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A flor na lapela

Manuel Alegre

Assistimos na noite passada, à hora de jantar e praticamente em directo, ao fim da carreira de Manuel Alegre. À morte política, em vida, de uma dos últimos protagonistas da fase construção do nosso Estado democrático. A anunciada automarginalização dentro do Partido Socialista é, naturalmente, uma escolha dele. É lícita e será até compreensível. Se fosse alguns anos mais novo talvez tentasse ainda uma outra saída, mostrasse um outro arrojo, mas é provável que agora não se sinta já com força e ânimo para recomeçar do zero com base num projecto cheio de intenções tão boas quanto vagas. Para mais, um projecto politicamente inócuo que deveria obrigatoriamente transportar às costas. Mas já me parece de uma inocência inaceitável, revelada por diversos comentadores políticos – e, eventualmente, partilhada pelos próprio Alegre e por muitos dos seus apoiantes -, que se pense sequer na possibilidade real de o vermos transformado numa espécie de «reserva moral» para nas próximas eleições presidenciais derrotar o candidato da direita.

Quem está atento a tudo aquilo que dentro do PS se tem escrito, dito e feito para isolar e contrariar Alegre e os seus próximos, sabe que a esmagadora maioria do aparelho partidário, aquela que já se formou numa intervenção política meramente pragmática e pós-ideológica, é visceralmente «alegrofóbica» e tudo fará para frustrar essa possibilidade. Alegre não deverá ser candidato presidencial pelo PS, mas, se por um conjunto de circunstâncias muito especiais o vier a ser, estará derrotado à partida pela aversão e pelo demissionismo das estruturas formais dos próprios socialistas. Quanto à ideia de meter três ou quatro simpáticos alegristas no Parlamento, a concretizar-se ela constitui, evidentemente, um bombom oferecido por Sócrates para acalmar as hostes do MIC e conter a deslocação de uma parte do seu eleitorado natural para o score do Bloco de Esquerda ou para a abstenção. Uma flor na lapela do cinzento casaco socialista, nada mais.

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    «Foleiros & doutores»

    Já antes falei por aqui – e muitas vezes noutros lugares – do espectáculo lamentável em que se transformou, após a sua gradual «ressureição» na década de 1980, a vivência das praxes e de certos momentos das chamadas festas académicas. Não pelos elementos lúdicos e festivos que podem conter, aceitáveis apesar de tantas vezes discutíveis, mas pelos actos de violência que frequentemente comportam, pelos atentados à liberdade individual que certas vezes configuram, pelo conteúdos aviltantes, sexistas e mesmo boçais que quase sempre integram (embora uma boa parte dos eufóricos participantes, e até alguns dos seus orgulhosos paizinhos, não saibam sequer identificar para o que apontam tais adjectivos). Nas actuais condições, que reajustaram completamente o lugar social do estudante universitário, a tudo isto pode somar-se a ostentação de um «elitismo» anacrónico. Desta vez, para não me repetir, tinha escolhido não falar do assunto, mas uma crónica que Manuel António Pina acaba de publicar no Jornal de Notícias fez-me mudar de ideias. Como infelizmente os textos do JN depressa desaparecem da edição em linha, transcrevo-a numa página interior. Fica aqui.

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      Poética dos escaparates

      Escaparate

      É este o título da crónica de Antonio Muñoz Molina transportada no Babelia desta semana. Nela se aborda o panorama devastador, para quem ama os livros e gosta de flanar pelas livrarias, observado em cada aproximação a um desses coloridos e iluminados, frios e inóspitos, espaços-depósito que as grandes cadeias distribuem hoje pelas cidades. O texto de Molina pode ser lido aqui na íntegra, e dele se copia um fragmento.

      No hay amor a los libros, no hay una inteligencia detrás de su disposición: tan sólo un amontonamiento desganado de los dos o tres éxitos masivos de la temporada, apilados como mercancías al por mayor, si acaso en compañía de algún cartel promocional. Nadie va a descubrir nada ni a llevarse ninguna sorpresa mirando ese escaparate: parece que se aspira a ofrecer un producto de venta tan garantizada como la hamburguesa de un McDonald’s. Claro que un libro, entre otras cosas, también es una mercancía, y que un librero es un comerciante honorable que aspira, como todo el mundo, a ganarse la vida con su trabajo, y a que éste sea, a ser posible, como quería Juan Ramón Jiménez, un trabajo gustoso. Pero en esos escaparates se ve que no ha existido ni trabajo gustoso ni amor por los libros, ni siquiera la sensibilidad plástica que hace tan atractivas las caminatas por la ciudad.

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        Dois apontamentos sobre cartazes

        Propaganda

        1. Um passeio neste feriado fez-me passar diversas vezes pelos enormes cartazes de Vital Moreira e de Manuela Ferreira Leite com os quais os maiores partidos nacionais têm vindo a desfear as rotundas de vilas e cidades, não perdendo uma oportunidade para acabrunharem ainda mais os portugueses. Sem impacto político real ou aptidão para evocarem propostas. A frase «Nós, Europeus» colada ao candidato Moreira, por exemplo, é em 2009, no mínimo, um sinal patético de falta de imaginação e indigência política, reminiscência de um «A Europa Connosco» com mais de trinta anos. Os cartazes do PS e do PSD são péssimos, horríveis, representando de forma caricata ou soturna as figuras que nos pretendem propor, incapazes de transmitirem ao cidadão comum uma impressão de calor ou de proximidade. Chego depois a casa e observo imagens dos cartazes da Esquerda Verde, segunda classificada nas eleições que decorreram na Islândia. Percebo ali uma outra cultura política, um outro cuidado com uma abordagem visual, assumidamente estetizada e menos poluente, com capacidade simpática, das pessoas que andam pelas ruas e as observam.

        2. Desde o episódio do «porreiro, pá» entre Sócrates e Barroso que me incomoda o uso da frase casual, de alguma forma íntima e apenas revelada por um microfone inadvertidamente ligado, como instrumento de arremesso contra ambos. Independentemente das considerações que se podem fazer sobre as atitudes políticas de um e do outro, esse momento cristalizou, aos meus olhos – e provavelmente aos olhos de muitas pessoas – um grau de humanização e de informalização do relacionamento interpessoal que é uma conquista de Abril e que, na sua dimensão democrática, realmente me agrada. Sem exagero. Não posso, por isso, deixar de lamentar a utilização daquela frase pelo Bloco de Esquerda, em outdoors de pré-campanha, como arma de arremesso. E tenho a certeza de que a «mensagem» resulta absolutamente ineficaz, se não mesmo contraproducente em termos de comunicação pública. A construção de uma cidadania mais perfeita não passa, ou não deve passar, pelo achincalhamento pessoal de quem quer que seja. É feio e não vale.

          Apontamentos, Atualidade, Olhares

          Palavras públicas (sobre o Twitter)

          Notificador

          Ando há dias a congeminar este post. A medir o que nele poderia dizer sem passar por inimigo das redes sociais na Internet, ou fazer figura de antipático aos olhos de pessoas que irão pensar que me estou a referir a elas. Acabei por ser impelido a escrevê-lo por um pequeno apontamento, para a qual me chamaram a atenção, e no qual se equipara ao Twitter uma geringonça, instalada no ano de 1935 em ruas, lojas, estações de comboio e outros locais públicos da cidade de Londres. O Notificador – assim se chamava o aparelhómetro – permitia que o utilizador deixasse pequenas mensagens, escritas em papelinhos, as quais funcionavam como recados destinados a determinadas pessoas. A ideia, aparentemente simples, parecia boa e útil, sendo estranho que não tivesse pegado.

          Ela dependia, porém, de uma certa capacidade de permanência dos referidos papelinhos, pois estes deveriam manter-se visíveis durante pelo menos 2 horas. Ora é justamente aqui que falha a comparação com o Twitter. O defeito poderá ser meu, mas desde que por ali comecei a ter bastantes friends que escrevem 100, 150, 200 mensagens diárias, a interactividade tornou-se quase impossível, uma vez que essa cortina de recados impede uma leitura adequada – por vezes, ao fim de 5 ou 6 minutos as nossas mensagens foram já afogadas por largas dezenas de outras – e quase inviabiliza uma verdadeira conversa. A não ser que as pessoas envolvidas estejam durante horas com boa parte da sua atenção virada para esta actividade.

          Vejo o Twitter como uma coisa divertida e certas vezes bastante útil, mas que se pode tornar maçadora para quem está absorvido noutras tarefas e, logo que se liga, vê a mesma pessoa, a mesma cara, a surgir no ecrã em cascata. Durante tanto tempo diário que, certas vezes, nos questionamos sobre a forma como essas pessoas encontrarão lugar para lerem os artigos e os livros que recomendam, para verem os filmes e programas de televisão que sugerem, para viverem a vida «lá fora» da qual falam. Julgo, sinceramente, que deveria existir uma espécie de twittiquette. Uma boa regra, provavelmente a única, consistiria então em que ninguém pudesse enviar mais do que 10 mensagens por hora. Mesmo assim os viciados ainda poderiam enviar mais de 200 por dia, mas dariam tempo aos outros para respirarem e deixarem os seus próprios recados, informações ou fugazes tonterias. Admito, no entanto, que não tenha percebido muito bem a lógica da coisa e possa andar a marinar num erro qualquer.

            Apontamentos, Cibercultura, Memória, Olhares, Opinião

            Coimbra’69

            Coimbra'69

            17 de Abril. A maioria dos cidadãos que conservam reminiscências da Coimbra dos idos de sessenta – do meio pequeno, professoral, santacombadense, mas também universal, quimérico e inquieto – conhece aquilo que a data significa. As prestimosas autoridades locais, essas dormem na ignorância de uma parte da memória viva da cidade que vão gerindo. Por vezes na cumplicidade ao retardador com o lado mau do filme. Dia da audácia de uns quantos, das oportunidades conquistadas, do mito que enuncia parte da verdade e inventa e reinventa a outra. Primeiro dia do resto da vida da cidade salazarenta que um dia há-de morrer.

            Seguir o testemunho ocular do Marcelo Correia Ribeiro, a visão de retrovisor do Miguel Cardina e o olhar de viés do Luís Januário.

              Apontamentos, Cidades, Coimbra, História, Memória

              Contem-nos coisas de Cuba

              Cuba Libre

              É bem triste «La Revolución» não aguentar palavras que apenas irradiam uma perspectiva do mundo diferente da arremessada pelos artigos hiper-saudosistas, caluniosos ou ameaçadores do Granma e do Juventud Rebelde. O cerco americano a Cuba, que Obama começa agora gradualmente a levantar, sempre me pareceu uma medida injusta e desnecessária, resultado de uma política externa míope e influenciada pelos «gusanos» um tanto ressabiados de Miami, mas o cerco interno, praticado na ilha, à liberdade de opinião de quem é visivelmente desalinhado do discurso oficial, não é menos injusto e injustificado. Para além de um tanto paranóico. Que a havanesa Yoani Sánchez tenha de publicar o seu primeiro livro de crónicas em Itália é um sinal desse desajustamento.

              Es abril y no hay mucho que hacer, solo mirar desde el balcón y confirmar que todo sigue como en marzo o en febrero. La Plaza de la Revolución -un pirulí truncado que asustaría a cualquier niño- domina los bloques de concreto de mi barrio. Frente a mí, dieciocho pisos de hormigón llevan el cartel de Ministerio de la Agricultura. Su tamaño es inversamente proporcional a la productividad de la tierra, así que me dedico a mirar con mi catalejo las oficinas vacías y sus ventanas rotas. Vivir en esta zona “ministerial” me permite interrogar los altos edificios desde los que salen las directivas y resoluciones para todo el país. Manías de orientar el lente y pensar “ellos me observan, pues yo también los observo a ellos”. De esas inspecciones con mi telescopio azul he sacado bien poco, la verdad, pero una impresión de inercia traspasa el cristal y se cuela a través del hormigón de mi edificio modelo yugoslavo.

                Apontamentos, Atualidade, Opinião, Recortes

                Extravagância

                Mais um recorte neste domingo de Páscoa, para mim de trabalho. «Antigamente, a Igreja julgava saber o que era necessário à nossa alma, com os resultados que se conhecem. O Estado e a medicina julgam hoje saber o que é necessário ao nosso conforto e felicidade física, com resultados cada vez mais intoleráveis.» As palavras são de Vasco Pulido Valente. Em dia-sim na crónica dominical do Público.

                  Apontamentos, Recortes

                  De fato

                  De fato

                  Na Loja do Cidadão, proclamada «de segunda geração», inaugurada em Faro no passado dia 3 com a presença do primeiro-ministro, as funcionárias estão proibidas de usarem em serviço blusas com decote, saias curtíssimas, vestuário de ganga, perfumes com uma fragrância agressiva, roupa interior preta, saltos altos e, claro, sapatilhas. Calculo que aos funcionários sejam prescritas também algumas normas, relacionadas com o tom da gravata, a sobriedade das peúgas, o risco ao lado no penteado e o uso obrigatório de pochette. E se o não são, deveriam sê-lo. Por motivos de «postura pessoal», seguindo o raciocínio avícola de uma tal D. Maria Pulquéria. O provincianismo corresponde sempre, por definição, a uma forma excessivamente mesquinha e tristonha de estar no mundo. Piora bastante quando se encontra associado a um bocadinho pequenino e bem guardadinho de autoridadezinha.

                  Adenda – Uma coisa vale a pena dizer ao ouvido de quem considere este episódio irrelevante ao ponto de não se justificar sequer que seja notícia: são gestos destes que nos lembram o que foi o «salazarismo real» e o que ele fez – e continua a fazer – às cabeças das pessoas. Muito mais grave e profundo do que os lances fugazes do caso Freeport.

                  A leitura de alguns blogues que abordaram o assunto trouxe também mais duas nuances. Uma refere-se ao sexismo boçal das considerações supostamente engraçadas sobre «os direitos dos utentes». A outra é o fétiche dos parvenus a respeito daquilo que insistem em chamar de «dress code». Que nada tem a ver com normas básicas de asseio e civismo, obviamente admissíveis e até desejáveis.

                  (Dizem-me que entretanto o pormenor da roupa interior preta foi desmentido. Muito bem, mas essa era a parte cómica. O resto fica tudo na mesma. Isto é, mal.)

                    Apontamentos, Cidades, Olhares

                    Alegadamente à esquerda

                    No telejornal da RTP, uma peça jornalística refere o papel do coronel Jaime Neves durante o biénio revolucionário pós-Abril – o ex-comando está na calha para ser «canonizado» como major-general, sendo esse o sentido da peça – como o de alguém «que se confrontou então com militares alegadamente mais à esquerda». Utilizando a expressão que habitualmente associa a presunção de inocência ao criminoso em vias de ser julgado. Mais um sinal de tontice e de ausência de perspectiva histórica do tamanho de uma viatura Chaimite. Existem livros de todos os tamanhos sobre os episódios desse «então» e alguns até são daqueles fininhos e com muitas imagens. Ninguém os avisou?

                      Apontamentos, Memória

                      Os ricos que paguem a crise

                      Capitalismo

                      O PCP pretende que a Assembleia da República produza um quadro legislativo capaz de permitir a «criminalização do enriquecimento ilícito». Já em tempos o tentou sem sucesso, mas considera agora, «tendo em conta que a evolução e a própria vida», que existem condições para que a proposta seja aprovada. Não estou em condições de comentar a substância jurídica desta iniciativa, mas de uma coisa estou certo: naquilo a que chamamos um estado de direito ninguém pode ser julgado duas vezes, e duas vezes condenado, pelo mesmo crime. Se o enriquecimento é ilícito, existiu antes dele um acto, ou existiram diversos actos, provavelmente conjugados, que determinaram essa ilicitude. Os quais deverão, sem qualquer dúvida, ser investigados, julgados e punidos de uma forma rápida, eficaz e exemplar. Am I wrong? É que de outra forma poderemos antecipar a culpa e retornar aos tempos – por certo saudosos para os presumíveis proponentes – da abjecção proudhoniana da propriedade, da punição dos kulaks pelo facto de o serem ou da criminalização discricionária dos «sinais exteriores de riqueza».

                      Adenda: No seu estilo próprio, sempre com algo de agreste que o distingue dos outros e lhe confere um sal que aprecio, Nuno Ramos de Almeida comenta este post apodando de «santa ignorância» a ausência de perspectiva que, na sua opinião, o terá determinado. Não vou contrariar o juízo, obviamente, até porque nem o Nuno sabe aquilo que eu sei nem eu domino tudo aquilo que ele conhece, mas de uma coisa pode estar certo: tenho os olhos suficientemente abertos, e experiência que baste, para distinguir a declaração de necessidade de legislação própria e ágil contra os crimes «de colarinho branco» – com a qual essencialmente concordo – da vontade indómita, presente em certos discursos, de mandar toda a gente com mais de cinco zeros no saldo bancário para as galés. É esta, pelos perigos que comporta, que me repugna. Quanto ao epíteto de «anti-comunismo» lançado sobre a intenção, talvez seja um bocadito exagerado: pelo menos tanto quanto o anátema de «anti-socialismo» lançado sobre quem apenas não aprecie José Sócrates e os seus queridos muchachos.

                        Apontamentos, Atualidade

                        E-people

                        Teach them

                        A informação chega-me através de um artigo de Miguel Gaspar: o governo britânico está a estudar uma reforma do ensino básico que pretende destacar a aprendizagem das novas tecnologias, em especial a das redes sociais da Internet, em detrimento dos saberes considerados convencionais. Não tenho nada contra a divulgação alargada e sistemática destes processos – que uso diariamente, intensamente, produtivamente muitas vezes, e que recomendo –, mas tenho tudo contra a desqualificação do conhecimento estruturante em favor de uma deriva comunicacional apresentada como valendo por si mesma. O problema, julgo, advém em larga medida do facto dos centros de decisão política – leia-se: os partidos institucionais – estarem cada vez mais nas mãos de gente «especialista» em conhecimento funcional, que cresceu politicamente na gestão do imediato, e que descarta, como anticorpos, aqueles que pensam para além do momento. Daí também a desvalorização sistemática das humanidades e da reflexão crítica que estas oferecem. Temas aos quais regressar aqui com mais tempo e um outro cuidado.

                          Apontamentos, Cibercultura, Democracia

                          Coimbra radical

                          Só Deus sabe como aprecio durante 60 minutos em cada ano a música do Conjunto Diapasão (em particular a voz de veludo martelado do vocalista Marante), como abomino música sertaneja (os empregados do Gauchão também conhecem este ódio pessoal) e como experimento sentimentos assassinos quando sou forçado a ouvir a vozearia ululante acompanhada de ferrinhos e acordeão que o Estado Novo nos doou como «folclore do bom». Mas ouvir tudo isso em sistema random, a partir de colunas potentíssimas e mais altas que o Pau Gasol instaladas no hipocentro da universidade mais antiga do país, ao mesmo tempo me esforço até ao limite por conseguir dar uma aula debaixo de tal barragem de som, é experiência que tem qualquer coisa de transcendental. Aconteceu ontem à tarde e acabei a aula a falar da grande Maria do Carmo Miranda da Cunha, mais conhecida como Carmen Miranda.

                            Apontamentos, Coimbra, Devaneios

                            O enigma do monóculo

                            Spínola na Guiné

                            Lendo o fascículo de hoje de «As Grandes Operações da Guerra Colonial», saído com mais um volume da colecção Os Anos da Guerra Colonial que o Correio da Manhã está a publicar (e que pode ser adquirido sem o jornal), resolvo um enigma que me acompanha desde os anos de vida de caserna. Qualquer coisa que intrigava um grande número de militares nos anos da guerra e nos primeiros tempos da democracia e os trazia em suspenso: serviria ou não o monóculo de António de Spínola para corrigir a visão do olho direito? A solução é oferecida pelo testemunho de um ex-furriel que em 1962 transportou de Lisboa para Bissau uma pequena caixa de madeira destinada ao então Coronel de Cavalaria, diante da qual foi incapaz de resistir à tentação de espreitar aquilo que ela trazia lá dentro: uma colecção de seis reluzentes monóculos sem qualquer graduação.

                              Apontamentos, Memória

                              João Mesquita

                              João Mesquita

                              Há meses que o não via e não sabia que estava doente. Muito doente, por sinal. Estava prevista uma conversa por um destes dias por causa de um artigo a sair na Rua Larga e contava telefonar-lhe durante esta semana para acertarmos pormenores. Soube agora, há uma hora e picos atrás, por uma mensagem de e-mail, que o João Mesquita morreu hoje de manhã. Com ele foi-se também uma pessoa generosa, afável sem servilismo, e um dos já raros combatentes de um jornalismo intransigente e de causas. De esquerda, sim. Vai fazer cá muita falta o João.

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                                Haruki vezes dois

                                Durante um jogo da Liga portuguesa, dizia há dias um comentador referindo-se a dois futebolistas brasileiros: «eles entendem-se pois falam ambos brasileiro». A língua é uma, embora não una, e a rapidez da compreensão nem sempre é fácil sem retroversão automática e gestos à mistura. Dentro do Brasil, dentro de Portugal, ou num voo que desça o mapa na direcção do Atlântico Sul. E tudo se enreda quando, com a língua que repartimos, cada um se refere à mesma coisa enunciando palavras que não coincidem. Leio de maneira diversa, consoante traduzo ou não a tradução de um título que a frase incorpora, duas linhas de Rakushisha, o último romance de Adriana Lisboa: «Um dos filmes era O Poderoso Chefão. Haruki começou a assistir, era a quarta ou quinta vez que assistia àquele filme.» Ou, ajusto eu as palavras, desfigurando a autoria: «Um dos filmes era O Padrinho. Haruki começou a assistir, era a quarta ou quinta vez que assistia àquele filme.» Não se trata apenas de duas frases brandamente diferentes, são duas distintas Haruki que se nos afiguram, dois sentidos para o enredo que se separam. Desentendemo-nos por vezes, falando em português.

                                  Apontamentos, Cinema

                                  ♪ Angels of Ashes

                                  Scott Walker

                                  Fim de tarde com a chuva que regressa com o fim de Fevereiro. Agora sem televisão e sem notícias, sem ruído, sem murmúrio que não o de um velho álbum, 4, de Scott Walker. Quase uma cantiga de embalar, nua mas enfática. «The Angels of Ashes/will give back your passions/Again and again…huumm/Their light shafts/will reach through the darkness/and touch you my friend…huumm huumm». Scott tónico, vintage de 1969.

                                  [audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/02/04-scott-walker-04-angels-of-ashes.mp3]
                                    Apontamentos, Música

                                    Rong e Silva juntos e ao vivo

                                    China 2009

                                    De acordo com a Lusa, um responsável do sector intelectual do Partido Comunista Chinês, Leng Rong, chefia a delegação da China ao congresso do PS português. Rong, de 56 anos, é membro suplente do Comité Central do PCC, vice-secretário da organização comunista no seio da Academia Chinesa de Ciências Sociais e director do Centro de Investigação Histórica do Partido. Augusto Santos Silva tem pois um interlocutor de gabarito e à sua altura.

                                      Apontamentos, Atualidade