Arquivo de Categorias: Devaneios

Reunião magna

Barbeiros

Gostaria também de dizer que «já em muitos outros momentos aqui se reflectiu sobre a importância desta iniciativa». Mas por não ser verdade estou impedido de o fazer. De facto, não tenho acompanhado como gostaria e a magnitude do evento justificaria a preparação do XVIII Congresso dos Barbeiros de Valdivostok, que tem início amanhã. Com a promessa de fazer seguir desde já um enviado especial, saúdo efusivamente todos os animosos baetas daquela bela e laboriosa cidade da península Muravyov-Amursky e o seu destacado papel como força indispensável e insubstituível na construção de uma sociedade vladivostoquiana mais justa porque melhor escanhoada.

    Atualidade, Devaneios

    José de Cupertino e as trips

    São José de Cupertino, San Giuseppe da Copertino (1603-1663), voava sem limitações, circundando igrejas e aterrando sem danos nos seus altares. Conta-se que certa vez, numa decisão cuja lógica permanece inexplicável na literatura hagiográfica, voou até uma oliveira e permaneceu sobre um dos seus galhos por mais de meia-hora. É hoje, naturalmente, o padroeiro dos profissionais da circulação aérea, como os pilotos, os astronautas ou os pára-quedistas. Alguns entendem também ser ele o protector de pessoas com certos problemas do foro neurológico, traduzidos naquilo que o povo chama de «comportamento áereo». Conta-se que, por vezes, a José bastava o distante toque de um sino, ou que alguém pronunciasse a palavra céu, para que perdesse o contacto com a terra e iniciasse uma das suas fulgurantes trips.

      Devaneios, Etc.

      Preconceito e precaução

      Marilyn Monroe

      Falando de morenas o Urban Dictionary não tem dúvidas: «Brunette’s are known to be reliable, dependable, intelligent, and exotic. It’s also been said that brunettes are more approachable since the color brown is prevalent across all cultures. Brunettes are more seductive and exotic than blondes, and they stand out». E sobre as loiras afirma, peremptório: «Notorious for being sluts, great blowjob givers, dumbasses, illiterate, annoying, uncultured, confused, and possibly most important of all, the kryptonite of black males, especially professional athletes. They travel in packs and tend to be fucking hot. Be very scared. If one comes in contact with a blond, immediately call for assistance from a brunette».

        Devaneios, Etc.

        Mr. Loureiro on TV

        Pelos finais do século XVII, um inglês de nome Richardson tornou-se conhecido em toda a Europa por ser capaz de colocar brasas na língua, mastigá-las, comer vidro derretido, manusear ferro incandescente e dobrá-lo com os próprios dentes.

          Atualidade, Devaneios

          Compreendi-te

          Vasco

          O pessoal não perdoa as declarações despropositadas e um pouco estrambólicas de Manuela Ferreira Leite sobre a necessidade de uma licença sabática semestral da democracia. E toca de zurzir a senhora como putativa candidata a ditadora. Mal disfarçada com aquele anacrónico colar de pérolas, ainda por cima. Um exagero, um erro de análise, como reconhecerá qualquer cidadão sensato sem vontade de citar Brecht e de disparar dois tiros para o ar ao menor pretexto. Uma amiga menos intransigente, e provavelmente mais sábia, fala-me da possibilidade da irmã do advogado e comentador futebolístico Dias Ferreira ter bebido um copito a mais durante aquele almoço na Câmara de Comércio Luso-Americana. Quero acreditar que sim. Não sei porquê, é uma ideia que me agrada. E uma ideia que também me alivia um pouco.

            Atualidade, Devaneios

            Culto das aparências

            Look

            A crise no consumo instala-se e o comércio a retalho precisa quase desesperadamente de clientes. Já tinha notado um exagerado aumento da simpatia em algumas lojas nas quais era até agora tratado com uma cortesia que se aproximava da indiferença. Hoje tive a confirmação com uma mensagem de SMS – desatento, devo ter dado o número de telemóvel para uma qualquer «ficha de cliente» – na qual me prometiam quatro camisas e uma gravata na compra de um fato completo. Ainda por cima com bastante tempo para me decidir. Vou fazer-me de caro a ver se a proposta melhora um pouco, e daqui por umas semanas vou estar com um look bestial sem ter de recorrer ao cartão de crédito. Depois irei inscrever-me numa escola de tango.

              Devaneios, Etc.

              Traumas

              Mary Poppins

              Um pesado momento traumático ocorreu quando deparei com uma fotografia de Julie Andrews – responsável por continuadas tentativas de imbecilização das quais fui alvo durante a pré-adolescência, e que imaginara um ser angélico e assexuado – apresentando-se à sociedade, creio que no filme S.O.B., com uma desafiadora caixa torácica devidamente ao léu. Um outro, que terá perturbado uma geração mais recente, relaciona-se com as transformações plásticas de Ana Malhoa, a saudosa animadora das tardes de domingo do Buéréré. Outro ainda, que poderá afectar negativamente milhares de crianças, acaba entretanto de ocorrer: numa capa da Caras, reproduzida no blogue melancómico, deparei com a cidadã portuguesa Luciana Abreu, que deu corpo na televisão à assombrosa Floribella, a princesa das meninas-totós, revelando-se a quem a queira ouvir «uma mulher ousada e sensual». Não há direito. O Ministério da Educação, a Conferência Episcopal e o Doutor César das Neves deveriam tomar uma posição pública contra isto.

              Adenda – Encontrei entretanto uma evocação de Andrews na qual um leitor documenta o supra-citado efeito. Transcrevo: «(…) Quero agradecer a Deus o privilégio de ter conhecido Julie Andrews através de seu filme mais famoso “The Sound of Music” ou a “A Noviça Rebelde” em português [“Música no Coração” em Portugal]. Sua atuação é maravilhosa e terminou por marcar minha vida para sempre pela sua meiguice e talento invejável. O primeiro filme que assisti com Julie Andrews foi Mary Poppins que marcou minha infância.» Assim está bem, não há problema.

                Devaneios, Olhares

                Problemas de visão

                Fiquei a saber, através de um programa de  televisão, que em Coimbra ainda existem «lindas tricanas» (para quem não sabe, lavadeiras do Mondego que outrora faziam certos e determinados serviços aos impetuosos moços estudantes com os quais socializavam). Como moro na cidade, apenas com algumas intermitências, desde 1969, e as únicas que vi eram de barro pintado ou decoravam latas de atum em azeite puro, presumo que tenha andado bastante distraído durante todos estes anos.

                  Coimbra, Devaneios, Memória

                  Para o Campo Pequeno, e já!

                  O M. mandou-me um link declarando serem estas coisas que o fazem sentir-se de esquerda. Digo mesmo mais, são coisas destas que me fazem recordar uma das melhores frases de Otelo. Não o Mouro de Veneza, o outro. E são coisas assim que às vezes me fazem estalar o verniz democrático. Mas recomponho-me logo.

                  [Dias depois. Eduardo Pitta teve o cuidado de sublinhar a condição de private joke da sua referência. Mas alguns dos comentadores exaltados que brindaram o Lutz Brückelmann por se ter referido simpaticamente a este post levaram a coisa mesmo a sério, forçando-o a dar uma explicação. Olhem que a famosa frase do Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho sobre a hipotética deslocação dos «fascistas» para o Campo Pequeno foi logo na época tomada como uma hipérbole. Mesmo pela generalidade da esquerda radical. Claro que ninguém quer colocar aquela gente horrível que Laurinda Alves tanto aprecia no Campo Pequeno. Nem sequer para bater palmas a umas quantas chicuelinas, a umas tantas veronicas, a uma ousadíssima pega de cernelha. Era mesmo preciso dizê-lo?]

                    Atualidade, Devaneios

                    Ladrões de passados


                    Saul Leiter, Café des Deux Magots, Saint-Germain-des-Prés, 1959 [mais]

                    No breve mas esplêndido Paris, recém-editado pela Tinta da China, um livro que data de 1991 mas contém reminiscências muito anteriores, Julien Green falava da nostalgia que experimentava pela cidade, a sua cidade, dos tempos medievais. Uma época, dizia, na qual «o homem ainda era habitado intimamente por uma paz que nós já perdemos». Essa simpatia colocava-o numa posição inteiramente oposta à enunciada pelos românticos, para os quais a fonte de atracção pelo mundo dos castelos e das catedrais advinha de uma percepção heróica e romanesca da vida que os havia preenchido. Ou, pelo menos, da vida daqueles – cavaleiros e donzelas, príncipes e santos, bom povo devoto e respeitador da vontade dos seus padres e senhores que nesse mundo a um tempo verdadeiro e imaginado verdadeiramente contavam.

                    Jamais senti uma «nostalgia em diferido» dessa natureza, uma inclinação afectiva, absoluta e incondicional, pelo silêncio e pelos seus cenários plausíveis do passado. Mas tenho-a – com a mesma legitimidade e idêntica dose de engano – por certos tempos de ruído que não vivi. Nos quais era possível experimentar rumores que, ao invés daqueles, misturados, que hoje nos seguem para todo o lado, mesmo até ao interior das casas e dos quartos onde dormimos, pareciam então o único ruído sobre a Terra.

                    De todos eles, vindos de diferentes tempos, um daqueles que se afigura como mais atraente e fecundo para pessoas da minha geração, ou próximas dela, talvez seja o de certos cafés da Paris do pós-guerra, narrados e reinventados em inúmeros filmes e romances, ou pelas descrições de espectadores em trânsito como  Antony Beevor (Paris after the Liberation: 1944 -1949, já traduzido), Stanley Karnow (Paris in the Fifties) ou James Campbell (Paris Interzone. Richard Wright, Lolita, Boris Vian and others on the Left Bank 1946-1960). Nos quais a ressaca dos anos beligerantes de pólvora e morte, da desconfiança perante todos os olhares, dos futuros sitiados, parecia abrir espaço para todos os possíveis mais impossíveis, incluindo-se nestes o desfrute do excesso. O fragor nocturno/diurno das conversas cruzadas, o fumo dos cigarros consumidos até ao fim em ambientes fechados, os aromas da pastelaria fina, das bebidas alcoólicas, da roupa das mulheres, da tinta no papel: tudo parecia evocar um início de mundo.

                    Dir-me-ão que, no fim de contas, nada terá sido assim, que tudo aquilo que se conta daquela Paris de depois da Libertação é coisa que vem dos livros, do cinema francês de autor, das canções usadas de Madame Gréco, dos maços fétidos de Gauloises. Mas os nossos acessos de nostalgia não vêm apenas do que vivemos: ele chegam também, e talvez em primeiro lugar, daquilo que imaginamos ter sido vivido pelos outros, daquilo que criamos a partir de indícios. Que jamais vimos fora das fotografias que recuperamos hoje com retoques de Photoshop, ou de sequências de filmes guardadas no YouTube. Das quais se vai apropriando a nossa memória, memória construída, de ladrões de passados.

                      Devaneios, Memória, Olhares

                      Desde que o mundo é mundo

                      A partir de um post da Ana Matos Pires surgido no 5 Dias, cheguei à posse de uma preciosa dedução científica. Aparentemente proveniente de estudos desenvolvidos pela mesmíssima equipa de cientistas que terá integrado a tripulação da Arca de Noé, ela foi lapidarmente enunciada em recente data: «Bastaria observar a natureza que nos rodeia e notar como se cruzam os animais, para concluir que, desde que o mundo é mundo, este cruzamento sempre se fez entre sexos diferentes. E, se do reino animal passarmos para o reino vegetal, confirmaremos que para a produção do fruto, há sempre, embora de forma diversa, a intervenção dos dois sexos.» Tudo se mantém assim na ordem da natureza, como nos regrados tempos do bom velho Éden.

                        Devaneios, Recortes