Arquivo de Categorias: Democracia

Cabo Verde e a beleza das mulheres

A grande visibilidade que o Mundial de futebol está a dar a Cabo Verde tem trazido consigo, sobretudo nas redes sociais, apreciações simpáticas, aliás merecidas, sobre aspetos vários da sua realidade. Muitos deles, recorrentes, têm enfatizado «a beleza das mulheres caboverdianas», que é agora possível encontrar em abundância nas reportagens da televisão e na Internet. Não só concordo subjetivamente com a apreciação, como a estendo aos homens, pois grande número de naturais de Cabo Verde ou da sua diáspora, têm realmente, sob o meu olhar, uma beleza invulgar. Talvez advinda do processo de mestiçagem do qual resultam desde o povoamento inicial das ilhas, a partir de 1462, por portugueses e depois por pessoas escravizadas vindas de África.

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    O grande equívoco «social-democrata»

    A história ajuda-nos a entender o presente de uma forma mais completa. Pode, por isso, servir para dissipar o equívoco que entre nós persiste há décadas a propósito da designação do Partido Social-Democrata. Sem diluir o logro histórico em que ele assenta, é difícil compreender a essência política do partido, bem como as escolhas que adota e as expetativas que projeta no eleitorado. Vamos então viajar no tempo, até à origem e à gradual identificação da social-democracia como a ideologia que orienta a atividade de muitos partidos e movimentos que integram uma influente corrente do panorama político contemporâneo. 

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      A boa netiqueta

      Logo após 1993, quando comecei a utilizar regularmente a Internet – ainda em computadores Unix sem modo gráfico – o aumento de tráfego fez com que se definissem regras básicas do que então se chamou netiqueta (‘netiquette’), destinadas a regular comportamentos e a evitar problemas. Pedi à Inteligência Artificial que lembrasse o que é (foi) e tive a surpresa de ver que todas elas, a serem aplicadas, se manteriam muitíssimo úteis. Por mim, continuo a usá-las sem falha. Aqui vai o texto da IA.

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        Quatro polémicas que evito e o seu porquê

        Em largas décadas a escrever de forma pública, perdi a conta aos temas que abordei e às polémicas em que participei. Existem, porém, entre estas, quatro que desde há algum tempo me esforço por evitar. A primeira, associada às mais antigas preocupações humanas, é sobre afirmar ou contrariar a existência de Deus. A segunda, incontornável para quem trabalha com a língua, gira em torno do uso do Acordo Ortográfico, que aliás sigo. A terceira, supostamente trivial, mas que envolve paixões desgovernadas, respeita à desrazão do clubismo futebolístico. Por fim, a quarta polémica envolve a afirmação ou a rejeição, categórica e imposta aos outros, de rígidos princípios de moral. 

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          Totalitarismo: incerteza e atualidade de uma ideia 

          Com quase 80 anos de uso no vocabulário político, a palavra «totalitarismo» contém várias interpretações, nem sempre pacíficas. Mas as tendências antidemocráticas de hoje podem ser lidas através dela.

          O conceito de «totalitarismo» é usado com regularidade em artigos de opinião, notícias e reportagens, bem como em domínios como a história, a ciência política, os estudos culturais e artísticos ou a filosofia. O seu emprego amplo e persistente liga-o a interpretações úteis em análises, mas pode tornar-se discutível ou abusivo quando valida logros, deturpações e escolhas antidemocráticas. Acontece desde que o termo emergiu como categoria explicativa, mas ganhou novo destaque nos últimos anos, quando a recomposição da ordem global, o retrocesso do multilateralismo e a voga do populismo tornaram ambíguas ou insuficientes escolhas políticas antes inequívocas. 

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            Não há revoluções sem momentos de desordem

            Há semanas, numa das suas tiradas inspiradoras de reações imediatas e primárias a quem nelas crê ou se revê, André Ventura afirmou em pleno parlamento que o número de presos políticos em 1974-1975 foi muito superior ao dos detidos nas vésperas do 25 de Abril. José Pacheco Pereira contrariou-o, mostrando ser a afirmação uma completa falsidade. Da polémica resultou um debate na televisão que pouco acrescentou ao que fora dito, ampliando, todavia, a perceção de que para uma das partes verdade e mentira não carecem de prova, bastando proclamá-las de forma pública e em alta voz.

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              O drama e a coragem de ser apóstata

              O Dicionário Houaiss define a apostasia como «a renúncia de uma religião ou crença, o abandono da fé», mas também «a quebra de votos, o abandono da vida religiosa ou sacerdotal sem autorização superior», e ainda «o ato de renunciar a um partido, teoria ou doutrina» ao qual se pertence. Dirão as pessoas que verdadeiramente aceitam ser a democracia a melhor e mais livre forma de viver em sociedade – ou, pelo menos, como um dia disse sarcasticamente Winston Churchill, «a pior, salvo todas as outras» – que esse é um direito que, como gesto de liberdade, assiste a qualquer pessoa. 

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                A democracia em nossa casa

                É uma tristeza, e também uma prova de sectarismo ou mesmo de medo, andar pelas redes sociais – que, a par dos muitos perigos e desvarios que comportam, podem também ser lugar de criativo debate democrático – e apenas divulgar convicções e propostas que replicam exatamente as posições formais de grupos políticos aos quais pertence quem o faz. Sem qualquer abertura a ideias e a sugestões que destas divergem um pouco, embora com elas procurem ou possam dialogar. A democracia deve começar em nossa casa, e, além disso, tende a enfraquecer, ou mesmo a morrer, quando se fecham os olhos à menor diferença. Para mim, a abertura e o diálogo são essenciais para combater com firmeza e convicção, seja de forma organizada ou individual, por uma vida melhor, mais plena e mais livre.

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                  No 17 de Abril: memória de uma injustiça

                  A cada 17 de Abril, data-chave da importante «crise académica de 69», que marcou a história da Universidade de Coimbra, do seu movimento estudantil e da resistência ao Estado Novo, sou confrontado, diante do tom largamente dominante da suas evocações, com uma profunda injustiça. Explico já o que pretendo dizer, mas antes disso quero que fique bem claro um pressuposto. Isto é, reconheço a importância daquele momento, a coragem da larga maioria dos seus intervenientes, o lugar na memória que dele estes conservam, e principalmente o grande impacto na época que ele deteve em todo o país. Já escrevi, aliás, por diversas vezes sobre o episódio e as suas circunstâncias, e orientei até teses académicas sobre o tema, pelo que, como entenderão, o que irão ler de seguida de modo algum pode ser considerado uma desvalorização da «crise de 69».

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                    A Artemis II e o negacionismo

                    Já começaram a circular, sobretudo no turbilhão das redes sociais, mas não apenas aí, as estúpidas proclamações, em todas as línguas e no português também, «atestando» a dimensão de fraude e de invenção do voo espacial da Artemis II, teste para a alunagem da Artemis IV em 2028. Sabe-se que esta forma de obscurantismo circula desde a primeira viagem à Lua, a da Apolo 11, ocorrida em 20 de julho de 1969. Assisti a ela em direto, pela televisão a preto e branco e noite adentro, com espanto e emoção inesquecíveis. Porém, a atual vaga negacionista não resulta apenas da perplexidade de uma porção de ignorantes, como na época, sendo parte de uma convencida desconsideração global do conhecimento por parte dos setores da direita populista que neste processo de teor conspirativo procuram afirmar o seu poder obscurantista e escravizante.

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                      A Hungria, a Europa e os abutres

                      Independentemente do facto de Péter Magyar ser um político conotado com o centro-direita, este foi eleito com o apoio expresso da maior parte da esquerda húngara, que optou por não concorrer para não dispersar votos. Muito de complexo, instável e contraditório virá agora, sem dúvida, mas o triunfo esmagador do seu partido, para mais em eleições invulgarmente participadas, foi uma importante vitória da democracia, do projeto europeu e do apoio internacional à Ucrânia invadida e martirizada. Contra Putin, Trump e a generalidade da extrema-direita europeia, incluindo-se nesta a infelizmente nossa. Ver milhares de pessoas a dar vivas à liberdade e a cantar nas ruas de Budapeste o hino resistente Bella Ciao, não deixa de ser um sinal comovedor e bem positivo.

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                        Basta de condescendência

                        Ontem, durante a sessão comemorativa dos 50 anos da Constituição, aquilo que aconteceu no Parlamento com o discurso de Ventura não foi apenas a expressão de uma imensa ignomínia contra a democracia e de uma falta total de educação e respeito pelo trajeto plural das pessoas mais velhas ali presentes. Foi sobretudo um sinal. Um importante sinal de que as forças da democracia e do progresso não podem deixar-se intimidar – nem mesmo pelos eleitores e pela comunicação – e precisam passar à ação, legal mas direta e bem sonora, contra aquela gente delinquente. Esta deve perceber que não pode dizer ou fazer o que lhe apetece sem que isso tenha consequências, sejam elas políticas ou no domínio da lei. É tempo de tocar a reunir pela democracia e pela decência mais elementar.

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                          A vida coletiva entre o ódio e a moderação 

                          De sentido oposto, «ódio» e «moderação» são palavras que têm sobressaído no discurso público em artigos de opinião, rodapés dos telejornais, manifestos partidários ou estudos de teoria política. O ódio emergiu mais cedo neste panorama, como termo rude que associamos a sentimentos extremos de cólera e repulsa, expressos através de propostas irracionais, violentas e antidemocráticas, tendentes a excluir indivíduos ou grupos, combatendo sem tréguas quem não é, não vive e não pensa como quem o exprime. Teve forte expressão nas primeiras décadas do século XX, esses «tempos sombrios», como Hannah Arendt os designou, em que emergiram os totalitarismos assassinos e genocidas, mas foi controlado no pós-Segunda Guerra Mundial, regressando em força há apenas uma vintena de anos, e não parando, entretanto, de crescer.

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                            À esquerda: somar e protestar não basta

                            A recuperação da esquerda à esquerda do PS – imprescindível para o equilíbrio político e social, bem como para a dinamização da utopia – não pode ser obtida só pela soma de partes, estabelecendo alianças basicamente fundadas em ideias vagas sobre uma memória histórica em parte partilhada e também sobre formas práticas de reivindicação e protesto. Apenas a pode conseguir repensando metas, atitudes, causas, alianças e linguagens, e sobretudo definindo estratégias adequadas para uma futura governação progressista e sustentada num mundo em rápida mudança. De outro modo permanecerá confinada ao seu modesto rincão, enquanto é encarada como irrelevante pela larga maioria dos cidadãos e também pelos possíveis parceiros nesse processo. A extrema-direita, essa agradece.
                            [Originalmente no Facebook]

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                              O político histriónico, veneno da democracia 

                              Na antiga Roma, histrionis começou por ser todo o ator que representava farsas, mas cedo passou a designar um tipo próprio, caraterizado por exibir em cena um excesso de palavras, de timbres e de gestos que diferenciava a sua personagem das demais. Aplicada a este tipo de comediante, o sentido da palavra «histrião» manteve-se até hoje, embora com cambiantes segundo o momento histórico e o lugar. No período medieval, por exemplo, referia o artista itinerante, ou o jogral, que se apresentava, geralmente com estrépito, em cortes, praças e adros. Divertindo, cativando ou atemorizando, não raras vezes ao expressar pela sátira desgostos e dúvidas partilhados com a assistência.

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                                Quatro anos de guerra e a democracia na Europa

                                Há quatro anos, na noite em que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, um conhecido major-general português, que se intitula especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais, mas é essencialmente um descarado propagandista de Putin, declarou perentoriamente na televisão, onde continua a perorar com regularidade, que o conflito estaria concluído, com a vitória russa, «no máximo numa semana». Neste momento, a perspetiva é que ele continue ainda por um tempo largo e indefinido, com o seu terrível rol de destruição maciça de cidades, vilas e aldeias, e a morte de centenas de milhares de civis, sobretudo de militares, sejam estes ucranianos ou russos. 

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                                  A cultura crítica contra a mentalidade de rebanho

                                  Em defesa do papel indispensável da cultura crítica, costumo afirmar, em especial ao falar para públicos jovens, que «criticar não é dizer mal». Ela emerge naquele espaço da vida coletiva onde se cruzam ideias, factos, saberes, criações e comportamentos, como dimensão na qual é possível compreender e questionar significados, valores, contextos e dinâmicas, sempre afastando hipotéticas «verdades absolutas». A cultura crítica traduz, por isso, um modo de pensar que tende a questionar saberes, ideologias, tradições e formas dominantes de representar o mundo. Apoia-se num pressuposto básico: nada «é o que é», simples, inequívoco, estático, e tudo é complexo e instável, com diferentes e contraditórios sentidos para as dinâmicas da vida e do progresso. 

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                                    O drama de Cuba, o protesto e o silêncio

                                    Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.

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