Arquivo de Categorias: Atualidade

Figuras de linguagem

Pensador

«Alberto João Jardim vai estar no dia 23 no Clube dos Pensadores.» Não sei bem qual a figura de linguagem que poderemos aplicar a esta frase que chegou e à situação que ela indicia. Será o paradoxo? Será o eufemismo? O disfemismo? Talvez a hipálage, essa atribuição a um ser ou coisa de uma qualidade ou acção pertença de outro ser? A personificação, porventura? E a hipérbole, a sinestesia, a alegoria? Servirá alguma delas? Ou será preferível o animismo, que impõe a concessão da vida a seres inanimados? Talvez uma apenas, ou todas elas? A escolha é difícil, mas jamais servirá a ironia. Será melhor pensar com calma.

    Atualidade, Devaneios

    Toma lá ké pr’aprenderes

    Não foi uma situação que estivesse prevista, mas após desistir da SIC-Notícias por casa das banalidades de Rogeiro & Cia. e do ruído da tradução directa, como não acertei logo com o canal da CNN acabei por escutar o primeiro discurso do 44º Presidente dos EUA através da Al-Jahazeera.

      Atualidade, Etc.

      Footurismo

      O futuro

      Portugal associou-se hoje à Espanha para lançar uma candidatura conjunta ao Mundial de Futebol de 2018. Confesso que nesta altura tenho dificuldade em pensar em qualquer coisa projectada para um futuro tão remoto, mas talvez seja por isso que não sou presidente da Federação nem me deixam entrar no clube de bridge. Quem tenha a capacidade previdente de projectar com antecipação aquilo que os outros irão sonhar no futuro sabe muito bem que o mundo pula e avança com bolas coloridas (e operações financeiras de longa duração). Além de que nessa altura já teremos o TGV em condições de darmos um saltinho a Barcelona a ver a bola, regressando a casa a tempo de ver o Prós e Contras. Construir o futuro é isso mesmo, antever. E depois há que continuar a trabalhar, levantar a cabeça e olhar em frente. Nós, maledicentes e esquerdistas, é que não estamos a ver a coisa e só temos pensamentos negativos. Mas calar-nos-emos quando ouvirmos o ruído das obras e virmos o povo em êxtase, a saltar, a saltar, as bandeiras a abanar.

        Atualidade, Devaneios, Olhares

        Uma dor boa, sabem?

        «Aconteceu uma coisa terrível na educação: tudo tem de ser divertido.» Nem tudo o que diz Alice Vieria na entrevista que deu ao Público de hoje – e que pode ser lida aqui – me parece indiscutível, mas existe muito de avisado nela. E a frase destacada pelo jornal sublinha aquela que me parece, de facto, ser a fonte última de alguns dos maiores problemas do sistema que temos, disseminados já por todos os graus e áreas de ensino. A dor de aprender é uma dor boa, só que muitas pessoas, e algumas delas com poder de decisão neste campo, já não sabem disso. Não sabem o que perdem, aquilo que deixam de ganhar e o que roubam aos outros.

          Atualidade, Opinião

          Ainda e de novo

          Pax Arabica

          Ainda e de novo Gaza. Ainda e de novo uma evidência. Ser por uma solução justa é ser pela paz, mas ser pela paz não impõe a vitória de um Estado sobre um povo, de um povo sobre outro povo, de um povo que se bate pelos seus direitos sobre outro que o faz também. Ser pela paz não é ser contra Israel, como o Hamas confirma e os idiotas úteis se esforçam por provar.  Ser pela paz não é condenar a Fatah e ignorar os israelitas que não são belicistas. Ser pela paz não é ser por Israel e a imposição violenta de uma pax hebraica erguida contra uma eventual pax arabica. Não é ser sionista. Nem anti-semita, já que semitas são eles todos, e também nós um pouco.

          Mas também não é ser estúpido e acreditar que são todos bons rapazes. Nem fugir ao óbvio: a actual guerra injusta, aproveitada por sectores no poder em Israel para afirmarem uma política agressiva e se manterem no poder, foi, num primeiro momento, na altura do Natal, directamente provocada pelo Hamas, que sabia muito bem ir ter uma resposta. Que, tal como o Hezbollah, procura usar a luta dos palestinianos para impor mais uma ditadura islamita, como o comprova a sua forma de governar as regiões que controlam. Que não quer paz alguma: quer a guerra, como o atesta a reivindicação estúpida de agora apenas aceitar o cessar-fogo cedido pelos israelitas se os vencedores a curto prazo se declararem vencidos a longo termo. Que se serve de escudos humanos e transforma os horrores da guerra, reais – dos maiores horrores da Segunda Grande Guerra, relembro, viveu-os a Alemanha sob as bombas aliadas, como no-lo contou W. G. Sebald – em propaganda que muitos ocidentais compram sem ver. Ser pela paz é apresentá-la como o único horizonte possível, mas não é a aceitar a supremacia de uma das partes. E, de um lado ou do outro, não se faz, não pode fazer-se, com aqueles que pretendem impor essa supremacia. Tanto quanto seja possível, e o mais depressa possível, esses devem ser afastados do processo. Em nome de uma paz levantada contra os tigres e os falcões, e que não nasça podre.

            Atualidade, Democracia, Opinião

            Anastasia

            Anastácia

            Tal como aconteceu com tantas outras pessoas do mundo inteiro, em criança fazia-me impressão a vida dramática da princesa Anastácia. Refiro-me a Anastasia Nikolaevna Romanova, a filha do czar Nicolau II que em 17 de Julho de 1918 teria supostamente sobrevivido ao massacre da família real russa levado a cabo pelos bolcheviques, seguindo depois uma vida errante e aventurosa, sempre à espera de um reconhecimento público que jamais chegou. A sua história foi desde cedo utilizada na propaganda anticomunista, tendo aparecido em livros, folhetos e histórias de banda desenhada, e servido também de argumento a canções. Uma delas, de Pat Boone, foi um êxito mundial nos idos de 50, e Sympathy for the Devil, dos Rolling Stones, faz-lhe referência («Anastasia screamed in vain»). Funcionou também como base do enredo de diversos filmes: o mais conhecido, com Ingrid Bergman, é de 1956, e o último, em técnica de desenho animado, foi estreado em 1997. Em Shadow Hearts: Covenant, um jogo para PlayStation 2, Anastácia aparece também como personagem. Pois bem, a Procuradoria-Geral da Federação Russa concluiu agora, após estudos especializados, poder «afirmar categoricamente» que os seus restos mortais estavam entre aqueles que, em 1991, foram recolhidos como sendo os dos abatidos em Iekaterinburgo. Mas como concluiu ao mesmo tempo que o Conselho dos Comissários do Povo e o Comité Executivo Central, na altura os principais organismos governamentais russos, não aprovaram a execução, fica sempre no ar uma suspeita de «limpeza da História» muito comum por aquelas paragens. Num certo imaginário romanesco, a imagem da princesa Anastásia continuará a pairar.

              Atualidade, História, Memória

              Mulher, muçulmana

              Mulher, muçulmana

              Como toda a gente, exceptuando uns quantos fanáticos, hipócritas ou ignorantes, senti-me chocado com as declarações públicas do Cardeal Patriarca a propósito da condição da mulher cristã dentro do casamento muçulmano. Mas mais chocado que indignado, pois não acredito que essas declarações tenham sido feitas, por muito que José Policarpo possa acreditar naquilo que disse, fora de um momento de fraqueza no qual se tenha deixado envolver pelo copito da hora do jantar ou o olhar de medusa da jornalista. O que não significa que não tenha sido grave aquilo que aconteceu: foi-o, e muito, e até talvez mais pelo tom sarcástico, no limiar do gozo e da grosseria, do qual o cardeal se serviu para falar dos «irmãos» que crêem «em Alá». Uma atitude que nem parece coisa de hierarca com lugar cativo em conclaves vaticanos. Aquilo que disse é  inadmissível e perigoso, e merecia, pelo menos, uma retractação igualmente pública. Não a conversa balofa e de sacristia com a qual alguns responsáveis católicos se apressaram a justificar o injustificável.

              A vaga de repulsa que se sucedeu às palavras do cardeal passou, no entanto, por cima da questão muito mais central que ela implica e que tem a ver com o lugar reservado à mulher – seja ela muçulmana, católica, budista ou adventista do Sétimo Dia – dentro do universo islâmico. Faranaz Keshavjee, a cronista ismaelita do Público, afirma o óbvio («é muito perigoso fazer uma leitura monolítica sobre 1,2 mil milhões de muçulmanos»), mas também o essencial («há problemas graves de violação dos direitos da mulher (…) fundamentados em leituras parciais do Corão»). Por acaso acabo de ler O Preço do Véu – A guerra do Islão contra as mulheres, de Giuliana Sgrena, a jornalista do Il Manifesto que em 2005 foi sequestrada por uma organização iraquiana. Explorando, através da reportagem no terreno e de algumas entrevistas, a situação das mulheres em países como a Arábia Saudita e o Afeganistão, mas também na Tunísia, na Sérvia, no Iraque, no Irão, na Bósnia-Herzgovina, na Palestina, na Somália ou a Argélia – e ainda em muitas comunidades de muçulmanos que vivem na Europa ocidental -, Sgrena mostra-nos de que forma o uso do véu representa, como símbolo e instrumento da negação objectiva do corpo, a efectiva opressão da mulher na maior parte do mundo islâmico e o reforço, que nele tem vindo recentemente a afirmar-se, de uma ordem masculina implacável e reaccionária. Revela a luta, de uma coragem extrema, de muitas mulheres muçulmanas que ousam revoltar-se contra esta situação. E critica com veemência o silêncio dos activistas ocidentais empenhados em não melindrar a incerta e complexa «identidade muçulmana». É esta luta que a crítica às palavras indecentes do cardeal não deveria esquecer. Como o fez também Policarpo ao omitir, de tão preocupado que estava com as suas tresmalhadas reses, os graves problemas que envolvem a mulher, seja qual for a religião que professe – e pior ainda se não professar alguma – nessa parte do mundo que tanta impressão lhe faz.

                Atualidade, Democracia, Olhares

                Glória vã

                Cristiano Ronaldo foi designado pela FIFA como o Jogador do Ano de 2008 e, de acordo com a lalistawip, é a 11ª pessoa mais citada na Internet. Numa lista comandada por Barack Obama, CR7 está apenas um pouco abaixo de Paris Hilton, imediatamente após Elvis Presley, e muito acima de José Mourinho (137º), Durão Barroso (240º), Fernando Pessoa (340º) ou José Sócrates (2265º, malgré Magalhães). Porém, se nos fiarmos nas notícias que chegam, em breve o português mais referido na rede poderá ser um cão.

                Adenda ainda sobre o moço Cristiano. Dizia hoje no Prós e Contras a Sra. Dra. D. Fátima Campos Ferreira (a fonte é o blogue Água Lisa) que «as mulheres são muito atraídas pelo Ronaldo pela maneira como ele mexe as pernas». Como uma conversa leva a outra – tal qual naquela lengalenga «Senhor dos Passos, Paços do Concelho, Conselho de Guerra, Guerra Junqueiro…» – acabei por deduzir que o futebolista madeirense possui uma costela de fandagueiro ribatejano.

                  Atualidade, Etc.

                  Dias aziagos

                  Dias aziagos

                  O 5 Dias é um blogue que acompanho desde a abertura, e que nas diversas fases pelas quais foi passando me habituei a seguir com atenção, mesmo quando (ou justamente quando) exibia posições das quais discordava. Todos os colaboradores escreviam muito bem, as opiniões eram diversas mas fundadas, a informação rápida mas criteriosa. Mentiras, calúnias, verborreia e embustes nunca por ali se viram, excepto quando a óbvia ironia ou a casual brincadeira o requeriam. E assim se mantiveram as coisas até há pouco tempo, quando o panorama começou a mudar rapidamente com a chegada de alguns colaboradores que, para além de fazerem baloiçar a base de apoio do português, se servem de algumas das técnicas habitualmente utilizadas por fascistas ou delinquentes. Pois de que outra forma posso compreender artigos como este (fazendo lembrar o chamado «paleio de retornado» do antigamente)? Ou a apresentação, sem qualquer identificação mas contendo uma insinuação grave, desta imagem (decalcada aliás de uma outra, essa assumidamente ficcionada, utilizada no filme de propaganda franquista Sin Novedad en el Alcazar)? Jamais abriria a boca se estes posts surgissem num blogue qualquer – que estivesse confinado, como A Terceira Noite, a umas centenas de seguidores fiéis que aguentam estoicamente a irregularidade dos registos e a ausência de comentários – mas já me parece perigoso quando este tipo de processos chegam a blogues reconhecidos por muitos como um espaço de referência. Nada tenho a ver (era o que faltava!) com o caminho pisado pelo 5 Dias, e não vou, garanto, entrar numa guerrinha de Alecrim, mas diz-me respeito a exibição pública da ética do vale-tudo para subir no Blogómetro (onde ATN estava ontem num discretíssimo 119º lugar). E apetece-me dizê-lo a quem me lê.

                    Atualidade, Cibercultura, Opinião

                    Eles

                    Eles

                    A tese não é nova, como se sabe: ela sugere uma leitura da política do governo americano para Portugal durante o biénio revolucionário de 1974-75, insistindo na divergência das interpretações mantidas pelo ex-Secretário de Estado, que chegou a considerar a inevitabilidade da tomada do poder pelos comunistas, e pelo antigo embaixador em Lisboa, que insistiu na necessidade de apoiar as forças moderadas. A substância de Carlucci vs. Kissinger. Os EUA e a Revolução Portuguesa, de Bernardino Gomes e Tiago Moreira de Sá (Dom Quixote), reside, pois, não tanto na «descoberta» de uma situação conhecida, mas antes na análise detalhada de fontes primárias que a comprovam e detalham. A partir de telegramas trocados entre a capital portuguesa e Washington, de memorandos de conversas mantidas entre altos dirigentes, e da transcrição de conversas telefónicas, revelam-se pormenores sobre a debilidade do sistema de informações americano na fase inicial do processo, sobre a tentativa de utilizar a União Soviética para moderar a atitude do PCP, sobre o apoio oferecido ao Grupo dos Nove, ou, talvez como testemunho mais sonoro, sobre a possibilidade real, declinada por Franco, de uma intervenção militar espanhola. A narrativa acompanha muito de perto os documentos, fugindo no entanto a um esforço interpretativo complexo ou a uma abordagem dos reflexos da intervenção americana fora dos círculos do poder, mas integra, sem qualquer dúvida, informações cruciais para a história do período.

                    Embora num outro formato, também na LER No. 75

                      Atualidade, História

                      Culpa e traição

                      Culpa

                      Em O Remorso do Homem Branco, de 1983, Pascal Bruckner combatia o masoquismo autoculpabilizador que após a Segunda Guerra Mundial tendeu a imputar à Europa e à América a responsabilidade por todos os males da História, opondo um Sul essencialmente radioso, habitado por belas pombas, a um Norte sempre agressivo, povoado de sanguinários chacais. Ali se propunha um encontro do Ocidente com o «Outro» que não dependesse da renegação da memória e dos seus valores. Em 2006, com O Complexo de Culpa no Ocidente, retomou o tema sob uma perspectiva um pouco diferente mas ainda mais controversa.

                      Agora a análise do sentimento de culpa é acompanhada pela prescrição de um tratamento. A tarefa proposta pelo autor francês consiste em «reconciliar a Europa com a História e os Estados Unidos com o mundo», ensinando à primeira «que não se ganham batalhas só com as armas do compromisso e do encantamento» e aos segundos «que não estão sozinhos na Terra». Tal implica a crítica de uma certa apatia política da Europa, sugerindo a possibilidade desta intervir sem complexos na transformação do mundo. Propõe-se assim «inverter a nossa relação com o passado», trocando o lamento pela convicção, a passividade pela força. Bruckner, um antigo «soixante-huitiard», apoiou em palavras e actos a eleição de Sarkozy: lendo este livro perigoso percebe-se melhor a sua traição.

                        Atualidade

                        Vozes do silêncio

                        Slavenka Drakulic

                        Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor foi escrito durante o ano de 1991, numa altura em que o volume de estudos, de memórias e de reportagens sobre a Europa de Leste crescia muito rapidamente, com um crescente público de leitores à procura de um universo que lhe era desconhecido ou que fantasiara. Resultado da experiência pessoal, familiar e profissional da autora – Slavenka Drakulic é uma jornalista croata que antes e após o início da fragmentação da Jugoslávia teve a oportunidade rara de visitar diferentes países de ambos os lados da «Cortina de Ferro» – nele se descrevem aspectos de um quotidiano com muitas características partilhadas na generalidade dos países que viveram a experiência do «socialismo real», questionando-se ao mesmo tempo, a partir do interior, a afirmação de um modelo que se autodefinia como triunfante. Ao mesmo tempo, nos 19 ensaios aqui reunidos, fá-lo a partir de uma perspectiva feminista, singular e relevante quando se sabe que o feminismo era praticamente inexistente naquele universo, e que as vozes femininas eram ali geralmente subordinadas a um discurso colectivista que excluía a sua representação autónoma.

                        Drakulic assevera, a dado passo, que quem tenha crescido na Europa de Leste aprendeu desde muito novo que a política não é um conceito abstracto, mas antes uma força poderosa e omnipresente, «que influencia as pessoas na sua vida de todos os dias». Tal significa que a sua leitura dos quotidianos que relata os insere na ordem política imperante, jamais atribuindo uma grande importância à sua articulação com particularismos históricos ou culturais. Deve reconhecer-se, porém, que a sua perspectiva crítica, por vezes arrasadora, é temperada pela nostalgia de um igualitarismo, entretanto perdido, que suavizava o baixíssimo nível de vida da generalidade das populações. Fá-lo em particular no ensaio que relata o seu confronto com a miséria e o abandono com o qual, quando ali chegou pela primeira vez, veio a deparar nas ruas de Nova Iorque. Mas por outro lado, por detrás da uniformidade de comportamentos percebe-se perfeitamente, na sucessão das informações e dos testemunhos apresentados, que ocorreram cambiantes e mesmo distinções entre os diversos países comunistas e no interior da própria Jugoslávia, o que tempera uma tipificação excessiva dos métodos utilizados pelas autoridades e dos processos utilizados pelas populações para se lhes adaptarem ou os contrariarem. Quando se afirma que «foi no plano da vida quotidiana, mais do que no plano ideológico, que o comunismo realmente fracassou», insinua-se como foi principalmente uma acentuada dificuldade de relacionamento entre governantes e governados que precipitou o seu fim. Assim se escreve a uma dada altura: «se os políticos tivessem olhado, uma vez que fosse, para dentro dos nossos guarda-fatos, caves, armários e gavetas – sem ser para confiscar livros proibidos ou propaganda subversiva –, teriam visto o futuro que estava reservado aos seus magníficos planos».

                        Notável também é a forma poética utilizada por Drakulic no processo da escrita, transformando cada um dos capítulos deste livro numa espécie de vinheta que ilustra a condição do cidadão comum e retrata o seu quotidiano sob a realidade do comunismo. O sentido de humor evocado no título, bastante menos presente afinal do que seria de supor, é assegurado pela maneira acentuadamente sarcástica de descrever o passado e, por parte daqueles que lhe sobreviveram, por um uso irónico da memória. Um livro datado, sem dúvida, mas muito útil.

                        Slavenka Drakulic, Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor. Tradução de Rui Pires Cabral. Pedra da Lua, 160 págs. ISBN: 978-989-8142-11-5. Versão revista de um texto publicado na LER No. 75

                          Atualidade, História

                          Da guerra cega à paz possível

                          Na Palestina

                          A guerra não é um grande momento para subtilezas e elegâncias, salvo para quem, numa confortável posição de segurança, dela se queira servir como de um tabuleiro de xadrez. Quando a vida e a morte se confrontam, quando o medo e a impiedade se olham de frente, é impossível pensar com ponderação e falar serenamente. Qualquer pessoa sabe disso, mas sabe-o melhor quem já esteve sob fogo em teatro de guerra. Nesses momentos a linha que separa coragem e cobardia, o júbilo e o lamento, frieza e descontrolo, torna-se invisível, e qualquer um, em poucos segundos, pode passar de cordeiro a lobo. Ou o contrário. Na guerra que vivi, pude ver homens religiosos dispararem sobre crianças (e vi depois essas crianças mortas), seres que me habituei a reconhecer como pacíficos a perderem totalmente a compostura e a chorarem como bebés. E o contrário também: pessoas em quem nem tinha reparado que, num repente, foram buscar forças e coragem a um lugar desconhecido. Nestas alturas, todos dizem o que lhe vem à cabeça, gritam ou ficam imobilizados, disparam à toa ou foge, fazem juras de ódio que podem tornar-se letais quando transportam ao ombro uma espingarda-metralhadora.

                          Mesmo longe desses lugares terríveis, olhando-os nos monitores coloridos das nossas televisões e dos nossos computadores, esse envolvimento emotivo assalta-nos o raciocínio, torna-nos cegos e impulsivos, sendo preciso algum sangue-frio para conseguir discorrer sem levantar a voz sobre aquilo que vemos. Tarefa quase impossível, como se pode ver pelos posts que lemos sobre a guerra terrível que ocorre em Gaza, com quase todos a escreverem frases com pontos de exclamação, tomando um e outro dos lados em confronto, guardando para melhores dias a possibilidade de se questionarem sobre tudo aquilo que podem ver. Claro que os completos consensos jamais serão possíveis e que sempre existirão pessoas para quem o mundo é apenas branco-alvo e preto-carvão: essas só gritam contra a guerra porque um dos lados da brutalidade nela leva a melhor, mas anseiam pelo dia da vingança, no qual agredirão o agressor. Hoje, numa viagem matinal pela blogosfera lusitana, encontrei até um texto que compara aos nazis os responsáveis palestinianos da Fatah que se opõem ao Hamas. Outro identifica «inequivocamente» a causa da Palestina com um sinal do avanço do «fundamentalismo islâmico». Outro ainda diz da violência israelita ser esta «pior que o Holocausto». E a maioria dos comentadores, mesmo alguns dos mais clarividentes e respeitados, vê apenas a agressão israelita, não referindo que os responsáveis do Hamas possuem como meta declarada, para a qual apontam sem concessões, a «destruição de Israel», e que foram eles a quebrar o cessar-fogo, contra a posição negociadora da Fatah. Como ignoram a existência de um amplo movimento israelita a favor da paz e de um grande número de objectores de consciência que, contra o expansionismo sionista, propõem uma abordagem do conflito que passe pela aproximação entre vizinhos historicamente destinados a entenderem-se.

                          Observamos por todo o lado manifestações cegas, claras deturpações e mesmo mentiras (o «subcomandante Marcos» chegou ao ponto de inventar uma declaração inexistente de Barack Obama sobre o seu apoio à invasão de Gaza). E reconhecemos posições que, de tão marcadas pela «ira da guerra», se mostram inúteis, contraditórias e perigosas. Não parece que devamos ir para a rua gritar indiscriminadamente «a favor do Hamas» ou «contra Israel», sendo apenas «pelos palestinianos» e «contra os judeus». Nem escolher obrigatoriamente a posição contrária, de aplauso de tudo aquilo que o governo israelita resolva fazer, incluindo o bombardeamento metódico de populações civis com as quais os «heróicos combatentes» do Hamas resolveram misturar-se. No levantamento de uma forte corrente da opinião pública internacional, partilhando a convicção de que a paz é possível – a paz, não apenas mais um cessar-fogo – e pressionando os governos para que tomem iniciativas sérias nesse sentido, residirá mais tarde ou mais cedo uma boa parte da solução.

                            Atualidade, Democracia, Opinião

                            Relógios cubanos

                            São poucas, seis ou sete, ou nem isso, as pessoas com as quais, ao longo da vida, verdadeiramente me incompatibilizei. Embora, quando já nada poderia fazer para voltar atrás, tenha concluído que em relação a duas ou três delas talvez fosse desejável que isso não tivesse acontecido. E que teria sido bom se essas pessoas pudessem ter sido trocadas por outras com quem tive forçosamente de conviver, embora a grande contragosto. Curioso é que alguns desses casos pessoais de desavença levada até à rutura se ficaram a dever a uma mesma razão, talvez incompreensível para quem considere apenas acessória a prática política: a posição de rejeição do regime cubano que a partir de certa altura, e apesar de respeitar a mensagem de esperança e utopia que um dia ele oferecera, comecei a manifestar. Não me zanguei com esses ex-amigos – ou eles não se zangaram comigo – por algum de nós ter chamado um nome feio ao outro. Zangámo-nos, na época, por causa de Fidel.

                            Aquilo que pode parece estranho a alguns, explica-se, no entanto, com uma relativa facilidade. Junto de uma grande parte das pessoas de quem fui ou sou próximo, pessoal ou politicamente próximo, a imagem do regime cubano, da sua realidade presente, e sobretudo do seu passado, permanecem ainda intocáveis. Mesmo junto daquelas que se viram desiludidas ou ficaram elucidadas com as experiências brutais do estalinismo e os trajetos falhados das últimas décadas do «socialismo real», Cuba permaneceu como o último dos santuários, associado a uma espécie de bem imanente que não deve nem pode ter um fim histórico e dar lugar a outra possibilidade. Ligada a uma experiência única, venerável mesmo quando se percebe, e há provas disso, que já não mobiliza e muito menos assombra.

                            Para compreendê-lo recuo no tempo que moldou a memória que partilhei, e ainda partilho, com essas pessoas. Quando os barbudos da Sierra Maestra tomaram o poder em Havana, já era vivo. Sabia ler, ou soletrar, o jornal que o meu avô me punha à frente todos os dias, e julgo que por causa desses momentos parte das minhas mais recônditas recordações políticas semligam à imagem daqueles homens e mulheres de porte jovem e desobediente, sublimes e diferentes para quem vivia num universo cor de cinza, ordeiro e aparentemente imutável. Anos depois, fui percebendo que aquelas imagens tinham participado de uma forma poderosa no modo como a minha personalidade foi sendo estruturada. Sei que algo de semelhante aconteceu com muita gente, mais ou menos da minha geração ou um pedaço mais velha, e um pouco por toda a parte: em Portugal, por toda a Europa, na América Latina ou até nos Estados Unidos. Falei disso com algumas, e ainda o faço de vez em quando, e li também alguma coisa sobre o assunto, como Cuba: Island of Dreams, um livro de Antoni Kapcia publicado em 2000, ou um óptimo estudo de Kepa Artaraz (de quem saiu, na Palgrave, Cuba and Western Intellectuals Since 1959).

                            Percebo, pois, que para muitos dos que vivem da fidelidade às causas e às convicções que os compuseram, e que pelas circunstâncias da vida não foram desenvolvendo uma capacidade de adaptação à novidade – o que não é necessariamente mau ou bom – reconhecer o falhanço e a desonra do caminho tomado pela Cuba «revolucionária» é qualquer coisa que custa a engolir. Mesmo quando se aceita que a condição de gratuitidade da saúde é importante, que a educação, apesar de não livre, é para todos – também o eram a saúde e a educação dirigida na generalidade dos países do leste europeu até à Queda do Muro de Berlim -, percebe-se, pois quem visite a ilha com os ouvidos abertos sabe que tal não chega para um número crescente de cubanos, que isso não basta para continuar a apontar Cuba como modelo. Ainda que possa bastar para uns quantos prosélitos continuarem a elogiar a caduca fortaleza que consideram um Eldorado e um modelo a seguir.

                            Custa sempre, de facto, descartar as marcas que pautaram os ideais de juventude, ou que nortearam toda uma vida, e foi isso que os tais dois ou três meus ex-amigos revelaram. Penso neles, nesses companheiros que perdi, furiosos com as minhas críticas à rigidez do regime de Havana, à repressão que instituiu, à violência que continua a exercer, após vai para seis décadas de vida, sobre os cidadãos que pensam por conta própria, nesta noite na qual se perfazem os 50 anos sobre a queda do ditador Batista e a bela vitória da revolução dos mal-fardados de verde-oliva. E tenho pena de que tenham parado os seus relógios algures num tempo que não volta. Num passado no qual, todavia, precisam dramaticamente confiar para continuarem a olhar-se ao espelho como gostam de se ver.

                              Atualidade, História, Memória, Olhares

                              Outro olhar

                              Amos Oz

                              Não necessariamente menos discutíveis, mas certamente menos comuns na blogosfera que observa a realidade apenas com um dos olhos, são as palavras de Amoz Oz no artigo «Israel deve defender os seus cidadãos», divulgado hoje na edição do Público. Aqui ficam alguns extractos, à consideração dos passantes:

                              «O mundo árabe irá cerrar fileiras em torno das imagens atrozes que a Al-Jazira irá emitir de Gaza e o tribunal da opinião pública mundial apressar-se-á a acusar Israel de crimes de guerra. Este é o mesmo tribunal da opinião pública que se mantém insensível perante o bombardeamento sistemático das povoações de Israel.»

                              «Vai haver muita pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão semelhante sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar e porque já não há praticamente nada que possa ser usado para os pressionar. Israel é um país; o Hamas é um gang

                              «Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel deve agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção.»

                                Atualidade, Democracia, Recortes