomeado pelo diário El País. O extraordinário, para além da capacidade de sobrevivência de um espaço de liberdade onde ela é geralmente cerceada – não sem que Yoani Sánchez, a sua autora, tenha deixado de ser submetida a intimidações -, é a sua forma luminosa e plena de esperança de lidar com um quotidiano desgastante e sem horizonte visível. E tão notável quanto o tom e a regularidade do trabalho desta valente blogger cubana é o calor combativo, e quase sempre sereno apesar de plural, partilhado pela maior parte das muitas pessoas que escrevem nas suas caixas de comentários. Um ponto a favor da causa da liberdade e da democracia em Cuba.

            Notável, no contexto, esta forma de Yoani se identificar publicamente.

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              Inquietante, (vírgula)

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              Afinal, os novos colegas da blogosfera ainda estão só a ocupar os seus lugares e irão por certo melhorar as suas prestações. Mas o nível do «português comercial» da generalidade dos posts já publicados pelos mais ou menos jovens vinte e seis deputados e duas deputadas que abriram o blogue Câmara de Comuns é um tanto inquietante. Será uma boa ajuda o uso dos correctores da ortografia e da sintaxe, pois estes costumam apanhar os erros, acertar vírgulas, moderar a dimensão dos parágrafos, captar a ausência de sujeito, ensinar os tempos verbais, conformar as concordâncias, rematar problemas avulsos. O dicionário de sinónimos também permitirá alargar um pouco a riqueza vocabular. As malformações do estilo, essas já serão mais difíceis de resolver. É preciso não esquecer que parte do melhor português escrito produzido no rectângulo passa pelos blogues, e por isso não convém baixar o nível dando um mau exemplo. Sobretudo vindo de quem vem.

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                Grita Liberdade

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                Os Repórteres Sem Fronteiras estão a organizar uma campanha destinada a mobilizar atletas, jornalistas, membros dos Comités Olímpicos e membros do público presentes nos Jogos no sentido destes usarem, durante a estadia em Pequim, um autocolante com a palavra «Liberdade» escrita em caracteres chineses.

                Entretanto a televisão local transmitiu em directo a chegada da chama olímpica, mas atrasou as imagens em alguns minutos para prevenir eventuais distúrbios. Ao mesmo tempo, todos os voluntários e jornalistas foram submetidos a revistas por parte das autoridades. Pela amostra, os agentes dos serviços de segurança chineses vão chegar ao final de Agosto completamente stressados.

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                  Provável excesso de chá

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                  Foi um oportuno post de Joana Lopes que me chamou a atenção para as declarações de Jorge Sampaio ao pasquim gratuito Sexta – por desinteresse passei a deitá-lo no lixo sem o abrir –, a propósito daquilo que este considera ser a instalação da ambiguidade na linha de separação que hoje possa ainda traçar-se entre o que é a esquerda e o que significa a direita. Segundo Sampaio, que enquanto PR nos atirou à cara ad nauseam com o seu passado de combatente pelas causas da liberdade e da justiça social (que apesar de todas as vicissitudes foram e são essencialmente património da esquerda), «não podemos ficar reféns de debates ideológicos» e o que conta nos tempos que correm é sobretudo uma aplicação de «políticas concretas e sustentáveis». Que não possuam cor, ou que desejavelmente a não tenham. Uma ideia estafada, com pelo menos duas décadas de eco, como se sabe. E potencialmente de direita. Mas que poderá ser considerada por alguns dos preclaros membros da Comissão Política Nacional dos socialistas, tendo em vista a próxima revisão do programa partidário. Se é que este ainda lhes merece um minuto de atenção.

                    Apontamentos, Atualidade

                    Foge!

                    Coimbra, duas da tarde. Na FNAC, à entrada da livraria, um par hetero vestindo o negro, vetusto, trajo académico. Ela, estacando num repente: «Olha, aqui são os livros. Foge!». Ele, claramente o cérebro da parceria: «Não deve de haver aqui nenhum que me interesse». Meia volta, volver.

                    Sei que de forma alguma representam o todo. Ou sequer a maioria. Porém, dados os números conhecidos dos índices de leitura que ocorrem entre os estudantes universitários da cidade, e o sistemático abaixamento dos critérios de exigência nas avaliações, existe uma forte probabilidade de serem dignos representantes da parte acima da média dos mapas bolonheses do aproveitamento escolar. Se disser que é preocupante estarei a ser suave na apreciação.

                      Apontamentos, Atualidade

                      Montparnasse deles

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                      Não li na devida altura (1985) Montparnasse, mon village, de Vasco de Castro. Sim, o Vasco cartoonista que fez outras coisas também. Tratava-se de um exercício de revisitação pela via da memória ao exílio parisiense vivido pelo autor entre 1961 e 1974. Há muito esgotado, o livro acaba de sair em edição revista e aumentada da Campo das Letras, com o título Montparnasse. Até ao esgotamento das horas. Bem sei que aquilo que está a dar é a bastardização de soixante-huitiards mais ou menos assumidos como Vasco e outros que tal (alguns deles, aliás, merecidamente execrados pela folclorização ou pela manipulação que fazem do seu próprio trajecto). Mas não deixa de se revelar empolgante para muitos dos putativos leitores o reconhecimento de uma experiência de elaboração romanesca, contada na primeira pessoa, da solidão, da penúria e do estado de revolta em cenários de invejável felicidade juvenil. Revigorará almas carentes de tal coisa, que as há, que as há. Outras lamentarão com uma furtiva lágrima a usura do tempo. Outras ainda encolherão os ombros e passarão à frente. C’est beau, la vie.
                      Voz de Jean Ferrat

                        Apontamentos, Memória

                        Votado e lavrado em acta

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                        O caso do docente de Braga, a quem terá sido dito que «um professor universitário não pode ser criativo nem humorista» e foi determinado que tivesse tento na língua, circula por aí, entalado entre jornais e monitores. Eduardo Pitta e Manuel António Pina dedicaram-lhe textos de sinal diverso. Muitos outros se lhes seguiram. Entretanto o móbil do «crime», o blogue do referido professor, de gosto duvidoso e humor que não fará propriamente rir multidões, não abona muito em favor do lançamento de uma efectiva vaga de indignação. Já um tal «Voto de Repúdio aprovado pelo Conselho do Departamento de Sociologia da Educação e Administração Educacional, em 27 de Fevereiro de 2008», no qual publicamente se declara que «o docente Daniel Luís é o único responsável pelo encerramento dos seus blogues, a que procedeu de livre vontade na sequência de um apelo do seu Departamento, votado e lavrado em acta», merece, pelo menos, a preocupação de qualquer cidadão capaz de reconhecer os valores essenciais do discernimento e da tolerância democrática. Seja ele universitário ou não. Tenha ou não sentido de humor.

                          Apontamentos, Opinião

                          Vento de leste

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                          Para nós, que vivemos neste «país de poetas» de fábula no qual os jornais de grande circulação – se é que tal existe por estes lados – deixaram de ter suplementos literários, não pode deixar de funcionar como um deprimente motivo de reflexão o facto de Babelia, o suplemento de sábado do vizinho El País, anunciar neste momento uma tiragem de 2.086.000 exemplares.

                            Apontamentos, Olhares

                            Da banalidade do perdão

                            Pedir perdão servirá de alguma coisa? Rebobinar o filme da história e reconhecer que os do nosso sangue erraram, ou agiram de uma forma medonha, só aos ignorantes e aos hipócritas pacificará as consciências. As crianças aborígenes das «gerações roubadas» jamais reaverão a infância que a natureza lhes havia destinado. Mas pede-se-lhes desculpa e pronto. E ponto. Como se pediu já, vezes sem conta, aos descendentes dos índios americanos contagiados e massacrados, dos judeus errantes reduzidos a cinzas ao longo de séculos, dos escravos que sobreviveram à medonha viagem transatlântica. Um dia pedi-la-emos também aos netos dos africanos que não morreram exaustos junto às margens das praias peninsulares. E, tolhidos pelo arrependimento, continuaremos distraídos perante o trabalho macabro que nunca pára. Lá longe, entre remotas gentes ou fora da nossa vista.

                              Apontamentos, Atualidade

                              A leste do faroeste

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                              Uma certeza podemos ter se, tal como se espera, os democratas ganharem desta vez a Casa Branca: desaparecerão dos nossos visores aquelas imagens regulares, invariavelmente grotescas, de um cow-boy, de botas texanas com apliques e pernas levemente arqueadas, que salta do Air Force One como se de um cavalo de rodeo se tratasse.

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                                Hesitações

                                Eu sei que a franqueza é irrelevante em política. E que uma personalidade hesitante não inspira a confiança da maioria dos eleitores. Votaríamos nós em Sócrates, José, se este nos confiasse as dúvidas que inevitavelmente terá sobre as suas sonoras certezas? Ou em Menezes, Luís, se ele nos falasse exaltado das dificuldades que teve em passar a perorar em público daquela forma tão acentuadamente melíflua? Poucos de nós votaríamos. Foi por isso mesmo que experimentei alguma simpatia pelo sr. Sarkozy – embora apenas alguma, e nada política, convém que se diga -, quando soube que este, dias antes do casamento privado com a cantora esguia, teria enviado à sua ex um SMS hesitante – «infantil», dizem os críticos – dizendo-lhe que «se voltares, anulo tudo.» Tipos que passam por jamais fazerem coisas destas é que me arrepiam.

                                P.S. – Dizem-me que afinal o tal SMS não seguiu. Porém, o que importa é o papel da insensatez, da insegurança, da intranquilidade em política. São elas que podem humanizar um pouco os predadores. Sem que estes deixem de o ser, obviamente.

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                                  Engarrafamento aéreo em Havana

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                                  Por estes lados a notícia não teve destaque, mas vale a pena referi-la. Durante uma sessão na Universidade de Ciências Informáticas, em Havana, destinada a preparar as «eleições» para a Assembleia Nacional cubana solicitando dos estudantes o «voto unido», Ricardo Alarcón, membro do Bureau Político do Partido Comunista, viu-se confrontado com perguntas inusitadas e incómodas por parte dos estudantes. Porque não se explica ao povo em que consistem determinados projectos e planos de âmbito nacional? Porque pode um ministro manter-se 20 anos num cargo ainda que a sua gestão tenha fracassado visivelmente? Porque se proíbe aos cubanos a abertura de contas de e-mail no Yahoo ou no Google? Porque não podem viajar para o estrangeiros ou hospedarem-se em hotéis nacionais? A atrapalhação de Alarcón foi de tal ordem que a esta última pergunta respondeu considerando que «se todos os 6.000 milhões de habitantes do mundo pudessem viajar para onde quisessem, o engarrafamento aéreo no planeta seria enorme». Mais do que o carácter patético desta resposta, e simples enunciação das perguntas anuncia conflitos latentes que já não é possível esconder.

                                  Antes que surjam as inevitáveis vozes que tentarão mostrar este episódio como prova da vitalidade democrática do regime castrista. Com um obrigado a João Tunes.

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                                    Higiene oral

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                                    Se tivesse a certeza de que o Senhor Director-Geral me leria, escrever-lhe-ia uma carta registada e com aviso de recepção. Nela apresentaria os meus melhores cumprimentos e mais três queixosos parágrafos.

                                    Protestaria no primeiro contra a inacção das autoridades diante do persistente hábito lusitano, digno de uma extra-europeia viela de casbah, de cuspir para o chão. Bem sei que os escarradores já não constam do inventário das repartições e que as novas gerações parecem salivar menos, mas consideraria inadmissíveis as imundas excepções com as quais nos cruzamos ainda com razoável frequência. Escreveria outro parágrafo sugerindo a criação de cursos de formação destinados a ensinar, àquelas pessoas que falam exalando nuvens de salpicos bocais, a forma de superarem esse asqueroso hábito. No último parágrafo, apresentaria uma queixa contra a falta de legislação capaz de controlar a prática rotineira – persistente até entre numerosos letrados – de folhear livros e jornais destinados ao público recorrendo à dose equilibrada de saliva que depositam laboriosamente no dedo médio de uma das mãos.

                                    Terminaria a carta com os meus cordiais votos (atrasados, embora sinceros) de um óptimo 2008. Inseriria a folha num envelope que, por fim, fecharia recorrendo à minha humedecida língua. E passaria depois pela estação de correios mais próxima.

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