Arquivos Mensais: Abril 2025

A liberdade não tem dono

Mais em umas que em outras, mas em diferentes manifestações de rua do 25 de Abril foi visível a tentativa, por parte de uma força política, de se tentar apropriar dos desfiles, das suas palavras de ordem, das suas canções, até da sua organização, desdobrando-se por lugares vários e diferentes entidades nos desfiles. Também tem procurado apropriar-se da sua história e da sua memória, que muitas vezes se esforça até por reescrever. Acontece há décadas, mas quanto mais essa força se torna realmente mais frágil e perde expressão eleitoral – infelizmente, a meu ver, mas sobretudo por culpa própria -.mais a tendência se acentua. Porém, a liberdade, no seu sentido amplo e plural, não tem dono, é de todos e de todas, salvo dos fascistas, seus inimigos jurados. Por isso, nela cabem também os que continuam a insistir nesse triste papel. Que desaparecerá de cena um dia que há-de chegar.

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    A extrema-direita entre o mantra e a lengalenga

    O mantra é uma fala monocórdica e repetitiva, em regra recitada ou cantada de forma ritual por seguidores do budismo e do hinduísmo. A sua harmonia pode incluir qualquer som, sílaba, palavra ou frase, desde que estes detenham um poder próprio, visando estimular o propósito sagrado de quem o pronuncia. O termo vem do sânscrito, significando «controlo da mente», sendo isto obtido num processo de concentração da consciência que essa repetição em boa parte impulsiona. Do seu lado, a dimensão ritualizada do mantra confere-lhe uma aura de sagrado, enquanto retira a quem o pronuncia a necessidade de procurar palavras próprias, usando então, de um modo mecânico, apenas aquelas que sucedem de geração em geração. Em português usamos um termo, lengalenga, com significado parcialmente análogo. Aplica-se a narrativas ou falas extensas, fastidiosas e expectáveis, de diferentes géneros, que se movem em círculo, numa cantilena que nada contém de novo e se faz ecoar a si própria.

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      Atualidade, Democracia, Opinião

      Neste tempo que vivemos

      Ao longo de mais de duzentos anos, as consignas da Revolução Francesa no seu combate contra o Antigo Regime, traduzidas na afirmação gradual dos grandes princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade, materializaram, apesar das suas limitações e contradições, apesar também da sabotagem dos seus agressivos inimigos, um horizonte de felicidade terrena para o qual todas as propostas progressistas deveriam apontar. Como aconteceu com as ideias de verdade, de justiça, de compaixão, de honestidade, de confiança, de equilíbrio, de ética ou de paz. Todas de igual modo discutíveis e contraditórias, mas todas identicamente inscritas numa ideia de humanidade tendencialmente voltada para um futuro melhor. Vivemos agora o tempo da sua negação, e nele, salvo para os indiferentes e os tolos, as manhãs são sem sol e de pesadelo. É preciso, todavia, reconstruir a esperança para não regressarmos ao negro estado de barbárie e de opressão. E, a cada dia, para o conseguirmos, importa bater a realidade para reunir forças. 

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        A «paz podre» e a desfiguração do drama ucraniano

        Ao conversar com quem conhece bem a realidade da Ucrânia e do leste europeu, tenho sido confrontado com a sua surpresa sobre a contradição entre a forma como setores da esquerda portuguesa encaram o regime de Kiev, a guerra e o caminho para a paz, e o modo como o faz a maioria da esquerda ucraniana. Não consideram na comparação os grupos e indivíduos nostálgicos da União Soviética e da Europa pré-1989 – desde logo o Partido Comunista, banido logo em 1991 e de novo em 2015, o Partido Progressista Socialista, proibido em 2022, após a invasão de fevereiro, e pequenas forças interditas em 2024 –, colaborantes da agressão russa e separatistas, mas numerosas personalidades de orientação socialista, libertária, feminista e verde, e, na mesma área, organizações como o Movimento Social e a Ação Direta, defensoras da resistência ativa a Moscovo. 

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          Um 1º de abril que «já era»

          Sabemos que a mentira, o erro e a deturpação sempre existiram. Pelo menos desde a invenção da escrita, muito provavelmente bem antes dela. Mas atualmente alguns orgãos de comunicação sedentos de atenção e com frágil sentido da civilidade, associados à realidade tumultuosa e selvagem das redes sociais, estão de tal forma cheios deles que a própria ideia de verdade se encontra banalizada. Tudo pode ser «verdade», como tudo pode ser «mentira», sejam elas grafadas com ou sem aspas. Neste contexto, as patranhas do 1º de abril deixaram de o ser, pois parte da piada consistia em encontrar uma mentira de certo modo única e implausível. Não uma «inverdade» entre muitos milhares delas.

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