Como tenho trabalho académico desde 1981, e durante muitos anos, apesar de já ter passado os cinquenta, ainda era apontado no meio como «jovem historiador» – o que ficou a dever-se a por duas ou três décadas apenas existir corpo académico nas universidades, não em centros de investigação, e a ele quase não ser renovado – tenho uma noção clara da forma como muitas das pessoas mais jovens que trabalham na área cresceram quase sem contacto com o trabalho daquelas que as precederam. A situação é a que é, infelizmente, e não pode ser mudada, e ninguém terá culpa de eu, o tal «jovem», ter sido dos poucos a atravessar uma espécie de «no man’s land». Mas já faz bastante impressão o volume de jovens investigadores que desenvolve e até publica trabalhos sem referir, ou referindo apenas em rápida e genérica passagem, quem os precedeu na área de pesquisa a que se dedica. Falando ou escrevendo como se a invenção da pólvora por si próprio tivesse sido acabada de obter. Ou reduzindo a quase nada centenas ou milhares de páginas de saber que outros levaram a vida inteira a escrever. É triste, embora talvez inevitável.

