Arquivo de Categorias: Atualidade

Voz no deserto

Admito que a afirmação do ministro Mário Lino a propósito do «deserto» situado abaixo do habitat das senhoras tágides tenha sido, para além de politicamente controversa, uma valente gaffe. Mas já deu para entender que ML habita, ele próprio, um outro deserto: o dos «homens públicos» com sentido de humor e alguma propensão para a introdução de critérios de subjectividade no sempre previsível discurso de Estado. Considero isso extremamente saudável e até lhe agradeço a singularidade. E, claro, não deve pedir desculpa coisíssima nenhuma por ter dito aquilo que disse e como o disse. Será bom até, para a saúde mental da Lusitânia, que o faça mais vezes. Ainda que depois se veja forçado a corrigir o tiro. Se mais políticos agissem com este estilo, talvez a opinião pública lhes prestasse uma maior atenção. A maioria deles, porém, simplesmente não é capaz de o fazer. Ou então vive de mãos atadas e de língua presa.

    Atualidade, Opinião

    Vidros partidos

    Rostock

    Protestos como os de Rostock, contra a cimeira do G8 a decorrer na estância balnear de Heiligendamm, são sem dúvida perturbantes. Mas, de alguma forma, são também úteis e necessários. É difícil perceber o sentido que podem tomar, tal a heterogeneidade das correntes que se manifestam, das suas formas de organização, dos seus objectivos específicos, das suas (por vezes) estranhas cumplicidades. É difícil também aceitar sem problemas a violência extrema que encorajam, ou a presença inquietante dos grupos proto-terroristas que os penetram. Mas funcionam, na tradição de uma «rua europeia» ampliada pela caixa de ressonância dos media, como um sinal de resistência perante uma ordem política mundial incubadora de excluídos, aos quais apenas oferece vagas possibilidades de requalificação e a imprevisibilidade do amanhã. Importa, apesar de tudo, que ao conforto climatizado das salas da reunião, ou à quietude adormecida dos nosso lares, chegue, de vez em quando, o fragor de uns quantos vidros partidos.

      Atualidade

      A sete chaves

      O governo do Irão acaba de proibir os académicos do país, todos eles, de contactarem cidadãos estrangeiros. Os motivos invocados são explicados de um modo muito directo: «os nosso docentes estão expostos a ameaças de espionagem», diz uma fonte governamental, e além disso «qualquer cidadão estrangeiro que estabeleça contactos não é de confiança». A paranóia instalada como eixo da razão de Estado não é uma experiência nova. Há mais disso por aí. Mas as lições do passado recente não deveriam ter caído assim tão facilmente no esquecimento.

        Apontamentos, Atualidade

        Liberdade de expressão

        Nunca vi uma emissão da Radio Caracas Televisión (RCTV). Sei apenas que se opõe ao populismo chavista, o que, não sendo em si necessariamente bom ou mau, jamais deveria ser crime punível por lei. Também não gosto das posições públicas de muita gente, da linha política de determinados partidos, do perfil e da publicidade de certas empresas, da cara de certos sujeitos que me entram em casa através do ecrã, e jamais me passaria pela cabeça tirar-lhes a voz ou mandá-los prender apenas porque me desagrada aquilo que dizem. Prefiro ignorá-los, mudar de canal, assobiar uma marchinha de Santo António ou dar um passeio de bicicleta. Acredito aliás – pelo menos desde quando dizê-lo poderia custar a liberdade ou a carreira a qualquer cidadão – que a aceitação integral da diferença, ou mesmo da afronta, é um elemento essencial da democracia. E que, quando elas colidem com os nossos direitos, existem tribunais próprios para tratar o assunto. Ou uma opinião pública livre para exprimir o seu próprio juízo. Por isso, considero inaceitável o encerramento do canal pioneiro da televisão venezuelana pelo simples motivo deste ser contra o governo legítimo do país e de o assumir de viva voz.

        Sabe-se como grande parte da esquerda populista sul-americana é, no que toca ao respeito pela democracia, herdeira apenas levemente espúria de alguns dos princípios que alimentaram a triste experiência das «democracias populares», mas deveria esperar-se que a portuguesa, num contexto cultural e social muito diferente, e com a experiência de luta pela liberdade que detém no seu lastro, mostrasse outra atitude e, independentemente de defender uma ou outra das partes, assumisse uma posição de princípio sobre a censura imposta na Venezuela. Mas assim não é, como se pode ver: o Partido Socialista fecha-se em copas (diplomacia oblige, dizem), o Partido Comunista exulta e o Bloco de Esquerda limita-se a tomar nota. Afinal quem poderia, entre nós, defender a liberdade de expressão, a verdadeira, aquela sem adjectivos, se tal um dia fosse preciso? A «direita moderna»?

        Nota: Fica prometida uma série de pequenos textos sobre a grande traição da nossa esquerda aos seus valores fundadores.

          Atualidade, Opinião

          O caso DREN

          spy2.jpg

          1. Nos sistemas de poder centrados na lógica dos aparelhos, esta tende a projectar para lugares de responsabilidade não aqueles (e aquelas) que são os melhores, mas aquelas (e aqueles) que melhor se movimentam por entre as suas complicadas engrenagens. Em Portugal a situação tem piorado na medida exacta em que o currículo político, em termos de filiação a causas, a convicções ou a programas, deixou de ser critério de valorização. Promove-se principalmente quem se movimenta melhor dentro dos organismos partidários e possua uma pequena «competência» adequada às funções. Se possuir alguma visibilidade mediática, tanto melhor.

          2. Não existindo partido de poder inocente, o PS é, sem dúvida, aquele que melhor dá corpo a esta realidade. Existem no Partido Socialista lugares de responsabilidade intermédia sistematicamente atribuídos a gente incapaz de fundamentar politicamente o seu «socialismo», ou mesmo a sua formação democrática, e que por isso mesmo, fora das mais ou menos hábeis proclamações retóricas, jamais os levam em grande consideração. Com a agravante de, dada a origem social e a formação de muitos dos seus quadros, ser este o partido com mais condições para – ao lado da honestidade e da dedicação de muitos dos seus militantes – albergar o pior arrivismo e a mais abjecta arrogância. Os de gente que sobe porque precisa mesmo subir e que se apanhou a mandar de um momento para o outro. Depois dá no que dá.

          3. Ainda ninguém foi capaz de explicar como é que a senhora directora soube da «insultuosa» frase do professor afastado. Existem no edifício da DREN microfones nas paredes? Ou será que a única pessoa que estava com o mesmo professor, e que este declarou ontem ser «um grande amigo», ouve vozes e fala sozinha? A delação também pode ser um critério de promoção pessoal. Vem nos livros. É feio, mas eles não se importam. It’s part of the game.

          Escrito depois [25/5]: A coluna de Vasco Pulido Valente no Público de hoje refere-se também ao assunto. Nela se incorpora uma informação, diferente daquela dada de viva voz pelo professor visado, e que aponta para a existência de múltiplas testemunhas. Num caso ou no outro, o papel do denunciante é o mesmo. E o do sistema que o aceita também.

            Atualidade, Opinião

            O Quê? Onde?

            Ainda o espectro do fundamentalismo antitabagista, pois um dado novo faz-me regressar ao tema. De acordo com um estudo divulgado hoje pela Comissão Europeia(*) e noticiado em publico.pt, 9 em cada 10 portugueses apoiam a proibição de fumar em espaços públicos fechados, com uma clara maioria (cerca de 91%) a defender que a interdição abranja restaurantes e bares, e um pouco menos (88%) a exigir que ela seja alargada a aeroportos, estações de metro e lojas. Muito acima da média europeia, segundo parece. O curioso é que o mesmo inquérito revela que os fumadores portugueses — um em cada quatro inquiridos (24%, quando na União a média é 32%) — são daqueles que mais fumam, já que a esmagadora maioria (97%) fá-lo todos os dias, e 38% fumam mesmo mais do que um maço de cigarros por dia (a média comunitária é de 26%). Conclusão lógica: ou uma grande parte dos portugueses prefere fumar em lavabos, vãos de escada, separadores das autoestradas, áreas arborizadas e jaulas do Zoológico, ou alguém andou a gozar os tarefeiros da TNS Euroteste. Não sei porquê, inclino-me mais para a segunda hipótese.

            (*) Inquérito feito a 1.006 portugueses, num total de 28.584 cidadãos europeus.

              Apontamentos, Atualidade

              Vª Exª Mr. John Bull

              Ze Povinho

              O que mais me impressiona no caso da miúda inglesa que desapareceu no Algarve – para além, naturalmente, da situação em si – é a subserviência com a qual, fazendo notícia sobre a notícia, os canais de televisão portugueses se preocupam tanto com aquilo que se diz nas pantalhas ou nos jornais do Reino Unido (com o «insuspeito» The Sun citado à cabeça), falando, até à exaustão, dos reflexos do episódio nas ruas de Londres ou de Birmingham. Trata-se de mais um caso de servilismo bacoco, associando a excitação de «sermos falados» lá fora ao receio de sermos confundidos com um povo de raptores e de tarados sexuais. Não há paciência que resista!

                Apontamentos, Atualidade

                O concurso e a responsabilidade dos historiadores

                De acordo com os dados divulgados pela RTP, o total de votos «válidos recebidos» no concurso Grandes Portugueses foi de apenas 159.245. Destes, 41% foram para Salazar e 19,1% para Álvaro Cunhal, o segundo classificado. Porém, se contarmos os votos militantes – que poderiam ser exercidos, via SMS, pelo menos em triplicado ou quadruplicado –, os votantes efectivos não deverão ter excedido os cerca de 60.000. Desta forma, apenas umas 24.000 pessoas, no máximo, terão votado no antigo ditador. Como qualquer cidadão, independentemente da idade ou até da nacionalidade, poderia participar no escrutínio, o efectivo valor deste número será ainda mais residual. Aliás, o mesmo pode ser constatado de forma empírica: acredito que pouquíssimos conhecerão pessoalmente um verdadeiro salazarista. Assim, para quê tanto alarido com as repercussões do pobre espectáculo televisivo?

                Convirá recordar que o impacto político do programa foi ampliado, em primeiro lugar, pela própria RTP1, sempre interessada em tornar concorrencial o seu produto, e também por muitos jornalistas e analistas, em busca de tema para os seus artigos e crónicas, ou empenhados numa reflexão sobre o que não deixou de ser um fenómeno curioso da cultura de massas. Mas o concurso foi também exageradamente dramatizado por alguns historiadores, que se viram confrontados com algumas das hesitações e perplexidades que têm atravessado a sua área de interesses. Anoto, de uma forma obrigatoriamente sumária, três problemas com as quais o conhecimento histórico se tem debatido e que me parece terem convergido neste particular contexto.

                O primeiro deles prende-se com o abandono da narrativa literária, que durante séculos foi o suporte essencial da História. Iniciado pelos meados do século XVIII, este abandono seguiu a crença numa objectividade absoluta, numa «aproximação científica» ao passado, que foi acompanhada pela afirmação de um discurso cada vez mais «neutro» e descolorido. Este afastamento da narrativa acabou por cavar uma crescente clivagem entre a comunidade de historiadores profissionais e as sociedades envolventes. Neste contexto, a maioria dos cidadãos viu-se progressivamente excluída dos processos de compreensão da História, acentuando-se assim as possibilidades de apagamento ou de perversão do passado. A partir dos trabalhos de Hayden White, surgidos pelos meados da década de 1970, esta dimensão voltou a ser valorizada, mas ainda é olhada com alguma desconfiança por uma parte daqueles que do conhecimento do passado fazem a sua profissão.

                O segundo problema situa-se no domínio das formas de recuperação da memória no processo de construção da História. Particularmente em relação à história de períodos mais recentes, cujos actores em grande parte se encontram ainda felizmente vivos, torna-se imprescindível a utilização da microbiografia e do testemunho oral enquanto instrumento complementar de conhecimento, uma vez que este introduz informação e um «sopro de vida» que pode ajudar a tornar a história mais completa, mais rica e, de certa forma, dotada de uma superior capacidade dramática, a qual é imprescindível no processo de comunicação. De outra forma, as novas gerações terão grande dificuldade em perceber a dimensão dinâmica do tempo que imediatamente as precedeu, tornando-se presa fácil de todo o tipo de interpretações.

                O terceiro problema articula-se com a forma como a História e o historiador vivem, ou devem viver, a experiência da cidadania. Este não pode manter a veleidade de adoptar um discurso impoluto e «apolítico». Deve, naturalmente, pautar a sua actividade pelo rigor e por um esforço de imparcialidade, comparando diferentes informações e pontos de vista, mas não pode ter receio de questionar o passado a partir dos problemas que a experiência da cidadania coloca. Não levantar questões que podem ter uma incidência política conduz ao desaparecimento da capacidade crítica e à passividade perante as formas de reescrita e de branqueamento do vivido. A leitura «benévola» do salazarismo não pode ser desligada de uma abordagem que, de tão politicamente «distanciada», se tornou insípida.

                Estes aspectos, tornados particularmente urgentes nas condições desta nossa época de uma comunicabilidade instantânea (a «modernidade líquida» de Zygmunt Bauman), dizem particularmente respeito à comunidade dos historiadores, uma vez que são eles quem – ao lado de Mnemósina, a memória, na sua infinita luta contra Lethos, o rio do esquecimento – tem em primeiro lugar o dever de impedir que o passado seja apagado ou reescrito. Muito para além do concurso televisivo, existe quem o procure fazer, e nunca será demais a maior vigilância. Quanto a este último, daqui por três ou quatro de meses já ninguém dele se lembrará. A não ser, talvez, alguns estudantes universitários, aos quais um professor possa sugerir o episódio como tema de exercício académico.

                  Atualidade, História

                  Bonsoir tristesse

                  melancolia
                  Melancholia, Claus Gregers (1989)

                  Lê-se Du Contre-Pouvoir, de M. Benasayag e D. Sztulwark, com um sentimento de revolta: «Vivemos uma época profundamente marcada pela tristeza, que não é apenas a tristeza das lágrimas, mas que é, principalmente, a da impotência». Percebendo como a noção contemporânea da complexidade da vida se une à aceitação defensiva, sob a forma de um tristeza social e individual, de que não possuímos forma outra de a viver que não seja aceitando, submissos, «a ordem e a disciplina da sobrevivência». Respeitando, insulados nos nossos pequenos mundos, cegos e tristes, infinitamente tristes, as formas de tirania que nos cercam, e que justificam essa servil tristeza. Contra ela, criadora, apenas a alegria difícil da resistência.

                    Atualidade, Cidades, Democracia