Arquivo de Categorias: Apontamentos

Sulfúreo

Segundo Luis Bassegio, responsável por uma organização ligada à Confederação Nacional de Bispos do Brasil, deverá ser espalhado enxofre pelas áreas pisadas por George W. Bush durante a sua actual visita ao país, de modo a «exorcizar o diabo». O hiperactivo e sagaz Hugo Chávez já havia, aliás, relacionado Bush com o capeta: na Assembleia-Geral da ONU, o caudilho venezuelano declarou há algum tempo que a tribuna na qual discursava, utilizada pouco antes pelo presidente dos Estados Unidos, cheirava a enxofre. O mineral amarelado que, de acordo com as descrições bíblicas do Inferno e os sermões exaltados de uns quantos pregadores fundamentalistas, o diabo deixa ficar por onde passa. Sabe-se como a esquerda latino-americana é, em regra, profundamente maniqueísta. Mas torna-se difícil concebê-la assim, medieval.

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    Boxe e badminton

    No mesmo número do mesmo jornal da manhã. Vasco Pulido Valente, na sua reconhecida vertente Caterpillar, demole a RTP (que «sufocou, censurou e suprimiu o Portugal inconformista e moderno») e a sua festa do 50º aniversário («não devia comemorar, devia chorar».) Já Laurinda Alves, na consabida versão Aspilia foleacea que se lhe aceita, afaga a estação cinquentona («foi na RTP que comecei a trabalhar») e elogia a celebração (com «muitas pessoas muito comovidas»). É em momentos assim que dou valor ao facto de não ter de viver na República Democrática Popular da Coreia.

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      Baudrillard

      Baudrillard

      Na morte de Jean Baudrillard (1929-2007), aquilo que de melhor sobre ele se poderá dizer talvez tenha sido resumido num parágrafo do Libération:

      «Baudrillard era a própria curiosidade. Não falhava nada, nenhum livro, nenhum artigo, nenhum gesto, nenhuma paisagem, uma exposição, um filme, uma expressão num rosto, uma postura, um fato, um lenço, um logotipo, uma sombra, um ecrã de televisão, um candeeiro a gás, o asfalto molhado da chuva, uma peça de teatro, um conflito político, uma guerrra. Parecia errar, vagabundear num passo preguiçoso, roçar o olhar por tudo, sempre pronto a sorrir de tudo.»

      Chama-se a isto viver, parece.

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        Uma verdade inconveniente

        Uma das formas de censura mais perigosas e perversas é aquela que é feita com o consentimento dos próprios censurados. Não posso deixar de condenar a forma como um determinado jornal diário resolveu ver-se livre de uns quantos colaboradores regulares, deixando no ar a vaga possibilidade de, pontualmente, poder recorrer a eles. Mas incomoda-me igualmente a forma como estes, para não enfrentarem a direcção do jornal e perderem essa eventual possibilidade, ou então por um certo dever de lealdade, entenderam silenciar o facto. Compreendo-os e, para ser sincero, talvez tivesse feito a mesma coisa. Mas como neste caso não tenho obrigação alguma para com a ingratidão e a fraqueza de carácter, aqui fica o apontamento.

        Nota posterior: Uma excepção a este «pacto de silêncio» foi expressa por Vítor Dias. Independentemente de me agradar ou não o registo que VD ali exprimia, não posso deixar de destacar a sua atitude.

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          A OPA e eles

          Apesar do estrépito mediático, aquela OPA, como qualquer OPA, desinteressou-me de todo. Bem sei que jamais serei próspero e invejado por não ligar muito à vida financeira do país – ou à minha própria vida financeira –, mas talvez seja um pouco mais feliz assim, sem apertos de ventre por causa do valor das acções, diarreias determinadas pela oscilação dos preços do crude, náuseas impostas pelas sequelas de um qualquer golpe de Estado ocorrido no principado de Andorra. Por isso, pouco mexeu com a minha pacata existência a recém-concluída novela (será que foi?) a propósito da oferta pública de venda das acções da Portugal-Telecom. E, em princípio, nem deveria quer saber – como o não querem saber talvez uns 99% dos portugueses – se foi o dr. Granadeiro ou o eng. Belmiro quem ganhou a contenda. Mas, sinceramente, comecei a preocupar-me um pouco quando ouvi na televisão as entrevistas balbuciantes dos accionistas que em assembleia votaram contra as pretensões da Sonae. Soou-me muito a capitalismo «de patrões», e não a atitude «de empresários». A conservadorismo de quem deseja o lucro imediato e tem medo do risco e da ousadia que, tanto quanto ouvi dizer, serão a fonte da fortuna. Mas poderá ser impressão minha. Coisa de ignaro em questões de boa e de má moeda, um tipo que se esquece sistematicamente de abrir os suplementos de Economia.

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            Palmatoadas

            Castigo

            Todos ouvimos, diariamente, palavras e expressões que surgem datadas, remetendo para tempos que se vão esfumando. Há dias, quase me ia zangando com um amigo que discordava de um exemplo, adiantado de forma peremptória, que me parece ilustrativo de situações deste tipo. Dizia-lhe eu que, tal como «larápio», também a palavra «gatuno» praticamente caiu em desuso, confinada – pelo menos em Portugal continental – à exígua panóplia de epítetos grosseiros com os quais se costumam brindar os árbitros de futebol. E, além disso, não se escreve ou pronuncia «gatuno», mas sim «ga-tu-no!». O meu amigo, adepto pertinaz da luta de classes e do Vocabulario Portuguez e Latino do Padre Rafael Bluteau, não conseguia conceber um mundo sem «gatunos» (e também sem «amos», outra palavra decaída).

            Em situação análoga encontra-se a expressão «erro de palmatória», utilizada por alguns autarcas de província (ainda hoje, na rádio, por um presidente de Câmara), e por Alberto João Jardim, para combaterem determinadas medidas do governo central. Recorro ao Houaiss, que identifica a palmatória, ou férula, como uma «pequena peça circular de madeira com cinco orifícios em cruz e provida de um cabo, usada como instrumento de castigo para bater na palma da mão do castigado». Uma «menina-de-cinco-olhos», pois, utilizada no passado para punir alunos indisciplinados. De acordo com a Wikipedia, «no Brasil, antigamente era costume nas festas de formatura os alunos presentearem os seus professores com palmatórias, como sinal de submissão à autoridade». Actualmente, porém, o seu uso é considerado crime na maioria dos países ocidentais, tendo sido a doce Inglaterra o último país ocidental a aboli-lo, em 1989. Por isso, integrar no discurso político a memória de um tal objecto, se é verdade que pode ser entendido como exemplo de uma «metáfora morta» ao serviço da retórica, funciona também como vestígio de um modelo de autoridade e de um tipo de castigo que sobrevivem, fora da lei, na matriz cultural de quem a invoca. É feio e fica mal, prontos.

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              Ainda me torno iberista…

              Agora que passaram seis dias sobre a renovação do Público – e mesmo sem tomar ainda em consideração a edição de domingo – creio que já posso emitir uma opinião menos superficial sobre o assunto. Reafirmo a minha primeira impressão, que não foi de simpatia. Junto, àquilo que escrevi no dia 12, um aspecto que agora me parece definitivo: o texto é quase sempre mais curto e simplificado, funcionando, muitas das vezes, como simples «ilustração» da imagem que o acompanha. E até o suplemento Ípsilon, que prometia outras possibilidades, desiludiu um pouco. Veja-se, por exemplo, o tom ligeiro, ou ligeirinho, do artigo sobre o sempre actual tema do plágio (não é a sua autora, Alexandra Lucas Coelho, que questiono, mas sim o modelo ao qual esta se submeteu).

              Não sei se, desta maneira, será possível captar os novos leitores que se procuram. Mas, disso tenho a certeza, muitos dos antigos sentir-se-ão um tanto perturbados nas suas expectativas. E não porque rejeitem a novidade. Falo por mim: procuro, no jornal da manhã, um espaço de solidão e de abertura, capaz, por entre as migalhas da torrada e o sumo de laranja, de pôr a carburar a conversa com o mundo, pela via da escrita e do pensamento, que me está na matriz. Não procuro frases fugazes (zap!), títulos vistosos (zap!), imagens em Cinemascope e Color De Luxe (zap!), pois, para isso, tenho a leitura frenética da Internet e das revistas, da qual, aliás, sinto também alguma necessidade. E tenho a televisão. E o telemóvel 3G. Sendo assim, vou continuar a ler o jornal de JMF – até porque gosto de alguns dos seus colaboradores e a alternativa, o DN, tem navegado um tanto à deriva – mas vou passar a procurar algo de mais substancial nas páginas do El País. E ainda me torno iberista…

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                Perplexidade

                reading

                Num inquérito alargado e plural que envolveu uma amostra de 2851 (perto de 15%) dos alunos da Universidade de Coimbra (*), cerca de 18,3% dos inquiridos revelou jamais ler livros. Destes, 7,3% pertencem às Artes e Letras, 10,9% ao Direito e 13% às Ciências Sociais, áreas que estão num dos extremos da escala. No outro, quase 48% de Desporto e 40% dos alunos das diversas Engenharias afirmaram jamais pegarem em tais objectos. Do conjunto, para cada rapariga que declarou não ler livros, existem três rapazes que nunca o fazem. Partindo do princípio – não provado, mas que me parece admissível – de acordo com o qual muitos dos inquiridos terão, por pudor ou incerteza, entendido que raramente lêem quando de facto nunca lêem, os valores reais poderão ser ainda mais desoladores.

                Acredito que o livro em papel se está a transformar, cada vez mais rapidamente, num suporte complementar dos processos de aquisição de informação e conhecimento. Todavia, se por um lado ainda não chegámos ao previsível ponto de não-retorno que consumará a sua redução aos espaços de conservação e arquivo, por outro, parte substancial da informação em rede é ainda parcial e bastante insuficiente. Sendo assim, podemos questionar-nos sobre onde irá buscar a informação da qual precisa para a sua formação a parte desses alunos – e, acrescente-se, 33% deles também declarou que nunca ou raramente lê jornais – que conclui os cursos com formal aproveitamento. Mas o pior de tudo é imaginar o perfil, a sensibilidade e os processos de percepção do mundo desses futuros «doutores» e «engenheiros» que desconhecem os prazeres e os safanões proporcionados pela leitura física do livro.

                (*) Inquérito integrado nas iniciativas de um projecto de investigação – da responsabilidade de Elísio Estanque e de mim próprio – do qual em breve serão divulgadas as principais conclusões. Mais alguns dados parciais aqui.

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                  A nova cara do Público

                  ler o jornal

                  A primeira impressão é-me pouco simpática. Não pela inovação em si. Acontece apenas que existe espaço livre a mais (para o meu gosto, claro), fotografias demasiado grandes (para isso existem as revistas), um lettering que se me revela de difícil apreensão (poderá também ser este um sinal subliminar da minha oftalmologista), um logotipo que me deixa os olhos a arder (novo sinal?), alguma confusão na disposição dos colunistas (falta de hábito, admito), uma arrumação dos Classificados que os parece remeter para um mundo paralelo (esquisitice minha, provavelmente). Pelo sim, pelo não, durante uns dias, vou comprar sempre o Público (que leio desde o número um e quero muito continuar a comprar) e o Diário de Notícias (com o qual aprendi a ler, e que, talvez por isso, me oferece sempre um certo sentimento de pertença a não sei bem o quê). O futuro me fará ver como é que isto vai acabar.

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                    Da «superioridade moral» do Sim

                    Lonely

                    Sempre evitei aceitar que alguém, uma ideia, uma determinada atitude, a partilha de um conjunto de princípios ou de convicções, possam determinar uma qualquer forma de «superioridade moral». A percepção da fragilidade e da imaterialidade da condição humana, associada a uma visão optimista e céptica do mundo, têm-me ajudado a fugir a essa tentação de me considerar superior – pela forma como penso ou actuo, pelas certezas passageiras que partilho – às pessoas com as quais pouco ou nada tenho a ver. Por vezes indigno-me com elas, outras vezes ignoro-as, mas jamais considero deter um qualquer valor de superavit moral. De vez em quando, porém, caio na tentação de contradizer esta espécie de filosofia de vida.

                    É o que me tem acontecido nestes últimos dias, no contexto do confronto – mais confronto que debate – entre os adeptos do Sim e os do Não, a propósito do referendo do próximo domingo. Senti isso quando olhei, e quando ouvi, aquela plateia que, do lado dos defensores do actual estado de coisas, apareceu no último «Prós e Contras» da RTP1. Primeiro olhei para trás e vi um conjunto de pessoas triste e pobres, algo perdidas no meio de tantas luzes e de senhores e senhoras bem-falantes e bem-penteados, claramente ali plantadas por instituições religiosas ou de caridade social. Pessoas que jamais estariam, espontaneamente, num debate daquela natureza. À frente delas, os seus «patrões». Quase apenas gente «de bem» onde, por detrás daquele imutável sorriso que apenas os fanáticos são capazes de manter, cada palavra, cada proposta, soava a total hipocrisia, a vergonhosa mentira, a completa insensibilidade, por vezes a uma cegueira fácil de admitir a quem não sabe, ou não quer saber, das consequências sociais daquilo que propõe. Em relação àquela gente, a tudo aquilo que ela representa, admito que me sinto tentado a afirmar, associado a todos aqueles que se lhes opõem, alguma superioridade moral. De entre eles, apenas desculparei os que defendem o que defendem com base em critérios de fé. Mas como a fé é igualmente uma coisa que me incomoda, confesso que também em relação a ela, no gozo de uma liberdade não condicionada a quaisquer dogmas, experimento uma certa dose de sobranceria. Vamos ver se isto passa no dia 11.

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                      Burberry fields

                      Burberry
                      Não entendo o motivo pelo qual a óbvia intervenção militante da Opus Dei na actual campanha para o referendo sobre a despenalização da IVG tem sido omitida pela generalidade dos comentadores. Não existem provas evidentes? Bem sei que não servem de prova de tal ligação os rostos sinistros e o aspecto geral triste, conservador e vagamente aristocrático dos Médicos pela Vida – como não provam uma relação fraternal com a Burberry as cuidadíssimas toilettes de muitas das senhoras e das jovens do Não – mas porque motivo não poderemos especular sobre a nossa própria ingenuidade?

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                        Palito à bolonhesa

                        Na sequência das alterações nos cursos introduzidas pelo Processo de Bolonha, o Diário As Beiras, de Coimbra, reporta a preocupação de alguns sectores da academia com a necessidade de reestruturar o código da praxe. Perante a mudança e a inovação – para o bem e para o mal, mas essa é outra questão – há pois que refrear os ânimos e reconquistar a quietude. A confusão instala-se: «serão criados novos títulos com termos antigos que serão recuperados». Os problemas sucedem-se: os estudantes quartanistas não podem seguir no cortejo da Queima das Fitas porque vão deixar de existir estudantes quartanistas. O mapa dos festejos académicos será voltado do avesso. Mas não há que entrar em pânico, pois, de acordo com o dux veteranorum, existe «um grupo de trabalho» a congeminar uma solução. Definitiva, presumo. E esse grupo tem a que se agarrar: «Estamos a investigar o Palito Métrico, para saber como é que antigamente se designavam os estudantes em termos hierárquicos». Calculo que a investigação seja demorada, pois o Palito Métrico – destacado da mais livre Macarronea Latino-Portugueza – tem, nas edições que conheço, 14 (a 1ª, de 1746) ou 7 páginas (numa mais serôdia, de 1965), com diferenças de conteúdo entre si. Nestas coisas, porém, não há tempo que chegue, pois é preciso andar para a frente, para trás, aos triângulos e aos círculos. Como em qualquer investigação, bem entendido.

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                          «Rute» e a banalização do mal

                          Rute

                          Compreendo a posição de Eduardo Pitta relativa ao «caso Rute» mas não consigo concordar inteiramente com ela. Refiro-me, como parte dos leitores saberá, ao artifício «wellesiano» utilizado por Luís Carmelo para ampliar o impacto da divulgação de E Deus Pegou-me Pela Cintura, o seu último romance. Começo por dizer que não tenho quaisquer preconceitos a respeito da existência de «temas tabus», sejam eles considerados no campo da criação artística e literária como nos da abordagem jornalística, académica ou qualquer uma outra. Não estou, porém, a falar do romance: refiro-me sim à estratégia utilizada para o divulgar. Mas mesmo nesta direcção não acuso LC, como já foi feito, de colaborar «na degradação da imagem pública da blogosfera», e, menos ainda, de se envolver num assunto «com o qual não se brinca». Tal como respeito a opção criativa do autor, e, neste caso, de alguma forma aceito também a crítica de EP aqueles que tudo levam a sério (o que não é o mesmo que levar tudo a peito). «Não saber rir, não ser capaz de rir, foi a herança que o Velho nos deixou»: não poderia concordar mais com isto.

                          Mas devo confessar que tenho sérias dúvidas sobre se uma brincadeira envolvendo um tipo de drama que permanece muito presente no nosso quotidiano – neste caso, o rapto, levado a cabo por por um grupo de islamitas, de Rute, uma jornalista portuguesa a trabalhar no Líbano, associado ao silenciamento do assunto por parte da comunicação social e à «descoberta» do mesmo providenciada pelo universo atento dos blogues lusitanos – não contribuirá para uma certa «banalização do mal», transformando, com consequências imprevisíveis, um drama possível num episódio trivial. Um pouco como acontece com os hipocondríacos a quem ninguém dará importância no dia do AVC definitivo. Aplicaria este juízo a um exercício feito em 1945 sobre o campo de Auschwitz, como a outro feito em 1973 sobre o massacre de Wiriamu. Ou ainda a um outro, concebido em 2007, sobre técnicas terroristas com as quais somos actualmente forçados a conviver. Trata-se de uma questão pessoal de gosto e de sensibilidade. Provavelmente, apenas provavelmente, também de bom senso. De qualquer forma, este alarido já tirou a espoleta à bomba de fabrico caseiro.

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                            Sim – um bom exemplo

                            «Todos os participantes neste blogue concordam com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado. E votarão “sim” no referendo de 11 de Fevereiro. Os argumentos de cada um são da sua exclusiva responsabilidade e não vinculam os restantes participantes.» Um bom exemplo, e um exemplo raro entre nós, daquilo que pode a recusa civilizada do sectarismo. Aqui por uma causa justa e absolutamente prioritária.

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                              Pigarrear

                              tosse colectiva
                              Gosto de escrever sobre irrelevâncias. Mas, desta vez, prefiro abordar um assunto sério. O tema ocorreu-me quando lia O Anjo Pornográfico, a extraordinária biografia do extraordinário Nelson Rodrigues, publicada em 1992 por Ruy Castro e agora reeditada pela Companhia das Letras. Fala o autor, a dado passo, da chegada da família de Nelson ao Rio, provinda do Recife, e do ambiente com o qual esta deparou na Aldeia Campista, distante subúrbio da cidade que então ainda se não autoproclamava «maravilhosa». Estamos em 1919:

                              «Era também uma vizinhança que tossia em grupo. Não que fosse uma comunidade de tísicos. O brasileiro é que tossia muito naquele tempo. Qualquer agrupamento numa sala era um pânico. Começava por um solitário pigarro. alguém aderia. Logo se juntavam as tosses secas, os chiados de asma, os assovios de bronquites e, num instante, a sala inteira era um festival de expectorações. Por isto, em todas as salas, em lugar de honra, entronizava-se a escarradeira. Uma escarradeira “Hygea”, branca, de louça, com o caule que se abria em lírio ou copo-de-leite. No resto, a vida era simples.»

                              À data, convirá que se saiba, eu não tinha nascido ainda. Digamos, porém, que quarenta anos depois já por cá andava. Ora minha memória recua a um tempo no qual ainda por aqui sobrevivia o hábito, ao que se vê transatlântico, de tossir em sociedade. Em casa ou na rua, nas missas e nas procissões, nos velórios também, como no teatro, no cinema, nos corredores e antecâmaras dos edifícios públicos ou privados, pigarreava-se muito mais do que hoje. Ao ponto de as repartições do Estado, como os cafés e até alguns restaurantes, possuírem, em regra, um vaso de porcelana ou de ferro esmaltado idêntico aquele que Castro descreve. Perguntei a pessoas em condições de partilharem a minha memória se o confirmavam: «É verdade, nunca tinha pensado nisso! Mas lembro-me, sim, daqueles momentos de convulsão incontrolável!»

                              Se retirarmos os espectáculos de ópera e os concertos para quartetos de cordas, ou as tomadas de posse, agora já em momento algum se encontram com facilidade acessos colectivos dessa natureza. Especulando um pouco, que é para isso que aqui estamos: presumo que se trataria de uma moda, de uma «prática costumeira», como dizia alguém. Ou então de uma forma subliminar de dar a volta ao apertado controlo social e às limitações impostas pela censura. Em democracia, felizmente, só pigarreia quem precisa. E quando lhe apetece. Ou pelo menos deveria ser assim.

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                                Coentro, cúrcuma e tal

                                Nem seria preciso dizer, mas o presidente confessou a uma jornalista que não gosta da comida indiana. Com os seus sabores intensos e exorbitantes temperos deixam-lhe a língua em chamas, a testa liquefeita, o pescoço afogueado. E um presidente não deve. Ninguém o pode forçar ao suplício, naturalmente, embora, por dever de representação de um povo de antepassados façanhudos e epopeicos, lhe ficasse bem provar um pouco daquilo que, pela medida grossa, decerto Almeidas e Albuquerques provaram. E a Scientific American até acaba de revelar que o caril – como se sabe, uma mistura destrambelhada de gengibre, coentro, cúrcuma, noz moscada, pimenta-do-reino, cravo-da-índia, açafrão e eu sei lá o quê mais – pode produzir efeitos terapêuticos no tratamento da doença de Alzheimer, do cancro e de outras maleitas igualmente ruins. Mas uma vida inteira de comedimento e de morigeração deixa as suas marcas no que toca ao confronto com os excessos. Há, pois, que soerguer as virtudes de um arroz modesto e imaculado. De uma bolachinha de água e sal. De lusíadas sem canto nono, que apenas desorbitam com uma fatia de bolo-rei.

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                                  Aceitar

                                  A notícia podia ser igual a outras que periodicamente aparecem nos jornais. Num hospital do norte, uma troca de identidades desencadeara os rituais da morte na família errada, trazendo o luto e graves transtornos aos filhos de uma mulher que, afinal, ainda irá comemorar os 95 anos de vida. Tudo ficaria esclarecido pela intervenção do agente funerário entretanto contratado, mas, como vem sendo habitual, sem uma frase de explicação ou um pedido de desculpas da parte do hospital. Os familiares sentiram mas calaram: «Quem é pobre nunca tem razão e sei lá se ainda se vingam nela», dizia a filha à jornalista, «os pobres têm de comer e calar». Poderia ser a atitude típica dos filhos do salazarismo que dele herdaram sobretudo a mudez e a desprotecção. Parece-lhes preferível engolir em seco: «houve um senhor que se ofereceu para escrever o que se passou num livro amarelo, mas eu recusei-me a assinar», explica a mulher, «pois a gente nunca sabe quando vai voltar a precisar deles». Hoje sou capaz de entender os seus temores.

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                                    Pena capital

                                    A irritação crescente das actuais autoridades iraquianas, e a preocupação dos seus extremosos patronos, perante a gravação-pirata da execução de Saddam, provêm, essencialmente, do facto daquilo que se presumia ser o registo de um mero apagamento da história haver dado lugar a um manifesto contra o horror e a desrazão da pena capital. As autoridades chinesas também devem ter ficado um tanto ou quanto agastadas com o ruído à volta do tema. Resta saber se, nos assépticos corredores da morte das penitenciárias do lado de lá do Atlântico, as coisas se passarão dessa forma tão branca, sedada e silenciosa que costumam descrever-nos.

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