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A espectacularização do banal

O regresso aos ecrãs da televisão do «caso Maddie», suscitado pelo arquivamento do inquérito que foi anunciado pela Procuradoria-Geral da República, trouxe também de volta às nossas casas um certo jornalismo de escoadouro – as cansativas reportagens realizadas em Inglaterra pela RTP1 constituem um deplorável exemplo – ocupado em provocar desconfianças, em suscitar animosidades, em exacerbar irrelevâncias e sobretudo em reanimar junto do espectador um interesse diluído pelo efeito de banalização que ele mesmo despoletou.

    Apontamentos, Atualidade

    Do widzenia, Prof. Geremek

    Recebo a notícia da morte acidental, aos 76 anos, de Bronislaw Geremek. Faço uma breve ronda por blogues e sites que referem o acontecimento e vejo que a generalidade dos obituários destaca, da sua quase sempre agitada vida, principalmente, ou exclusivamente, a actividade política. Desde os tempos de militante do PZPR Comunista, que abandonou por discordar invasão da Checoslováquia pelos tanques do Pacto de Varsóvia, até à intervenção directa no processo complexo de abertura e democratização da sociedade polaca iniciado em 1989 e ao combate europeísta. Todavia, para mim, de Geremek o que fica foram sobretudo umas quantas tardes de Inverno passadas numa biblioteca gelada e quase vazia, lendo e anotando alguns dos artigos fundadores que escreveu sobre os pobres e os marginais na Idade Média.  Foi um daqueles historiadores – e foram bem poucos, infelizmente – que me ensinou a necessidade, e a beleza, de procurar e de decifrar, por detrás dos gestos dos poderosos gravados na pedra e nos documentos oficiais, a voz dos silenciados, dos esquecidos e dos desalinhados. Por isso, que não é pouco, jamais o esquecerei.

      Apontamentos, História

      Apenas para dizer que sim

      Que concordo e simpatizo com aquilo que Luís Januário e João Tunes escreveram hoje, cada um no seu lugar, sobre Ingrid Betancourt – que parece agora ébria de liberdade, jet lag e miasmas de água-benta – e as suas circunstâncias. Pois não, o mundo não é apenas a duas cores, bons e maus, zig e zag, águias e chacais, glóbulos brancos e vermelhos. É muito, muito mais complexo.

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        Uma história muito antiga

        Miguel Portas não diz nada de singular na entrevista que concedeu à revista Visão desta semana. Mas certas vezes é isso mesmo que gostamos de ouvir: apenas o relembrar de temas que nos preocupam há muito mas que, sob o ruído dos nossos próprios passos, cansados pelas urgências que nos desviam do essencial, tendemos, se não a esquecer, pelo menos a colocar entre parêntesis. Gostei de o ouvir recordar que existe, no comunismo, «uma dimensão de crença que se mistura com esperança». E também de sublinhar a sua estrutura religiosa – no sentido mais completo que a expressão pode tomar, como adequação a um sistema relativamente fixo de pensamento, incorporando liturgias e tradições – que o relaciona, por vezes, com «uma estrutura hierárquica» e com um conjunto venerando «de ritos e práticas que consagram a própria doutrina». Gostei ainda de o ver rememorar a inevitabilidade da  tendência que esta assume para transformar «deuses pagãos em santos» e para ter os seus próprios sacerdotes. Mas também para se alinhar numa «história muito antiga de luta contra as injustiças» que, essa, é imortal. E que, enquanto tal, à margem dos oficiantes e dos fiéis que a todo o instante a desviam ou pervertem, sempre nos transcenderá. O que hoje pouco tem a ver com Marx, e menos ainda com Lenine ou os seus discípulos, que serão apenas marcos milenares, apenas notáveis acidentes de percurso.

          Apontamentos, Opinião

          Metropolis 210′

          Uma cópia em bom estado de conservação descoberta num arquivo cinematográfico de Buenos Aires permitiu agora recuperar a versão original de Metropolis, de Fritz Lang. Estreado em 1927, o filme viria a ser severamente mutilado pelos nazis e depois cortado também pela censura americana, vendo-se reduzido dos 210 minutos iniciais para os 114 minutos que a generalidade dos espectadores hoje conhece. Aguarda-se com expectativa que nos chegue a renovada versão dessa colossal ficção de uma cidade-metáfora sobre/sob a qual foi possível construir uma sociedade de trabalhadores sem rosto, convertidos em máquinas ao dispor de uma elite que se cria tão superior quanto imortal. Uma fábula ainda do nosso tempo.

            Apontamentos, Cinema

            Critérios de verdade

            Em declarações ao Expresso, a ministra da Educação negou querer governar para as estatísticas. Recusando as críticas de facilitismo vindas de quase todo o lado, afirmou até que «o ensino é hoje mais exigente». Entretanto, confrontada na RTP1 com uma subida média de 3,2 valores, em apenas um ano, nas notas de Matemática dos Exames Nacionais do Secundário, e ao contrário daquilo que foi até publicamente reconhecido por muitos alunos, negou que os critérios de avalição tivessem sido menos rigorosos. Espera-se agora que declare ser o Sol que gira à volta da Terra e não o contrário, como deslealmente insistem em afirmar determinados professores. Custa muito ver a mentira descarada e a mais rasteira demagogia – aparentemente acompanhadas de delírios persecutórios e de alucinações – a entrarem-nos casa dentro sem pedirem licença. É um mau exemplo para as crianças.

              Apontamentos, Atualidade

              Ingrid livre (epílogo)

              Já foi divulgada a posição do PCP. Faço inteiramente minhas estas palavras. Abjecto será também um bom qualificativo.

              PS – Esta posição é ainda mais explícita e sincera, como seria de esperar. Repare-se na nuance semântica: os prisioneiros das FARC não eram «detidos», mas sim «retidos». E a cidadã Ingrid apenas um vil «membro da classe dominante colombiana», que obviamente merecia a cela-modelo na qual teria estado «retida» sempre «em boa saúde».

                Apontamentos, Olhares

                Brincar à caridadezinha

                Manuela Ferreira Leite, muito bem entrevistada para a TVI por Constança Cunha e Sá, acaba, enrolada em constantes contradições, de declarar que a forma de resolver os «problemas económicos das famílias» é, no actual contexto de crise, apoiar – «mas jamais com subsídios, que isso fazem os socialistas» – a actividade das «instituições de solidariedade social». Calculo que se referisse às misericóridas, aos orfanatos, aos lares de idosos, às «obras das mães», à sopa dos pobres e aos alcoólicos anónimos. Se tais instituições se não apoiam com subsídios, calculo que apenas o possam ser com rifas, leilões e peditórios. Eis uma política social de rasgo.

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                  Se Habla/On parle English

                  Quando oiço um camionista francês a explicar aos jornalistas as razões da sua luta na língua de Elizabeth Alexandra Mary, ou quando vejo os espanhóis comemorarem a vitória no Euro-2008 com uma frase em inglês macarrónico gravada nas suas camisolas rojas («impossible is nothing»: leia-se impóssiblé ize nótin), apenas posso concluir que o futuro do mundo se encontra inapelavelmente naquele linguajar técnico que Rex Harrison ensinava com toda a paciência a Audrey Hepburn em My Fair Lady.

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                    Perfídia

                    Publicado originalmente em Os Livros Ardem Mal

                    Este título não me foi sugerido pelo bolero clássico de Alberto Dominguez, que todos em algum momento trauteámos ou ouvimos ao sintonizar uma rádio regional. A palavra avalia aqui o próprio post, como sinónimo de insídia ou de infâmia, e isto sabemos bem o que é: a sugestão de algo do qual suspeitamos, que aparentemente adivinhamos, mas do qual falamos de um modo impressivo e sem qualquer espécie de prova.

                    De cada vez que entro numa livraria encontro mais e mais ficção em português, quase toda ela próxima do romance histórico ou contendo uma óbvia componente autobiográfica. Transbordam os escaparates-placard, as estantes já não chegam, rimas de volumes por debaixo das mesas, os empregados incapazes de memorizarem títulos que identificam, quanto muito, pelas capas coloridas. Independentemente da medida da originalidade ou dos atributos literários – que diferem bastante mas podemos situar numa faixa média-baixa, próxima dos gostos da nova camada de viciados em literatura de hipermercado – aquilo que mais surpreende não é o número assombroso dos títulos, mas sim o dos autores. Ainda que muitos deles o sejam de um livro só. Mais estranho ainda é que a maioria seja gente crescida, em regra com uma vida já razoavelmente larga, mas que antes daquele título não publicou o quer que seja, e seja em que género for, com um mínimo de relevo e de consistência. Pelo menos algo que não seja uma edição de autor para oferecer à madrinha e impingir aos amigos, e possa constar das bases de dados das bibliotecas. Uma dúvida que me parece legítima perante tal acesso de súbita criatividade em tanta gente ao mesmo tempo, é a seguinte: não estará a profissão de ghostwriter em fulgurante ascensão entre nós? Outra dúvida é: não terá aumentado o número de editoras que publica livros com um financiamento muito substancial da parte dos próprios autores?

                    Apenas perfídia. Peço desculpa, com licença e obrigado.

                     

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                      Ourivesaria

                      Este post não é sobre futebol, mas sim sobre ourivesaria (e alguma argentaria também). Duas Taças dos Campeões Europeus ganhas pelo Benfica, a primeira e a última das Taças de Portugal que o clube conquistou, a Taça Latina, dois troféus relativos a Campeonatos Nacionais, camisolas utilizadas por antigas glórias do clube e uma das botas de ouro do Eusébio estão há quase um mês retidos na alfândega do aeroporto de Luanda. Não é que seja legítimo desconfiar de alguém que more nas imediações do Futungo de Belas – uma ideia absurda, sem dúvida –, mas é compreensível a ansiedade dessa nação benfiquista que aguarda o retorno dos sacros objectos à sua Caaba.

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                        Moralidades

                        Normalmente não escrevo posts a dizerem apenas «subscrevo», «aplaudo», «nem mais», «isso mesmo», «força, força, companheira», «estou contigo» ou algo do género. Isso escrevo eu nos mails privados para os amigos, se for o caso. Mas como acho que existem pequenos detalhes na vida que são o mais importante de tudo – muito mais que os cartões de visita ou os currículos de cada um –, apetece-me chamar a atenção para este post da Maria João Pires (não é essa, não, é a outra).

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                          Polaroid (Printed in China)

                          Apesar da tradição bem conhecida que foi capaz de construir ao longo dos 25 anos de vida como editora, a Taschen não deixa de surpreender pela crescente qualidade das suas produções, pela capacidade para oferecer a um público não especializado álbuns sempre inesperados, e pelo preço a que consegue colocá-los nas livrarias. Comprei hoje um magnífico The Polaroid Book saído já em 2008. Soube-me bem desembolsar apenas 8 euros por uma edição belíssima e quase luxuosa de 350 páginas, mas, sem exageros ou duplicidade, custou-me encontrar na última página a declaração Printed in China e procurar imaginar as longas horas de trabalho duro e mal pago, as mãos gretadas e as estantes provavelmente vazias, dos operários que a produziram. O prazer, acreditem, diminuiu um pouco. Porém, e como toda a gente, em breve esquecerei o detalhe e continuarei a ampliar a biblioteca com livros a baixo preço.

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                            Pacatos e ordeiros

                            Pertenço a uma das várias gerações que viveu a infância atormentada por dois demónios. Um era o bicho-papão, essa espécie de monstro barrigudo e de voz cava que se passeava pelos telhados e perseguia os meninos que não comiam a sopa toda. O outro era o polícia-mau, designação que sempre achei redundante antes de saber que coisa é uma redundância, uma vez que no meu universo visível não existiam polícias-bons. Por isso ainda hoje, apesar de todas as operações de cosmética, dos agentes bronzeados e com patilhas recortadas, das agentes perfumadas e com pequenas tatuagens – ou talvez um piercingzinho sabe-se lá onde -, de todo o simpático arsenal de «por-favores» e de «com-licenças» que as forças da ordem utilizam para com a maioria dos cidadãos, há uma sineta que vibra em mim sempre que contacto um polícia. Talvez seja o meu anjo da guarda libertário que não dorme e me sussurra que devo suspeitar de qualquer uniforme engomado ou de um cassetete à cintura. Por isso achei hoje um pouco suspeita a conversa de um polícia suíço que falava à televisão portuguesa do carácter très, très, très «pacato e ordeiro» dos emigrantes que andam pelas ruas de Genève e de Neuchâtel a gritarem vivas à selecção. Conhecendo alguns dos comportamentos de muitos dos nossos emigrados nos países de acolhimento, sobretudo na Europa, parecem-me elogios a mais e fazem-me evocar o medo atávico do polícia no qual, tal como eu, muitos deles foram criados. Que gritem todos os vivas e cantem A Portuguesa as vezes que quiserem, que toquem buzinas e se maquilhem a verde-vermelho, mas que depois, passado o Euro-2008, não regressem à vil obscuridade e à dimensão «pacata e ordeira» de quem não faz valer no quotidiano os seus direitos sociais e políticos. Um desejo que é uma quimera, bem sei. Mas não custa nada lembrar-nos de que podemos concebê-lo.

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                              Da vida de Kristine

                              Christine Granville, a mulher que mais tempo serviu no SOE – o Special Operations Executive criado por Winston Churchill em 1940 – e que terá sido também agente da espionagem polaca, foi de facto a condessa Kristine Skarbeck e levou uma vida muito pouco vulgar. A sua actividade de infiltração começou logo após a invasão da Polónia. Depois do recrutamento em Londres, saltou por numerosas vezes de pára-quedas sobre território ocupado pelos nazis, atravessou de esqui os montes Tatra para entrar clandestinamente no seu país, organizou grupos de resistência urbana e combateu com comprovada coragem no maquis. Enganou por diversas ocasiões a Gestapo, conseguindo salvar de uma morte certa alguns companheiros detidos pelos alemães e evadindo-se da prisão pelo menos por duas vezes. Ironicamente, viria a ser assassinada em 1954 por motivos passionais. Os seus traços e façanhas terão inspirado Vesper Lynd, personagem de Ian Fleming que surge em Casino Royale (1953), a sua primeira Bond novel, mas uma vez mais a ficção ficou muito aquém da realidade.

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                                Gasolina (um post banal)

                                Pelo sim pelo não, e após ouvir alguns rumores na sala de espera do dentista sobre as consequências da paralisação dos camionistas, desta vez não deixei a gasolina chegar à reserva e fui encher o depósito do carro. Na estação de serviço habitual, onde ao final da manhã costumo entrar directamente, esperei agora cerca de vinte minutos numa das várias filas. Notei algum nervosismo no ar: indignação pela subida imparável dos preços dos combustíveis, comentários entre dentes que falavam do petróleo de Cabinda, de árabes e de impostos, um temor visível diante da simples possibilidade de se ficar com o automóvel parado. Reparei que era este e não o Europeu de futebol o tema de todas as conversas, o que me pareceu particularmente preocupante e muito pouco patriótico.

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                                  A rua

                                  Por muitas conjecturas que se possam fazer a propósito dos processos de mobilização ou acerca da polémica em torno das palavras de ordem (calcule-se lá por causa de quem eclodiu ela…), uma manifestação com esta que hoje juntou em Lisboa bem mais de 200.000 pessoas, na rua contra a proposta de revisão do Código do Trabalho, é um poderoso sinal de protesto e deveria representar um alerta para o governo. Por muito menos que isto se estatelou o primeiro-minstro Cavaco no seu segundo mandato. Estão à espera de quê os nossos socialistas de gabinete para saírem dos casulos climatizados e experimentarem um pouco de realidade?

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