Arquivo de Categorias: Olhares

Posfácio em forma de post-it

Apontamentos do Maio – adenda

Tinha decidido fechar a série de apontamentos sobre o Maio de 68. Terminara o mês da efeméride e toda a gente estava, e por certo continua, mais ou menos farta de tanta evocação. Mas porque só o pude fazer na noite passada, não quero deixar de referir o visionamento doméstico de Grands Soirs et Petits Matins (traduzido como Os Dias de Maio), o documentário de William Klein que me chegou há cerca de duas semanas com o exemplar do Público.

O filme não é, como eu descuidadamente pensara, uma simples montagem de fragmentos particularmente importantes da revolta estudantil e operária. Ainda que se reporte a episódios e a ambientes que tiveram lugar já na segunda parte do mês – quando a revolta transbordara dos ambientes estritamente estudantis e intelectuais, e o PCF considerara já que talvez pudesse resgatar em seu proveito o estardalhaço dos jovens radicais «pequeno-burgueses» – é muito mais que isso. Expõe diante dos nossos olhos um conjunto de testemunhos inequivocamente espontâneos, reveladores todos eles de um ambiente de intensa politização, e de questionamento do próprio conceito de revolução, que é tão rico quanto revelador. E um conflito de códigos e de valores observado em plena construção (impagável a sequência na qual um comité inteiro procura serenar telefonicamente a mãe que desconhecia há vários dias o paradeiro do seu filho rebelde).

Aquilo que mais me parece ressaltar deste documentário é, porém, a percepção de um «estado geral de exaltação» que apenas é possível captar em momentos revolucionários, com instantes densos, nos quais parece concentrar-se todo o destino da história, e também da vida, daqueles que o protagonizam. Não que o Maio de 68 tivesse constituído uma revolução – claro que o não foi. Mas, de uma certa forma, assistiu sem qualquer dúvida à materialização de uma série de questionamentos que confluíram, explodiram e foram verbalizados naquela precisa ocasião. E isso Grands Soirs et Petits Matins mostra-o muito bem.

No topo da minha leitura emerge ainda, como um símbolo, a personalidade cujo perfil eu julgava conhecer razoavelmente e que aqui, imersa na acção e na intensidade insone daquelas semanas, se me afigura de uma forma mais completa. Aquilo que Daniel Cohn-Bendit mostrou, o que o tornou então uma figura influente e de grande capacidade magnética, o que levou anfiteatros à pinha a ouvi-lo como a um semideus, foi sobretudo o seu discurso optimista e bravo, descomprometido, isento de clichés e profundamente irónico. Longe, a anos-luz, da seriedade rígida e do discurso previsível dos protagonistas («responsáveis», tal como se autodesignavam) da esquerda, ortodoxa ou radical, para quem, ontem como hoje, o humor jamais supera o nível do sarcasmo. No Cohn-Bendit «histórico» que este filme me revelou com um fulgor visual que não conhecia, impera o sentido da provocação, mas também o prazer e o riso, por vezes um júbilo que não carece de explicação. Como se sabe, categorias que embeberam particularmente a cultura juvenil universitária e urbana cujo processo de afirmação pontuava a época. Aquela que o adorava e estava na rua, em massa, durante as irrepetíveis movimentações parisienses do Maio-passado que aqui se evocou.

    História, Memória, Olhares

    O tal canal

    Um bom exemplo do regionalismo no seu pior é-nos dado todos os dias por uma estação de televisão por cabo chamada Porto Canal. Ao acaso do zapping pós-prandial, tenho deparado ali com programas que, com raríssimas excepções, são de uma qualidade realmente deplorável (um bom exemplo é «Por um Canudo», provavelmente o pior programa de apanhados do hemisfério norte). Quase todos eles se esforçam por alimentar o penoso sentimento de inferioridade que muitos cidadãos do Porto experimentam em relação a Lisboa. Há dias, por exemplo, um debate entre quatro comentadores residentes com acentuado sotaque da Cedofeita tentava descodificar, com aparência de seriedade, a razão pela qual «as pessoas de Lisboa chamam habitualmente galegos» aos naturais da cidade (tratamento do qual, devo confessar, jamais tinha ouvido falar até esse momento). Num outro procurava provar-se que sendo «a percentagem» (sic) do rendimento per capita do Porto «metade da de Lisboa» (sic), deveria ser o Estado a restabelecer o equilíbrio. Ora tive hoje outro extraordinário exemplo daquele padrão de provincianismo: apesar de considerar diversas capitais europeias, o boletim meteorológico do Porto Canal apenas fornece previsões de temperatura e de pluviosidade relativos às cidades portuguesas que vão de Viana do Castelo a Aveiro.

    Antes que alguém se impaciente desnecessariamente com este post, declaro desde já que gosto muito do Porto, onde aliás já morei por dois períodos. E que vivo numa cidade – que eu considerava do centro do país mas que afinal parece ser do sul – na qual a relação entre media e provincianismo é igualmente forte.

      Apontamentos, Olhares

      Resistir

      Entra-me pela mailbox adentro um anúncio de um espectáculo que recomenda, subvertendo a velha frase, «Relax, don’t have a cigar». Acreditem os seus autores que produziu o efeito inverso. Uma bandeira da resistência ao higienismo dominante esvoaça desde há meses na janela do meu gabinete de trabalho. Sem a hipótese de ser trocada pelas ordens verde-rubras de mister Scolari ou do professor Marcelo. Ao menos aqui deixem-me em paz.

        Atualidade, Devaneios, Olhares

        Sem ícones

        Apontamentos do Maio – 14

        Vi hoje à hora de almoço, por um acaso, a maior parte do documentário televisivo 1968. O Mundo em Revolta, de Michèle Dominici. Nada de particularmente novo, para além de mais uma revisitação à memória do tempo por parte de alguns dos seus mais conhecidos actores de ambos os lados do Atlântico (Cohn-Bendit, Robin Morgan, Tommie Smith, Felix Dennis, Alain Krivine, o argelino Nadir Boumaza e o irmão mais velho do estudante checo suicida Jan Palach). Todos eles, exceptuando naturalmente o último, pessoas que permanecem activas e que não entendem a sua experiência militante como simples desvario de uma juventude consumida em gestos equívocos (como o fazem alguns dos nossos ex-maoístas, por exemplo, que insistem em falar do seu próprio passado como de uma velha medalha oxidada).

        Particularmente interessante, porque mais prospectivo, o testemunho de Krivine, na época figura central da Juventude Comunista Revolucionária, de orientação trotskista, e hoje dirigente da LCR. A um dado momento, refere um pormenor ao qual acaba por dar relevância: para ele, o Maio de 68 terá representado, talvez, um dos derradeiros momentos nos quais, no interior das democracias parlamentares do ocidente, se utilizaram fotografias de figuras associadas ao conceito de revolução socialista (Marx, Engels, Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Mao, Ho Chi Minh, Fidel, o Che, e outras) como ícones de um movimento de massas. De todas elas, apenas o Che permanece visível, e ainda assim, como se sabe, mais como uma insígnia do que como representação de um «guia para acção». Krivine conclui esta constatação conferindo-lhe uma dimensão positiva: olhando este desaparecimento como sinal contemporâneo de uma certa dessacralização da mitografia marxista e de um tempo de procura de uma nova ideia de transformação, capaz de dispensar a imagem ou mesmo a presença simbólica de guias admiráveis e inspiradores. Não deixa de ser uma percepção que vale a pena recolher.

          Atualidade, História, Olhares

          Selo de garantia

          Posso garantir aos potenciais interessados que Miss Johansson canta bastante melhor do que Marilyn Monroe antes de falecer ou do que Carla Bruni antes de mudar de estado civil. Não tenho a certeza de que isto funcione como um elogio.

            Olhares

            Reprise (1)

            [YouTube=http://www.youtube.com/watch?v=nE-yWpc91_A&feature=related]

            Completam-se hoje precisamente 45 anos sobre o lançamento de Please Please Me, o primeiro álbum dos Beatles, gravado numa única sessão de 15 horas em 11 de Fevereiro de 1963. O valor simbólico deste momento na cultura popular do século XX tem sido desvalorizado por quem não possui uma clara memória da época ou tende a menosprezar o impacto da então nova cultura juvenil. A ingenuidade quase pueril das letras dos primeiros temas, a linearidade dos arranjos iniciais, a forte concorrência transgeracional dos mais longevos Stones (cujo álbum inaugural saiu apenas um ano depois), bem como a complexificação posterior do rock, contribuíram também para a instalação de um certo desinteresse pelos primeiros tempos dos fab four junto das gerações mais recentes. Olhando este vídeo, percebemos que existia uma nova energia no ar.

              História, Memória, Olhares