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Muito campeonato pela frente

PSD ganhou as eleições europeias em Portugal. O Bloco de Esquerda ganhou mais espaço e atingiu o seu Evereste. O PCP «subiu 20 por cento» e diz que ficar atrás do BE «não é uma derrota». O CDS esmagou completamente as empresas de sondagens. O Movimento Esperança Portugal afirma ser já «um estádio da Luz cheio de gente». O MRPP conseguiu o seu «objectivo primordial» que era «subir em percentagem». Mesmo a votação do Partido Socialista foi apenas e só «decepcionante». Pelo que percebi, o único vencido por estes dias foi o Paulo Pereira Cristóvão. Nas eleições do Sporting.

    Devaneios, Etc.

    Eleições no eucaliptal

    No eucaliptal

    Sou um dos muitos cidadãos, provavelmente alguns milhares, que por ter obtido recentemente o Cartão do Cidadão viu o seu habitual local de voto alterado. Hoje, dentro da cidade de Coimbra e seu termo, só à quarta vez e no quarto sítio consegui meter a cartolina no pote. Andei quase 50 quilómetros dentro da cidade, perdi-me duas vezes, fiz inversão de marcha em becos, conduzi em sentido proibido, apanhei uma chuvada, falei com um polícia, um enfermeiro e um cidadão com aspecto (e comportamento) de demente que foi o único a orientar-me em condições. A nova mesa de voto, descobri ao fim de horas, fica no meio de nada, num pavilhão pré-fabricado e entre eucaliptos e urzes, já quase fora da cidade. Isto quando aquela até agora habitual está a 100 metros de minha casa. Suspeito que também por aqui a abstenção marcará pontos. Uma pessoa que eu cá sei fica a dever-me esta.

      Atualidade, Devaneios

      Reflexão dedicada

      Tinha na caixa do correio um folheto destinado a combater a abstenção, a convencer o cidadão a ir amanhã depor o seu voto europeu. Continha a convicção e a fotografia de portugueses normais, de nome José, Silva ou Nogueira, bem como as de um Adelino e de uma Maria Celeste. Todos morenos, com a tez a brilhar da sudação, um deles de blazer azul-petróleo e bigode (não, não era a Dona Celeste). A publicidade normal, todavia, apresenta-nos invariavelmente cidadãos louros, com a pele cuidada e semblante de quem jamais provou uma sardinha assada ou bebeu um copo de três. Pessoas apessoadas, chamadas Marta, Rute, Rita ou Salvador, de dentes alvos e alinhados, roupa casual em tons claros e aquele aspecto saudável de quem acaba de sair de uma revigorante tarde de spa. Como o público-alvo será sensivelmente o mesmo, suponho que a dissemelhança figurativa resida no diferente gosto de quem encomenda os rostos. Um bom motivo de reflexão, nesta tarde em que, por lei, todos somos coagidos a praticá-la.

        Devaneios, Olhares

        Andam aí, os espanhóis

        Spain

        Um momento de distracção, um baixar da guarda, e caímos em mais  um nó de publicidade intrusiva via SMS. Visitante ocasional das bombas da CEPSA, preenchi um «cartão de cliente» e comecei de imediato a receber propostas e lembretes. Não esperava é que estes me chegassem num espanholês críptico e futebolino.

        «Sou um “partidaço”! Sou desconto en combustível. Tire o maximo partido de mim. Va hoje ao seu Posto de Abastecimento. Sou seu Cartao Porque Eu Volto.»

          Devaneios, Etc.

          Let’s twit again

          Conversa

          Sabendo das andanças no Twitter de pessoas tão notáveis, diversas e hiperocupadas quanto o são Hu Jintao, Britney Spears, Barack Obama, Bento XVI, Bruno Aleixo e Vital Moreira, aguardo a primeira obra de ficção que tenha no centro da respectiva trama a vida laboriosa e trepidante, quiçá mal paga e a recibo verde, de um ghost-twitter.

            Apontamentos, Devaneios

            Eu, amigo de mim mesmo

            O sonâmbulo

            Recebi um aviso do Facebook no qual se podia ler o seguinte:

            Rui Bebiano added you as a friend on Facebook…
            Rui added you as a friend on Facebook. We need to confirm that you know Rui in order for you to be friends on Facebook.
            To confirm this friend request, follow the link below:
            […]

            Devo esclarecer que, por muito amigo que seja de mim mesmo – e sou-o, admito – não fui eu quem mandou este pedido de amizade a mim próprio. Embora por breves momentos tenha colocado a possibilidade de o ter feito em estado de sonambulismo. Diversas pessoas, algumas das quais minhas conhecidas, receberam idêntico convite, pelo que, como o fez certo dia o famoso Inspector Artur Varatojo, venho comunicar por este meio, a quem tal possa interessar, que no caso em apreço não sou bem aquele que vos dizem que sou. Esse é outro, ele próprio. Esse, não este. Se é que me faço entender.

              Devaneios, Oficina

              Estatuária

              Cristo-Rei

              Soube que a imagem de Nossa Senhora de Fátima foi ontem até aos arredores da Aldeia Galega visitar a do Cristo-Rei. Há que reconhecer: a estatuária portuguesa vive um momento de dinamismo fora do comum.

                Apontamentos, Devaneios

                Intriga Internacional

                Ia ver o Prós e Contras sobre as eleições europeias «directamente do Museu da Electricidade», mas descobri que estava a passar na TCM North by Northwest (Intriga Internacional), de Alfred Hitchcock, e a escolha acabou por ser fácil. Lá fiquei de novo a perambular por uma América sem placas toponímicas (e quase sem negros), a torcer por Mr. Thornhill, a balbuciar diálogos únicos, como o outro.

                Roger O. Thornhill: Tell me… How does a girl like you get to be a girl like you?
                Eve Kendall: Lucky, I guess?
                Roger O. Thornhill: Oh, not lucky. Naughty. Wicked, up to no good. Ever kill anyone? Because I bet you could tease a man to death without half trying. So stop trying, ha?

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                  Cinema, Devaneios

                  Despudor mal atribuído

                  Coimbra - B

                  O número do semanário Visão que saiu na semana passada atribui-me, com algum destaque, uma frase que apareceu no Público: «Em Coimbra, há 40 anos, bebia-se e amava-se despudoradamente.» A tirada saiu, de facto, num artigo do diário para o qual fui ouvido, mas é do realizador João Botelho, antigo activista estudantil e à época dirigente do CITAC. Acontece uma troca destas logo comigo, que tenho andado por aí a dizer à boca cheia que a «crise de 69» representou  um ponto de viragem, um momento novo, mas inicial, ainda algo tímido, na construção de uma nova sociabilidade estudantil coimbrã. A frase de João Botelho, que me perdoe o próprio, soa aliás a uma nostalgia – talvez até um nada megalómana e autocentrada, como acontece na maioria das histórias de caça – que não faz bem o meu género.

                    Devaneios, Memória

                    Memória supérflua

                    Canada Dry

                    A memória supérflua do meu pré-Abril está cheia de sabores, odores, sonidos. O gosto do refrigerante Canada Dry, consumido como sucedâneo da acossada Coca-Cola. O dos chocolates Candy-Bar com recheio, nos quais fui viciado. O do melão verde escuro vendido porta-a-porta. O cheiro a tinta do Século Ilustrado que saía aos sábados. E o do creme Benamor usado pelas senhoras. O da cola Peligon. O da graxa para sapatos nas manhãs de domingo. O compasso dos tangos e pasodobles no Programa da Manhã da Emissora Nacional. Os Shadows a tocarem Apache. O Nat King Cole. A Filarmónica transpirando Verdi atrás do turíbulo de Agosto. O fado no rádio de pilhas. O toque de caixa no 10 de Junho. Como tudo passava devagar e na aparência nada sucedia, havia tempo para registar os detalhes. Ainda à sombra do retrato do velho.

                      Devaneios, Etc., Memória

                      Made in Denmark

                      Sesta

                      O governo da Dinamarca prepara-se para transformar a sesta num direito dos trabalhadores das áreas da Saúde e da Assistência Social. Este será mesmo remunerado, embora não possa ultrapassar os vinte minutos diários. A medida foi já adoptada, a título experimental, em 1800 empresas privadas de outros sectores. O direito a um dia de baixa por morte de animais domésticos ficará também consagrado na lei geral do trabalho. Tanto por fazer e nós aqui a perder tempo com o não-sei-quantos rangel e o professor assertoado.

                      Mais ou menos 24 horas depois – Recebo um mail da Joana Lopes, que, neste momento no Camboja, se choca com estas preocupações quase banais. Transcrevo uma frase sem lhe pedir autorização: «Será possivel, viável, um mundo em que se possa dormir a sesta sem que outros (aqui) trabalhem 364 dias por ano, nem se sabe quantas horas por dia? E em que os primeiros ainda se queixam se as empresas são deslocalizadas para dar de comer aos segundos?»

                        Devaneios, Etc.

                        A haka dos impostos

                        Haka

                        A decisão da Direcção-Geral dos Impostos no sentido de chamar o actual treinador da selecção nacional de râguebi, Tomaz Morais, para numa intervenção sobre liderança motivar os seus funcionários, é uma mina para qualquer blogger com falta de assunto. E funciona para o cidadão contribuinte como um preocupante gesto de intimidação. Vou já regularizar os meus impostos antes que me apareça pela frente um funcionário hipermotivado, com espírito de liderança e espadaúdo.

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                          Coimbra radical

                          Só Deus sabe como aprecio durante 60 minutos em cada ano a música do Conjunto Diapasão (em particular a voz de veludo martelado do vocalista Marante), como abomino música sertaneja (os empregados do Gauchão também conhecem este ódio pessoal) e como experimento sentimentos assassinos quando sou forçado a ouvir a vozearia ululante acompanhada de ferrinhos e acordeão que o Estado Novo nos doou como «folclore do bom». Mas ouvir tudo isso em sistema random, a partir de colunas potentíssimas e mais altas que o Pau Gasol instaladas no hipocentro da universidade mais antiga do país, ao mesmo tempo me esforço até ao limite por conseguir dar uma aula debaixo de tal barragem de som, é experiência que tem qualquer coisa de transcendental. Aconteceu ontem à tarde e acabei a aula a falar da grande Maria do Carmo Miranda da Cunha, mais conhecida como Carmen Miranda.

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                            Degustar pizza em Pyongyang

                            «Os cozinheiros italianos foram levados para uma base militar de alta segurança onde perceberam que a missão seria ensinar três oficiais do exército a confeccionar pizzas». «O nosso povo também tem de ter acesso a esta comida conhecida internacionalmente», disse na ocasião ao jornal japonês Chonson Simbo o gerente do restaurante, citando o próprio Kim Jong-Il. Para saber mais, siga-se a notícia do Público online sobre a abertura de uma pizzaria em Pyongyang.

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                              L’Homme Désespéré

                              Gustave Courbet

                              Aqui se oferece um retrato do Senhor Gustave Courbet, artista antissocial merecidamente mal visto junto das melhores famílias e das forças vivas da cidade de Braga e seu termo, pintado pelo próprio nos anos de 1843-1845. Nele poderá já o fiel leitor perscrutar os sinais visíveis de uma frouxidão do carácter, de uma ductilidade dos princípios, de uma atitude de reprovação dos valores mais lídimos da sociedade, em harmonia com uma rejeição da propriedade, um sacrílego ateísmo e uma abjecção dos valores morais que jamais renegou, da qual é prova a sua participação na destruição da Coluna de Vendôme durante os infaustos acontecimentos da tristemente célebre Comuna de Paris, merecendo pois o legítimo opróbrio e a justa perseguição movida pelas autoridades que têm por dever a manutenção da serenidade dos espíritos e a necessária conservação da ordem pública.

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                                Retaliação

                                A gaulesa Encyclopaedia Universalis, edição de 2009, contém uma entrada sobre Luiz Nazario de Lima Ronaldo e outra sobre Ronaldo Assis de Moreira «Ronaldinho». Não tem uma sobre Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro. Penso que se trata ainda de uma retaliação pelo facto de, durante a Guerra da Sucessão de Espanha (1702-1714), termos apoiado um Habsburgo contra um Bourbon. Estes franciús são muito vingativos.

                                  Devaneios, Etc., História