Num acesso de extremo ridículo, o Expresso compara a saída de Joana Amaral Dias da direcção do Bloco de Esquerda a uma purga à maneira de José Estaline. E para ilustrar o absurdo – num apontamento que intitulou de um modo supostamente irónico «Do passeio no Volga à Convenção do Areeiro» – nada melhor que relembrar a recorrente prática estalinista de fazer desaparecer dirigentes dos lugares que ocupavam no Partido, na vida e na história, ilustrando a referência com uma conhecida imagem manipulada na qual ocorreu o apagamento de Nicolai Yezhov, desta maneira apresentado como um mártir da liberdade. Saberá o relator anónimo de tal apontamento quem era o seu momentâneo herói Yezhov, mais conhecido por «o Anão», Comissário do Povo para os Assuntos Internos e responsável entre 1936 e 1938 pela chamada «Yezhovschina», a fase mais aguda do Grande Terror durante a qual centenas de milhares de comunistas e de quadros do Estado soviético foram torturados, executados ou, com um pouco mais de sorte, condenados a um exílio siberiano geralmente sem retorno? Yezhov ousou a dada altura chantagear figuras próximas do «Pai dos Povos» – começara mesmo a reunir material para chantagear o próprio Estaline – acabando por ser substituído pelo nosso bem mais conhecido Lavrentiy Beria. Foi executado em 1940. A analogia estabelecida pelo «semanário de referência» é demasiado absurda para parecer cómica. O Bloco lá terá os seus defeitos, mas não consta que Joana Amaral Dias tenha saído aos empurrões e sido enviada para uma abjecta masmorra. Ou apagada, credo!
A forma como vejo a proibição de entrada no Reino Unido de Geert Wilders, o deputado holandês de extrema-direita que tem difundido, no seu país e fora dele, posições abertamente xenófobas, não entra no coro dos aplausos nem no dos apupos. Também me parece que pessoas que pensam e agem como Wilders devem ser contidas nos seus direitos políticos (que usam contra a democracia que os alimenta) e no uso do espaço público que lhes é concedido (do qual se servem para sustentarem formas de ódio e de violência social). A sua intervenção deve ser criminalizada de forma clara e as autoridades policiais e judiciais dos países democráticos devem depois agir em conformidade com a qualidade do crime. Esse seria o princípio que me levaria a aplaudir a medida de proibição imposta pelo governo britânico.
Aceitando-a, não posso, todavia, deixar de ver nela – num registo um pouco diferente, João Tunes fez já a mesma coisa – não a expressão de um meritório princípio democrático, mas o seu contrário. Sendo claro: trata-se de uma cedência cobarde, e não declarada sequer, às práticas intolerantes associadas aos partidários, europeus ou não, de um certo Islão que se crê acima da própria democracia e da cultura laica (e laicista) que a Europa conserva ainda como matriz. As notícias que chegam sobre Fitna, o filme de Wilders que iria ser projectado na Câmara dos Lordes e que o seu autor iria apresentar, coincidem em considerá-lo uma manipulação barata do Corão destinada a criminalizar os muçulmanos apenas pelo facto de o serem, e para isso – o apelo ao ódio religioso – existem, julgo, leis próprias que deveriam ser aplicadas dentro do país no qual o delito fosse cometido. Mas em vez desse gesto arrojado e justo, as autoridades britânicas optaram uma vez mais, como noutras paragens da Europa tem sido feito também, por ceder às pressões dos islamitas e por conservarem o criminoso à distância apenas pelas suas «opiniões radicais contra o Islão», não por ser um potencial e «algemável» criminoso. Outro passo atrás na política de medo e de autodepreciação.
Fabrice d’Almeida é especialista em história da propaganda pela imagem e director do Institut d’Histoire du Temps Présent de Paris. Esta condição é essencial para se compreender melhor o seu interesse por um tempo curto, extremamente próximo do nosso, que pode parecer de uma quase impossível materialização histórica. Mas é justamente esse o seu desafio na Breve História do Século XXI (Teorema): num texto arrojado, D’Almeida parte de alguns acontecimentos relevantes da segunda metade do século de Novecentos para mostrar de que maneira passámos de facto, sem que para tal fosse necessária a intervenção simbólica introduzida pela viragem de milénio, de uma época para outra. O livro apresenta-se como um primeiro ensaio de história geral do século XXI, construído a partir de algumas questões simples que orientam o trabalho do autor: quando e como acabou o século passado? em que preciso momento começou realmente um novo? de que forma pode o historiador trabalhar já sobre este, com que fontes e seguindo que métodos? Para responder ao desafio, procede então a uma revisão da nossa forma de observar o mundo, insistindo em como é preciso desviar o olhar do trágico século XX, que tanto pesa ainda nas nossas consciências, contornando a parasitagem mediática e procurando em todos os documentos possíveis, incluindo-se nestes os mais anódinos, as novas matrizes e os renovados paradigmas que estão já a penetrar a nossa forma de olhar o mundo e de reflectir sobre ele.
A gaulesa Encyclopaedia Universalis, edição de 2009, contém uma entrada sobre Luiz Nazario de Lima Ronaldo e outra sobre Ronaldo Assis de Moreira «Ronaldinho». Não tem uma sobre Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Penso que se trata ainda de uma retaliação pelo facto de, durante a Guerra da Sucessão de Espanha (1702-1714), termos apoiado um Habsburgo contra um Bourbon. Estes franciús são muito vingativos.
Dez anos após a fundação do Bloco de Esquerda, a VI Convenção que decorreu neste fim-de-semana colocou um ponto final e abriu um parágrafo na sua curta e agitada história de sucesso. Se quisermos, o «velho» Bloco de causas, resultante de uma amálgama complexa de percursos colectivos e individuais que em 1999 procuravam sobretudo a construção de uma plataforma que lhes permitisse entenderem-se, seguiu o seu caminho natural, alijando algumas vozes discordantes que se foram afastando (quase sempre pacificamente, sem dramas, o que foi só por si uma novidade para quem vinha de um universo dogmático e habituado a purgas), mas conquistando ao mesmo tempo uma base social alargada e uma visibilidade pública que, nos seus tempos de prática política isolada, militante algum das organizações que lhe deram corpo vislumbrara nos seus melhores sonhos. Quando as sondagens são unânimes a considerarem a grande possibilidade de o Bloco ultrapassar o Partido Comunista, é agora todo um outro horizonte que se abre e que passa, previsivelmente, por uma intervenção cada vez mais apostada em apresentar alternativas de poder, ou com capacidade de intervenção num plano legislativo e de gestão política, no interior do sistema democrático que habitamos. A «esquerda grande» da qual falou ontem Francisco Louçã – expressão que traduz um daqueles tiques popularuchos que de vez em quando ainda escapam –, supõe também uma suposta maioridade que se traduz na superação de uma auto-representação do Bloco e dos seus presumíveis aliados como meras forças protestativas e de contrapoder.
O futuro dirá para onde nos leva o caminho agora aberto. Ficam, no entanto, dois problemas urgentes por resolver e não sei como irá o Bloco lidar com eles, uma vez que, enquanto partido adulto e «de confiança», não pode continuar a manter a seu respeito uma posição de público alheamento. O primeiro deles tem a ver com a posição face ao PCP, que continua assumir-se como um partido anti-sistema e que já declarou publicamente ver no Bloco um dos adversários a abater. A aproximação com os comunistas, como quase toda a gente sabe, apenas será possível numa situação crítica e de confronto com um inimigo maior – que felizmente não se vislumbra -, uma vez que lhes está nos genes identitários a vontade de se assumirem como força dirigente, arrastando atrás de si os sectores que considera «menos consequentes» e que apenas respeitarão enquanto os puderem instrumentalizar. O segundo problema tem a ver com o apagamento quase completo de uma esquerda radical, de protesto e de denúncia, não comprometida com as máquinas do poder, que o Bloco praticamente «secou». Este campo é necessário porque é ele quem pode dizer «inconveniências», apontando em quaisquer circunstâncias para a nudez do rei, e em breve os dirigentes bloquistas pensarão duas vezes, se é que o não fazem já, no preço político e eleitoral que pagam pelo empenho dado a combates demasiado delicados e a causas minoritárias.
Em todo o caso, e independentemente da forma como estes dois problemas poderão ser resolvidos, digo sempre a mesma coisa a quem me pergunta, perante as posições independentes e muito críticas que vou tomando aqui e ali – quase sempre distanciadas da minha frágil e efémera antiga militância bloquista -, se afinal irei votar nas próximas eleições. Digo que sim, que irei votar. No Bloco de Esquerda, claro.
Jerónimo de Sousa falou em entrevista ao Rádio Clube da possibilidade (condicionada, é certo) de um acordo pós-eleitoral do PCP com o PS. Devem ser efeitos secundários dessa gripe manhosa que por aí anda. Bem o avisaram para que não apanhasse correntes de ar.
Misha Glenny estudou em Praga e trabalhou diversos anos nos Balcãs, o que lhe deu uma certa vantagem no reconhecimento de alguns dos caminhos mais sombrios por onde, após o aluimento dos regimes socialistas do Leste, passou a alojar-se o universo desterritorializado da nova criminalidade. Com efeito a primeira parte de McMáfia: O Crime Organizado Sem Fronteiras (Civilização Editora) ocupa-se da Rússia e dos países que durante décadas orbitaram na sua área de influência política, dando particular destaque ao que ocorreu na Bulgária e que pode servir como paradigma de uma certa transição: os serviços secretos desempenharam ali, durante o período comunista, um papel muito importante no tráfico de armas e de drogas na Europa ocidental, e muitos dos seus ex-agentes transitaram directamente para o crime organizado. Sempre com muitos detalhes, o livro parte depois ao encontro das novas rotas abertas ao delito transformado em instituição a partir do final da década de 1980, abordando também a sua actividade e o seu impacto no Médio Oriente, na Índia, na Colômbia, no Brasil, no Japão ou na África do Sul. Da prostituição e do negócio das armas, ao comércio de drogas, diamantes e órgãos humanos, passando pelo cibercrime e pela contrafacção, é toda uma economia paralela, erguida hoje à escala planetária e assente numa ordem imposta pela lei e pela força do mais forte, que se abre aqui ao leitor. Fazendo da velha Máfia quase um pacato território de cavalheiros.
A verdade é límpida e é esta: já tenho mais pessoas a seguirem-me no Twitter do que tinha Jesus Cristo a seguirem-no na época da última ceia ou Maomé quando abandonou Meca com destino a Medina.
Miss Johansson, a moçoila trigueira que impressiona favoravelmente 90% dos homens de meia-idade (e 89% dos outros), afinal canta um bocadinho pior ainda – ah, aquele «it’s over, it’s over» em re sustenido maior! – do que cantava outrora a Dra. Marilyn. Estarei errado?
[audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2009/02/17-scarlett_johansson-last_goodbye.mp3]
Há já algum tempo online em fase experimental, está finalmente pronto e inteiramente disponível Guerra Colonial | 1961-1974, um excelente e muito completo sítio contendo informação sobre o longo e dramático conflito que marcou a experiência de gerações e continua a marcar a memória de milhões de europeus e de africanos que falam português.
José Eduardo Agualusa comenta no prefácio que escreveu para Fragmentos de Angola, de Sébastien e Thomas Roy (Teorema) que ali se dá a ver Angola, e em particular a cidade de Luanda, «não apenas a quem nunca a viu, mas também a quem sempre lá viveu e que, de tanto a ter diante dos olhos, se tornou cego para inúmeras evidências.» Talvez por chegarem de um mundo à parte, e sem a carga de memória de quem acompanhou de perto a descolonização e a destrutiva guerra civil, os dois franceses responsáveis por estas impressões de viagem e pelas fotografias a preto e branco que as acompanham produzem no leitor um efeito análogo ao de quem leia as notas de uma viagem até um planeta desconhecido. Fala-se aqui de uma Angola pós-guerra civil, que conhece finalmente a paz mas vê-a crescer associada a uma sociedade persistentemente desigual, na qual a esperança e o optimismo, nela quase essenciais, todos os dias se vêm confrontados com a ausência de um futuro previsível. É também um livro de «memórias em diferido», entre a reportagem e o devaneio literário, que vai associando a observação directa e o testemunho pessoal a referências explícitas fundeadas na história recente. Porque nesta paisagem, umas vezes desolada, pontuada por escombros, outras vezes luminosa e excitante, se vislumbram ainda, a todo o instante, as ligações com um passado do qual se vêem as sombras.
Algumas linhas mais ainda a propósito do caso das manifestações xenófobas, ocorridas no norte de Inglaterra, que visaram alguns trabalhadores portugueses e foram apoiadas por sindicatos locais (ver um pouco abaixo). António Santana Carlos, o embaixador de Portugal no Reino Unido, confirmou à imprensa que não se deslocou à região onde ocorreu o conflito mas conseguiu «falar com um trabalhador», embora não tenha especificado se o fez telefonicamente, se por e-mail, SMS ou Twitter. Quanto às duas dezenas de compatriotas seus, intimidados, isolados e deixados sem apoio pelas autoridades portuguesas e pelos mesmos sindicatos, afirmou o embaixador que estes regressaram a Portugal «de livre vontade». Pois então, sendo assim, tudo bem e paz na terra aos homens de boa vontade.
J. L. Saldanha Sanches disse a noite passada no programa de televisão da outra senhora que «não há obras públicas sem saco azul». Faz parte da ordem natural das coisas e não existe crise económica ou política antidespesista que a possa contrariar. É assim pelo menos desde o tempo dos sumérios e dos seus construtores de zigurates. Porque haveríamos nós de ser diferentes?
John Gray sustenta que a experiência política contemporânea não é senão um capítulo da história da religião, procedendo do cristianismo e da sua concepção linear do tempo. Ela integra a crença num momento e num locus utópico que saiu reforçada com a afirmação, após o triunfo da Revolução Francesa, de narrativas apostadas em conceber a História como trajecto lançado num único sentido, em condições de abrir as portas a um amanhã irrevogavelmente afortunado. Expressão de uma vertigem que sublima o antigo impulso religioso, a retórica pós-revolucionária – nas vertentes jacobina, bolchevique ou nazi – afirmou assim a crença num futuro colectivo, feliz e decisivo, embora se tenha mostrado inapta para promover a sua efectiva construção. Gray considera que ela não fez senão retomar as convicções messiânicas, fundadas na ideia de que a História possui uma intriga subjacente, que cruzaram a Baixa Idade Média e atravessaram os tempos modernos, dando corpo a movimentos milenaristas de natureza religiosa ou secular.
Em grande parte de A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas, ocorre um esforço para mostrar de que forma em diversas situações contemporâneas – como a ascensão do neoliberalismo e da Terceira Via, o intervencionismo militarista americano, a ascensão dos fundamentalismos islâmico e cristão, ou as tensões em redor das novas formas de terrorismo -, se detecta o mesmo erro básico e funesto, traduzido na convicção de que existe uma espécie de finalidade histórica única, destinada a impor um modelo universal, pela qual alguém deve assumir a responsabilidade. Particularmente visada é a intervenção dos utopistas neoconservadores e religiosos na definição da política externa americana sob a administração de George W. Bush, tanto na sua vertente mais pragmática (procurando, por exemplo, impor um modelo ocidental de democracia para o Iraque), quanto no seu lado assumidamente apocalíptico, destinado a vincar o papel redentor dos Estados Unidos da América.
Como numa missa negra – Black Mass é o título original da obra, que a tradução portuguesa não seguiu -, verifica-se uma inversão perigosa do objecto sagrado. A dimensão utópica, essencialmente consagrada como positiva e redentora ao longo dos últimos dois séculos, é aqui voltada então do avesso e apontada aos humanos como um ídolo sedento de sangue, destinado a causar logros, desilusões, ou, bem pior, a impor por toda a parte o sofrimento e a morte. As utopias, diz Gray, «são sonhos de libertação colectiva que na vida real se transformam em pesadelos.»
Nesta obra de filosofia política, patenteia-se uma leitura cínica, embora sedutora, do conceito de utopia. Leitura que passa pela eleição de um antídoto destinado a derrotar o canto de sereia que esta a todo o momento sugere. O autor chama realismo a esse antídoto, definindo-o como a aceitação de que a vida não consiste afinal na demanda de soluções absolutas e salvadoras, mas antes, inversamente, no reconhecimento da existência de problemas insolúveis frente aos quais se devem ir apenas, caso a caso, tomando as decisões possíveis. Contra as utopias que exprimem uma continuação da religião por outros meios, sugere-se pois um contra-veneno. Resta saber se este funcionará e se a atracção pela imaginação utópica não é de facto, como insistiu, entre outros, Ernst Bloch, uma característica recorrente e inevitável, contra a qual a consciência do realismo pouco poderá.
John Gray, A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas. Tradução de Freitas e Silva. Guerra e Paz, 312 págs.