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Fuga para a frente

fuga para a frente

Quando o horizonte se estreita e a vida se complica ao extremo, é fácil perdermos a paciência. Diante da crise social que se adensa e da ausência de perspectivas, a tentação de correr para a frente, vendo inimigos em todo o lado que não seja o nosso e esquecendo os princípios elementares da civilidade democrática, começa a fazer-se notar de forma preocupante. Vive-se uma realidade inaceitável, que tem os seus responsáveis e as suas vítimas, crescendo a tendência para que uns e outros se organizem em campos opostos. A velha luta de classes parece voltar a calçar as botas e a meter-se ao caminho, enquanto aumenta a distância entre os que entendem que o mal está no excesso de direitos e aqueles que lutam para evitar perdê-los.

Entre alguns destes corre então, de novo, a presunção de que só uma deriva radical pode reverter o curso dos acontecimentos, pensando de novo em Revoluções redentoras a caminho de outros «amanhãs que cantam». Embora ninguém saiba como despertá-los e menos ainda o que fazer com eles. A noção legítima, necessária, de que outra política é necessária, de que outro mundo é imprescindível, é então devorada por devaneios colectivos que confundem mudança com salvação. Pelo meio, a vida verdadeira, a das pessoas que não sonham com estandartes a adejar ao vento mas sim com uma vida digna, pacífica e livre numa sociedade solidária, é ignorada em nome de um retorno à luta de opostos. Esquecendo uns quantos que, tal como a história do século XX se encheu de provar, nenhum regime perfeito pode ser construído sobre a penúria e a terra queimada.

Aquilo que estamos a viver obriga-nos a repensar o futuro e os modelos, sem dúvida, mas também nos desafia a olhar a realidade e a procurar soluções. Por isso, na situação actual, recusar discutir com o poder questões das quais pode depender a sobrevivência das pessoas só porque se coloca à cabeça a impossibilidade de ouvir aquilo que o governo que irá negociar com o FMI tem para dizer – como fizeram hoje os dois partidos parlamentares à esquerda do PS – contribui para as deixar indefesas. Pode ser muito bom para multiplicar o descontentamento e capitalizar o devaneio de uma mudança que «tudo resolverá», mas é duvidoso que traga benefícios eleitorais e de certeza que não ajuda ninguém a sobreviver no meio da tormenta. É preciso ousadia, sim, e luta também, mas algum realismo pelo meio dará jeito. A fuga para a frente não serve para outra coisa que não seja para fornecer oxigénio, escasso oxigénio, a essas «teorias e conceitos» que, como escreveu certa vez Hannah Arendt, de pouco servem em tempos sombrios.

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    Vermelho ondulante

    vermelho

    Nas circunstâncias dramáticas que estamos a viver, torna-se necessária uma tentativa de concertação de estratégias que ponham em marcha a resistência à ditadura canibal dos mercados e à política de sonegação de uma vida decente para a esmagadora maioria dos cidadãos. Neste sentido, faz todo o sentido que o Bloco de Esquerda e o PCP se tenham reunido, e se venham até a encontrar mais vezes, para acertarem estratégias comuns. Em nome dos problemas reais, inadiáveis, que nos estão a cair aos pés e com os quais ambos os partidos se preocupam. Acordos pós-eleitorais podem, sem dúvida, ajudar a construir uma resistência mais forte e audível à piratagem que se aproxima das nossas costas, ajudando também, essa será sempre a esperança, a parte não malsã do PS a assumir uma atitude corajosa e anti-capitulacionista, empurrando o lixo aparelhístico para o vão de escada de onde jamais deveria ter saído. Nesta medida, parece-me exagerada a posição de votantes e até de militantes do Bloco a quem já ouvi dizer que preferem abster-se, ou mesmo votar PS, a darem qualquer aval a uma aliança com o PCP. Aquilo que tenho dito a estas pessoas é que não me parece que tal aliança seja crível, embora aproximações pontuais possam e devam acontecer. (mais…)

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      A esquerda e a caça aos gambozinos

      pára-arranca

      Vivemos tempos difíceis para a esquerda. Na realidade eles jamais foram fáceis, uma vez que o seu trajecto aponta desde a origem para a construção de uma sociedade solidária e igualitária, e esta é, em qualquer tempo ou lugar, uma tarefa difícil, morosa e armadilhada. Se a este objectivo primordial juntarmos a defesa da liberdade e valorização da democracia, então o preenchimento das agendas da esquerda torna-se ainda mais complicado. Por isso tantos preferem pluralizar o conceito: «esquerdas» parece, de facto, mais realista do que «esquerda», uma vez que a diferença é a regra, muitas vezes o obstáculo, e só no plano dos fundamentos se admite um caminho partilhado. Em Portugal, esta separação das águas foi reforçada, na comparação com experiências geograficamente próximas, pelo facto de ser praticamente inexistente, no mínimo desde o final da Segunda Guerra Mundial e dos tempos do MUD, o simples vislumbre de um projecto comum. De um calendário capaz de congregar diferentes sectores em torno de objectivos partilhados, voltados para a edificação objectivável de um outro país.

      Mas se a dificuldade de encontrar à esquerda um caminho de aproximação não é de hoje, ela tornou-se agora particularmente penosa e incapacitante. Para uma consciência de esquerda que coloca os interesses colectivos acima dos objectivos circunstanciais deste ou daquele agrupamento, é particularmente difícil olhar o modo como a direita se encontra isolada na defesa de um modelo de sociedade selvagem e injusto sem que isso a distancie do acesso ao poder pela via do voto popular. Pelo contrário, ela mantém-se até pronta a assumir a governação e só a «esquerda de retórica», que esquecida dos seus princípios fundadores lhe imita os passos, parece em condições de lhe fazer frente nas urnas. Por outras palavras e dando o nome aos bois: enquanto o PSD e o CDS se preparam para gerir os destinos da nação, o PS, ou a linha de conciliação com a direita e o capitalismo que hoje o domina, limita-se a confrontá-los prometendo a mesma coisa mas de uma forma mais branda, moderna e simpática. Uns e outros projectando os seus programas sobre esse cenário de proclamada inevitabilidade que tem a destruição da dimensão social do estado como ponto assente e indiscutível. (mais…)

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        Impossível unidade

        bicicleta
        © 2008 brandybuck

        Desnecessárias e até um tanto grotescas para a maioria dos cidadãos, que as observam como a um evitável render da guarda, estão a chegar as eleições antecipadas, projectadas pela Grande Crise sobre um cenário de descrença. Face a elas, a esquerda à esquerda de Sócrates vê-se perdida num labirinto de possibilidades atravessadas por duas grandes incapacidades. A de construir um modelo que refunde e adapte ao século XXI a definição programática de socialismo, e a de propor linhas credíveis para uma «governabilidade à esquerda». Nestas condições, os partidos do centro-direita – o tal «arco da governação» rotativista que vai do actual PS ao CDS – vivem uma situação paradoxal: não têm a confiança da maioria dos cidadãos, cada vez mais alheados da política institucional, mas sabem que, ainda assim, só entre eles o poder será partilhado. Principalmente porque à esquerda dos socialistas não existe alternativa de governo e o voto dos cidadãos a ela destinados representará apenas, como tem acontecido nestes quase quarenta anos de democracia, um voto de resistência ou de protesto.

        Muitas pessoas se aperceberam deste drama e algumas tentam mesmo, mais ou  menos em desespero, uma solução de circunstância. Na Internet, alguns bloggers falam de «unidade» e circula até um abaixo-assinado «por uma alternativa de esquerda» que tenta encontrar uma forma de resolver o problema. Mas quem tem tomado estas iniciativas fá-lo geralmente da pior maneira, procurando desencadear e fechar em semanas um processo que deveria ter sido iniciado há pelo menos vinte anos, com muita pedra partida pelo caminho. Buscam uma convergência espúria onde reina a desconfiança e pouco existe de aglutinador para além da resistência comum aos sucessivos PEC, a ideia de que é necessário «defender os trabalhadores» e os primeiros acordes da Internacional. Pois como é possível desenhar uma linha de unidade, tendo em vista a governação, com base numa aproximação que inclua o Bloco de Esquerda, o Partido Comunista, a CGTP, os «movimentos sociais progressistas» e até «os partidos extra-parlamentares»? Só falta juntar à solução os Homens da Luta e os membros menos arrebatados do blogue Cinco Dias (onde teria, ainda assim, de ocorrer primeiro uma trágica cisão). (mais…)

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          Desesperança (2)

          desperation

          Ser optimista é difícil, já que não se encontra à vista uma alternativa para a gestão da realidade que exclua a aflição  prometida pelo centro rosa-laranja. Continuar a trilhar a linha contínua da desesperança. Na banda da direita, o CDS apenas lhe acrescenta a nostalgia de uma sociedade desigual, o princípio da moral e da autoridade como template, a verborreia populista para seduzir campónios e varinas. À esquerda a desolação de um horizonte incorpóreo, a invisibilidade de uma intervenção que não seja apenas a do grito, a do protesto – necessária, sem dúvida, mas muito insuficiente –, ou a da margem. A falta de projecto para um futuro verosímil, para uma «política de esquerda» que se entenda, para uma alternativa real de vida e governação, que jamais se esforçou por construir. Sem medo de poder ser poder. De construir, não apenas de imaginar, outro mundo possível.

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            Na fronteira do possível

            À rasca

            Mais de 300.000 saíram ontem às ruas em Lisboa, no Porto e em outras cidades do país. Elas transformaram o protesto da «geração à rasca» num conjunto de demonstrações que envolveu pessoas de todas as idades e de muitas origens, unidas, de uma forma estranha apenas na aparência, justamente pela diversidade dos rostos, das reivindicações, dos gestos e das palavras de ordem.

            Pessoas de idades muito diferentes porque as que estão entre os 18 e os 35, das mais directamente afectadas pela precariedade do trabalho, pela falta de dinheiro e pela ausência de perspectivas, têm pais, irmãos e amigos que se preocupam com elas e quiseram partilhar a expressão pública das suas angústias e da sua revolta. Mas também porque existem muitos mais, de outras gerações, a viver no limite, temendo diariamente pelo futuro e com vontade, mas até agora sem oportunidade, de irem para a rua gritar o desespero. Desesperados ou solidários, novos e velhos, com mais ou menos estudos, aspecto casual chic ou bem humilde, com ou sem conta no Facebook. As manifestações foram, por isso, uma importante expressão de solidariedade entre sectores sociais muito diversos, pessoas que no dia-a-dia se cruzavam sem se olharem, como opiniões desiguais, com ou sem partido, mas unidas agora por um complexo dramático de carências, de inquietações e de reivindicações que lhes são comuns. (mais…)

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              Se não for agora, quando?

              À rasca

              A defesa da justiça começa pela voz dos injustiçados. Só pode ter medo deste acto colectivo de indignação – entendendo em primeiro lugar que «prejudica o país» ou que apenas «inquieta os mercados» – quem já  tenha perdido de todo, algures entre a digestão de um jantar e a previsão de um cargo, a noção da dimensão solidária da política e do papel democrático do protesto de rua. Para mais justíssimo e  necessário, como este. Vão lá e confiem, que não irá chover. [info]

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                Cegueira assassina

                voluntários líbios

                voluntários líbios

                Este é já o meu quarto post sobre a Líbia. Mas sucedem-se as urgências, e com elas as razões fortes para voltar ao assunto.

                Olho uma sequência de fotografias de rebeldes líbios levantados em armas contra Kadhafi e sou obrigado a juntar-lhes uma nota pessoal. Fui militar durante três anos e estive envolvido em situações de guerra. Outra guerra, diferente, é verdade, mas nem por isso menos guerra, naquilo que esta tem de constante e universal. Por isso, posso dizer que não a conheço apenas dos livros, dos jornais ou dos documentários: tenho uma memória viva de ver matar e de ver morrer, participei em acções de combate, e, antes disso, treinei muitos, largas centenas, talvez alguns milhares de homens, para as enfrentarem. Acreditem que não é fácil conviver com esta memória, que jamais se é capaz de brincar com ela, que nos fica para sempre uma espécie de cumplicidade para com aqueles que, à distância, observamos em idêntico cenário. Banal? Talvez sim, mas verdadeiro.

                Por isso não me é possível ver sem um estremecimento, sobre a paisagem líbia, bandos de pessoas mal armadas, sem uma disciplina rudimentar, sem instrução básica de tiro, defesa e progressão no terreno, a enfrentarem tropas bem equipadas e altamente disciplinadas. Sei que é belo, provavelmente comovente, ver todos aqueles jovens e menos jovens «fardados» muito livremente, de acordo com uma espécie de código baseado num imaginário revolucionário global, a lutarem por uma ideia de liberdade que têm até dificuldade em definir. Não podemos deixar de admirar a sua coragem insana, à beira da imolação, projectada numa luta sem quartel e claramente desigual. Mas desde o primeiro momento esperei que fosse acontecer aquilo que agora está a acontecer e os repórteres de guerra relatam: civis armados que disparam à toa, desperdiçando munições, sem um alvo definido, sem um plano, morrendo em glória mas sem qualquer utilidade debaixo dos disparos dos caças, dos helicópteros e da artilharia pesada, com as câmaras das televisões ou o silêncio por testemunhas. A sua bravura suicida não nos deixa indiferentes. (mais…)

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                  Young reds

                  Reds

                  Ontem, 6 de Março, o Partido Comunista Português fez 90 anos. Pode dizer-se, e nem poderia ser de outro modo, que este PCP pouco tem a ver com o de 1921. Claro que não tem, como pouco tem a ver com o de 1959, o de 1975 ou mesmo o de 1991. O país e o mundo foram mudando, o comunismo também, e os comunistas a mesma coisa, ainda que possam mudar mais vagarosamente. No entanto, para além das linhas organizativas e de orientação táctica pelas quais passam as diferenças, por vezes profundas, que o tempo faz sobressair, existe um sinal de continuidade que não tem a ver apenas com a cor do estandarte: desde o início, o PCP sempre afirmou na sociedade portuguesa uma atitude de resistência às desigualdades do capitalismo e fez ouvir a sua voz em defesa dos direitos mais essenciais dos trabalhadores. Sempre da melhor maneira? Com certeza que não, e os comunistas mais honestos, informados e lúcidos – ou mesmo os inflexíveis e coléricos num momento de pausa – serão com toda a certeza os primeiros a reconhecê-lo. Mas para quem não tenha memória, ou não conheça a História, é importante relembrar que foram muitos os homens e as mulheres que dedicaram a vida aos interesses dos outros e o fizeram, ou ainda o fazem, debaixo da bandeira vermelha da foice e do martelo.

                  Esta é uma realidade indesmentível, que divergência alguma, ou crítica alguma, está em condições de contradizer. O PCP é um partido histórico, que conquistou a pulso, geração após geração, o direito a existir e a ser ouvido, e que, independentemente das posições políticas questionáveis, erradas ou mesmo inconsequentes que possa muitas vezes defender, continua a merecer a consideração dos democratas. Merece-a enquanto permanecer como partido que aceita as regras básicas da democracia representativa – para cuja fundação teve aliás um papel decisivo – ainda que, entre os comunistas portugueses, ou nas suas margens, exista quem de facto a despreze na essência, aspirando a uma outra, supostamente mais pura, «socialista» ou «popular», na qual a diferença de opinião esteja condicionada pela autoridade de quem se arroga, sem direito a contraditório, a falar em nome de todos. (mais…)

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                    O resto virá depois

                    Egipto

                    Em artigo editado na semana passada pelo Público, Eduardo Lourenço escreveu que a Europa, como o Ocidente em geral, «já não faz revoluções». Ao contrário, «sofre-as, deixa-se surpreender por elas», arrastada por movimentos poderosos que não controla e tem dificuldade em compreender. A propensão do ensaísta para transformar certas hipóteses aparentes em verdades temporárias – desde Montaigne, como é sabido, a característica essencial do ensaio – conduz a afirmações como esta, com a qual podemos dialogar mas que não convém tomarmos à letra. Se falarmos das revoluções com um carácter total, absoluto, determinadas perfazer o círculo e a reconduzir a história ao quilómetro zero para produzirem um mundo radicalmente novo e supostamente melhor, a afirmação de Lourenço fará sentido. Mas tal já não acontece quando nos referirmos aquelas que resultam da insuportabilidade de uma situação ou da necessidade imperativa da sua ultrapassagem, transformada em estímulo para a insurreição.

                    Ora, como a história recente tem vindo a mostrar, estes momentos são não só imprevisíveis como impossíveis de cartografar por antecipação. Acontecem quando e onde parte significativa das sociedades compreende que deixou de ser possível suportar o insuportável, encontrando forças para jogar tudo na cartada da mudança. Sob esta perspectiva, quem poderá garantir que se eclodiram agora na Tunísia, no Egipto e na Líbia, se parecem estar a alastrar à maior parte dos países árabes, onde até há pouco tempo a generalidade dos analistas só via resignação e imobilismo, não possam também ocorrer aqui ao lado ou mesmo à nossa porta, dentro das nossas cidades? Como actos raros e ocasionais, nos quais a necessidade imperativa e a desrazão que esta provoca jogam um papel decisivo, as revoluções não caem do céu – nisso tinha razão Mao Tsé-Tung – mas também não se programam. (mais…)

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                      O Bloco e o sentido da vida

                      Trostky, Lenine e Kamenev

                      Provavelmente escreveu-se mais nos jornais e nos blogues sobre o sentido da vida do Bloco de Esquerda durante estes dias do que nos últimos dois ou três anos. O tom tem oscilado entre o apocalíptico, o céptico e o afirmativo, conforme corresponda a uma previsão da queda do partido, à percepção da inutilidade da moção de censura do governo ou à ideia de que esta possa ajudar a separar as águas. Situo-me na terceira destas vias, embora não da mesma forma que os dirigentes do Bloco. Não me parece nada que a iniciativa possa servir para demarcar os campos e perceber de que tamanho é a direita, criando condições para uma solução política à esquerda. Já foi dito e redito o que é evidente mas algumas esforçadas declarações têm tentado negar: se a moção fosse aprovada o governo saído de novas eleições seria mais à direita; não sendo aprovada, como irá acontecer, ajudará a estabilizar a autoridade política da actual direcção do Partido Socialista. Pelo meio, a proposta impeliu muitos cidadãos descontentes com o actual governo – gente sem partido principalmente, mas também socialistas críticos e numerosos simpatizantes seus – para uma posição de admissão contrariada da continuidade de Sócrates. Porque à política do «quanto pior, melhor» – da qual, ao contrário do PCP, até agora o Bloco parecia ter-se preservado – as pessoas comuns, sobretudo as que sabem que um governo PSD desmantelará sem piedade o que ainda resta do Estado social construído depois de Abril, preferem um «p’ra pior já basta assim». (mais…)

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                        Equívoco

                        equívoco

                        Vai por aí grande alarido por causa da moção de censura ao governo que o Bloco de Esquerda irá apresentar dentro de um mês, a 10 de Março. Não vou insistir no que outros já disseram sobre os seus incontornáveis efeitos: se ela for aprovada o país cairá de mão-beijada nas mãos do PSD de Coelho; se não o for, Sócrates e o seu PS ganharão um fôlego mais. Em ambos os casos tratar-se-á de um gesto arriscado e aparatoso que serve mais o circo do que o pão. Quer isto dizer, e é isto que me parece importante, que a direcção do Bloco, continuando a centrar a sua iniciativa nas cartadas parlamentares, se foca no acessório secundarizando o essencial. Isto é, aposta mais no ruído mediático à volta da sua posição formal do que na edificação de um movimento de massas capaz de fazer perceber ao governo, aos partidos do poder e a quem do lado de cá e de lá dos Pirenéus gere o nosso futuro, que há ira nas pessoas, que mora nelas a vontade de trocarem as voltas ao destino, e que não se deve brincar com estes sentimentos. Sem menosprezo da actividade parlamentar, parte fulcral da vida democrática, estamos numa fase em que o protesto e a construção social e cultural da alternativa são muito mais úteis e necessários do que uns quantos discursos de dedo em riste. Para a vida presente e futura dos cidadãos e até para o seu estado de espírito. O Bloco é um instrumento de esperança e não deve esbanjar esse capital.

                        Post-sciptum – Entretanto a direcção do BE esclareceu a sua posição sobre os objectivos da moção, apontando-a «contra a direita e contra quem governa com políticas de direita». É um redireccionamento positivo, mas as consequências práticas e a questão de fundo que este post levanta permanecem intocáveis.

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                          Reflexos pavlovianos

                          down

                          Foram de surpresa as reacções diante dos acontecimentos que ocorreram nas margens sul-leste do Mediterrâneo. Como era possível tanto movimento numa paisagem que parecia suspensa no tempo para sempre? Mas depois da surpresa veio a esperança. E depois desta o cepticismo.

                          A esperança fundou-se na percepção de que afinal os cidadãos dos Estados islâmicos não são apenas barbudos com os olhos raiados de sangue, militares brutais, homens ignorantes ou mulheres veladas e submissas. Vemos à frente das câmaras pessoas de todas as qualidades, principalmente jovens, em estado de revolta pura, com a aparência de terem dispensado Deus e os Mestres. Ainda há dois dias, no Público, Paulo Moura relatava a partir do Cairo: «Aqui qualquer um pode inventar uma frase e lançá-la. Não há um partido, nem um sindicato a orientar coisa nenhuma». Tudo parece uma gigantesca festa, embora todos saibamos que as festas têm uma duração limitada e acabam por doer. Mas tudo também parece valer a pena para viver um tempo no qual muitos sentem a História a pulsar. Foi o que fez, por exemplo, com que antigos activistas jordanos e libaneses – invoco dois casos reais que a prudência aconselha a não identificar – deixassem o emprego e o descanso para viajarem até ao Cairo ou Alexandria e passarem noites na rua a bater-se pela democracia. A ausência, ou pelo menos a discrição dos islamitas, contribuiu aliás para determinar o sentimento de confiança.

                          Mas na opinião que vai correndo existe também o outro lado, o dos profetas da desgraça que reagem de forma pavloviana. Alguns consideram, por exemplo, que o Egipto irá inevitavelmente seguir um processo «à iraniana». Apoiados na democracia, dizem, os extremistas tomarão conta do poder, como o fizeram em tempos os seguidores do ayatollah Khomeini. Esquecem-se porém de um pormenor: essa é uma experiência com mais de trinta anos e no Irão de hoje o extremismo é claramente minoritário, mantendo-se graças apenas à ditadura. No entanto, de acordo com todas as possibilidades, um Irão mais democrático, que o povo iraniano tem vindo a reclamar, será bem mais moderado que o poder obscurantista de Ahmadinejad. Por sua vez, os actuais governantes de Israel sentem-se também bastante incomodados. Vangloriando-se, com alguma razão, de administrarem a única democracia da região, logo que um grande país vizinho pareça dirigir-se para um tempo de liberdade, esquecem os grandes princípios e o pânico instala-se entre eles, provando que convivem bem melhor com as ditaduras do que com os riscos da mudança.

                          Claro que ninguém poderá excluir o pior. A sombra dos Irmãos Muçulmanos, partido da regressão e do fanatismo religioso, está no ar: depois de um alheamento inicial, procuram agora apanhar o comboio da revolta egípcia. Mas, como perguntou no Libération Laurent Joffrin, fará algum sentido que, antes mesmo de o ditador cair e de o povo egípcio exprimir de forma livre aquilo que realmente deseja, deva prevalecer o medo do que poderá vir depois de morta a esperança? Uma atitude desta natureza traduz, a par de um chocante cinismo, uma enorme falta de confiança nos valores regeneradores da liberdade e da democracia. E estes só existem se alguém, em algum momento, se bater por eles.

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                            Esperança e desengano

                            No Libération de hoje, Bernard Guetta sugere quatro novos vectores de desenvolvimento nos processos de mudança política a decorrerem nos Estados islâmicos. O primeiro refere-se a um despertar do Islão associado à ampliação daquilo a que chama os valores universais da democracia; o segundo diz respeito ao peso adquirido por uma juventude numerosa, descontente e impaciente, que recebe da Internet o impacto cultural da globalização; o terceiro dá um grande valor ao exemplo da actual Turquia, permitindo mostrar que islamismo, laicidade e desenvolvimento económico não são inconciliáveis; e o quarto sugere a instalação inexorável de um novo «xadrez democrático» que vai de uma esquerda activa e moderna a partidos religiosos conservadores mas capazes de superarem os sinais bestiais do islamismo. Guetta é um jornalista sénior, especialista em geopolítica, que conhece razoavelmente o universo do qual fala desta forma tão animadora, e nós, depois de habituados a olhar para aqueles territórios como inapelavelmente esmagados por ditaduras brutais e líderes religiosos todo-poderosos, facilmente olhamos as suas projecções como sinais de uma transformação positiva. Só que este optimismo em versão wishful thinking é perigoso e desarmante, pois nada nos garante que o Islão aparentemente democrático, moderno e urbano, que de repente tirou o véu e mostrou um rosto benigno, não seja rapidamente esmagado, antes ainda de deixar semente, pelas hordas de resignados, facilmente manipuláveis pelos tiranos ou pelos pregadores, que têm atrás de si séculos de uma cultura de submissão e pouco treino nas subtilezas da democracia. Por aqui, no conforto desta Europa por estes dias fria e chuvosa, esperar que aconteça aquilo que mais desejamos – deparar de repente com um Islão afável, de gravata, óculos de marca ou boné de basebol – pode levar a uma desilusão imensa. O jogo está lançado mas o desfecho é imprevisível. E como nada podemos fazer, resta-nos esperar por um bom resultado, sem sabermos muito bem qual possa ser ele.

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                              A água do capote

                              sofá

                              Quando em 1963 Hannah Arendt publicou Eichmann em Jerusalém, invocando aí o tema difícil da banalidade do mal, provocou uma onda de choque em muitos dos seus leitores judeus ou em pessoas que simpatizavam com as suas causas. O escândalo derivou, como tantas vezes acontece perante uma argumentação lúcida mas complexa, de uma incompreensão profunda e renitente. Na realidade, Arendt, ela própria de origem judia, não tinha declarado ali que os judeus haviam sido cúmplices do seu próprio aniquilamento às mãos da barbárie nazi, como alguns quiseram fazer crer, mas sim que uma certa passividade, ou desinteresse, mantido por muitos perante os avanços do nazismo e do anti-semitismo, os haviam transformado em inevitáveis vítimas. Quando acordaram não tinham alternativa. Sem dramatizar em excesso os resultados das eleições de domingo e pretender, o que seria um absurdo, que a situação política que vivemos tem algo que se compare à da Alemanha durante a República de Weimar – Cavaco não é propriamente Adolf Hitler e continuamos apesar de todos os males a viver em democracia – podemos ainda assim esboçar uma analogia com a explicação da teórica alemã. Olhar para o lado, incitar à indiferença, trouxe consigo, objectivamente, uma derrota que irá lesar muitos dos que por omissão a permitiram ou amplificaram.

                              É que aconteceu o que aconteceu porque um largo sector da «consciência global» da esquerda – um conceito que arrepia muitos dos seus segmentos, mas que existe para além da sua vontade – não só não foi capaz de gerar as condições para produzir uma alternativa convincente e mobilizadora, como se refugiou num desinteresse, numa maledicência, numa abulia que acabaram por favorecer uma direita unida, pragmática e razoavelmente enérgica. Manuel Alegre, de facto, apenas mobilizou os partidários de uma ideia de esquerda cheia de pergaminhos mas talvez demasiado retórica, imprecisa e pouco atractiva. Já os mobilizáveis que não foram mobilizados – leia-se, um bom número de militantes e compagnons de route socialistas – refugiaram-se num rancor absolutamente cúmplice. Agora justificam-se, entre gargalhadas, com um absurdo «eu não vos disse…», mas a verdade é que é fácil afirmar que Alegre foi estrondosamente derrotado – e foi-o – quando de facto tudo se fez para que essa derrota acontecesse, ainda que à custa de uma vitória esmagadora – que o foi – do homem de Boliqueime. A sua apologia da passividade não foi a causa exclusiva da derrota de Alegre, mas foi com toda a certeza responsável pela dimensão do triunfo do candidato da direita. Que não venham sacudir para cima dos outros, aqueles que se moveram, a água do capote.

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                                Bom conselho

                                Chico

                                A esquerda em campanha parece incapaz de falar para os que precisam realmente de campanha. A fazer chover no molhado quando a savana está ali mesmo ao lado. Bate em Cavaco 24 horas sobre 24 junto daqueles que jamais votarão em Cavaco e não precisam de que lho lembrem. Dando ao mesmo tempo a este oportunidades para ir dizendo ao bom povo hesitante que é atacado pelos que «só sabem dizer mal» e que, no fundo, «nada fazem». A esquerda em campanha denuncia as trapaças e as malfeitorias de Cavaco de segunda a segunda como se parte importante do povo eleitor que decide não visse em muitos desses actos actos sinais de uma «esperteza» que cobiça ou lhe é indiferente. Porque não uma preocupação maior em explicar pacientemente e com imaginação, boca a boca, porta a porta, debate a debate, comício a comício, post a post, a tanta gente que hesita ou ainda duvida, AS RAZÕES pelas quais vale a pena votar positivamente no seu candidato? (Quase três da madrugada. Desligo o computador, apago a luz e desço as escadas trauteando a velha canção de Chico Buarque. «Oiça um bom conselho, que lhe dou de graça.»)

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                                  Onde estará você a 23 de Janeiro? (2)

                                  verderubra

                                  Como não me prende qualquer dever de solidariedade para com um partido ou movimento dotado de programa, estatutos ou objectivos a curto prazo – com Albert Camus, reconheço apenas que «se existisse um partido daqueles que não têm a certeza de terem razão, eu faria parte dele» – posso dar-me ao luxo de ser sincero e de falar com quem me lê sem preocupações exageradas com o impacto do que escrevo. Posso dizer, por exemplo, que sendo adepto obstinado de uma intervenção cívica atenta e permanente, neste momento mais facilmente me revejo na expressão resistente da recusa e do protesto do que na associação a propostas programáticas voltadas para a acção organizada. Haverá quem diga que essa é uma posição cómoda, e provavelmente é-o, mas vivendo numa sociedade sem projectos políticos mobilizadores, sem movimentos nos quais confie ao ponto de aderir fisicamente a eles – já que a alma, lamento, essa só ao velho diabo a doarei –, não é nada de particularmente singular que faça parte da multidão de cidadãos politizados que se não revêem na militância de papel passado. Serão tentações de anarquista? Sim, um pouco, pois admito que entre o vermelho e o negro o meu coração já balançou mais. Mas as circunstâncias não carecem de grandes justificações: muito simplesmente, incomoda-me gritar palavras de ordem, vivas, hurras ou morras quando o meu apoio às ideias, instituições ou pessoas às quais elas se aplicam conserva uma razoável distância crítica.

                                  Sim, já o disse aqui e repito-o agora: no dia 23 votarei em Manuel Alegre. Dele afasta-me muita coisa. Afastam-me desde logo certos pressupostos culturais e modos de estar. Não gosto da exibição de «moralina», essa palavra inventada por Nietzsche para designar uma arrebatada agitação declamatória, em forma de pregação, que nega a dimensão crítica e convicta da intervenção política. Não me agrada a sua concepção protocolar e estritamente canónica de cultura. Não me agrada o vínculo com um Portugal simbolicamente virilizado, taurino e venatório, que me parece de outras eras. Afasta-me também um trajecto recente marcado por atitudes de hesitação ou pouco claras, apesar da afirmação pública de inegável coragem que tem pontuado a sua vida. Aproximam-nos, todavia, factores que se relacionam com muito daquilo que representa, ou pode vir a representar, que é basicamente a reconstrução de territórios de política solidária, a activação de expectativas de mudança, de prioridades sociais, de uma sensibilidade centrada nas pessoas, que se encontram nos antípodas do que Cavaco Silva exprime. É este o campo de combate que agora interessa, muito mais importante do que o espaço para os gostos e os desagrados de pessoas mais ou menos como eu. Por isto, apesar de não andar por aí em desfiles ou comícios a gritar os tais vivas e hurras – sem nada, mas mesmo nada, contra quem o faz –, agirei a 23 sem hesitações. Não me posso refugiar em esquisitices pessoais, não me posso abster, quando, para além de Manuel Alegre, não existe alternativa capaz de impedir que por mais cinco anos tenhamos de conviver diariamente com a cabeça rústica mas perigosa daquele senhor esguio, azedo e de direita.

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                                    A rua tunisina

                                    Tunísia na rua

                                    Os acontecimentos dramáticos da Tunísia, os duros recontros de rua entre os manifestantes e a polícia, e o seu resultado prático com a demissão compulsiva de Ben Ali, inesperados pelo menos para quem os observa de longe, podem ajudar-nos, nesta época de recuo dos movimentos sociais de natureza não-reformista, a perceber que não é através da instalação da cultura de escape ou do conformismo diante do arbítrio que se combatem a tirania, a injustiça ou a desigualdade. Que se revela a possibilidade da realidade que «é» ser bem diversa daquela outra que afinal «pode ser». Através de um processo de mudança apoiado num esforço para sairmos do nosso acanhado território de salvaguarda, dos nosso medos instalados e do nosso desalento. Da pequena vida ocupada com a sobrevivência em fugidios nichos de felicidade nos quais nos resguardamos para sobreviver.

                                    Será um lição para os povos dos Estados do mundo islâmico, dentro dos quais o poder arbitrário, a desigualdade entre ricos e pobres, entre quem pode sempre e quem apenas deve, a pobreza extrema da maioria da população, a exploração do trabalho, a falta de liberdade, o analfabetismo e a ignorância, a intolerância usada como forma de opressão, são camuflados por uma retórica sectária, nacionalista ou antiocidental, apresentada pelas autoridades políticas e religiosas como vinculada a uma «tradição islâmica» na verdade inexistente. Foi o libanês Samir Kassir quem, num livro que lhe custou a vida – Considerações Sobre a Desgraça Árabe, editado em 2006 pela Cotovia – falou dos crimes dessa gente que se mantém no poder fazendo crer aos seus povos «que não têm outro futuro para além do que lhes destina um milenarismo mórbido», remetendo-os ao culto «da desgraça e da morte». Na realidade, uma alteração de política imposta pela revolta generalizada e pela vitória, ainda que temporária, dos objectivos nucleares dos sublevados, como esta que acaba de acontecer na Tunísia, suscita o exemplo de uma oportunidade, de um trilho, que só pode preocupar as elites criminosas, cujo poder se funda na opressão e se alimenta do ódio ao outro que vive a milhares de quilómetros de distância.

                                    Mas será uma lição também para os povos do chamado ocidente, em particular para os da Europa do sul, contidos por sistemas políticos bloqueados, sem capacidade de renovação e de motivação, e narcotizados por uma comunicação social manipuladora, controlada pelos grupos financeiros, que se esforça para impor a ideia de que toda a perturbação é necessariamente má. Espalhando, como um vírus, a fantasia de que os núcleos concêntricos do poder são imunes aos protestos dos cidadãos e à possibilidade de uma mudança de orientação na organização da economia, na escala dos valores sociais, na escolha das prioridades políticas. A revolta extrema, dura e radical, com contornos por vezes brutais, como aquela que vimos agora nas cidades, vilas e até povoados tunisinos, pode desenhar num horizonte geograficamente alargado, a contracorrente, a percepção de que existe um momento no qual a paz social carece realmente de alguns safanões. Estes movimentos bruscos e perturbantes não são agradáveis – só um tonto ou um louco gosta do cheiro das barricadas em chamas, do ardor dos gazes lacrimogéneos, de sangue derramado –, mas podem ajudar a reencontrar a ideia de que a mudança radical não é um mal em si. E de que ela pode até representar a melhor forma de evitar males bem piores.

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