Sobre a série Fauda

Este não será um texto lido de forma pacífica. Vem na sequência de outros que tenho escrito, associados a um esforço, cada vez mais difícil de levar a cabo, e cada vez mais inglório, devido sobretudo às ações criminosas do governo de Tel Aviv, para não generalizar a todos os/as israelitas a culpa pelo comportamento crescentemente genocida de quem desde há décadas – com o apoio da direita política, da extrema-direita sionista e de algumas organizações judaicas ultraortodoxas – maioritariamente tem governado Israel. Partindo sempre do princípio, a meu ver fundamental e justo, segundo o qual a única solução possível para o terrível conflito israelo-palestiniano passa pela afirmação de dois estados independentes, pacíficos, viáveis, cooperantes, democráticos e, tanto quanto o possível, laicos, deixando «a Deus o que é de Deus».

Abordo aqui uma série israelita de televisão, de grande qualidade, embora sem dúvida polémica, da qual acaba de ficar pública na Netflix a quinta e mais recente temporada. Fauda – فوضى ou פאודה; palavra usada no árabe e no hebraico para significar «Caos» – é do género aventura e espionagem, tendo sido criada por Lior Raz, também o principal ator, e por Avi Issaccharoff, e estreou no início de 2015. Distribui-se por cinco temporadas, uma sensivelmente a cada dois anos, todas requerendo um grande esforço de realização e de direção de atores que é claramente conseguido. Fundada num contexto social, cultural e político muito realista, a série trata a ação de um grupo secreto da Shin Bet, a Agência de Segurança de Israel, composto por homens e mulheres imersos na cultura árabe, falantes da língua e conhecedores das tradições palestinianas, que tem por objetivo descobrir as movimentações no terreno dos ativistas radicais do Hamas.

Para além da elevada qualidade plástica e artística – que envolve praticamente todos os atores, mesmo os secundários – o que até agora tem feito Fauda especial na sua relação com o atual contexto do conflito são dois fatores centrais: por um lado, uma profunda empatia com a cultura islâmica, ao ponto de por vezes o espectador não distinguir de que lado se situa quem; por outro, um trabalho de colaboração quase regular com as forças de segurança da Autoridade Palestiniana, procurando minimizar os efeitos da violência cultivada pelo setores extremistas de ambos os lados. A série, sempre trepidante, tem neste sentido, ou tinha até agora, uma dimensão claramente pedagógica. Todavia, a recente 5ª temporada inflete a orientação das anteriores.

O motivo principal é a narrativa partir dos acontecimentos de 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou o seu maior ataque contra Israel, visando bases militares, kibutz e um festival juvenil de música. Matou então 1 200 civis e fez mais de 250 reféns – os episódios 7 e 8 reconstituem parte da operação – tendo a subsequente retaliação sido usada por Netanyahu para levar a cabo uma iniciativa sem tréguas e de terra queimada contra Gaza e todos os seus habitantes, atacando também áreas da Cisjordânia e do Líbano. Como era de prever, os dois momentos são inseparáveis e a série documenta muito bem de que forma o fator psicológico, apoiado no medo, no trauma e no desejo de vingança de muitos israelitas, amplia a incompreensão. Contra, como declararam, aquilo em que os criadores tinham pensado para a temporada. No final do último episódio reforça-se o valor da memória dos combatentes caídos, mas agora já só os de um dos lados. Sinal do crescimento do ódio e de regressão da paz ao qual Fauda não escapou.

[na fotografia, Avi Issaccharoff e Lior Raz, cocriadores da série]
    Artes, Etc., História, Memória, Olhares.