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Existencialismo

Sinatra

Seguindo a informação fornecida pelo teólogo anglicano Keith Ward em God: A Guide For The Perplexed, a canção mais pedida nos cerimoniais dos crematórios britânicos é My Way. «Vivi à minha maneira», bradava ali o sábio existencialista (igualmente católico e mafioso) Francis Albert Sinatra. Não «à Sua», de Deus, como outrora se acreditava ser a única forma de viver. Mas «à deles», solitários e infiéis defuntos.

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    Heróis do silêncio

    Os heróis silenciosos são figuras particularmente admiráveis. Aqueles, aquelas, que longe das tribunas aprenderam a observar, a calar, a murmurar. Para agirem sem hesitação quando chegado o momento certo. E depois regressarem ao silêncio, provavelmente para sempre.

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      A útil paisagem

      Snob, habituei-me desde cedo a desgostar de paisagens compostas e demasiado bonitinhas. Panoramas suíços de folheto turístico, tresandando, como os jardins barrocos, a uma natureza antinaturalista. Propaganda new age, wallpapers cintilantes, landscapes supostamente relaxantes nas paredes de restaurantes chineses ou salas-de-espera de dentistas dos subúrbios. Sempre algures entre a pieguice ultra-romântica e o kitsch pequeno-burguês. Até conhecer hoje, através do Público, aquilo que, se o pudesse fazer, a um cego apeteceria fotografar: «uma paisagem com o mar ao fundo, com o pôr-do-sol a reflectir na água».

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        Depressão

        De acordo com dados fornecidos pelo Infarmed, em 2006 os portugueses gastaram cerca 82 milhões de euros em sedativos, hipnóticos e ansiolíticos. Acontece porém que a depressão, por estes lados, parece ser um factor cultural e uma doença crónica. O mínimo que o Estado pode então fazer, em tais circunstâncias, será aumentar a sua comparticipação neste tipo de fármacos. Permaneceremos sedados, é verdade, mas com mais uns quantos euros no bolso.

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          O regresso das power ballads

          Isqueiros

          C. fumava em público e orgulhava-se de não pagar licença de isqueiro. Para o provar, exibia durante cinco segundos um daqueles encendedores espanhóis, de cordão em fibra de algodão, que se guardavam ainda em brasa no bolso das calças. Creio que a chama se extinguia pela rarefacção do oxigénio. E, que me lembre, o único problema detectado consistia, principalmente para os outros, num intrigante cheiro a tecido queimado. Por mim, sempre preferi os fósforos. Até ao dia no qual fiz o upgrade para o meu primeiro isqueiro de usar e deitar fora.

          Eu e C. seguimos caminhos muito diferentes. Encontrei-o há dias num almoço revivalista: próspero, continua fumador, mas serve-se agora de um caríssimo Bugatti. Por mim, fiel às origens e para me prevenir das consequências da actual fúria proibicionista, comprei hoje uma dúzia de vulgares acendedores em plástico. Se os novos fiscais dos isqueiros me apanharem, posso sempre inventar que sou fã dos Scorpions e que apenas me sirvo deles para acompanhar power ballads em concertos ao vivo.

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            Uma cabra, dizem

            Leni Riefenstah

            Um livro de Steven Bach, Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, pretende acabar de vez com a desculpabilização histórica da realizadora de O Triunfo da Vontade, falecida em 2003 aos 101 anos de idade. Para além da sua intensa ligação com o nazismo e com o próprio Hitler (bastante íntima mesmo, é o que consta), Riefenstahl terá sido muito mais – e para pior – do que a sua dimensão plástica nos fez acreditar. Nestes dias de humanização de gente sinistra à custa de muita maquilhagem e de bastantes falhas da memória, parece-me bem que alguém como Bach, um antigo vice-presidente da United Artists, afirme com todas as letras, e procure prová-lo, que Leni «era uma cabra». Pelo menos, para que se não continue a dizer que era apenas uma esteta levemente distraída.

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              Info.com

              O Portal Zone informa-me. ÚLTIMA HORA: Irmã de Oliveira libertada. Calculei logo os horrores pelos quais havia passado uma idosa irmã do realizador, ou a matrona nortenha de bigode, accionista minoritária da Olivedesportos. Afinal tratava-se da mana de um avançado brasileiro do Milan. Não o conhecia, mas admito que a sua existência seja vital para um grande número dos clientes da Optimus.

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                Ebulição

                Por razões que não sei explicar, um post que se encontrava mais abaixo, levianamente intitulado «That’s entertainment!», evaporou-se e levou sumiço. Com ele foram-se também os comentários de alguns leitores. Mistérios de um backup com o qual a WordPress me ameaçara horas antes. Por via das dúvidas, relembro que apontava ali para um texto de José Medeiros Ferreira sobre os motivos pelos quais este não assinou a declaração pública de alguns historiadores a propósito do concurso Grandes Portugueses. Ah, e declarava também a minha concordância com JMF.

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                  Sulfúreo

                  Segundo Luis Bassegio, responsável por uma organização ligada à Confederação Nacional de Bispos do Brasil, deverá ser espalhado enxofre pelas áreas pisadas por George W. Bush durante a sua actual visita ao país, de modo a «exorcizar o diabo». O hiperactivo e sagaz Hugo Chávez já havia, aliás, relacionado Bush com o capeta: na Assembleia-Geral da ONU, o caudilho venezuelano declarou há algum tempo que a tribuna na qual discursava, utilizada pouco antes pelo presidente dos Estados Unidos, cheirava a enxofre. O mineral amarelado que, de acordo com as descrições bíblicas do Inferno e os sermões exaltados de uns quantos pregadores fundamentalistas, o diabo deixa ficar por onde passa. Sabe-se como a esquerda latino-americana é, em regra, profundamente maniqueísta. Mas torna-se difícil concebê-la assim, medieval.

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                    Boxe e badminton

                    No mesmo número do mesmo jornal da manhã. Vasco Pulido Valente, na sua reconhecida vertente Caterpillar, demole a RTP (que «sufocou, censurou e suprimiu o Portugal inconformista e moderno») e a sua festa do 50º aniversário («não devia comemorar, devia chorar».) Já Laurinda Alves, na consabida versão Aspilia foleacea que se lhe aceita, afaga a estação cinquentona («foi na RTP que comecei a trabalhar») e elogia a celebração (com «muitas pessoas muito comovidas»). É em momentos assim que dou valor ao facto de não ter de viver na República Democrática Popular da Coreia.

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                      Baudrillard

                      Baudrillard

                      Na morte de Jean Baudrillard (1929-2007), aquilo que de melhor sobre ele se poderá dizer talvez tenha sido resumido num parágrafo do Libération:

                      «Baudrillard era a própria curiosidade. Não falhava nada, nenhum livro, nenhum artigo, nenhum gesto, nenhuma paisagem, uma exposição, um filme, uma expressão num rosto, uma postura, um fato, um lenço, um logotipo, uma sombra, um ecrã de televisão, um candeeiro a gás, o asfalto molhado da chuva, uma peça de teatro, um conflito político, uma guerrra. Parecia errar, vagabundear num passo preguiçoso, roçar o olhar por tudo, sempre pronto a sorrir de tudo.»

                      Chama-se a isto viver, parece.

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                        Uma verdade inconveniente

                        Uma das formas de censura mais perigosas e perversas é aquela que é feita com o consentimento dos próprios censurados. Não posso deixar de condenar a forma como um determinado jornal diário resolveu ver-se livre de uns quantos colaboradores regulares, deixando no ar a vaga possibilidade de, pontualmente, poder recorrer a eles. Mas incomoda-me igualmente a forma como estes, para não enfrentarem a direcção do jornal e perderem essa eventual possibilidade, ou então por um certo dever de lealdade, entenderam silenciar o facto. Compreendo-os e, para ser sincero, talvez tivesse feito a mesma coisa. Mas como neste caso não tenho obrigação alguma para com a ingratidão e a fraqueza de carácter, aqui fica o apontamento.

                        Nota posterior: Uma excepção a este «pacto de silêncio» foi expressa por Vítor Dias. Independentemente de me agradar ou não o registo que VD ali exprimia, não posso deixar de destacar a sua atitude.

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                          A OPA e eles

                          Apesar do estrépito mediático, aquela OPA, como qualquer OPA, desinteressou-me de todo. Bem sei que jamais serei próspero e invejado por não ligar muito à vida financeira do país – ou à minha própria vida financeira –, mas talvez seja um pouco mais feliz assim, sem apertos de ventre por causa do valor das acções, diarreias determinadas pela oscilação dos preços do crude, náuseas impostas pelas sequelas de um qualquer golpe de Estado ocorrido no principado de Andorra. Por isso, pouco mexeu com a minha pacata existência a recém-concluída novela (será que foi?) a propósito da oferta pública de venda das acções da Portugal-Telecom. E, em princípio, nem deveria quer saber – como o não querem saber talvez uns 99% dos portugueses – se foi o dr. Granadeiro ou o eng. Belmiro quem ganhou a contenda. Mas, sinceramente, comecei a preocupar-me um pouco quando ouvi na televisão as entrevistas balbuciantes dos accionistas que em assembleia votaram contra as pretensões da Sonae. Soou-me muito a capitalismo «de patrões», e não a atitude «de empresários». A conservadorismo de quem deseja o lucro imediato e tem medo do risco e da ousadia que, tanto quanto ouvi dizer, serão a fonte da fortuna. Mas poderá ser impressão minha. Coisa de ignaro em questões de boa e de má moeda, um tipo que se esquece sistematicamente de abrir os suplementos de Economia.

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                            Palmatoadas

                            Castigo

                            Todos ouvimos, diariamente, palavras e expressões que surgem datadas, remetendo para tempos que se vão esfumando. Há dias, quase me ia zangando com um amigo que discordava de um exemplo, adiantado de forma peremptória, que me parece ilustrativo de situações deste tipo. Dizia-lhe eu que, tal como «larápio», também a palavra «gatuno» praticamente caiu em desuso, confinada – pelo menos em Portugal continental – à exígua panóplia de epítetos grosseiros com os quais se costumam brindar os árbitros de futebol. E, além disso, não se escreve ou pronuncia «gatuno», mas sim «ga-tu-no!». O meu amigo, adepto pertinaz da luta de classes e do Vocabulario Portuguez e Latino do Padre Rafael Bluteau, não conseguia conceber um mundo sem «gatunos» (e também sem «amos», outra palavra decaída).

                            Em situação análoga encontra-se a expressão «erro de palmatória», utilizada por alguns autarcas de província (ainda hoje, na rádio, por um presidente de Câmara), e por Alberto João Jardim, para combaterem determinadas medidas do governo central. Recorro ao Houaiss, que identifica a palmatória, ou férula, como uma «pequena peça circular de madeira com cinco orifícios em cruz e provida de um cabo, usada como instrumento de castigo para bater na palma da mão do castigado». Uma «menina-de-cinco-olhos», pois, utilizada no passado para punir alunos indisciplinados. De acordo com a Wikipedia, «no Brasil, antigamente era costume nas festas de formatura os alunos presentearem os seus professores com palmatórias, como sinal de submissão à autoridade». Actualmente, porém, o seu uso é considerado crime na maioria dos países ocidentais, tendo sido a doce Inglaterra o último país ocidental a aboli-lo, em 1989. Por isso, integrar no discurso político a memória de um tal objecto, se é verdade que pode ser entendido como exemplo de uma «metáfora morta» ao serviço da retórica, funciona também como vestígio de um modelo de autoridade e de um tipo de castigo que sobrevivem, fora da lei, na matriz cultural de quem a invoca. É feio e fica mal, prontos.

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                              Ainda me torno iberista…

                              Agora que passaram seis dias sobre a renovação do Público – e mesmo sem tomar ainda em consideração a edição de domingo – creio que já posso emitir uma opinião menos superficial sobre o assunto. Reafirmo a minha primeira impressão, que não foi de simpatia. Junto, àquilo que escrevi no dia 12, um aspecto que agora me parece definitivo: o texto é quase sempre mais curto e simplificado, funcionando, muitas das vezes, como simples «ilustração» da imagem que o acompanha. E até o suplemento Ípsilon, que prometia outras possibilidades, desiludiu um pouco. Veja-se, por exemplo, o tom ligeiro, ou ligeirinho, do artigo sobre o sempre actual tema do plágio (não é a sua autora, Alexandra Lucas Coelho, que questiono, mas sim o modelo ao qual esta se submeteu).

                              Não sei se, desta maneira, será possível captar os novos leitores que se procuram. Mas, disso tenho a certeza, muitos dos antigos sentir-se-ão um tanto perturbados nas suas expectativas. E não porque rejeitem a novidade. Falo por mim: procuro, no jornal da manhã, um espaço de solidão e de abertura, capaz, por entre as migalhas da torrada e o sumo de laranja, de pôr a carburar a conversa com o mundo, pela via da escrita e do pensamento, que me está na matriz. Não procuro frases fugazes (zap!), títulos vistosos (zap!), imagens em Cinemascope e Color De Luxe (zap!), pois, para isso, tenho a leitura frenética da Internet e das revistas, da qual, aliás, sinto também alguma necessidade. E tenho a televisão. E o telemóvel 3G. Sendo assim, vou continuar a ler o jornal de JMF – até porque gosto de alguns dos seus colaboradores e a alternativa, o DN, tem navegado um tanto à deriva – mas vou passar a procurar algo de mais substancial nas páginas do El País. E ainda me torno iberista…

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                                Perplexidade

                                reading

                                Num inquérito alargado e plural que envolveu uma amostra de 2851 (perto de 15%) dos alunos da Universidade de Coimbra (*), cerca de 18,3% dos inquiridos revelou jamais ler livros. Destes, 7,3% pertencem às Artes e Letras, 10,9% ao Direito e 13% às Ciências Sociais, áreas que estão num dos extremos da escala. No outro, quase 48% de Desporto e 40% dos alunos das diversas Engenharias afirmaram jamais pegarem em tais objectos. Do conjunto, para cada rapariga que declarou não ler livros, existem três rapazes que nunca o fazem. Partindo do princípio – não provado, mas que me parece admissível – de acordo com o qual muitos dos inquiridos terão, por pudor ou incerteza, entendido que raramente lêem quando de facto nunca lêem, os valores reais poderão ser ainda mais desoladores.

                                Acredito que o livro em papel se está a transformar, cada vez mais rapidamente, num suporte complementar dos processos de aquisição de informação e conhecimento. Todavia, se por um lado ainda não chegámos ao previsível ponto de não-retorno que consumará a sua redução aos espaços de conservação e arquivo, por outro, parte substancial da informação em rede é ainda parcial e bastante insuficiente. Sendo assim, podemos questionar-nos sobre onde irá buscar a informação da qual precisa para a sua formação a parte desses alunos – e, acrescente-se, 33% deles também declarou que nunca ou raramente lê jornais – que conclui os cursos com formal aproveitamento. Mas o pior de tudo é imaginar o perfil, a sensibilidade e os processos de percepção do mundo desses futuros «doutores» e «engenheiros» que desconhecem os prazeres e os safanões proporcionados pela leitura física do livro.

                                (*) Inquérito integrado nas iniciativas de um projecto de investigação – da responsabilidade de Elísio Estanque e de mim próprio – do qual em breve serão divulgadas as principais conclusões. Mais alguns dados parciais aqui.

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