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O PSD visto do meu sofá

Em ambas as sedes de candidatura o bar tem um lugar destacado. Passam muitos militantes a mastigar frutos secos e a beberricar qualquer coisa com umas pedras de gelo lá dentro, o que lhes dá um certo ar de profissionais de seguros em intervalo de acção de formação.

Será bom para Marques Mendes ter perdido. Parecia mais capaz, e mesmo mais feliz, quando passava mais tempo em Fafe e não precisava de se pôr todos os dias em bicos de pés. Embora ao lado de Carlos Coelho e de Macário Correia até se assemelhe a um «Grande Português».

Acho Ângelo Correia uma figura simpática. Talvez seja por ele não se importar de se meter ao barulho. Ou por parecer aquele tio que nunca tivemos mas imaginamos a almoçar com um guardanapo à volta do pescoço e a contar anedotas cheias de subentendidos. Ou por dizer quase sempre, com um ar sábio, a primeira coisa que lhe vem à cabeça.

Quando Menezes entrou no salão de hotel para fazer o seu discurso de vitória, numa das paredes um enorme ecrã de plasma continuava a projectar primeiros planos de José Mourinho. Parece perseguição, mas sabe-se lá se será premonição.

Apreciei as toilettes das senhoras. E mais ainda os respectivos penteados. Mas já não percebo porque razão os homens militantes copiam os da geração anterior e não cuidam um bocadinho mais do aspecto, não se mostram mais frescos e modernos. Como José Sócrates, por exemplo.

As duas partes foram falando, sem ponta de ironia como lhes competia, de um confronto «vivo», «franco», «aberto», «civilizado». Não é possível imaginar aquilo que teriam dito se assim tivesse de facto acontecido.

E amanhã será outro dia.

    Atualidade, Devaneios

    Psiu!

    Uma certa boa consciência «democrática», que a todo o momento faz a contabilidade dos longos anos de combate à ditadura dispendidos pelos seus antepassados, quase ignora aquilo que está neste momento a passar-se na Birmânia. Para ela, quando se combate uma ditadura, é preciso saber-se primeiro se essa ditadura é «boa» ou «má». Em caso de dúvida, joga-se pelo seguro e não se abre a boca. Até pode ser que ela não seja tão «má» quanto dizem. Ou que a democracia que se segue seja muito «pior». A coerência e a honestidade, para quem insiste neste tipo de atitude, jamais serão valores absolutos.

      Atualidade, Opinião

      Garganta Funda

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      O WikiLeaks, «a place for journalists, truth tellers and everybody else; global defense of sources and press freedoms, circa now» é um serviço em linha tem já mais de um milhão de documentos disponíveis. Ele simplifica a experiência da denúncia, mas também da delação, tornando-as fáceis, seguras e possíveis numa escala planetária. Uma espécie de «Wikipedia para fugas de informação não-detectáveis». Conseguiu um documento que compromete alguém de quem não gosta, mas esse alguém tem muito poder? Acha que certa pessoa anda a apoderar-se de dinheiros públicos e tem provas disso, mas receia que ela descubra que foi você quem a denunciou? Conhece um político corrupto, tem informações que o podem desmascarar, mas não quer enfrentar um processo complicado que pode afectar a sua vida? Nada mais simples: mostra tudo aquilo que sabe e pode documentar no WikiLeaks e jamais alguém conseguirá saber que foi você quem deu com a língua nos dentes. Um instrumento assustador, com resultados práticos ainda imprevisíveis, que pode transformá-lo num minuto em justiceiro mascarado ou num canalha. Sem se levantar da sua secretária.

      O suplemento Digital, do Público, traz hoje um artigo sobre o tema. O título, do qual me sirvo neste post, é «Garganta Funda já não precisa de se esconder na garagem».

        Atualidade, Cibercultura, Opinião

        Rondellhund

        A oferta partiu de Abu Omar al-Baghdadi, chefe da Al-Qaeda no Iraque, e promete uma recompensa de 100 mil dólares, que «subirá para 150 mil dólares se ele for sacrificado como uma ovelha». «Ele» é Lars Vilks, o cartoonista sueco, «criminoso infiel», que, após a recusa de algumas galerias, publicou no jornal Nerikes Allehanda uma imagem de Maomé na qual este é vagamente representado com um rosto humano e corpo de cão. Vilks desenhou o profeta como expressão de rondellhund, uma forma de street art, aparecida na Suécia durante o ano passado, que tem procurado espalhar por locais públicos imagens de cães concebidas em diversos materiais. Segundo declarou, fê-lo deliberadamente, como gesto de combate em nome liberdade de expressão, pelo que não se sente minimamente obrigado a pedir perdão a quem quer que seja. Diferente pois do «caso dinamarquês» ocorrido em 2006. Nos tempos que correm, um gesto simples que exige uma boa dose de coragem.

          Atualidade

          2h03m

          Pode viajar-se agora a 300 à hora no belo comboio Eurostar laranja branco e prata. Uma viagem entre Paris e Londres demorará em breve apenas 2 horas e 3 minutos. Vai ser bastante mais fácil conceber álibis para infidelidades além-Mancha ou para atentados em Balmoral.

            Atualidade, Devaneios

            Desordem do mundo

            A Coreia do Norte parece ir em breve abandonar o «eixo do mal» e promete «desmantelar todas as centrais nucleares», os taliban agora não degolam todos os missionários cristãos nem dão chibatadas em todas as sul-coreanas que apanham a viajar sem burka, o general Khadaffi tornou-se justo, compassivo e um excelente cliente para a indústria francesa do armamento. O mundo já não é o que era.

              Apontamentos, Atualidade

              V.V. Putin contado às crianças

              «Ninguém se iluda: a imagem que temos dos outros povos, ou de nós próprios, encontra-se associada à história que nos contaram quando éramos pequenos.» A frase abre Comment on Raconte l’Histoire aux Enfants, um dos mais conhecidos livros de Marc Ferro, publicado em 1981 (seguido, quatro anos depois, de L’Histoire sous Surveillance). Desde cedo perceberam os poderosos a importância da manipulação do passado no processo de perpetuação do seu poder, da sua imagem, da sua vontade e do seu legado. Foram, porém, os regimes totalitários do século XX que mais longe levaram a apropriação desse passado pelo poder e a sua manipulação como factor de controlo das sociedades e de construção do «homem novo», procurando gerir de uma forma eficaz o conhecimento do mundo vivido que deveria ser transmitido às novas gerações. Os regimes de tipo fascista e comunista, sustentados por uma representação monolítica da realidade e uma visão unívoca do seu movimento, não negligenciaram (como não negligenciam os seus sobreviventes) educar de forma «certa» as suas juventudes, mobilizando as suas organizações, controlando o aparelho educativo e propagandístico, sonegando as visões alternativas ou demonizando-as de forma liminar. As concepções fundamentalistas no domínio do religioso procuram ainda imitá-los, se bem que hoje o façam num universo onde a porosidade das fronteiras parece tornar essa acção depuradora cada vez mais difícil. Mas não impossível: nas escolas religiosas de diversos grupos ultra-ortodoxos cristãos ou judaicos, em numerosas madrassas ou centros de formação de futuros «mártires», é esse o ideal narrativo e pedagógico a perseguir. Contar da forma «certa» e camuflar o que se não deve conhecer. Fornecer certezas e elidir a dúvida.

              A decisão recente do presidente russo, Vladimir Putin, no sentido de mandar redigir – não por historiadores credíveis, mas sim por um conjunto de consultores políticos – e distribuir como guia para a redacção dos novos manuais escolares, de uma História Contemporânea da Rússia. 1945-2006, comporta a semente de um retrocesso àquele estado de coisas, unindo-se a uma deriva crescentemente autoritária e expansionista que Moscovo já não esconde. Segundo um extenso artigo do Público, desvaloriza-se ali o Holocausto e os crimes de Mao, relativiza-se o genocídio perpetrado no Camboja pelos khmers vermelhos, faz-se equivaler a «hegemonia global» dos Estados Unidos à política externa do Terceiro Reich, amacia-se o Gulag, comparam-se os assassínios em massa da era soviética (a maioria deles, relembre-se, efectuada em tempo de paz) ao uso da bomba atómica norte-americana em tempo de guerra, e elogia-se José Estaline, «figura contraditória (…), demonizado por algumas pessoas e para outras um herói pelo papel que desempenhou na Grande Guerra Patriótica [a Segunda Guerra Mundial] e na expansão territorial» e também «o mais bem-sucedido líder da União Soviética». Para além, naturalmente, de se atribuir um relevo ímpar ao «rumo do presidente V. V. Putin em direcção à consolidação da sociedade», marcado principalmente por uma «restauração da posição da Rússia na política externa.» A comunidade de historiadores da Rússia tem, na sua generalidade, reagido com indignação a esta reescrita da história e à sua deriva nacionalista e autoritária, mas a verdade é que, entretanto, novos milhões de russos irão ser educados neste processo de manipulação da verdade. O resultado desta nova torrente de «lavagem» aos cérebros de toda uma geração ainda não pode ser conhecido, naturalmente. Mas permite-nos conjecturar de maneira legítima sobre o mal que transportará consigo. Pavel Danilin, um dos responsáveis por esta História putiniana, avisa: «temos que nos purgar do lixo, nem que seja à força».

                Atualidade, História

                Um mau sinal

                Infelizmente, é já absolutamente normal, e até expressão de uma certa forma de coerência, que, em nome dos «sagrados princípios do internacionalismo», o PCP convide os bandidos armados e narcotraficantes das FARC ou os oligarcas, delatores e torcionários do partido único da Coreia do Norte – para além dos representantes dos regimes totalitários cubano ou bielorusso e de outras forças consabidamente antidemocráticas – para a sua Festa do Avante!. O que me parece mais preocupante é que a opinião pública de esquerda considere o facto de somenos importância e abandone a denúncia deste tipo de situação nas mãos dos sectores conservadores ou mesmo dos descendentes da velha direita. As preocupações a propósito das liberdades fundamentais e a decência política mais elementar parecem, uma vez mais, submergir por estes lados diante de pequenas prioridades tácticas. Um mau, ou um péssimo, sinal.

                Vejam-se as posições – muitas delas no sentido que refiro acima – que são inventariadas pelo Tiago Barbosa Ribeiro num dos seus posts sobre este assunto.

                  Atualidade, Opinião

                  Plagiu

                  A descoberta de sucessivas pistas de plágio no blogue pessoal de Luís Filipe Menezes não me espanta. Trata-se de uma prática muito comum no universo da política local (e não só, convenhamos), coincidente com a ausência de ideias ou a baixa densidade cultural de muitos dos seus protagonistas. Se percorrermos o país através das páginas pessoais (ou de textos reproduzidos) de algumas das suas figuras mais ou menos públicas, em inúmeros artigos de uma boa parte da imprensa regional, mesmo em intervenções públicas supostamente originais, encontraremos exemplos constantes de corta-cola-e-cala. Mas LFM não é apenas um político local, pois pretende presidir a um dos dois maiores partidos institucionais e ser primeiro-ministro de Portugal. E ou a coisa está pior do que eu pensava ou uma prática desta natureza é indesculpável, não valendo atirar agora com as culpas para as costas de um qualquer «assessor», supostamente responsável pelos sucessivos actos de cópia não declarada (assinados de facto por LFM, «autor» ou autor do blogue em causa). Numa prova académica, quando detectado, o plágio equivale imediatamente a uma reprovação (e na generalidade das escolas inglesas, por exemplo, corresponde até a uma expulsão): será que, por estes lados, as boas práticas destinadas a combater a fraude e a desonestidade intelectual não se aplicam também aos políticos profissionais? Suspeito que conheço a resposta.

                  Para quem ainda possa ter dúvidas sobre a gravidade deste tipo de acto, aqui se copia a entrada Plágio da Wikipédia em português (acedida em 22.08.2007, às 14h30, e, sendo de origem brasileira, adaptada aqui ao português europeu):

                  O plágio é o acto de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual, etc.) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem colocar os créditos para o autor original. No acto de plágio, o plagiador apropria-se indevidamente da obra intelectual de outra pessoa, assumindo a autoria da mesma.

                  A origem etimológica da palavra demonstra a conotação de má intenção no acto de plagiar; o termo é originário do latim plagiu que significa oblíquo, indirecto, astucioso. O plágio é considerado antiético (ou mesmo imoral) em várias culturas, e é qualificado como crime de violação de direito autoral em vários países.

                  Plágio não é a mesma coisa que paródia. Na paródia, há uma intenção clara de homenagem, crítica ou de sátira, não existindo a intenção de enganar o leitor ou o espectador quanto à identidade do autor da obra.

                  Para evitar a acusação de plágio quando se utilizar parte de uma obra intelectual na criação de uma nova obra, recomenda-se colocar sempre créditos completos para o autor, seguindo as normas da ABNT, especialmente no caso de trabalhos académicos onde normalmente se utiliza a citação bibliográfica.

                    Atualidade, Opinião, Recortes

                    Autoridade e preconceito

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                    Neste ocidente que nos cabe, quanto mais se penetra em sociedades de matriz cultural católica mais se sente o peso longevo do eurocentrismo e da rigidez hierárquica herdada dos tempos que antecederam a afirmação «igualitária» da burguesia. Nelas continua a reproduzir-se essa forma superior de preconceito que associa o destino do indivíduo ao seu invólucro. À forma como este se mostra em público, ao peso da identificação estatutária materializada em gestos, na fala, na valorização simbólica do ter e do parecer. A aceitação do diferente define-se na razão directa da domesticação da sua diferença.

                    Em Cancún, no México, Rigoberta Menchú, activista indígena, candidata à presidência da Guatemala e Prémio Nobel da Paz, foi há dias expulsa de um hotel de cinco estrelas por ter sido confundida com uma vendedora ambulante. Terá sido um caso de ignorância e discriminação que poderia ter ocorrido aqui, em Lima, Dublin ou mesmo em Viena. Poderia, e provavelmente foi-o. Mas muito mais dificilmente teria acontecido em cidades como Nova Iorque, Estocolmo ou Amesterdão. Afinal, foram séculos de pedagogia da resignação, ensinando que cada um tem o seu o lugar e a sua «cruz», mas que nem todas as «cruzes» possuem o mesmo valor. De vigilante inquisição da divergência, de consagração barroca da hierarquia (que a liturgia vaticana, aliás, tem preservado no essencial), de ensino sistemático da reverência diante do cesarismo, que o universo católico herdou. A relação preconceituosa com os sinais que espartilham a vida social, a relativização do valor da diversidade, o respeito pela ordem social e pelos seus símbolos, não são factores que se apaguem da memória e da experiência colectiva nos escassos cinquenta anos que se sucederam ao último acto conciliar. Aliás, sem eles, democratizada e desprovida de atitudes paternalistas, a própria Igreja católica terá dificuldade em preservar o poder, a autoridade e a noção de supremacia moral que ainda conserva. Coisa que o actual papa percebeu há já muito tempo.

                      Apontamentos, Atualidade

                      Lição de jornalismo

                      [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=CB6A7W3QfM4[/youtube]

                      Não é hábito, aqui n’A Terceira Noite, a repetição de links e referências que já circulam por diversos blogues. Mas vale a pena ampliar a divulgação deste vídeo notável, no qual Rodrigo Amarante, da banda brasileira Los Hermanos, oferece uma boa lição de ética jornalística.

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                        Torga e o PS

                        Nunca me agradou a poesia de Miguel Torga. E talvez devesse dizer o contrário, se bem que por razões extra-literárias: aos oito anos operou-me às amígdalas e foi muito paciente comigo (embora horrivelmente vestido de otorrinolaringologista do Largo da Portagem), tempos depois fui seu vizinho na Praceta Fernando Pessoa (onde mantive o meu último quarto de estudante), e vivo há décadas em Coimbra, em cujo panteão simbólico Torga apenas é batido por Isabel de Aragão, a beata e ilusionista Rainha Santa, e pelos infelizes Pedro e Inês. Para além disso, sempre simpatizei com a sua figura simples e solitária. Mas a poesia que publicou não me agrada. Tal como jamais gostei de ver o poeta servir de muleta a políticos à procura de um «toque de cultura» no seu seco discurso público, parecendo-me também bastante despropositado que alguém despojado de provincianismo – ou de uma certa dose de ignorância – o possa tomar por «um dos maiores poetas do século XX». Questões discutíveis de paladar e de idiossincrasia, sem dúvida.

                        O que já não me parece discutível é a desconsideração que foi a ausência de qualquer responsável nacional do PS, ou do seu governo (a Ministra da Cultura, por exemplo), nas comemorações do centenário do nascimento de Torga que hoje tiveram lugar em Coimbra e em S. Martinho da Anta. António Arnaut considerou a ausência «uma falta grave, uma omissão grave de cumprimento de um dever cívico.» Tanto mais grave quanto o poeta, apesar da sua conhecida aversão a participar em actos públicos, foi nas últimas décadas de vida um importante – e imprescindível – compagnon de route dos socialistas, servindo também a sua palavra, frequentemente, de muleta do discurso dos seus dirigentes (incluindo-se nestes o seu actual secretário-geral e primeiro-ministro). Mas talvez esta atitude até tenha sido coerente: poderá tratar-se apenas apenas de um passo mais no abandono das referências matriciais do Partido e na sua gradual conversão em organismo técnico e gestionário, para o qual as artes e as letras são apenas acessórios. Se, por um destes dias, em cerimónia do Dia de Portugal ou numa sessão solene da Assembleia da República, algum insigne governante ou deputado citar à propos uma frase de Joe Berardo, não ficarei pasmado.

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                          Ignomínia

                          Estava em férias quando ocorreu a demissão de Dalila Rodrigues, e por isso apenas agora dou sinal de vida sobre o assunto. Conheço a visada – creio que fui mesmo seu professor – embora, directamente, conheça muito pouco do trabalho por ela levado a cabo no Museu de Arte Antiga. Sei daquilo que me contam, do que dizem os jornais, das opiniões que foram sempre, globalmente, bastante positivas. Sei também que na área da gestão dos museus, tradicionalmente conservadora e conformista, a sua iniciativa se tem destacado. Uma coisa que, no país paralisado pela inveja do qual fala José Gil, não augura nada de bom para quem protagoniza o destaque. Por isso, não me surpreendeu a atitude vergonhosa – pior ainda que a da ministra da Cultura, «apenas» incapaz de dialogar com uma atitude crítica (mas, que eu saiba, não insubordinada) – dos dezasseis outros directores de museus, obviamente arregimentados por um qualquer comissário-político, que se solidarizaram, em nome da «classe museológica portuguesa» (sic), contra uma sua colega.

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                            Tour de France

                            Dantes gostava de ciclismo. Às vezes com algum amigo, outras vezes sozinho, uma das minhas brincadeiras nas longuíssimas férias de verão consistia em fazer corridas com umas pequenas bicicletas de plástico colorido movidas a golpes de dados. As provas, que incluíam até um prémio de montanha, viviam principalmente dos duelos entre o sportinguista João Roque e o benfiquista Peixoto Alves (bem, já não sou da época do Trindade contra o Nicolau…). Quando Agostinho passou a ganhar tudo, desinteressei-me pelo circuito pátrio e internacionalizei a corrida, que incluía agora os duelos mortais e alpinos entre Jacques Anquetil e Raymond Poulidor, aos quais se juntaria depois o próprio Agostinho. Admirava em todos eles o esforço visivelmente brutal, feito de músculos e vontade, do homem absolutamente sozinho contra o calor do sol, as rajadas do vento e os grandes declives. Depois fui-me distanciando. Talvez isso tenha acontecido na altura em que o jogo de equipa se começou a sobrepor à capacidade individual. Já fora de tempo, Lance Armstrong terá sido, porventura, o último dos meus super-heróis do selim e do pedal. Hoje, sem grandes estrelas no pelotão e com a desconfiança instalada devido à sucessão de casos relacionados com o uso de estimulantes, deixei de me interessar por este desporto de estrada. O Tour de France – esse «exercício colectivo de nostalgia» – está a chegar aos Campos Elísios e eu mantenho a televisão desligada.

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                              «Hay que tenerlos»

                              Tão rápido no intento de humilhar os funcionários públicos reduzindo-os à condição de culpados de todos os males da nação, e aceitando que sejam afastados aqueles que em palavras ou actos desrespeitem a «nova ordem», o governo continua a condescender com o tom ostensivamente agressivo e provocatório usado pelo funcionário público Alberto João Jardim para se referir ao primeiro-ministro ou aos ministros do governo da República. Não que a situação seja nova, evidentemente, mas ela atingiu agora níveis extremos e absolutamente intoleráveis. As referências recentes à suposta falta de dinheiro para financiar a IVG na Região Autónoma da Madeira – quando se gasta o quádruplo a financiar um rali, se delapidam somas brutais para pagar o fogo-de-artifício do reveillon, ou se paga para que os dois clubes madeirenses de futebol estejam entre os cinco clubes portugueses que de maiores orçamentos dispõem – acompanhando essas referências dos insultos mais ordinários aos representantes do Estado, exigem-se medidas e não apenas vagas declarações de virgens ofendidas (mas um pouco distraídas também). Um caso sério de chantagem e de insubordinação que deveria merecer, no mínimo, uma advertência pública por parte do Presidente da República, do primeiro-ministro e do Tribunal Constitucional. Mas para tal, convenhamos, «hay que tenerlos».

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                                mundo_novo.mp3

                                Por muito que se desdobre em declarações ameaçadoras e incentive atitudes repressivas por parte dos governos, a indústria fonográfica tradicional está com a corda na garganta. Com a generalização da Internet e da banda larga, as capacidades áudio dos novos telemóveis e os versáteis leitores de MP3, a venda de música pelos processos tradicionais entrou numa crise irreversível. Dois episódios recentíssimos vêem prová-lo, para quem ainda possa ter dúvidas. Com um enorme impacto, Prince distribuiu gratuitamente o seu último álbum («Planet Earth») junto com o tablóide britânico Mail On Sunday, enquanto Manu Chao vai lançando uma a uma as faixas do novo «La Radiolina» directamente através do seu site, sem passar pela edição em CD. Manu relativiza mesmo o problema da «pirataria» (ou da troca livre) de música gravada: «Quantos discos de vinil não copiámos para cassetes? Em adolescentes, quando um amigo comprava um álbum, fazíamos 80 gravações. Não tínhamos dinheiro para comprar música mas tínhamos vontade de a ouvir.» Onde irão então os artistas buscar o dinheiro para pagar o seu trabalho? À venda online «à peça» e aos concertos ao vivo, obviamente, pois para estes existirá sempre um público fiel e disposto a alguns pequenos sacrifícios. Um mundo novo e perturbador da velha ordem do mercado da música? Sim, e daí?

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                                  Geração rasca

                                  Sem a repercussão do artigo de Manuel Alegre, passou quase despercebida a entrevista de António Arnaut ao semanário Visão. No entanto, desprovida do tom aparatoso e plangente de Alegre, ela parece-me muito mais pedagógica e, ao mesmo tempo, capaz de evidenciar o profundo desencanto da geração dos fundadores com os caminhos que vem seguindo o actual PS. Uma abordagem desiludida, mas de certa forma sábia, que não soa a ressentimento, assumindo o que lhe parece ser a inevitável transitoriedade da geração agora no poder. Descreve-a assim Arnaut: «É um produto das circunstâncias. Noto falta de cultura cívica. É gente sem reflexão sobre os comportamentos, a arte, a literatura e a história do nosso povo. (…) Muitos deles não têm uma ideia para Portugal, não reconhecem o país. Vivem do imediatismo, da conquista do poder. Conquistado, vivem para aguentá-lo. Esta geração vale-se mais da astúcia que da seriedade. E aprendeu os ensinamentos de Maquiavel.» Vale a pena ler a entrevista completa.

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                                    Com que voz

                                    Politics

                                    Liga-me aquilo que Manuel Alegre representa um conjunto de sentimentos contraditórios. Não aprecio o estilo grandiloquente (que já apreciei, aliás, quando ouvia os mesmíssimos tom e timbre de voz na Rádio Voz da Liberdade). Não gosto dele como poeta (embora reconheça a importância simbólica e patrimonial da sua «poesia de combate»). Não sinto grande empatia em relação a um padrão de discurso político assente em pressupostos estritamente éticos (que pode ser respeitável mas já pouco diz aos portugueses com menos de trinta anos). E parece-me excessiva, quando não um tanto ridícula, a construção de uma imagem de geronte do regime, falando «para a estatuária», da qual o próprio parece gostar e que a concepção editorial do artigo que hoje editou no Público («Contra o medo, liberdade») acaba por alimentar.

                                    Já simpatizo, porém, com a forma como insiste, a contracorrente, no concurso da coerência de princípios para a credibilização (ou na descredibilização) da política e dos políticos. Tal como gosto da forma como tem sublinhado que – por múltiplas razões, entre elas uma efectiva despolitização dos aparelhos partidários – a política não se esgota nos partidos e só fará bem a estes e à própria democracia reconhecê-lo. E, acima de tudo, admiro a sua capacidade para, numa época na qual a esmagadora maioria dos melhores quadros do país se desvinculou claramente da política activa, afirmar que a capacidade de decisão não pode ser «erigida num fim em si mesmo, quase como uma ideologia.» Poucos o dizem e menos ainda são capazes de levantar a voz em favor dessa dimensão crítica e prospectiva da política que é, no fundo, a sua alma. Uma atitude que a lógica «aparelhística», assente na coacção e na fuga ao debate, presa à defesa amoral dos pequenos e grandes interesses de grupo, e à incapacidade de pensar o futuro em termos de desígnio, tem vindo a apresentar como «irrealista» e descartável. Nesta direcção, o artigo aparatoso e amargurado de Manuel Alegre tem algum valor. Temo é que esse valor seja apenas histórico.

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