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Homem-sanduíche

Uma rapariga com um sorriso atraente olha-me e considera, talvez pelo meu aspecto aparentemente asseado e pelo telemóvel de que me sirvo enquanto caminho, que deverei possuir «um automóvel recente e em bom estado». Parece-lhe-á que também tenho ar de quem «não utiliza parques de estacionamento». Entrega-me então um panfleto com uma proposta objectiva: deixo que o meu carro seja decorado com publicidade – «a imagem de grandes marcas» – e serei remunerado por isso. Em breve, alguém me sugerirá que cole um anúncio da Sony ou da Gillette na mochila e passeie em lugares públicos com ele bem visível. Depois que tatue o logótipo da BMW na testa e sorria com ar cool a quem quer que por mim passe na rua. Serei remunerado por isso, coisa que faz sempre jeito a um funcionário público presumivelmente honesto.

    Apontamentos, Devaneios

    Let’s dance!

    Apenas 25 por cento dos trabalhadores da função pública poderão ter um nível de avaliação de desempenho relevante, dos quais cinco por cento poderão ter excelente. É esta a proposta de lei que desenha o novo Sistema Integrado da Avaliação de Desempenho da Administração Pública, aprovada hoje em conselho de ministros. Os restantes 75 por cento dos trabalhadores, naturalmente, não precisam esforçar-se muito: façam aquilo que fizerem, a «tal de excelência» será para eles uma eterna miragem. Talvez possa usar-se como mote para um fado, um vira minhoto, a letra de um rap.

      Apontamentos, Opinião

      Retrovisor

      Emigrantes

      Não, não se trata de um grupo de romenos, moldavos ou ucranianos emigrados que confraternizam numa noite de sábado. São portugueses, homens apenas, à espera de um comboio para França durante os nossos anos 60. A imagem – de grande utilidade para aqueles que padecem de amnésia – é retirada de Portugal, Um Retrato Social. Todos os episódios já emitidos desta notável série televisiva de António Barreto e Joana Pontes podem ser vistos, na íntegra, aqui mesmo.

        Apontamentos, História

        Format C:

        Coreia do Norte

        «Aqui É o Paraíso! foi a frase mais ouvida, durante toda a sua infância, pelo pequeno Hyok (…). A rádio, os altifalantes nas ruas, os próprios professores, repetem-na à saciedade: fora da Coreia do Norte, a vida é um inferno; mas lá, graças ao Grande Líder cujo culto é obrigatório, tudo corre da melhor forma.»

        Os visitantes ocidentais mais honestos e descomprometidos têm mencionado o cenário catastrófico e a brutal repressão que se encontram instalados naquele lado do planeta. Os raríssimos testemunhos que nos chegam daqueles que conseguiram fugir e descobrir que, afinal, existia vida para além do silêncio, da servidão e do universo concentracionário, têm relatado, anos após uma custosa aprendizagem dos rudimentos da liberdade, o processo de formatação integral dos cidadãos norte-coreanos. É um testemunho desta natureza que surge em «Aqui É o Paraíso!». Uma infância na Coreia do Norte (Ulisseia), revelado pelo escritor e jornalista Philippe Grangereau a partir das conversas tidas em Seul com o jovem Hyok Kang. Que carrega consigo um factor suplementar de sofrimento: quando o convidam para ir a escolas falar sobre a sua experiência às crianças sul-coreanas, elas não acreditam nele.

          Apontamentos, Novidades

          O DN bate na avó

          Senti hoje de manhã que alguém me agarrava pelos colarinhos e me dava duas bofetadas. Havia já alguns dias que não comprava o Diário de Notícias – o jornal que me ensinou a ler e a perceber que existiam mais mundos que o mundo – mas de facto não há como ver para acreditar. O velho e respeitado diário transformara-se, de um momento para o outro, numa espécie de tablóide, com os maiores destaques concedidos ao crime e à desgraça, notícias espremidas e sem tutano, colunas minguadas e colunistas que desapareceram, e, à traição, sem um aviso sequer aos seus fiéis leitores, o suplemento cultural 6a. completamente evaporado (e substituído por um anódino caderninho com a programação da televisão subordinada ao prometedor título «Mariana está a dar a volta à minha vida»). Chama-se a isto cuspir na sopa. Ou, talvez mais propriamente, bater na avó. Então adeusinho, DN, até qualquer dia!

          O Daniel Oliveira e, sob um ponto de vista particularmente preocupante, o Luís Januário, chamam também a atenção para este triste episódio.

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            O homem da mala

            Se comparadas com os testemunhos individuais, sempre mediados por aquilo que são hoje as pessoas que os revelam, perturbam bastante – talvez mais até a quem por dentro as viveu – as imagens do Portugal do tempo do outro senhor que António Barreto e Joana Pontes nos têm oferecido. Assim aconteceu, durante o episódio da noite passada, com as hesitações daquele homem, de gasto fato completo e chapéu de pano, a velha mala reforçada com um cordel, que tremia ao ver-se na obrigação de atravessar a rua movimentada da cidade grande. Que começava a travessia mas parava, voltando atrás, limpando o suor com um lenço, olhando desesperado como que a pedir auxílio. Naquele início da década de 1960, vindo de longe, provavelmente de uma aldeia ignorada dos mapas do asfalto, o homem tinha medo de Lisboa: dos automóveis que não abrandavam para o deixarem passar, das pessoas que não o saudavam, da incerteza de poder comer a hora certa e de encontrar a morada do conterrâneo que trazia escrita num pequeno rectângulo de papel que não sabia ler.

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              Pela cruz de Cristo

              Como é sabido, encontra-se na matriz do catolicismo popular a ignorância das subtilezas teológicas e a ausência de qualquer reflexão sobre os momentos e os símbolos fundadores da religião de Cristo, mas não deixa de se revelar espantosa a forma como diversas testemunhas, ouvidas em Benavente após o assassinato a tiro da funcionária de uma gasolineira local, justificaram o facto de não terem atribuído grande importância aos fortes estampidos que claramente ouviram. Todas elas declararam que, sendo Sexta-Feira Santa, consideraram «natural» o lançamento de alguns foguetes «para comemorar».

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                Meio-morto

                Hip Hop is Dead

                Por vezes dramaticamente perdida entre as referências que lhe chegam do passado, uma parte da esquerda procura agarrar-se ao que lhe parece serem expressões contemporâneas da rebelião anticapitalista. Uma das estratégias, em curso desde há meia dúzia de anos, consiste em recuperar o hip-hop como expressão cultural de uma contestação de dimensão mundial protagonizada por jovens das periferias – os das grandes cidades, mas também os que habitam as áreas excluídas do planeta – ou por aqueles que com eles se identificam. E todavia, o próprio movimento, emergente a partir da década de 1970, foi gradualmente perdendo a sua força reivindicativa, tendo-se separado do mundo dos gangs e da delinquência de rua no qual nascera e onde ia buscar toda a sua primitiva força. Actualmente, como género musical, é apenas um vestígio revivalista, convenientemente domado e aproveitado para actividades de marketing pela indústria discográfica e pelo comércio das roupas e do calçado, quando não mesmo pelos partidos institucionais e alguns movimentos conservadores (como aquele que, entre nós, tem apoiado o «não» no referendo sobre o aborto). Representa um logro desenhá-lo agora como expressão globalizada de uma justa «revolta do oprimido», ou mesmo como emblema de geração. Sê-lo-á quase tanto quanto o velho rock’n’roll.

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                  Existencialismo

                  Sinatra

                  Seguindo a informação fornecida pelo teólogo anglicano Keith Ward em God: A Guide For The Perplexed, a canção mais pedida nos cerimoniais dos crematórios britânicos é My Way. «Vivi à minha maneira», bradava ali o sábio existencialista (igualmente católico e mafioso) Francis Albert Sinatra. Não «à Sua», de Deus, como outrora se acreditava ser a única forma de viver. Mas «à deles», solitários e infiéis defuntos.

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                    Heróis do silêncio

                    Os heróis silenciosos são figuras particularmente admiráveis. Aqueles, aquelas, que longe das tribunas aprenderam a observar, a calar, a murmurar. Para agirem sem hesitação quando chegado o momento certo. E depois regressarem ao silêncio, provavelmente para sempre.

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                      A útil paisagem

                      Snob, habituei-me desde cedo a desgostar de paisagens compostas e demasiado bonitinhas. Panoramas suíços de folheto turístico, tresandando, como os jardins barrocos, a uma natureza antinaturalista. Propaganda new age, wallpapers cintilantes, landscapes supostamente relaxantes nas paredes de restaurantes chineses ou salas-de-espera de dentistas dos subúrbios. Sempre algures entre a pieguice ultra-romântica e o kitsch pequeno-burguês. Até conhecer hoje, através do Público, aquilo que, se o pudesse fazer, a um cego apeteceria fotografar: «uma paisagem com o mar ao fundo, com o pôr-do-sol a reflectir na água».

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                        Depressão

                        De acordo com dados fornecidos pelo Infarmed, em 2006 os portugueses gastaram cerca 82 milhões de euros em sedativos, hipnóticos e ansiolíticos. Acontece porém que a depressão, por estes lados, parece ser um factor cultural e uma doença crónica. O mínimo que o Estado pode então fazer, em tais circunstâncias, será aumentar a sua comparticipação neste tipo de fármacos. Permaneceremos sedados, é verdade, mas com mais uns quantos euros no bolso.

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                          O regresso das power ballads

                          Isqueiros

                          C. fumava em público e orgulhava-se de não pagar licença de isqueiro. Para o provar, exibia durante cinco segundos um daqueles encendedores espanhóis, de cordão em fibra de algodão, que se guardavam ainda em brasa no bolso das calças. Creio que a chama se extinguia pela rarefacção do oxigénio. E, que me lembre, o único problema detectado consistia, principalmente para os outros, num intrigante cheiro a tecido queimado. Por mim, sempre preferi os fósforos. Até ao dia no qual fiz o upgrade para o meu primeiro isqueiro de usar e deitar fora.

                          Eu e C. seguimos caminhos muito diferentes. Encontrei-o há dias num almoço revivalista: próspero, continua fumador, mas serve-se agora de um caríssimo Bugatti. Por mim, fiel às origens e para me prevenir das consequências da actual fúria proibicionista, comprei hoje uma dúzia de vulgares acendedores em plástico. Se os novos fiscais dos isqueiros me apanharem, posso sempre inventar que sou fã dos Scorpions e que apenas me sirvo deles para acompanhar power ballads em concertos ao vivo.

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                            Uma cabra, dizem

                            Leni Riefenstah

                            Um livro de Steven Bach, Leni: The Life and Work of Leni Riefenstahl, pretende acabar de vez com a desculpabilização histórica da realizadora de O Triunfo da Vontade, falecida em 2003 aos 101 anos de idade. Para além da sua intensa ligação com o nazismo e com o próprio Hitler (bastante íntima mesmo, é o que consta), Riefenstahl terá sido muito mais – e para pior – do que a sua dimensão plástica nos fez acreditar. Nestes dias de humanização de gente sinistra à custa de muita maquilhagem e de bastantes falhas da memória, parece-me bem que alguém como Bach, um antigo vice-presidente da United Artists, afirme com todas as letras, e procure prová-lo, que Leni «era uma cabra». Pelo menos, para que se não continue a dizer que era apenas uma esteta levemente distraída.

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                              Info.com

                              O Portal Zone informa-me. ÚLTIMA HORA: Irmã de Oliveira libertada. Calculei logo os horrores pelos quais havia passado uma idosa irmã do realizador, ou a matrona nortenha de bigode, accionista minoritária da Olivedesportos. Afinal tratava-se da mana de um avançado brasileiro do Milan. Não o conhecia, mas admito que a sua existência seja vital para um grande número dos clientes da Optimus.

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                                Ebulição

                                Por razões que não sei explicar, um post que se encontrava mais abaixo, levianamente intitulado «That’s entertainment!», evaporou-se e levou sumiço. Com ele foram-se também os comentários de alguns leitores. Mistérios de um backup com o qual a WordPress me ameaçara horas antes. Por via das dúvidas, relembro que apontava ali para um texto de José Medeiros Ferreira sobre os motivos pelos quais este não assinou a declaração pública de alguns historiadores a propósito do concurso Grandes Portugueses. Ah, e declarava também a minha concordância com JMF.

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