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O exemplo

Parlamento

A pergunta já circula por aí. E só os nomes e as funções vão variando consoante os lugares. Se «eles» podem picar o ponto e dar de frosques sem qualquer problema, porque não o podem fazer também o Sr. Cipriano da portaria e a D. Ermelinda das fotocópias?

    Atualidade, Etc.

    O meu post fútil do mês

    José Sócrates

    Só quem é cego ou não diferencia um par de atacadores de um laço de usar ao pescoço não reparará na forma moderna e cuidada de José Sócrates se ataviar. E, já agora, de se calçar e de cortar o cabelo (sim, que aquele corte dispensa o pente no bolso de trás das calças). No panorama masculino da política portuguesa ele representa, sem qualquer dúvida, um caso insólito. Para além de penoso, seria bastante enfadonho enumerar aqui as figuras públicas masculinas de porte sem gosto, antiquado ou mesmo grotesco, muitas delas até bem mais novas que o primeiro-ministro, que desfeiam os nossos dias. Aliás, a tendência geral integra-se numa tradição antiga, historicamente ancorada na estética burguesa oitocentista, pós-calvinista e pós-revolucionária, que considera serem apenas as mulheres a terem o direito à cor e ao bom aspecto. «Os homens não se querem bonitos», diz o adágio português, acentuando uma tendência que na Península Ibérica se cruzou ainda com uma sobriedade estimulada pela legislação anti-sumptuária do século XVIII. Para os cavalheiros reserva-se então a sobriedade escura, cinzenta, agora apenas dourada por um nó de gravata «à Windsor», ou, vá lá, um corte de cabelo à Santana Lopes. Suspeito mesmo que algum político caseiro apanhado a ler a Esquire ou a Men’s Health (para não falar da Arena), ou a quem se descubra a estranha mania de usar cremes hidratantes e regeneradores, possa ver definitivamente comprometida a carreira. O pessoal das «jotas» sabe-o muito bem.

    Por isso não me espanta que o diário espanhol El Mundo tenha considerado Sócrates, mais os seus trajes Armani e os seus sapatos Prada, como dando corpo, e provavelmente também alguma alma, ao 6º homem-figura pública «mais elegante do mundo». O galardão, que colocou Karl Lagerfeld em primeiro, Roger Federer em segundo, Barack Obama em terceiro e Brad Pitt em quarto lugar, apenas contém uma inexplicável nódoa: Carlos de Inglaterra encontra-se, apesar do seu look enfatuado e, peço perdão, algo asinino, classificado em 8º lugar (ok, mas sempre usa uma roupinha «à Príncipe de Gales»). Para quem todos os dias tem de suportar governantes mal vestidos, deputados com gravatas horríveis, sindicalistas com bigodes inestéticos ou desportistas com penteados de pesadelo, a imagem visual de Sócrates até poderia constituir um lenitivo. Isto se o nosso primeiro se visse menos e falasse num outro tom, evidentemente. Não se pode ter tudo. Visualmente falando, claro.

      Atualidade, Etc., Olhares

      Laika

      Laika

      O partido-da-língua-de-pau não muda. Enquanto os outros apoiam ou aplaudem, ele «saúda» sempre. E se os cumprimentados o merecerem, «saúda calorosamente». Quando os restantes definem metas, ele possui «objectivos claros». Se os mais falam da experiência que vão ganhando, ele diz «a vida ensina». Quando os outros apresentam ideias ele «reafirma a sua base ideológica». Se falam de discussão, ele prefere «um amplo e profundo debate». Se organizam encontros, ele prepara as coisas em «1600 reuniões ou plenários, nos quais participaram mais de 26000 militantes». Enquanto se esgrimem posições, ele dá logo «uma resposta inequívoca». Quando os outros reestruturam, ele promove um «reforço da organização». Chama os fascistas de «fâchistas». Creio mesmo que prefere ainda designar o espaço de «cosmos». E os mais indefectíveis militantes continuarão por certo a relembrar como Лайка a saudosa cadela Laika.

      Adenda: A Gestapo encorajava alguns prisioneiros que suspeitava de serem comunistas a escreverem pequenos artigos. O objectivo era confirmarem a sua filiação pela análise da linguagem. Uma tarefa fácil, diziam os agentes.

        Devaneios, Etc.

        Uma história interminável

        Comunismo

        Versão de um texto publicado originalmente na revista LER

        Como experiência, destino e utopia, o ideal comunista possui uma história poucas vezes apoiada por narrativas abrangentes e razoavelmente isentas. Esta obra de Robert Service, escrita sensivelmente ao mesmo tempo que a trilogia biográfica de Lenine, Estaline e Trotsky, esforça-se por preencher essa ausência. Da sua tentativa de traçar um panorama da mais importante, dinâmica e persistente corrente política dos últimos cem anos resultou um trajecto enumerativo que começa no comunismo pré-marxista e vai até ao embrionário «socialismo do século XXI», mantendo como eixo a Revolução de Outubro e a transformação da União Soviética em exemplo e estímulo de um alcance planetário. Capítulos que basicamente resumem informação conhecida convivem, no entanto, com outros nos quais se notam um maior investimento do autor e também algumas novidades. É o que acontece quando mostra como os bolcheviques se lançaram ao assalto do poder sem uma matriz para a nova ordem a criar, como foram enunciadas as primeiras divergências teóricas em relação ao template estalinista do «marxismo-leninismo», como se organizou a propaganda pró e anticomunista durante a Guerra Fria, ou como foi o modelo soviético reproduzido no pós-guerra, durante a rápida mas complexa fase de construção das «democracias populares».

        O esforço de síntese é notável, e de um ponto de vista informativo parece conseguido, transformando este livro numa útil introdução à história geral do comunismo. Ele deve, todavia, ser mediado por uma atitude crítica atenta e contínua, uma vez que a nítida aversão do autor aos valores do comunismo interfere na objectividade e até na clareza de diversos passos. Pior, ela tê-lo-á afastado de uma compreensão aprofundada da génese social, filosófica e ética do ideal comunista e da eventual perpetuidade da sua capacidade de atracção. É verdade que Service admite, de início, que um dos seus intentos é responder à dúvida de décadas sobre a natureza «inerentemente despótica» ou «potencialmente libertadora» do comunismo, mas concentra-se sobretudo no primeiro dos aspectos, dando pouca atenção ao segundo, justamente aquele que potencia a capacidade de atracção e de mobilização daquele ideal. Em consequência, sugere que o carácter perverso de algumas das práticas dos comunistas – no poder ou fora dele – os afasta de todo de um papel positivo nos processos de edificação democrática e lhes retira até legitimidade na sua participação no combate social, apontando-os como vírus maligno que «provou ter características metastizantes» e continuará a viver mesmo após o desaparecimento do último Estado socialista. O que contraria a prometida isenção desta obra, ainda assim, dada a falta de alternativas acessíveis, de utilidade. Uma nota negativa adicional para a perceptível imperfeição da tradução e da fixação do texto, infelizmente muito comum, como é sabido, nas obras editadas pela Europa-América.

        Robert Service, Camaradas. Uma História Mundial do Comunismo. Tradução de Fernanda Oliveira. Publicações Europa-América, 568 págs. ISBN: 978-972-1-05928-3

          Etc.

          Frases que ficam 3

          A dada altura do jogo de futebol Sporting-Guimarães, incomodado pela bátega de água que de repente atingiu o estádio de Alvalade («num ápice», teria dito o clássico Gabriel Alves), o desabafo técnico-táctico do comentador e ex-jogador António Simões: «A chuva vem esquinada e entra-me aqui por uma diagonal aberta.»

            Etc.

            José de Cupertino e as trips

            São José de Cupertino, San Giuseppe da Copertino (1603-1663), voava sem limitações, circundando igrejas e aterrando sem danos nos seus altares. Conta-se que certa vez, numa decisão cuja lógica permanece inexplicável na literatura hagiográfica, voou até uma oliveira e permaneceu sobre um dos seus galhos por mais de meia-hora. É hoje, naturalmente, o padroeiro dos profissionais da circulação aérea, como os pilotos, os astronautas ou os pára-quedistas. Alguns entendem também ser ele o protector de pessoas com certos problemas do foro neurológico, traduzidos naquilo que o povo chama de «comportamento áereo». Conta-se que, por vezes, a José bastava o distante toque de um sino, ou que alguém pronunciasse a palavra céu, para que perdesse o contacto com a terra e iniciasse uma das suas fulgurantes trips.

              Devaneios, Etc.

              Preconceito e precaução

              Marilyn Monroe

              Falando de morenas o Urban Dictionary não tem dúvidas: «Brunette’s are known to be reliable, dependable, intelligent, and exotic. It’s also been said that brunettes are more approachable since the color brown is prevalent across all cultures. Brunettes are more seductive and exotic than blondes, and they stand out». E sobre as loiras afirma, peremptório: «Notorious for being sluts, great blowjob givers, dumbasses, illiterate, annoying, uncultured, confused, and possibly most important of all, the kryptonite of black males, especially professional athletes. They travel in packs and tend to be fucking hot. Be very scared. If one comes in contact with a blond, immediately call for assistance from a brunette».

                Devaneios, Etc.

                Meia palavra basta

                Tandem

                Exibo por vezes, de um modo aparentemente insensível às preocupações colectivas, atitudes ou comportamentos voltados para mim mesmo (sou um nada egocêntrico, admito). Cultivo, tanto quanto sou capaz e as circunstâncias me deixam, a independência das acções e do pensamento (individualista até às entranhas, difamam os mais próximos). E só gosto de multidões se entre elas puder circular incógnito. Tenho, por isso, alguma dificuldade em participar em blogues colectivos. Embora já o tenha feito no Sous les Pavès, la Plage e em A Estrada, ambos de boa memória (ainda um dia embaraçarei os meus antigos companheiros falando aqui dessas experiências), e agora, con mucho gusto, milite nos Caminhos da Memória e em Os Livros Ardem Mal. Mas quanto mais conheço alguns daqueles blogues que frequento todos os dias, constantemente envolvidos nos seus combates um tanto umbiguistas de Alecrim e Manjerona, mais razão dou a mim mesmo para, como Harpo Marx, continuar a esforçar-me por praticar aqui o solo absoluto. Manias. Ou, como diria o meu Tio Fulgêncio, cismas.

                  Etc., Oficina

                  A culpa é de Saramago (mas não só)

                  Tomar as medidas

                  Segundo notícia do Público online, a PSP reviu para 20 mil a 25 mil o número de funcionários públicos que se manifestaram hoje em Lisboa por aumentos salariais acima dos previstos pelo governo para 2009. Inicialmente a polícia avançara com uma participação de três mil a quatro mil. A organização do protesto continua a afirmar que foram perto de 50 mil as pessoas que desfilaram entre o Marquês de Pombal e a Assembleia da República. Suspeita-se com fundamento que o agente incumbido de efectuar as medições anda a ler o Ensaio sobre a cegueira nos intervalos dos giros. A verdade porém – Miguel Esteves Cardoso scribit – é que «não há neste abençoado território um único sujeito, seja eu ou ele cego, surdo e mudo, que não reclame a sua inobjectivável subjectividade». Essa é que é essa.

                    Atualidade, Etc.

                    Desigualdade de facto

                    Da bula de um medicamento que o médico me prescreveu:

                    Utilização em doentes negros com pressão arterial elevada e dilatação do ventrículo esquerdo
                    Num estudo em doentes com pressão arterial elevada e uma dilatação da cavidade esquerda do coração, COZAAR demonstrou diminuir o risco de acidente vascular cerebral e ataque cardíaco, e ajudar os doentes a viver durante mais tempo. No entanto, neste estudo, estes efeitos benéficos não se aplicaram a doentes negros.

                      Etc., Recortes

                      Culto das aparências

                      Look

                      A crise no consumo instala-se e o comércio a retalho precisa quase desesperadamente de clientes. Já tinha notado um exagerado aumento da simpatia em algumas lojas nas quais era até agora tratado com uma cortesia que se aproximava da indiferença. Hoje tive a confirmação com uma mensagem de SMS – desatento, devo ter dado o número de telemóvel para uma qualquer «ficha de cliente» – na qual me prometiam quatro camisas e uma gravata na compra de um fato completo. Ainda por cima com bastante tempo para me decidir. Vou fazer-me de caro a ver se a proposta melhora um pouco, e daqui por umas semanas vou estar com um look bestial sem ter de recorrer ao cartão de crédito. Depois irei inscrever-me numa escola de tango.

                        Devaneios, Etc.

                        Frases que ficam

                        Esta ouvi-a há minutos, enquanto tomava o café do meio da manhã: «O português tem a mania de que as coisas que acontecem são também não sei quê.» O gatofedorentismo possui uma importante base social de apoio.

                          Etc.

                          Do bem e do mal

                          Hegemonia do bem

                          Após ter lido na Visão uma declaração lamentável de José Mário Branco – músico que respeito e admiro sempre que não fala do seu programa oitocentista de regeneração da humanidade – qualificando Obama, na linha de um texto de Noam Chomsky que cita, como um mero «bandido bom», potencialmente mais perigoso do que esse «bandido mau» que não engana, chega-me às mãos um texto de Boaventura de Sousa Santos que aponta num sentido diferente, naturalmente menos simplista. Conhecendo-se as posições de BSS, nada suspeitas de simpatias para com os caminhos e as propostas da política americana mainstream, e reconhecendo-se a pertinência das dúvidas que mantém – o título do artigo define aliás uma interrogação: «A hegemonia do bem?» –, ganham particular significado as palavras das quais se serve: «Obama tem esse privilégio de oferecer ao mundo inteiro um momento glorioso de hegemonia do bem. Só por isso ficará na história.» O artigo completo pode ser lido aqui.

                            Etc.

                            Ou vai ou racha

                            A gigantesca «Máquina do Génesis» entrou hoje em funcionamento no Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), tentando recriar a paisagem do Big Bang que teve lugar há cerca de 13,7 mil milhões de anos. Mas como a primeira colisão frontal de protões apenas está prevista para daqui a alguns meses, ainda não será desta que se dará o esperado Estoiro-Mestre. Todos contamos que os milhares de cientistas que andam há vinte anos a gastar rios de dinheiro para conseguirem simular os primeiros milésimos de segundo do Universo saibam mesmo aquilo que estão a fazer. Embora os mais avisados de nós saibam também que jamais existirá ciência certa.

                            [Adenda] A acompanhar aqui.

                              Etc.

                              13 minutos

                              08H35. A ligação wireless do hotel jamais nos deixa sozinhos. Está-se aqui e em toda a parte.

                              . A encenação dos democratas foi muito americana, naquilo que isso tem de bom e de mau. O discurso de Obama foi forte, comovente, elegante, brilhante, com propostas num tom de campanha que se não ouvia desde Roosevelt. Se forem concretizadas em vinte por cento – mais que isso será impossível –, o mundo e a América talvez fiquem um pouco melhores.

                              . Os republicanos escolheram como candidata à vice-presidência uma ex-vice-Miss Alasca que se auto-define essencialmente como «esposa e mãe». Criacionista, militante antiaborto (inclusive em casos de rapto ou violação), opositora do sexo fora do casamento, caçadora praticante e defensora da liberalização do porte de armas. Após uma decisão destas, ainda é menos possível ser-se indiferente ao resultado das eleições americanas.

                              . Numa outra ilha, em Cuba, o músico punk Gorki Águila foi de novo preso e uma pequena e pacífica manifestação pela sua libertação foi abafada com uma pesada carga da polícia. Dois detidos e alguns feridos. Entre estes a blogger Yoani Sánchez. Gorki não é apenas um crítico do sistema, é um seu adversário. Sim, e daí?

                              08H48. E agora vou-me à realidade lá fora. Está um dia seco mas muito bonito.

                                Etc.

                                O que eles querem (ou: o poder do amor)

                                Um exercício fácil e recorrente, praticado por muitos bloggers, consiste em procurar saber quais são as palavras ou frases que por mediação dos motores de busca fazem chegar até aos seus blogues pessoas que neles não entrariam de outra forma. Há já muito tempo que o não fazia, aqui n’A Terceira Noite. Eis pois o top-30 actualizado dos termos mais invocados desde o seu arranque.

                                amor – purga em angola – sexo – sexo oral – garganta funda – anos 60 – rui bebiano – gina lollobrigida – pornografia com crianças – pornografia – leitura – gianna maria canale – folclore regional – sofia loren – ciclopes – boletim meteorologico – colunex – vicio – rosalind franklin – pernas – che guevara – rabos – lindas – tango – mulheres vadias – kamasutra – puta – óculos para a noite – smoking – sapatos vermelhos

                                Apenas por esta amostra, temo que os futuros arqueólogos da blogosfera possam ficar com uma impressão um pouco estranha a meu respeito. Espero que após lerem este post procedam à crítica das fontes e reconheçam a minha idoneidade.

                                  Etc., Oficina