Arquivo de Categorias: Atualidade

Inquietante, (vírgula)

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Afinal, os novos colegas da blogosfera ainda estão só a ocupar os seus lugares e irão por certo melhorar as suas prestações. Mas o nível do «português comercial» da generalidade dos posts já publicados pelos mais ou menos jovens vinte e seis deputados e duas deputadas que abriram o blogue Câmara de Comuns é um tanto inquietante. Será uma boa ajuda o uso dos correctores da ortografia e da sintaxe, pois estes costumam apanhar os erros, acertar vírgulas, moderar a dimensão dos parágrafos, captar a ausência de sujeito, ensinar os tempos verbais, conformar as concordâncias, rematar problemas avulsos. O dicionário de sinónimos também permitirá alargar um pouco a riqueza vocabular. As malformações do estilo, essas já serão mais difíceis de resolver. É preciso não esquecer que parte do melhor português escrito produzido no rectângulo passa pelos blogues, e por isso não convém baixar o nível dando um mau exemplo. Sobretudo vindo de quem vem.

    Apontamentos, Atualidade

    Grita Liberdade

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    Os Repórteres Sem Fronteiras estão a organizar uma campanha destinada a mobilizar atletas, jornalistas, membros dos Comités Olímpicos e membros do público presentes nos Jogos no sentido destes usarem, durante a estadia em Pequim, um autocolante com a palavra «Liberdade» escrita em caracteres chineses.

    Entretanto a televisão local transmitiu em directo a chegada da chama olímpica, mas atrasou as imagens em alguns minutos para prevenir eventuais distúrbios. Ao mesmo tempo, todos os voluntários e jornalistas foram submetidos a revistas por parte das autoridades. Pela amostra, os agentes dos serviços de segurança chineses vão chegar ao final de Agosto completamente stressados.

      Apontamentos, Atualidade

      Desamparados do Maio

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      Sai na próxima semana, nas suíças Éditions de l’Aube, Forget 68, o mais recente livro de Daniel Cohn-Bendit (ou antes, contendo uma entrevista a DC-B). Levantou-se de imediato um clamor sobre a «traição» do homem ao qual terá faltado «apenas a fibra moral e social para viver a sua vida, coerente com as suas ideias». Para os desamparados do Maio de 68, que do movimento não vislumbram os efeitos culturais no longo prazo que o «judeu alemão» actualmente enfatiza, mas sim a sua dimensão simbólica de momento maior da fase terminal das ortodoxias marxistas, é insuportável imaginá-lo sob outro retrato que não seja aquele que preenche o seu próprio imaginário, construído sobre um episódio exaltante agora com quarenta anos de idade.

      Mas Cohn-Bendit é o primeiro a avisar, num dos passos do livro que o Nouvel Observateur acaba de divulgar, que o título Forget 68 «não quer dizer que esse passado esteja morto, mas que ele foi soterrado sobre quarenta toneladas de calçadas [pavés, disse Daniel] que, depois dele, transformaram e mudaram o mundo». Porém, «culturalmente ganhámos», pois considera, a meu ver justamente, muitas das práticas que as democracias naturalizaram – como sejam aquelas associadas à democracia participativa, aos progressos no papel social das mulheres, à valorização dos direitos das minorias, à dissolução do rigor das antigas hierarquias, ou à liberdade de ensino e à sua democratização -, como tendo resultado, em larga medida, da vitória de um «espírito de 68» que ultrapassou as datadas circunstâncias do seu nascimento. Elas estão inscritas nos hábitos das sociedades democráticas e delas participam hoje praticamente todas as correntes de opinião, retirando-se apenas deste panorama os ultraminoritários grupos da extrema-direita.

      Só que essa vitória partilhada conduziu inevitavelmente a uma outra realidade, a um outro tempo, no qual as contradições e as causas já não são aquelas que, há quarenta anos atrás, mobilizaram pessoas como Daniel Cohn-Bendit e muitos milhares de jovens «socialistas libertários» como ele foi. Da mudança das causas e da real dimensão da «traição» do «infame» Dany – como gosta que o continuem a tratar – fala entretanto o discurso que este acaba de proferir na sessão do Parlamento Europeu sobre a atitude da UE em relação aos Jogos Olímpicos de Pequim e à questão do Tibete. O discurso pode ser visto e ouvido aqui, sob o título «Il faut foutre le bordel pendant les Jeux Olympiques à Pékin».

      Como os 40 anos sobre o Maio de 68 estão aí, regressarei inevitavelmente ao tema. Entretanto já encomendei Forget 68.

        Atualidade, História

        O caso do holandês rastejante

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        Que fique claro que considero detestável – e particularmente perigoso – Fitna, o filme anti-islâmico de Geert Wilders, aquele deputado da extrema-direita holandesa que saiu agora da semi-obscuridade para os títulos dos media. Detestável pelo seu conteúdo racista e intolerante, que não se contradiz quando estigmatiza o racismo e a intolerância dos outros, uma vez que toma partido por um dos lados do conflito de culturas e de explicações do mundo para o qual existem apenas os inequivocamente bons (nós, sem dúvida) e os inexoravelmente maus (os outros, pois quem mais haveria de ser?). Mas o filme é perigoso também, pois serve essencialmente para excitar os ânimos dos extremistas – situados de um lado e do outro do combate sem tréguas que eles desejam – podendo servir de rastilho para uma vaga de violência e xenofobia difícil de conter e capaz de trazer ainda mais ódio, sofrimento e desejo de vingança.

        Todavia, algumas das reacções de repúdio que tenho lido por aí parecem-me algo filisteias e inapropriadas, pois tendem, uma vez mais, a desvalorizar objectivamente um elemento presente no documentário – e nele alarvemente generalizado – que é o poder crescente dos grupos islamitas sobre sectores cada vez mais amplos do mundo islâmico. Mergulhados há séculos na insciência, na miséria e na submissão – que Enzensberger considera ter sido agravada quando da recusa da revolução cultural determinada, na Europa, pela invenção da tipografia -, afastados de um debate aberto sobre o mundo contemporâneo, a sua diversidade e as suas oportunidades, dependentes de tecnologias que são forçados a comprar ao ocidente, eles têm sido presa fácil dos tiranos e dos exaltados, para os quais a missão apenas estará concluída quando a sua concepção paranóica e medieval do mundo vingar sobre o planeta.

        É certo que o radicalismo islâmico não pode ser identificado com o Islão no seu todo, e que é dirigido por minorias que apenas se representam a si mesmas. Mas é já um fenómeno de massas, e em crescimento – basta olhar para a dimensão das manifestações de rua que assumem as suas palavras de ordem – em relação ao qual é preciso definir uma intervenção que não deve apoiar-se na errada noção de que os seus responsáveis são uma ínfima minoria e que existe uma opinião moderada que acabará por isolá-los. Uma intervenção que passa pela defesa intransigente dos valores de tolerância, liberdade e laicidade que o mundo de matriz iluminista – hoje crescentemente miscigenada com diferentes influências, é certo e é bom – deve preservar e partilhar, no diálogo com o outro, enquanto conquistas que lhe permitiram um dia começar a superar o estado de barbárie. E que as populações brutalizadas pelos regimes tirânicos que vigoram na generalidade dos países islâmicos têm o direito de reconhecer como opção. Diminuir a importância desta tarefa por causa duma guerra estúpida como aquela que Bush levou ao Iraque, devido a algumas iniciativas criminosas dos falcões israelitas, ou em função de acções deploráveis e arriscadas como esta do deputado holandês, é que pode tornar-se perigoso. Ao contrário do que parece pensar gente como Wilders ou os desculpabilizadores passivos do Outro, o mundo não é, nem pode ser, a preto e branco. E menos ainda com o preto de um lado e o branco do outro.

          Atualidade, Opinião

          Viva a Morte!

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          Originalmente em Os Livros Ardem Mal

          Há alguns anos, em crónica do El País, Mario Vargas Llosa considerava excessivamente apocalíptico o mundo segundo Hans Magnus Enzensberger. Não sabemos se o escritor peruano, que parece cada vez mais céptico em relação à actualidade, dirá hoje a mesma coisa. Mas podemos reconhecer, sem grande margem de erro, que Enzensberger tem mantido a coerência na sua forma irónica e desiludida, ritmada «com raiva e paciência», de olhar a parte da realidade que lhe cabe.

          Em 1992-93 publicou dois pequenos ensaios, Perspectivas da Guerra Civil e A Grande Migração (ambos editados em 1998 pela Relógio d’Água, num volume que levou o título do primeiro), nos quais aportava já a uma «cultura do ódio» tendente a multiplicar, dia após dia, os conflitos armados e a insegurança nas ruas. No final do segundo texto, referindo-se aqueles que municiavam este estado das coisas, considerava que «o instinto de autoconservação dessas pessoas é menos marcado do que geralmente se pensa». Em 2006 alargou esta percepção na edição revista de um artigo, escrito originalmente para o Der Spiegel, que a Sextante Editora acaba de traduzir sob o título Os homens do terror. Ensaio sobre o perdedor radical.

          Enzensberger vira-se aqui para o protagonista, particularmente agressivo e perigoso, dessa violência que não cessa de subjugar o planeta, tornando virtualmente arriscado qualquer lugar ainda há pouco tempo tomado como tranquilo e seguro. Para o perdedor radical, que vive do lado de fora das civilidades comuns, das sociabilidades transparentes, incapaz de as adoptar ou de com elas tratar, e busca a redenção desse estado de auto-exclusão através do recurso a um terror sem piedade que tudo esmaga.

          Este perdedor radical não pode ser, todavia, comparado ao simples falhado. Enquanto este se resigna com a sua sorte, esperando por melhores dias ou por uma oportunidade providencial, aquele «isola-se, torna-se invisível, cuida dos seus fantasmas, concentra a sua energia e espera pela sua hora» (p.10). O tempo da vingança é então preparado cuidadosamente, fora da luta de massas (age sozinho, ou em conjugação com outras solidões) e das aproximações impróprias para a missão que o deslumbra (é quase sempre homem, e instado à misoginia). Incapaz de reconhecer-se culpado do seu isolamento, da sua incapacidade para se inscrever num quadro social criador e optimista, projecta sobre os outros a causa da sua própria miséria.

          Enzenberger anota que, no passado, a sua energia destrutiva foi mobilizada por uma multiplicidade de movimentos dotados de uma ideologia e de inimigos localizados (de carácter nacionalista, religioso, racista ou totalitário), mas actualmente a culpa é toda ela lançada sobre os cidadãos dos Estados Unidos e dos países que os apoiam, sobre os judeus (todos, sem excepção), sobre os cúmplices passivos ou beneficiários da globalização, sobre as mulheres que pretendem ocupar um lugar que se lhes afigura inaceitável, sobre os infiéis que não se conformam com uma percepção unívoca do mundo, sobre as democracias que não se conformam aos seus desejos.

          Senhor da vida e da morte, o perdedor radical dilata a sua energia destrutiva «quando consegue vencer o seu isolamento, quando se socializa, encontra uma pátria de perdedores, da qual espera não só compreensão como reconhecimento, um colectivo de semelhantes a si, que lhe dá as boas vindas». Então, essa energia é potenciada, definindo-se «uma amálgama de desejo de morte e de megalomania» (p.37), ao mesmo tempo que um sentimento catastrófico de omnipotência o liberta da sua impotência. O momento da acção surge quando, neste processo da aproximação aos seus iguais, encontra um detonador ideológico capaz de induzir a explosão.

          Para o ensaísta e poeta, no mundo actual, este detonador encontra-o o perdedor radical no islamismo, como «único movimento suficientemente poderoso que está em condições de agir globalmente» (p.49), uma vez que se apoia num universo humano que vive uma realidade particularmente difícil. O Islão não tem conseguido, de facto, examinar a parte de culpa que tem pela prostração económica e política dos seus 1300 milhões de fiéis. O declínio civilizacional do qual tem sido cúmplice, iniciado pelo século XV e associado à recusa da revolução tipográfica, terá hoje que ver com o modelo económico colonial e pós-colonial no qual vivemos. Mas os regimes islâmicos ampliam os seus efeitos ou reforçam constantemente os sentimentos de frustração e de inferioridade dos seus súbditos, submetendo-os à miséria e ao analfabetismo, escravizando as suas mulheres, conduzindo a um gigantesco brain drain, impossibilitando um desenvolvimento social harmónico, mas convencendo-os ao mesmo tempo da sua superioridade em relação aos demais habitantes do planeta.

          É neste caldo de cultura que o perdedor radical se movimenta, ainda que a esmagadora maioria dos seus alvos seja afinal constituída por muçulmanos, como tem acontecido no Iraque, no Afeganistão, nos países do Magrebe, no Líbano e até na Palestina. O que não espanta Enzensberger, dado o facto de o seu objectivo consistir precisamente «em tornar o maior número possível dos outros em perdedores» (p.105). Na realidade, as correntes islamitas não estão interessadas em soluções para os dilemas do mundo árabe, limitando-se à negação: «Trata-se de um movimento apolítico, no sentido estrito, pois não se coloca numa exigência negociável. Em última análise, deseja que a maioria dos habitantes do planeta, composta por não crentes e infiéis, capitule ou seja morta.» (p. 109) Ao mesmo tempo organiza o suicídio de uma civilização inteira, numa orgia de morte que crê redentora.

          Neste livro incómodo, Enzensberger dimensiona urgências. Aponta a mira telescópica para o perdedor radical isolado, suscitando a clara percepção de que este não é um perigo negligenciável. E muito menos passageiro.

            Atualidade, História

            Provável excesso de chá

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            Foi um oportuno post de Joana Lopes que me chamou a atenção para as declarações de Jorge Sampaio ao pasquim gratuito Sexta – por desinteresse passei a deitá-lo no lixo sem o abrir –, a propósito daquilo que este considera ser a instalação da ambiguidade na linha de separação que hoje possa ainda traçar-se entre o que é a esquerda e o que significa a direita. Segundo Sampaio, que enquanto PR nos atirou à cara ad nauseam com o seu passado de combatente pelas causas da liberdade e da justiça social (que apesar de todas as vicissitudes foram e são essencialmente património da esquerda), «não podemos ficar reféns de debates ideológicos» e o que conta nos tempos que correm é sobretudo uma aplicação de «políticas concretas e sustentáveis». Que não possuam cor, ou que desejavelmente a não tenham. Uma ideia estafada, com pelo menos duas décadas de eco, como se sabe. E potencialmente de direita. Mas que poderá ser considerada por alguns dos preclaros membros da Comissão Política Nacional dos socialistas, tendo em vista a próxima revisão do programa partidário. Se é que este ainda lhes merece um minuto de atenção.

              Apontamentos, Atualidade

              De livre e espontânea vontade

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              As autoridades chinesas do Tibete garantem que uma centena de pessoas se entregou à polícia, reconhecendo ter participado nos motins de sexta-feira passada em Lhasa, capital do território. (…) Este é o primeiro número divulgado pelas autoridades locais desde a meia-noite de ontem, fim do prazo dado (…) para que os participantes nas manifestações se entregassem. As autoridades prometiam clemência, avisando que quem ignorasse a ordem seria severamente punido pelos seus actos. (publico.pt)

              Os métodos continuam os mesmos. E os silêncios que os acompanham também. Admitindo que aquelas vozes das sombras, capazes de utilizarem nas suas proficientes análises expressões como «a promoção do feudalismo tibetano continua a desenrolar-se», «esse bandalho do Dalai-Lama» e «as tais ‘revoluções coloridas’ da Europa do Leste», já não contarão assim muito.

                Atualidade, Recortes

                30 anos

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                Pedagógico e demolidor o suplemento P2 do Público de hoje sobre os «Trinta anos que mudaram uma ilha». Trinta anos da Madeira de A. J. Jardim, evidentemente. O mesmo que dizer trinta anos de regionalização intensa e de muitas obras, de alguma ou de bastante utilidade, mas também trinta anos de corrupção, arbitrariedade, clientelismo king size e total descontrolo da despesa pública. Um bom exemplo na página 12: à melhor rede regional de edifícios escolares corresponde a maior taxa de analfabetismo do território nacional, o pior índice de aproveitamento, uma das mais elevadas percentagens de abandono e quase sempre os últimos lugares no ranking das escolas. Acrescento outro: uma rede de serviços de saúde megalómana e desproporcionada acompanha aquela que é de longe a maior taxa de alcoolismo do país. Dados que já não surpreendem, mas não deixam de chocar pela impunidade que suscitam. O mesmo no que concerne ao funcionamento obscuro da administração pública, à conivência da hierarquia católica com o poder, à tutela sem princípios da comunicação social, ao emaranhado reticular dos favores, à ausência de transparência nos concursos públicos, à inexistência do regime de incompatibilidades aplicado aos titulares dos cargos regionais, à política do betão que está a destruir a ilha diminuindo a qualidade ambiental e o nível da procura turística, ao endividamento constante e sem controlo. Trinta anos também da maior agressividade sobre quem se limite a denunciar esta vergonha. Tudo sob o olhar indulgente dos sucessivos governos da República. Sempre com um sorriso de circunstância guardado para o actor principal deste longo drama com ares de comédia.

                Adenda – Já que falo do Público, uma nota negativa para um aspecto da nova colecção – para já, aparentemente útil e de fácil consulta – sobre a vida e a obra de alguns dos «Grandes Pensadores» da cultura do Ocidente-Norte: como é possível avançar com uma iniciativa destas, e divulgá-la profusamente, sem identificar a autoria dos volumes? Sinal positivo: disse-me hoje a senhora do quiosque onde levantei o meu exemplar que todos os clientes interessados se queixaram do mesmo.

                  Atualidade, Opinião

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                  No comício-festa que reuniu num pavilhão do Porto a nata e a guarnição das clientelas do PS para «comemorarem» em conjunto «três anos de governo com resultados» foi perceptível, a quem o observou do lado de fora, a presença no ar de uma intensa carga erótica, associada a todo aquele feérico e teatral ambiente de cor, luz, alegria, autosatisfação, cumplicidade e feromonas. O poder funciona de facto como um estupendo afrodisíaco. Estimula a energia e ajuda a pintar o mundo de cor-de-rosa. Enquanto dura.

                    Atualidade, Devaneios

                    Foge!

                    Coimbra, duas da tarde. Na FNAC, à entrada da livraria, um par hetero vestindo o negro, vetusto, trajo académico. Ela, estacando num repente: «Olha, aqui são os livros. Foge!». Ele, claramente o cérebro da parceria: «Não deve de haver aqui nenhum que me interesse». Meia volta, volver.

                    Sei que de forma alguma representam o todo. Ou sequer a maioria. Porém, dados os números conhecidos dos índices de leitura que ocorrem entre os estudantes universitários da cidade, e o sistemático abaixamento dos critérios de exigência nas avaliações, existe uma forte probabilidade de serem dignos representantes da parte acima da média dos mapas bolonheses do aproveitamento escolar. Se disser que é preocupante estarei a ser suave na apreciação.

                      Apontamentos, Atualidade

                      Dr. Jekyll, Mr. Hyde e os outros

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                      Reza assim:

                      «A esquerda não pode sacrificar a sua perspectiva própria a uma visão tecnocrática, alheia aos seus valores políticos, culturais, ambientais, etc. Isso vale para todas as áreas, mesmo aparentemente as mais ‘neutras’. Por exemplo, a modernização das infra-estruturas não pode dar-se contra a defesa do ambiente e a coesão territorial, antes promovendo-as. A modernização da economia não pode visar somente aumentar a produtividade e competitividade internacional, não podendo deixar de ser caracterizada pela luta pelo emprego e pela sua qualidade, pela justiça nas relações laborais, pela garantia das ‘obrigações de serviços público’ nos ‘serviços de interesse económico geral’. A modernização da administração pública não pode ter como objectivo somente a eficiência administrativa e o rigor das finanças públicas, mas também e sobretudo melhores serviços públicos para toda a gente. A modernização do sistema político não pode consistir somente em eliminar as suas disfunções, não podendo perder de vista a renovação da democracia, o incentivo a uma maior participação, o aumento da transparência e da responsabilidade política, e a descentralização territorial.»

                      A longa citação foi retirada do artigo de Vital Moreira que saiu ontem no jornal Público. No entanto, foi o mesmo VM quem, no recente Fórum Novas Fronteiras, afirmou estar «satisfeito com o que vejo hoje no país; quando começámos ninguém pensaria que chegaríamos tão longe». Presumindo que VM não usou o plural majestático, e prestando atenção a outras intervenções, quer-me parecer que temos aqui um excelente exemplo do estado de ligação com o real a que chegaram o responsáveis do PS e os seus companheiros de ocasião. Criticando práticas pelas quais são os primeiros responsáveis e associando-as a «alguém» ou a «qualquer coisa» que parece acreditarem nada ter a ver com eles, enunciam uma perigosa atitude de esquizofrenia política. Em nome do tal realismo, pois com certeza.

                      A partir da crónica de Manuel António Pina publicada hoje no Jornal de Notícias.

                        Atualidade, Opinião

                        Circuito fechado

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                        O patético Fórum Novas Fronteiras, que reuniu no sábado uns quantos apaniguados e fellow-travellers do governo do PS para um elogio público e litúrgico das suas políticas, revelou-se ainda pior do que se esperava. O autoproclamado «espaço de diálogo, de avaliação e de discussão» não foi mais que um encontro de pré-campanha, conscienciosamente mediatizado e convenientemente desprovido de vozes dissonantes, e no qual José Sócrates nem sequer disfarçou o tom comicieiro – aliás, já não parece possuir outro – entrando no pavilhão em passo enérgico, a acenar às hostes entre palmas, vivas e ai-jesus. Só faltou mesmo a musiquinha de Vangelis. Inebriada pelo poder, fascinada pela lógica prática do realismo político, encerrada em sedes e gabinetes, e deixada sem rédea por uma oposição sem força ou credibilidade, esta gente não pára de ficcionar sobre as medidas administrativas que confunde com «êxitos». Esses que um país acabrunhado e sem desígnio não consegue enxergar, mas que ela «vê» muito, muitíssimo bem. Quem pensará que realmente mobiliza?

                          Atualidade, Opinião

                          O mulato O.

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                          Utilizado no português, de acordo com o Houaiss, pelo menos desde 1557, o substantivo e adjectivo mulato aplica-se àquele «que é filho de pai branco e de mãe preta (ou vice-versa)», «que apresenta traços das raças negra e branca», ou que possui uma visível «cor parda, acastanhada». Omnipresente nos territórios colonizados pelos europeus, o tipo encontra-se hoje em expansão numa Europa crescentemente multiétnica e miscigenada. Mas a designação, historicamente recorrente no léxico da lusofonia, é hoje muito menos utilizada do que o era há vinte ou trinta anos atrás. Pelas razões mais diversas. Por um lado, a decadência do conceito de raça, actualmente trocado pelo de etnia, tem levado a que se evitem designações determinadas pelos traços físicos. Ao mesmo tempo, e apesar de valorizar a mestiçagem e a hibridez, a nova tradição pós-colonial tende frequentemente a escamotear o legado do colonizador, incluindo-se neste o seu contributo genético. Aliás, foi já nesta linha que, a partir dos tempos de definição do conceito de negritude e de constituição das correntes emancipalistas, uma parte das novas elites africanas começou a depreciar um pouco o lugar e o papel do mulato. A partir dos anos 50/60, a crítica do lusotropicalismo não deixou, também ela, de intervir neste processo.

                          Entre nós, porém, o eclipse parcial da palavra ficou a dever-se ainda à influência global do discurso dominante dos media americanos. Nos quais o conceito de negro possui uma amplitude que os falantes nativos do português até há bem pouco tempo praticamente excluíam. Por isso, para a América, o mulato Barack Obama é um negro. E é a partir da afirmação desta condição que tem definido o seu trajecto político e poderá vir a construir a sua vitória eleitoral. O que não podemos senão compreender. Mas já me parece um sintoma de passividade perante a aculturação que os meios de comunicação europeus, e muito em especial os portugueses, se lhe refiram sistematicamente como «negro». O que fizemos nós afinal, e em tão pouco tempo, da memória partilhada desse passado de trocas que produziu o mulato?

                            Atualidade, Memória, Olhares

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                            O Público de hoje fornece as conclusões de um exercício. Dois especialistas em análise computacional do texto pegaram em 68 intervenções públicas de José Sócrates e descobriram as 200 palavras mais recorrentes nesse conjunto. Dispuseram-nas de seguida numa «nuvem de palavras» – dessas que muitos blogues utilizam para destacarem as principais tags utilizadas – que mostra com clareza os resultados obtidos. As palavras mais relevantes são previsíveis e próprias do «politiquês técnico»: «Portugal», «Europa», «governo», «política», «economia», «ano», «orçamento», «país», «desenvolvimento», «investimento». Segue-se um conjunto de palavras cuja representação gráfica vai diminuindo, até se chegar à escala liliputiana de vocábulos menores como «saúde», «pobreza», «pessoas», «professores» ou «história». Tendo pretensões científicas, claro que o estudo não aborda o não-dito (ou o quase indizível). Mas é importante procurá-lo: estão ausentes deste top 200 palavras como «cultura», «ensino», «educação», «desemprego», «mulheres», «lusofonia», «democracia», «solidariedade» ou «igualdade». E «socialismo», naturalmente.

                            Ver também aqui (sugestão de Paulo Querido)

                              Atualidade

                              Era Fidel

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                              Não me parece que a saída de cena de Fidel Castro «vire a página» do quer que seja. Só se podem virar páginas de livros abertos e o castrismo é, desde há longos anos, um livro fechado e arrumado na secção de história das estantes. Sobrevivendo, fora de Cuba, apenas como mito. Ora, como todos sabemos, os mitos são fabricados a partir de figuras e de episódios retirados do real, mas muito rapidamente se distanciam deste.

                                Atualidade

                                Da banalidade do perdão

                                Pedir perdão servirá de alguma coisa? Rebobinar o filme da história e reconhecer que os do nosso sangue erraram, ou agiram de uma forma medonha, só aos ignorantes e aos hipócritas pacificará as consciências. As crianças aborígenes das «gerações roubadas» jamais reaverão a infância que a natureza lhes havia destinado. Mas pede-se-lhes desculpa e pronto. E ponto. Como se pediu já, vezes sem conta, aos descendentes dos índios americanos contagiados e massacrados, dos judeus errantes reduzidos a cinzas ao longo de séculos, dos escravos que sobreviveram à medonha viagem transatlântica. Um dia pedi-la-emos também aos netos dos africanos que não morreram exaustos junto às margens das praias peninsulares. E, tolhidos pelo arrependimento, continuaremos distraídos perante o trabalho macabro que nunca pára. Lá longe, entre remotas gentes ou fora da nossa vista.

                                  Apontamentos, Atualidade

                                  A leste do faroeste

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                                  Uma certeza podemos ter se, tal como se espera, os democratas ganharem desta vez a Casa Branca: desaparecerão dos nossos visores aquelas imagens regulares, invariavelmente grotescas, de um cow-boy, de botas texanas com apliques e pernas levemente arqueadas, que salta do Air Force One como se de um cavalo de rodeo se tratasse.

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                                    Engarrafamento aéreo em Havana

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                                    Por estes lados a notícia não teve destaque, mas vale a pena referi-la. Durante uma sessão na Universidade de Ciências Informáticas, em Havana, destinada a preparar as «eleições» para a Assembleia Nacional cubana solicitando dos estudantes o «voto unido», Ricardo Alarcón, membro do Bureau Político do Partido Comunista, viu-se confrontado com perguntas inusitadas e incómodas por parte dos estudantes. Porque não se explica ao povo em que consistem determinados projectos e planos de âmbito nacional? Porque pode um ministro manter-se 20 anos num cargo ainda que a sua gestão tenha fracassado visivelmente? Porque se proíbe aos cubanos a abertura de contas de e-mail no Yahoo ou no Google? Porque não podem viajar para o estrangeiros ou hospedarem-se em hotéis nacionais? A atrapalhação de Alarcón foi de tal ordem que a esta última pergunta respondeu considerando que «se todos os 6.000 milhões de habitantes do mundo pudessem viajar para onde quisessem, o engarrafamento aéreo no planeta seria enorme». Mais do que o carácter patético desta resposta, e simples enunciação das perguntas anuncia conflitos latentes que já não é possível esconder.

                                    Antes que surjam as inevitáveis vozes que tentarão mostrar este episódio como prova da vitalidade democrática do regime castrista. Com um obrigado a João Tunes.

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