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Seamus Heaney (1939-2013)

Seamus Heaney

I thought of walking round and round a space
Utterly empty, utterly a source
Where the decked chestnut tree had lost its place
In our front hedge above the wallflowers.
The white chips jumped and jumped and skited high.
I heard the hatchet’s differentiated
Accurate cut, the crack, the sigh
And collapse of what luxuriated
Through the shocked tips and wreckage of it all.
Deep planted and long gone, my coeval
Chestnut from a jam jar in a hole,
Its heft and hush become a bright nowhere,
A soul ramifying and forever
Silent, beyond silence listened for.

Imaginei-me a andar sempre em redor de um espaço
Totalmente vazio, totalmente origem,
Onde o castanheiro em flor perdera o seu lugar
Na sebe em frente à casa, entre os goivos.
Lascas brancas saltaram, ressaltaram alto.
Ouvi os golpes certeiros mas diversos
Do machado, o estalo, o suspiro e o colapso
De tudo o que fora florescente e belo
Entre os ramos em choque e a ruína final.
Plantado num frasco, bem fundo, e há muito
Abatido, o castanheiro meu coetâneo
Torna-se, com a sua pujança e quietude,
Um não-lugar brilhante, alma que ramifica
P’ra sempre silente, p’ra lá do silêncio que se escute.

S.H. – De Clearances / Clareiras (Trad. Rui Carvalho Homem)

    Biografias, Leituras, Poesia

    O Inspector das Tempestades

    Henry David Thoreau (1817-1862), o poeta, o naturalista e o filósofo de Concord, Massachussetts – no tempo em que o Massachussetts era o cu do mundo e ainda por ali se mantinham visíveis e transitáveis as antigas pistas índias –, foi professor e explicador, depois fabricante de lápis, preceptor, jardineiro e agrimensor. Gostava porém, de uma forma irónica e profundamente poética, de se apresentar publicamente como «inspector das tempestades».

      Apontamentos, Biografias, Olhares, Poesia

      Falar com os becos

      Paul Celan com Nani e Claus Demus
      Londres,1955

      Falar com os becos sem saída
      ali defronte,
      da sua
      expatriada
      significação –:

      mastigar
      este pão, com
      dentes de escrita.

      Paul Celan – de A parte da neve
      (Trad. de João Barrento e Y. K. Centeno)

        Apontamentos, Poesia

        Estava com o meu povo

        Não, nunca sob a cúpula de um estranho céu,
               E nunca sob a proteção de asas alheias,
               Eu estava com o meu povo naquela época,
               Lá onde infelizmente o meu povo vivia.

        Anna Akhmatova – prólogo à edição de 1961 de Requiem (Trad. RB)

          Apontamentos, Poesia

          Há espelhos

          HÁ ESPELHOS

          – em que de uma forma confiada
          nos vamos olhando
          todos e cada um dos nossos dias –

          que de repente
                         se partem
          e deixam ver
                     nos seus pedaços gelados
          essas facas de que eram feitos.

          Lorenzo Oliván – de Visiones y revisiones
          (Trad. de Joaquim Manuel Magalhães)

           

            Apontamentos, Poesia

            Quase chuva

            No ar a espiral empurra a brisa, leva-a
            quarenta léguas adentro do Mar Oceano.
            Perto, o silêncio simula a tranquilidade,
            o céu esconde-se, as árvores inquietam-se.
            Um vulto passa vadio, quase a adivinhar
            a chuva que vem como vapor de lavandaria.
            O Oldsmobile de 57 parece nascido ali
            e não ao longe, num subúrbio de Detroit.
            Na marginal deserta os rostos vacilam
            certos da presença ameaçadora dos cães.
            O horizonte ignora a tempestade, inábil,
            tão próxima quanto a sombra que a veste.

              Olhares, Poesia

              Subindo, temos

              Paul Celan aos 18

              Estacas com bandeiras
              recrutadas para dar as boas-
              -noites à esquerda
              do leme.

              cardumes de olhos, oceânicos
              por dentro, para sempre
              por sobre
              as baleias
              que nadam até ficar cegas,
              lançam para cima
              os seus últimos males,
              para o que, subindo, temos
              de sondar.

              Paul Celan – De A morte é uma flor. Poemas do espólio
              (Trad. de João Barrento)

                Olhares, Poesia

                Les feuilles mortes


                | Yves Montand em Parigi è sempre Parigi (1951), de Luciano Emmer

                Elegia e Recordação da Canção Francesa
                por Jaime Gil de Biedma

                C’est une chanson
                que nous ressemble.
                J. Kosma e J. Prévert: Les feuilles mortes

                Lembrai-vos: a Europa estava em ruínas.
                Todo um mundo de imagens me resta desse tempo
                descoloridas, a ferir-me os olhos
                com os escombros dos bombardeamentos.
                Em Espanha, a gente apertava-se nos cinemas
                e não existia aquecimento.

                Era a paz – depois de tanto sangue –
                que chegava andrajosa, como a conhecemos
                os espanhóis durante cinco anos.
                E todo um continente empobrecido,
                carcomido de história e de mercado negro,
                de repente foi-nos mais familiar. (mais…)

                  Olhares, Poesia

                  Plano de fuga

                  Não define a ausência
                  o conhecimento da terra,
                  a proximidade dos lírios, das
                  estradas sem destino.
                  Não conhecem roteiros a
                  sabedoria do sol e o silvo
                  dos insectos sem asas e cegos
                  que procuram água.
                  Não existe poesia sem
                  conhecimento, saber sem sal,
                  na vida diária feita de passos e
                  de réstias e de perdas.
                  Não sabem os trilhos dos mapas
                  perdidos inventados
                  ou da existência de um norte
                  frio, férreo, inamovível.
                  Não produzem os passos linhas
                  e nós de navegação
                  para que possamos desenhar
                  um ótimo plano de fuga.

                    Olhares, Poesia

                    Um Che imperfeito

                    Ernesto Guevara de la Serna
                    por Hans Magnus Enzensberger

                    Durante uns tempos, milhares usaram o seu pequeno boné
                    e multidões desfilaram com retratos seus
                    em grande formato, gritando bem alto o seu nome.
                    Agora, aqueles cortejos pela City quase parecem irreais,
                    como o país e a classe que o viram nascer.

                    Longe dos matadouros e das barracas e dos bordéis
                    ia-se desfazendo a casa do pai, junto ao rio. O dinheiro fora-se,
                    mas a piscina ficou. Um rapazinho tímido,
                    alérgico, muitas vezes quase a sufocar. Em luta com o seu corpo,
                    fumando charutos, fez-se homem (o que isso seja, não é história para aqui). (mais…)

                      Biografias, Memória, Poesia, Recortes

                      Girassol

                      Nem bancos de lama,
                      nem água negra e lodosa
                      cheia de pinhas de amieiro e folhas corroídas.

                      Nem salsa-brava no inverno
                      canelas e pulsos velhos e esbranquiçados,
                      com a sua sibilância, o seu tremor.

                      Nem mesmo o verde vivo de uma sombra veranil
                      densa com borboletas
                      e cogumelos bojudos como uma sela de couro.

                      Não. Mas antes, na quietude de um canto,
                      agarrado ao seu muro ponteado a seixos,
                      pesado, pendendo para a terra, todo boca e olhos,

                      O girassol, num sonho cor de umbra.

                      Seamus Heaney – fragmento de Trabalho de Campo
                      (Trad. de Rui Carvalho Homem)

                        Olhares, Poesia

                        Ecos

                        T. S. Eliot

                        O tempo presente e o tempo passado
                        Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
                        E o tempo futuro contido no tempo passado.
                        Se todo o tempo é eternamente presente
                        Todo o tempo é irredimível.
                        O que podia ter sido é uma abstracção
                        Permanecendo possibilidade perpétua
                        Apenas num mundo de especulação.
                        O que podia ter sido e o que foi
                        Tendem para um só fim, que é sempre presente.
                        Ecoam passos na memória
                        Ao longo do corredor que não seguimos
                        Em direção à porta que nunca abrimos
                        Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
                        Assim, no teu espírito.
                                                        Mas para quê
                        Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
                        Não sei.
                                                 Outros ecos
                        Habitam o jardim. Vamos segui-los?

                        T. S. Eliot – Fragmento de Burnt Norton (Trad. Maria Amélia Neto)

                          Olhares, Poesia

                          Alquimia do Verbo

                          Rimbaud
                          Rimbaud. Desenho de Laure B.

                          Há cerca de dez anos traduzi um pouco de Rimbaud para uma publicação da qual perdi o único exemplar que me foi enviado. Reencontrei agora parte desse trabalho que julgara perdido.

                          A mim. A história de mais uma das minhas loucuras.
                          De há muito que me vanglorio de
                          possuir todas as paisagens possíveis e que acho ridículas
                          as celebridades da pintura e da poesia moderna.

                          Amei pinturas idiotas, vãos de portas, bugigangas,
                          panos de saltimbancos, estandartes, estampas baratas,
                          literatura fora de moda, latim eclesiástico,
                          livros eróticos sem caligrafia, romances antigos,
                          contos de fadas, contos para crianças, velhas óperas,
                          refrões ingénuos, ritmos simplicíssimos.

                          Sonhei com cruzadas,
                          com viagens de descobrimento das quais não existiam relatos,
                          repúblicas sem histórias, guerras de religião sufocadas,
                          revoluções de costumes, movimentos de raças e de continentes:
                          acreditei pois em todas as magias.

                          Inventei a cor das vogais! – A negro, E branco,
                          I vermelho, O azul, U verde
                          Determinei a forma e o movimento de cada consoante,
                          e, com ritmos instintivos,
                          procurei inventar um verbo poético acessível, custe o que custar,
                          a todos os sentidos. Guardei a tradução.

                          Era acima de tudo um esboço. Escrevi os silêncios,
                          as noites. Anotei o indizível. Fixei vertigens

                          Arthur RimbaudAlchimie du Verbe (Trad. de Rui Bebiano)

                            Artes, Poesia

                            Paraíso sobre os telhados

                            Cesare Pavese
                            Cesare Pavese

                            Será um dia tranquilo, de luz fria
                            como o sol que nasce ou que morre, e o vidro
                            fechará por fora o ar sórdido.

                            Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,
                            na tepidez do último sono:
                            a sombra será como a tepidez. Encherá o quarto
                            pela grande janela um céu mais vasto.
                            Da escada subida um dia para sempre
                            não virão mais vozes nem rostos mortos.

                            Não será preciso deixar a cama.
                            Só a aurora entrará no quarto vazio.
                            Bastará a janela para vestir cada coisa
                            de uma claridade tranquila, quase uma luz.
                            Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.
                            As recordações serão coágulos de sombra
                            calcados quais velhas brasas
                            na chaminé. A recordação será a chama
                            que ainda ontem picava nos olhos apagados.

                            Cesare Pavese – De Paternidade
                            (Trad. de Carlos Leite)

                              Olhares, Poesia

                              Uma gente

                              Wislawa Szymborska
                              Wislawa Szymborska

                              Uma gente em fuga de outra gente,
                              num país debaixo do sol
                              e de algumas nuvens.

                              Deixam para trás um tal seu tudo,
                              campos semeados, umas galinhas, cães,
                              espelhos, nos quais o fogo se mira,

                              levam às costas os cântaros e as trouxas,
                              quanto mais vazios mais pesados com o passar dos dias.

                              É em silêncio que alguém desfalece,
                              é na algazarra que alguém arranca o pão de alguém
                              e alguém sacode o filho morto.

                              Nunca é pela estrada que têm à frente,
                              nem é esta ponte
                              sob a qual passa um rio estranhamente avermelhado.
                              Em redor, disparos, ora longínquos ora próximos,
                              no alto, um avião errante rodopia.

                              Dava jeito ser invisível,
                              pedra de cor parda,
                              ou ainda melhor não existir
                              durante um pouquinho ou por mais tempo.

                              Mais ainda está por acontecer, apenas onde e quando.
                              Alguém lhes sairá ao caminho, apenas quem e quando,
                              de que forma e com que intenções.
                              Se puder escolher,
                              talvez não queira ser inimigo
                              e os deixe com alguma vida.

                              Wislawa Szymborska – de Paisagem com Grão de Areia
                              (trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves)

                                Apontamentos, Poesia

                                Wislawa Szymborska

                                Wislawa Szymborska

                                Hoje cedo, de manhãzinha, morreu Wislawa Szymborska (1923-2012). Na sua casa de Cracóvia, tranquila, enquanto dormia, se querem saber. Mas isso agora já pouco importa.

                                Herdamos a esperança –
                                o dom de esquecer.
                                E tu verás como damos
                                à luz no meio de ruínas.
                                (de «Uma expedição não realizada aos Himalaias»)

                                  Olhares, Poesia

                                  Perfilados de Medo

                                  [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=OzwdYxxhwPc[/youtube]

                                  Sobre uma fotografia de sentido expressivo petrificante, tirada ontem durante a cerimónia oficial de abertura do Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, e uma troca de comentários no Facebook a respeito da mesma (e apenas dela, não do evento), recupero uma canção de José Mário Branco com cerca de quarenta anos composta sobre um soneto de Alexandre O’Neill com mais de cinquenta.

                                  Perfilados de medo, agradecemos
                                  o medo que nos salva da loucura.
                                  Decisão e coragem valem menos
                                  e a vida sem viver é mais segura.

                                  Aventureiros já sem aventura,
                                  perfilados de medo combatemos
                                  irónicos fantasmas à procura
                                  do que não fomos, do que não seremos.

                                  Perfilados de medo, sem mais voz,
                                  o coração nos dentes oprimido,
                                  os loucos, os fantasmas somos nós.

                                  Rebanho pelo medo perseguido,
                                  já vivemos tão juntos e tão sós
                                  que da vida perdemos o sentido…

                                    Apontamentos, Música, Olhares, Poesia