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Tour de France 2

Uma das frases mais profundas que ouvi nos últimos tempos foi pronunciada ontem por um comentador que se referia à etapa decisiva do Tour-2008: «A História pode escrever-se no papel, mas faz-se em cima de uma bicicleta». Aprende-se muito a ouvir os noticiários desportivos.

    Etc.

    Pode um herói?

    Publicado originalmente no programa de sala de Platónov, de Anton Tchékhov. No Teatro Nacional São João, Porto. Encenação de Nuno Cardoso.

    Pode um herói sobreviver distante da luz? Teseu terá morrido infeliz por ter sido abandonado pelos atenienses, quando acreditava merecer todas as honras pela bravura que, sozinho e por repetidas vezes, revelara sob o olhar dos deuses. Napoleão não resistiu ao silêncio das noites em Elba e deixou-se amargurar até ao fim em Santa Helena. Garibaldi foi incapaz de suportar o primeiro dos exílios na ilha de Caprera. É próprio dos heróis lutarem ao sol, convivendo mal com a obscuridade e o esquecimento.

    A atitude heróica pode afirmar-se como uma disposição admirável, mas não o é sem pesados custos para quem a exercite. A força que o herói detém permite-lhe impor aos outros a dimensão exemplar das suas qualidades, mas estas definem sempre um compromisso entre o seu desejo de se distanciar da vulgaridade e as exigências de estabilidade e de normalização que pautam a sociedade que lhe serve de cenário. É sempre um errante, deambulando entre um mundo superior que só ele consegue vislumbrar e a realidade de uma vida terrena, estável e repetitiva, afundada na vulgaridade, que contraria a sua essência. Assume uma capacidade para criar o único e o novo – nos gestos, nas palavras, nas atitudes – como expressão da mais elevada forma de viver o humano, mas essa condição força-o a uma inexorável solidão, afastando-o da comunidade.

    Por isso o herói – como o anti-herói, que não é o seu oposto mas uma sua contrafacção, menos harmónica e mais frágil, contida em regra pela vaidade e pelo egoísmo – apenas o é num insulamento que cultiva. Este pode ser fonte de grandeza, mas também instrumento de uma queda que o conduz à decadência e à morte. Na Crítica da Razão Prática, Kant excluiu o culto do heroísmo da pedagogia da moral justamente porque este impõe um afastamento «dos deveres comuns e correntes» para com os outros, que aos olhos dos seus cultores parecem insignificantes e descartáveis. Estes auto-excluem-se de uma vivência partilhada, embora necessitem dela como quadro que valida esse destaque que sempre demandam.

    A figura de Platónov inscreve-se nesta categoria de ser que caminha a passo, apenas aparentemente seguro, entre a luz que espera de uma condição que estabelece para si próprio como rara, invulgar, e a sombra imposta por um meio que a não aceita como sua. Herói para si próprio, porque se presume singular e necessário, e anti-herói para os outros, que apenas o olham como um corpo estranho, irregular, ocasionalmente admirado, quase sempre desprezado, ou, no limite, invejado e odiado pela desfaçatez de transportar consigo o estigma da diferença.

    «A mim nada me pode estorvar. Eu sou como uma pedra imóvel. As pedras imóveis são para estorvar…», declara, sempre ostensivo, algures no primeiro acto. Amoral, crendo-se imune tanto à admiração como ao amor, à estima como ao ódio. «A felicidade individual é egoísmo», concederá mais adiante, «e a infelicidade individual é uma virtude!» Mas, ainda aí, o Platónov-personagem apenas retomará, no essencial, o mal de vivre romântico que não é comiseração mas êxtase, determinado pela condição própria do solitário.

    As estratégias de sobrevivência de Platónov passam ainda pelo cinismo e pela paródia. A vida comum parece-lhe abjecta e não hesita em afirmá-lo, mesmo correndo o risco de magoar os seus próximos. «Vamos beber pelo fim auspicioso de todas as amizades, incluindo a nossa!», atira a Anna Petrovna. As qualidades comuns e as grandes expectativas merecem-lhe a derrisão e inspiram-lhe o constante sarcasmo. Que alarga a si próprio, ainda que – uma vez mais – o faça para marcar a própria singularidade. Para Sofia Egoróvna: «Sem falar das outras pessoas, o que é que eu fiz para mim pessoalmente? O que é que semeei em mim, o que acalentei, o que fiz crescer?… Tenho vinte e sete anos, aos trinta serei o mesmo – não prevejo mudanças! Depois serei gordo e negligente, o entorpecimento, a completa indiferença por tudo o que não seja a carne, e por fim a morte! A minha vida está perdida!». «Admirem-me por isso!», faltar-lhe-á dizer.

    Quando anuncia o suicídio que verdadeiramente será incapaz de cometer – «Finita la commedia! Menos um canalha inteligente!» – enuncia ainda o carácter trágico e irrevogável da incompreensão diante do único, e a sua forma de percorrer este mundo sempre e sempre como um actor. De pé à boca de cena, fugindo de uma penumbra que acredita não ser para si e jamais merecer.

    No final, trespassado já pelo tiro fatal de Sofia, resta-lhe apenas o espanto de um momento, o derradeiro – «Espere, espere… Mas que é isso?» – que o herói, como o anti-herói, jamais concebe: o da morte que o remeterá ao implacável desfecho, à escuridão eterna. À vulgaridade.

    Pode ler aqui um texto de Filipe Guerra que consta do mesmo programa.

      Etc., Olhares

      Da fábrica dos sonhos

      Porque não sonhei eu com um iPhone3G? A maneira mais expedita de responder à pergunta será dizer: porque é bastante caro. Ou então: porque me afligiu o grau de compulsão e de desejo induzido e reproduzido pelos média à volta do pequeno objecto de consumo fabricado pela Apple. Vi mesmo olhos brilhantes na apresentação pública: um homem de barba grisalha procurando esconder a excitação, uma rapariga com o aparelho na mão falando da concretização do seu «maior sonho», outra chorando de emoção enquanto estoirava as economias de um ano inteiro. A verdade, porém, é que comigo esses argumentos poderiam ainda não ser suficientes para justificar a recusa, uma vez que por vezes gasto somas um pouco imorais em acessórios electrónicos que me acompanham para todo o lado. A forma mais exacta e honesta de justificar o desinteresse será então dizer que tenho um telemóvel, um PDA e um iPod que, juntos ou combinados, superam de longe as melhores expectativas que pudessem ter sido criadas em relação às reais capacidades do novíssimo iPhone.

      Sem dúvida que é mais útil – e somando os custos até poderá resultar mais económico – trazer no bolso um «tudo em um». Fino, leve e com um design realmente brilhante e sedutor. Ou mesmo sexy, como o considerará um geek ou aquele viciado em gadgets que a esta hora já andará à procura de uma capinha cor de abóbora para o seu aparelho. Mas quando vejo que a versão topo de gama deste novo brinquedo imaginado por Steve Jobs tem capacidade para uns limitados 16 gigas de informação multimédia, não possui câmara para videochamadas, oferece uma câmara fotográfica com uma resolução de apenas 2 megapixéis e sem flash, não deixa que troquemos a bateria, não traz rádio, nem teclado mecânico, nem um miniprocessador de texto decente, pergunto-me se valerá a pena gastar 600 euros apenas para ir atrás da publicidade da Optimus, da Vodafone e dos senhores da maçã. Para pairar na crista da onda, dar nas vistas em público ou encher de inveja os colegas de trabalho. Para mim, não vale: esperarei uns tempos até que a geringonça melhore bastante e desça de preço. Até lá, continuarei a torrar o pão com uma torradeira, enquanto telefono com um telemóvel 3,5G que custou metade do preço e deixa o iPhone a muitas milhas de distância.

        Atualidade, Etc.

        Ourivesaria

        Este post não é sobre futebol, mas sim sobre ourivesaria (e alguma argentaria também). Duas Taças dos Campeões Europeus ganhas pelo Benfica, a primeira e a última das Taças de Portugal que o clube conquistou, a Taça Latina, dois troféus relativos a Campeonatos Nacionais, camisolas utilizadas por antigas glórias do clube e uma das botas de ouro do Eusébio estão há quase um mês retidos na alfândega do aeroporto de Luanda. Não é que seja legítimo desconfiar de alguém que more nas imediações do Futungo de Belas – uma ideia absurda, sem dúvida –, mas é compreensível a ansiedade dessa nação benfiquista que aguarda o retorno dos sacros objectos à sua Caaba.

          Apontamentos, Etc.

          Sorrisos e turbantes

          Quando será que um certo feminismo, como uma determinada esquerda, aceitarão que a luta social não tem necessariamente de ser sempre sisuda, monástica, zangada e maniqueísta? E que vivemos num mundo muito mais desordenado – e polissémico, se quiserem utilizar o chavão – do que o era o mundo de há trinta ou quarenta anos atrás? E que sátira e ironia nem são a mesma coisa nem cumprem idêntica função? A consideração devida a pessoas com o passado de Maria Teresa Horta não pode ser desculpa para aceitarmos posições como aquela que aqui se refere (link recolhido deste post da Maria João), e que se voltam até contra a causa que pretendem defender. Além de que aceitar que algo possa ser imune ao riso é pactuar com a limitação das liberdades. E é dar um pouquito de razão aqueles que têm uma grande vontade de enviar rapidamente para o mais fundo dos infernos o caricaturista holandês que brincou com o turbante do Profeta. Lembram-se das últimas cenas de La Vita è Bella, de Begnini?

          P.S. em 24/11/2008: Teresa Horta repete hoje, em carta do leitor no Público, o mesmo tipo de argumento. Está no seu direito de o fazer, evidentemente, mas é pena não ter percebido. Lembrar-se-á ainda da Mosca do Diário de Lisboa, nos inícios da década de 1970? Ou será que já na época lhe não achava graça?

            Etc., Opinião

            Hidrogénio (eu também tive um sonho)

            Não sei se este post me irá custar caro, mas eu também tive um sonho e vou contá-lo. Nesse sonho Hugo Chávez voltava a fazer rondas como oficial de dia, o rei Abdullah abraçava o sufismo e José Eduardo dos Santos praticava jogging sem seguranças no Calçadão de Copacabana. OPEP era um nome de refrigerante com sabor a limão. Todos os carros circulavam movidos a hidrogénio e o petróleo apenas servia para fazer shots marados. As bombas da Galp tinham sido transformadas em sex-shops e os autocarros «movidos a vontade de vencer» eram vendidos aos turcos. Sonhei com tudo isto esta noite, quando adormeci depois de ter visto os anúncios dos novos automóveis ecológicos – ou a um passo de o serem – da Honda e da BMW.

            [isto não é publicidade]

            [YouTube=http://www.youtube.com/watch?v=yxk8YNKLyo8&eurl=http://hydrogendiscoveries.wordpress.com/category/bmw/]
              Devaneios, Etc.

              O outro Bono e a Tricolor

              Para lá da retórica «de esquerda», que fica sempre bem no discurso voltado para uma parte significativa da opinião pública e do eleitorado que em Espanha ainda a valoriza – por aqui os socialistas há já muitos anos que quase prescindiram de tal coisa –, quando chega o momento de se confrontarem com a firmeza dos princípios e a preservação intransigente da memória os adeptos «psoeístas» do realismo político vacilam, refugiam-se na «legalidade» e contemporizam com os branqueadores de passados. Mas existe quem não vá na cantiga.

                Etc.

                Polaroid (Printed in China)

                Apesar da tradição bem conhecida que foi capaz de construir ao longo dos 25 anos de vida como editora, a Taschen não deixa de surpreender pela crescente qualidade das suas produções, pela capacidade para oferecer a um público não especializado álbuns sempre inesperados, e pelo preço a que consegue colocá-los nas livrarias. Comprei hoje um magnífico The Polaroid Book saído já em 2008. Soube-me bem desembolsar apenas 8 euros por uma edição belíssima e quase luxuosa de 350 páginas, mas, sem exageros ou duplicidade, custou-me encontrar na última página a declaração Printed in China e procurar imaginar as longas horas de trabalho duro e mal pago, as mãos gretadas e as estantes provavelmente vazias, dos operários que a produziram. O prazer, acreditem, diminuiu um pouco. Porém, e como toda a gente, em breve esquecerei o detalhe e continuarei a ampliar a biblioteca com livros a baixo preço.

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                  Pimenta na língua

                  Para alguns ilustres académicos espanhóis a língua imobiliza-se por decisão sua. E quem não cumprir as regras deve ser publicamente admoestado, ainda que seja ministro do reino. Uma posição respeitável, claro. Pelo menos tanto quanto aquela que contesta a sua validade. Lá como cá, a obsessão fixista conserva o seu peso, indiferente à imparável e infinita revisão dos dizeres.

                    Etc.

                    Da vida de Kristine

                    Christine Granville, a mulher que mais tempo serviu no SOE – o Special Operations Executive criado por Winston Churchill em 1940 – e que terá sido também agente da espionagem polaca, foi de facto a condessa Kristine Skarbeck e levou uma vida muito pouco vulgar. A sua actividade de infiltração começou logo após a invasão da Polónia. Depois do recrutamento em Londres, saltou por numerosas vezes de pára-quedas sobre território ocupado pelos nazis, atravessou de esqui os montes Tatra para entrar clandestinamente no seu país, organizou grupos de resistência urbana e combateu com comprovada coragem no maquis. Enganou por diversas ocasiões a Gestapo, conseguindo salvar de uma morte certa alguns companheiros detidos pelos alemães e evadindo-se da prisão pelo menos por duas vezes. Ironicamente, viria a ser assassinada em 1954 por motivos passionais. Os seus traços e façanhas terão inspirado Vesper Lynd, personagem de Ian Fleming que surge em Casino Royale (1953), a sua primeira Bond novel, mas uma vez mais a ficção ficou muito aquém da realidade.

                      Apontamentos, Etc.

                      O milagre de Lisboa

                      O noticiário da SIC acaba de adiantar como título de notícia, pela boca de Rodrigo Guedes de Carvalho, que «a chuva parou em Lisboa durante a procissão do Corpo de Deus». Ao mesmo tempo, as imagens mostravam o Cardeal-Patriarca, ataviado com vestes sumptuárias apropriadas ao momento, espalhando incenso ao desbarato – um produto, recorde-se, que provoca danos na saúde de quem o absorve – pelas ruas de uma urbe supostamente em festa. Como se esperava, ninguém deu vivas a Afonso Costa.

                      (Em Espanha o espectáculo não difere muito.)

                        Atualidade, Devaneios, Etc.

                        Da moral e das playmates

                        Chega-me a informação de que a Biblioteca Municipal de Faro bloqueou o acesso ao blogue Quase em Português, da autoria do arquitecto alemão-português (ou o contrário?) Lutz Brückelmann. Apesar da intermitência dos últimos tempos, um dos melhores blogues nacionais, diga-se. Parece que tem a ver com a colecção de playmates que o Lutz tem vindo a mostrar. Vamos esperar que não aconteça o mesmo à Terceira Noite.

                          Etc., Oficina

                          Sexo, mentiras e futebol

                          Gostaria de conhecer os critérios (por exemplo: se se refere a homens e a mulheres ou apenas a um dos grupos, qual a dimensão do universo que foi objecto do inquérito, qual a sua localização geográfica, qual o nível escolar dos inquiridos, qual a sua idade, o nível dos rendimentos, etc.) que nortearam este estudo. Sem esses dados, comentário algum pode passar do nível da simples impressão. Mas como também tenho direito a uma, aqui vai ela:

                          Se bem conheço o meu povo, o referido estudo não revela que a larga maioria dos portugueses gosta mais de sexo que de futebol, e que, neste particular, se encontra acima da média europeia. Mostra apenas que entre nós existe um grande número de mentirosos e que os espanhóis são bastante mais sinceros e desinibidos.

                            Apontamentos, Etc.