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«Favores insignes» a baixo custo

Recebi na caixa do correio electrónico uma mensagem de publicidade que me deixou perplexo mas também, de alguma forma, repleto de confiança num amanhã promissor. Fazia até agora parte daquele conjunto de portugueses e portuguesas que vivia mais ou menos à deriva. Optimista céptico, ateu moderado e descrente do Portugal satisfeitinho que se mete em camionetas para ir aos comícios nacionais do PS, julgava viver já em estado de imunidade perante os grandes desígnios nacionais, órfão de exemplos e limitado a aguardar, sem réstia de esperança, pelo cumprimento do ciclo da vida, rumo à inexorável morte, ao pó e ao nada.

Eis senão quando me é proposta a aquisição de um exemplar de O Santo Condestável, contendo o fiel relato da vida de D. Nuno Álvares Pereira, esse antigo agente repressor dos camponeses alentejanos e extremenhos sublevados, e vitorioso chefe das agrestes contendas dos Atoleiros e de Aljubarrota, que um certo dia claro, à vista da luz divina, passou a ser «o Homem, o Herói e o Santo que estamos agora a ver elevado às honras dos altares por Sua Santidade Bento XVI, neste ano da Graça de 2008». Leio e releio a mensagem recebida, visito a página da Webboom que se refere a este livro da editora Planeta, e escuto os ecos de um apelo («Que o seu exemplo de Santidade nos leve a imitá-lo»), bem como os de uma promessa («Todos os seus devotos obterão, pela sua intercessão, favores insignes, de ordem espiritual e de ordem temporal»).

Na verdade, «na nossa época tão conturbada, quantos não são os que necessitam do seu socorro?». Inúmeros, sem dúvida: desde logo todos «aqueles que perderam a situação abastada e fácil em que viviam, os inebriados por êxitos inesperados», e depois «os que perderam o senso da medida e das elegâncias morais», o que julgo dizer-me directamente respeito. O apelo final dirige-se directamente ao mais inflexível ex-incréu, agora converso já às delícias do contacto espiritual com o «11º santo português»: «Faça, o meu caro leitor, uma boa leitura, bem como uma ainda melhor meditação ao ler esta breve biografia, e que as bênçãos de Deus, por intercessão do Santo Condestável, sejam derramadas em abundância no seu coração». Diante de tal proposta, como não desembolsar o putativo leitor os 12,60€ que lhe são solicitados como modesto óbolo destinado a custear uma tão promissora e edificante chave para a sua salvação material e espiritual? Como bónus, acrescente-se, recebe também o texto das Orações Marianas da devoção do Sto. Condestável e uma História do Carmo. Ainda há esperança para os Portugueses.

    Devaneios, História

    Castelhanos de visita

    É triste reconhecê-lo, mas todos nós padecemos de momentos de fraqueza que nos transformam de repente em seres inanimados. Ou melhor, talvez eles não constituam algo de triste e apenas façam parte da natureza humana. Acredito que mesmo «o homem mais inteligente do mundo» terá os seus instantes de astenia, nos quais permanece imóvel estirado no sofá, de olhos em alvo pregados no tecto, escutando um daqueles cêdês que simula durante 72’56” o ruído repousante de um regato a correr por entre passarinhos e madressilvas.

    O meu momento espiritual é bastante mais ruidoso e ocorre por volta da hora de jantar, quando ligo o televisor para mudar de canal até ao infinito. Foi mais ou menos por essa altura – aceito que perdi a noção exacta do tempo – que passei por dois concursos populares. Num deles, uma jovem com um aspecto conveniente admitia que jamais tinha ouvido falar da Padeira de Aljubarrota (calculo que a temática da panificação lhe passe um tanto ao lado). Noutro, cinco participantes (num total de cinco) no programa de cultura geral «do Malato» concediam não fazerem a mínima ideia da razão obscura pela qual todos os anos, em Portugal, o dia 1 de Dezembro é feriado. Posso reconhecer que o meu estado de consciência não seria o melhor, mas fiquei com a impressão de que os castelhanos já podem avançar, pois muitos portugueses achariam a iniciativa uma experiência curiosa, rara e nunca vista.

      Devaneios, História, Memória

      À noite

      É tardia aqui, a noite. Mas chega sempre, como é próprio da noite. Voltei um pouco cansado. Sobre a pequena mesa do quarto um quadradinho de papel azul. Com letras em azul.

      Dalabóndinn í óþurrknum

      Hví svo þrúðgu þú
      þokuhlassi
      súldanorn
      um sveitir ekur?
      Þér man eg offra
      til árbóta
      kú og konu
      og kristindómi.

      Dizem-me ser um poema de Jónas Hallgrímsson. Que nos fala de como por um pouco de sol pode um homem sacrificar uma vaca, a sua esposa e a própria fé.

        Devaneios, Olhares

        O bom homem, a beldade búlgara e o cavalheiro

        Posso? A direcção do Expresso que não leve a mal a intrusão mas penso – sinceramente e sem ponta de sarcasmo – ser um grande equívoco a inclusão da coluna perpétua de João Carlos Espada na secção Editorial & Opinião, devendo esta transitar para uma página par do suplemento Única. O seu «tema de Verão» de hoje ilustra na perfeição a pertinência do alvitre. Apenas para quem esteja menos treinado no pensamento social do referido autor aqui vai um aviso: esta é só mais uma pequena peça do seu assombroso cubo mágico. Resisti a sublinhar algumas frases extraordinárias.

        Um dos mais difíceis temas de Verão é o da influência da temperatura no código de vestuário. O assunto terá perdido alguma premência com a nova moda masculina de prescindir da gravata – uma tendência entusiasticamente promovida pelo actual Presidente do Irão, cujo nome me escapa. Mas a gravidade do tema está ainda presente nalguns sectores.

        É o caso do Oxford & Cambridge Club, em Londres. Todos os anos a «newsletter» de Julho inclui uma nota sobre o calor e o traje. Recorda ela, basicamente, que as altas temperaturas não anulam o «dress code» do Clube, embora algumas atenuantes sejam concedidas. Estas incluem a não obrigatoriedade de gravata até às 11 da manhã, aos dias de semana, e ate as 18h, nos fins-de-semana. Mas o casaco continua a ser obrigatório a todas as horas, a menos que um dístico à entrada, nos dias mais quentes, assim o anuncie.

        A nota prossegue recordando que, nestas excepcionais ocasiões, os cavalheiros sem casaco devem usar camisas de manga comprida abotoadas no punho. E adverte, em tom decidido, que «T-shirts e outras camisas sem colarinho, mesmo quando usadas com casaco, nunca são permitidas no Clube».

        Tendo lido esta nota numa manhã de lazer, decidi promover um inquérito sobre o tema. No balcão do bar, interroguei o velho empregado, um imigrante grego há décadas instalado nesta área do Clube. O bom homem pareceu surpreendido com a minha pergunta sobre a razão de ser do «dress code». O assunto parecia-lhe óbvio: «Este é um ‘gentlemen’s club’, sir».

        Resolvi insistir com a dúvida cartesiana: «por que razão devem os ‘gentlemen’s clubs’ dar tanta importância ao código de vestuário?». A resposta foi pronta, após ligeira hesitação: «Porque, caso contrário deixariam de ser ‘gentlemen’s clubs’».

        Interroguei em seguida a jovem beldade que se encontrava na recepção do clube, logo à entrada do 71 Pall Mall. Chegara há uns meses da Bulgária, e gostava imenso de Londres, assim como de trabalhar no clube. Código de vestuário? É claro, disse-me ela, trata-se de um ‘gentlemen’s club’. E eu concluí, já instruído pelo grego do bar: se não tivesse código de vestuário, deixaria de ser um ‘gentlemen’s club’? Ela envolveu-me num amplo sorriso: «Esse é exactamente o ponto, sir. É como dar gorjeta: não pode dar gorjeta aos empregados, nem estes podem aceitá-la, num ‘gentlemen’s club’». Finalmente, com um novo sorriso envolvente, rematou: «Eu realmente adoro este vosso clube. Devíamos ter clubes destes, na Bulgária. Mesmo assim, eu preferiria Londres».

          Apontamentos, Devaneios

          Odobenus rosmarus

          Eu cá não tenho inveja alguma de Michael «billion dollar baby» Phelps. O que pode parecer uma atitude um pouco estúpida, pois deveria cobiçar-lhe a juventude, a ausência de dores nas cruzes, o número de flexões que consegue fazer, a destreza na água, as medalhas, a fama e o dinheiro. Mas aquela cabeça marcada pelo prognatismo, as pernas assim curtas e sapudas, a propulsão de animal aquático, os músculos de Exterminador, o grito vitorioso à odobenídeo (odobenus rosmarus) de morsa satisfeita, remetem-no para uma espécie diferente, vinda do Waterworld e apenas semi-humana, à qual não desejo pertencer. Talvez seja essa, aliás, a causa profunda da admiração por Phelps manifestada por George W. Bush. Deve ser isso.

          P.S. – Este post partiu da leitura de um artigo sobre o carácter anómalo de algumas das características físicas de Phelps e a sua relação com a capacidade atlética fora do comum do nadador (mais dados aqui). E pretendeu ironizar um pouco em volta do processo mediático de construção do novo mito. Mas admito que a referência a uma determinada patologia possa ser interpretada de forma diferente. Peço desculpa aos leitores que eventualmente se sintam incomodados. Mas mantenho o texto por este incluir já alguns comentários, por entretanto ter sido citado e sobretudo por saber que muitos outros o não entenderam dessa forma.

            Atualidade, Devaneios

            Quarto de hotel

            Tenho um problema com os quartos de hotel. Aliás, creio que muitas pessoas que conheço têm o mesmo problema com os quartos de hotel. Quase todos eles contêm um aparelho de televisão, toalhões confortáveis e armários generosos. Muitos possuem cortinas automáticas, ar condicionado e, por vezes, um minibar com desenxabidas garrafinhas de ginger ale e de vermute. As camas são impessoais mas agradam-me quase sempre pela sensação de teleportação que oferecem. O problema apenas se revela quando queremos ler e escrever: para além de luzes insuficientes e mal orientadas, geralmente não têm secretárias ou mesas que permitam uma relação decorosa entre o corpo e o computador, ou entre os nossos olhos e as páginas de um livro. Alguns ainda possuem, numa daquelas peças longilíneas de mobiliário de madeira escura que se encostam a uma parede, papel e envelopes timbrados para escrevermos cartas, e até, como me aconteceu há dias numa cidade do norte, folhas de papel mata-borrão. Embora hoje já ninguém escreva em quartos de hotel cartas em papel timbrado – excluindo talvez alguns suicidas – e, à excepção de certos dirigentes do CDS, ninguém se sirva já em viagem de canetas de tinta permanente. Agora mesas e candeeiros decentes, para ler e escrever, disso quase não se vê. É quando estou dentro de um desses quartos, como acontece neste preciso momento, que me apercebo do quanto anda a intervenção da ASAE desviada daquelas que deveriam ser as verdadeiras prioridades.

              Apontamentos, Devaneios

              O «nosso Magalhães»

              Já aqui ficou demonstrado, com o apoio de instrutivos links, como a originalidade da ideia do governo Sócrates de co-financiar a produção do Magalhães, um «computador português» de baixo custo destinado aos alunos do ensino básico, é em certa medida uma fraude. Trata-se de colocar uma vez mais o carro à frente dos bois, pois o governo não tem investido o suficiente no apoio prioritário à introdução dos conteúdos na rede e no desenvolvimento das capacidades informáticas dos professores – a maioria pouco mais continua a saber fazer que servir-se primariamente do Word ou do Powerpoint e utilizar de forma quase sempre passiva o browser –, fornecendo assim o martelo sem dar os pregos. Mas constitui também um gesto de mau gosto, espera-se que não de mau agouro, organizar uma homenagem em vida ao secretário de Estado (e ex-«deputado informata») José Magalhães.

                Atualidade, Devaneios

                Mais vale tarde

                A captura de Radovan Karadzic, infelizmente tardia, leva-me a conceber o duro labor do cabeleireiro que trabalha para os calabouços do Tribunal Penal Internacional, com sede na Haia. O ex-general Ratko Mladic exigirá, espera-se, bem menos esforço daquele profissional.

                Mudando de registo: esta gente não merece o respeito que o TPI lhe irá inevitavelmente garantir. Sarajevo e Srebrenica existiram, os seus executores também. Perdoar nestes casos é impossível, pois eles não perdoaram.

                  Atualidade, Devaneios

                  Depois de Alcácer-Quibir

                  «O único lado» ao qual o novo partido Movimento Mérito e Sociedade aceita pertencer «é ao lado da frente». Para lá chegarmos será necessária uma força, esta, a única realmente capaz de dirigir «a estratégia e a política de desenvolvimento» em condições de «resolver de forma sensata os aspectos negativos da nossa organização social, política e económica». Claro que o MMS não é de esquerda, direita ou centro, uma vez que «esses são conceitos que já não se aplicam a uma sociedade contemporânea», pois «tiveram o seu papel na história mas estão ultrapassados». No essencial, é preciso levar o mérito ao poder, pois o seu reconhecimento «constitui um fantástico indutor de desenvolvimento equilibrado e sustentado de uma sociedade». Este permitirá maximizar «o espírito de conquista e desembaraço dos portugueses», que afinal até dispõem da maior zona económica marítima da Europa como «princípio activo». Ora aqui estão a mensagem e o discurso mobilizador dos quais andávamos há tanto tempo à espera. Falta agora levá-los «a todas as famílias e a todas as casas». Passando à frente dos missionários da Bíblia, dos angariadores do Citibank e dos adeptos irredutíveis do SMS.

                    Atualidade, Devaneios

                    A música mais indesejada do mundo

                    «A música mais indesejada do mundo» (noutra tradução, «a mais supérflua»), foi escrita por Vitaly Komar e Alexander Melamid, artistas plásticos e performers russos, de origem judaica, que trabalharam em parceria entre 1965 e 2003. Através de efabulações centradas em apropriações da memória colectiva, construíram uma obra única cujo núcleo original se formou a partir de uma aproximação aparentemente impossível, ou contranatura, do dada ao realismo socialista. Uma experiência que, como seria de esperar, em 1973 lhes valeu a expulsão da secção juvenil da União dos Artistas Soviéticos na qual haviam acabado de entrar – acusados de «distorção da realidade soviética» -, e mesmo a destruição pública de algumas das suas obras. Encontra aqui uma descrição desta The Most Unwanted Music, expressamente concebida para, nos seus 25 minutos de duração, soar desagradavelmente ao maior número possível de ouvidos. Não se aceitam reclamações.

                    [audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/06/komarmelamid_the-most-unwantedsong.mp3]

                    PS – Um leitor chamou a atenção para um erro que cometi por ter partido de informação incorrecta. De facto, a peça não foi escrita por Komar e Melamid, mas sim por Dave Soldier (música) e Nina Mankin (letra), a partir de uma ideia dos primeiros. Mais dados aqui. Obrigado pela correcção.

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                      Hidrogénio (eu também tive um sonho)

                      Não sei se este post me irá custar caro, mas eu também tive um sonho e vou contá-lo. Nesse sonho Hugo Chávez voltava a fazer rondas como oficial de dia, o rei Abdullah abraçava o sufismo e José Eduardo dos Santos praticava jogging sem seguranças no Calçadão de Copacabana. OPEP era um nome de refrigerante com sabor a limão. Todos os carros circulavam movidos a hidrogénio e o petróleo apenas servia para fazer shots marados. As bombas da Galp tinham sido transformadas em sex-shops e os autocarros «movidos a vontade de vencer» eram vendidos aos turcos. Sonhei com tudo isto esta noite, quando adormeci depois de ter visto os anúncios dos novos automóveis ecológicos – ou a um passo de o serem – da Honda e da BMW.

                      [isto não é publicidade]

                      [YouTube=http://www.youtube.com/watch?v=yxk8YNKLyo8&eurl=http://hydrogendiscoveries.wordpress.com/category/bmw/]
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                        Resistir

                        Entra-me pela mailbox adentro um anúncio de um espectáculo que recomenda, subvertendo a velha frase, «Relax, don’t have a cigar». Acreditem os seus autores que produziu o efeito inverso. Uma bandeira da resistência ao higienismo dominante esvoaça desde há meses na janela do meu gabinete de trabalho. Sem a hipótese de ser trocada pelas ordens verde-rubras de mister Scolari ou do professor Marcelo. Ao menos aqui deixem-me em paz.

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                          O milagre de Lisboa

                          O noticiário da SIC acaba de adiantar como título de notícia, pela boca de Rodrigo Guedes de Carvalho, que «a chuva parou em Lisboa durante a procissão do Corpo de Deus». Ao mesmo tempo, as imagens mostravam o Cardeal-Patriarca, ataviado com vestes sumptuárias apropriadas ao momento, espalhando incenso ao desbarato – um produto, recorde-se, que provoca danos na saúde de quem o absorve – pelas ruas de uma urbe supostamente em festa. Como se esperava, ninguém deu vivas a Afonso Costa.

                          (Em Espanha o espectáculo não difere muito.)

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