Sem ícones

Apontamentos do Maio – 14

Vi hoje à hora de almoço, por um acaso, a maior parte do documentário televisivo 1968. O Mundo em Revolta, de Michèle Dominici. Nada de particularmente novo, para além de mais uma revisitação à memória do tempo por parte de alguns dos seus mais conhecidos actores de ambos os lados do Atlântico (Cohn-Bendit, Robin Morgan, Tommie Smith, Felix Dennis, Alain Krivine, o argelino Nadir Boumaza e o irmão mais velho do estudante checo suicida Jan Palach). Todos eles, exceptuando naturalmente o último, pessoas que permanecem activas e que não entendem a sua experiência militante como simples desvario de uma juventude consumida em gestos equívocos (como o fazem alguns dos nossos ex-maoístas, por exemplo, que insistem em falar do seu próprio passado como de uma velha medalha oxidada).

Particularmente interessante, porque mais prospectivo, o testemunho de Krivine, na época figura central da Juventude Comunista Revolucionária, de orientação trotskista, e hoje dirigente da LCR. A um dado momento, refere um pormenor ao qual acaba por dar relevância: para ele, o Maio de 68 terá representado, talvez, um dos derradeiros momentos nos quais, no interior das democracias parlamentares do ocidente, se utilizaram fotografias de figuras associadas ao conceito de revolução socialista (Marx, Engels, Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Mao, Ho Chi Minh, Fidel, o Che, e outras) como ícones de um movimento de massas. De todas elas, apenas o Che permanece visível, e ainda assim, como se sabe, mais como uma insígnia do que como representação de um «guia para acção». Krivine conclui esta constatação conferindo-lhe uma dimensão positiva: olhando este desaparecimento como sinal contemporâneo de uma certa dessacralização da mitografia marxista e de um tempo de procura de uma nova ideia de transformação, capaz de dispensar a imagem ou mesmo a presença simbólica de guias admiráveis e inspiradores. Não deixa de ser uma percepção que vale a pena recolher.

    Atualidade, História, Olhares

    O milagre de Lisboa

    O noticiário da SIC acaba de adiantar como título de notícia, pela boca de Rodrigo Guedes de Carvalho, que «a chuva parou em Lisboa durante a procissão do Corpo de Deus». Ao mesmo tempo, as imagens mostravam o Cardeal-Patriarca, ataviado com vestes sumptuárias apropriadas ao momento, espalhando incenso ao desbarato – um produto, recorde-se, que provoca danos na saúde de quem o absorve – pelas ruas de uma urbe supostamente em festa. Como se esperava, ninguém deu vivas a Afonso Costa.

    (Em Espanha o espectáculo não difere muito.)

      Atualidade, Devaneios, Etc.

      Sayed

      Sayed Perwiz Kambakhsh, jornalista, 23 anos, vai ser executado por «blasfémia» no Afeganistão. E que podemos nós fazer senão esperar sentados? Pela morte de todos esses «muçulmanos moderados» dos quais tanto falamos e que não reconhecemos senão quando os ouvimos a partir do exílio, os vemos em fuga de rosto tapado, ou lhe reconhecemos o olhar pouco antes de morrerem enforcados, degolados ou esmigalhados pelo sopro e os estilhaços de uma bomba. Um drama do nosso tempo diante do qual não basta encolher os ombros e esperar que as coisas mudem. Assim mudarão, de facto. Mas para pior.

        Apontamentos, Atualidade

        O epílogo de Paris


        «Afinal, o que querem eles realmente…?»

        Apontamentos do Maio – 13

        O escritor barcelonês Eduardo Mendoza publicou no último Babelia um artigo de página inteira («El mayo de nuestra juventud») que insiste a maior parte do tempo em muito daquilo que tem sido dito e redito sobre o Maio de 68. Reconhece sobretudo que não se tratou de um movimento revolucionário, mas sim «de um colocar em cena de diversas tendências». E sublinha a sua condição de primeira ocorrência retransmitida pelas televisões de quase todo o mundo, inaugurando de certa maneira uma era renovada da informação. A parte mais interessante ficou para o final, resumindo numa curta frase a dimensão de epílogo de um tempo, mais do que de madrugada de um mundo novo, que o terramoto de Paris lhe parece conter. Considera assim que ele «marcou sem sabê-lo o fim das grandes ideologias, especialmente do marxismo, que já não voltou a levantar a cabeça, e marcou também o fim de Paris como capital intelectual do mundo, título que havia adquirido na época do Iluminismo mas que agora cedia, sem reagir, a Londres e a Nova Iorque.» Dois aspectos que têm passado algo ao lado da actual vaga comemorativista.

          Apontamentos, Atualidade, História

          Da moral e das playmates

          Chega-me a informação de que a Biblioteca Municipal de Faro bloqueou o acesso ao blogue Quase em Português, da autoria do arquitecto alemão-português (ou o contrário?) Lutz Brückelmann. Apesar da intermitência dos últimos tempos, um dos melhores blogues nacionais, diga-se. Parece que tem a ver com a colecção de playmates que o Lutz tem vindo a mostrar. Vamos esperar que não aconteça o mesmo à Terceira Noite.

            Etc., Oficina

            Sexo, mentiras e futebol

            Gostaria de conhecer os critérios (por exemplo: se se refere a homens e a mulheres ou apenas a um dos grupos, qual a dimensão do universo que foi objecto do inquérito, qual a sua localização geográfica, qual o nível escolar dos inquiridos, qual a sua idade, o nível dos rendimentos, etc.) que nortearam este estudo. Sem esses dados, comentário algum pode passar do nível da simples impressão. Mas como também tenho direito a uma, aqui vai ela:

            Se bem conheço o meu povo, o referido estudo não revela que a larga maioria dos portugueses gosta mais de sexo que de futebol, e que, neste particular, se encontra acima da média europeia. Mostra apenas que entre nós existe um grande número de mentirosos e que os espanhóis são bastante mais sinceros e desinibidos.

              Apontamentos, Etc.

              Sobre a Birmânia (ainda), ou por causa dela


              A atitude diante do que se passa actualmente na Birmânia funciona como um bom exemplo do estado de objectiva crueldade a que podem chegar os sectores que em questões de política internacional colocam como prioritário, acima de quaisquer outras considerações, o combate sem cedências ao «inimigo principal». Receando fornecerem argumentos que possam servir a defesa de medidas castigadoras da atitude sanguinária dos pulhas da junta militar – como a instauração imediata de um severo bloqueio às actividades da junta no poder, ou a rápida imposição de uma intervenção humanitária –, e de com essa posição poderem aproximar-se das posições intervencionistas dos governos ocidentais, preferem calar-se, sem aparente incómodo, diante da bestialidade e do comportamento genocida. Preferem considerar o respeito elementar pela vida humana como algo que deve ser ponderado caso a caso, de acordo com determinados objectivos estratégicos. Não o fazem por cobardia: apenas faz parte da sua carga genética ideológica.

              Enquanto termino este post, chega nova informação: os governantes birmaneses recusaram a entrada no país dos elementos da AMI que pretendiam auxiliar as vítimas do ciclone. Não, não se passa «numa galáxia muito, muito distante…».

                Atualidade, Democracia, Opinião

                Caretice

                O CDS-PP indigna-se porque um Dicionário de Calão integrado no «site infantil-juvenil» do Instituto da Droga e da Toxicodependência associa a palavra careta , no vocabulário próprio do meio, a qualquer indivíduo «conservador, desprezível e desinteressante» que não consuma drogas. Um tanto atemorizados, os responsáveis pelo site já retiraram essa e outras palavras. O Houaiss, porém, continua a associar careta a um sujeito «conservador, preso a convenções; quadrado, tradicional», ou «que não usa drogas». Já o Dicionário Editora da Língua Portuguesa considera careta toda a «pessoa muito presa aos padrões tradicionais; bota-de-elástico». A deputada Teresa Caeiro poderá explicar então se também pretende que se lancem para o shredder as páginas dos referidos dicionários, que muitas escolas possuem na sua biblioteca e numerosos alunos têm em suas casas. Ou se deseja antes que por decreto-lei se suprima a palavra.

                PS – Este episódio lembra-me um outro que aconteceu quando andava na primária. Uma colega – bom, as escolas eram separadas «por sexo» (como se dizia na época), mas durante um maravilhoso mês tivemos aulas em conjunto porque a professora das meninas adoeceu – «acusou-me» à directora de ter pronunciado a palavra autoclismo. Na casa dela não havia.

                PS2 – Já agora: o que procurámos todos nós nos nossos primeiros dicionários, meu deus, por palavras proibidas! Algumas das que não encontrávamos eram prontamente adicionadas a lápis, com aquela caligrafia redondinha que os professores nos ensinavam.

                  Apontamentos, Atualidade

                  Os nossos birmaneses

                  Ao procurar aplicar os regulamentos comunitários sobre higiene alimentar às instituições de solidariedade social, precisamente numa altura na qual o número de famílias carenciadas está a aumentar e os bens de consumo essenciais a encarecerem bastante, a ASAE segue o modelo birmanês do total menosprezo pelas pessoas comuns. Exigir neste momento, em Portugal, que as cozinhas dessas instituições possuam rigorosamente os mesmos requisitos que as de um restaurante, proibindo-as de aceitarem alimentos oferecidos pelas populações e obrigando-as a deitar fora toda a comida congelada em arcas normais, constitui uma grave prova de impiedade. E, uma vez mais, de cega submissão a exigências de um higienismo irrealista e inumano que nos chega do exterior e os nossos tecnocratas importam sem ponta de vergonha.

                    Apontamentos, Atualidade

                    Folclore-68

                    Apontamentos do Maio – 12

                    Garanto que se tivesse metade da idade que tenho, não tivesse lido os livros que li e apenas passasse os olhos pelo inenarrável programa revisteiro sobre o «Maio de 68» que Júlio Isidro (com um casaco à Bob Geldorf) está a apresentar na RTP-1, ficava com uma tal aversão ao dito «Maio» que nem pintado o poderia ver. Grandes canções destruídas, frases desconexas e descontextualizdas, situações dramáticas transformadas em palhaçadas, invenções, remixes, tudo envolvido num pronto-a-servir para encher chouriços e entreter labregos. Mais a referência, sacramental e oca, a «uma juventude idealista, mas muito ingénua» (Isidro dixit). Pelo meio, algumas pessoas prezáveis são convidadas a dizer uma ou outra frase que se perde completamente no meio de todo aquele chiqueiro kitsch. Divertimento pelo divertimento, antes um congresso do PSD.

                      Apontamentos, História

                      E o lenço a dizer adeus

                      Um grupo de naturais almoça neste 13 de Maio com um colega que fala um português correctíssimo, mais fluente que o deles embora com o acentuado sotaque gutural de alguém que veio de Leste. A pergunta deste, quando surgem no ecrã da televisão os lenços brancos agitados pelo povo crente durante a cerimónia do «adeus à Virgem»: «Mas eles estão a despedir que treinador de futebol?» A aculturação é sempre um processo rico e fecundo, de resultados imprevisíveis.

                        Apontamentos, Etc.

                        As jotas e a política

                        A propósito da conversa dos responsáveis das jotas com Cavaco sobre a relação distante e bastante difícil entre os jovens e a política, João Tunes coloca aqui o dedo na ferida e faz força sobre esta. Já agora uma pergunta: será que «no seu tempo» o jovem Aníbal António se interessava pela política? Se sim, folgo muito, pois não fazia a menor ideia de que tal pudesse ter ocorrido.

                          Apontamentos, Atualidade

                          Irina

                          Aos 98 anos, morreu hoje a polaca Irina Sendler, «a Schindler desconhecida» que salvou 2.500 crianças judias do Gueto de Varsóvia de uma morte certa e ajudou a minorar o sofrimento de muitos dos perseguidos. Pessoas como Irina merecem ser lembradas, particularmente num tempo no qual se começa a considerar desnecessário referir o horror do Holocausto e a palavra «judeu» volta a funcionar, até em círculos que habitam confortavelmente as praças das sociedades democráticas, como estigma inapelável.

                            Atualidade, Memória

                            Francês sem mestre

                            Apontamentos do Maio – 11

                            Algumas frases de parede menos conhecidas. Daquelas que me tocam um pouco a espinal medula.

                            L’Anarchie c’est je (Nanterre)
                            Colle-Toi contre la vitre croupis parmi les insectes (Nanterre)
                            Soyons Cruels (Rue des Écoles)
                            Staliniens Vos Fils Sont Avec Nous (Place Denfert-Rochereau)
                            Explorons le Hasard (Boulevard Saint-Michel)
                            À bas le crapaud de Nazereth! (La Sorbonne)
                            Comment penser librement a l’ombre d’une Chapelle? (La Sorbonne)
                            Le Sacré voilà l’ennemi (Nanterre)
                            Ayez des Idées (Faculté de Droit du Panthéon)
                            Cache Toi, Object (La Sorbonne)
                            Faites l’Amour et Recommencez (Rue Jacob)
                            Vite! (Collège de France)
                            Camarades Vous Enculez les Mouches (Nanterre)
                            C’est pas fini! (Boulevard Saint-Michel)

                            Fonte: Mai 68 a l’usage des moins de 20 ans (Babel, 1998)

                              História, Memória