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A solidão

É muitas coisas a solidão. É o estado de quem se encontra ou sente desacompanhado. É o próprio isolamento. É também, anuncia secamente o Houaiss, essa «sensação ou situação de quem vive afastado do mundo ou isolado no meio de um grupo social». A solidão é tudo isto é, e é muito mais. Mas sempre uma condição que se define por um estatuto complexo e contraditório. É boa e é má, é inevitável ou impossível, é admirável ou indigna, mas raramente somos capazes de a situar no meio-termo ou de lhe sermos indiferentes. O mundo contemporâneo teme-a quando a associa ao isolamento imposto pela vida nas cidades, pelo exílio, pelo cativeiro. Mas nega-a quando considera que «todo o homem é uma ilha» e, ao mesmo tempo, o integra num imenso arquipélago. Na era da comunicação de massas e do triunfo da sociedade em rede, a solidão radical tende até a ser considerada doentia, subversiva, quase incompreensível, devendo por isso ser proscrita. Ao ponto de, nas escolas básicas, as equipagens de psicólogos perseguirem as crianças «diferentes» que, não sendo autistas, se isolam apenas porque gostam de construir o seu próprio mundo, ou, mais simplesmente, porque lhes desagrada aquele universo hipersociável e ruidoso que lhes pretendem impor.

O último número especial do Magazine Littéraire inclui um extenso dossier sobre A Solidão (La Solitude), tomada ali, de forma dúplice, como «mal de vivre ou quête de soi». Nele se abordam, em quase três dezenas de artigos desiguais mas sempre propedêuticos, instantes ou experiências dessa condição que oscila entre «a punição divina ou a fatalidade sociológica» sempre que é imposta, e «a estranha doçura», elemento da busca da felicidade e da plenitude, que pode adquirir quando é procurada. A filosofia, a religião, a arte e a literatura são os inevitáveis territórios de aproximação propostos neste conjunto de textos, através dos quais se fala da solidão do trabalho do filósofo e do escritor, da pintura de Goya, Van Gogh ou Magritte, da decisão pessoal de Aquiles, do exílio de Ovídio, da vida e das buscas dos ermitas, das reflexões de Montaigne, Pascal e Rousseau, do individualismo romântico que enaltece o solitário, de Emerson e Flaubert, de Nietzsche e Rilke, de Kierkegaard, Heidegger e Blanchot, de Peter Handke e de Paul Auster. No final, dois artigos expõem perspectivas alternativas: um aborda o «complexo de Robinson», mostrando a obra de Daniel Defoe como tentativa para enunciar definitivamente a condição social, não-solitária, do humano; o outro trata as «novas solidões» impostas agora ao ser humano comum e determinadas pela precariedade e pela mobilidade do emprego, pela brutal expansão da vida urbana, pela dissolução das solidariedades familiares, pela crescente insularização das gerações. Recomenda-se, naturalmente, que a leitura deste número do ML se faça em modo solitário.

    Apontamentos, História, Olhares

    Da pág. 161

    De cada vez que me chega um repto para participar numa sequência de respostas em cadeia – e, se não me engano, n’A Terceira Noite este é já o quarto –, declaro sempre para mim mesmo que aquele será o último ao qual darei sequência. Não, não é por snobismo ou mania da diferença. Acontece apenas que a estratégia se tornou um tanto repetitiva, que são muitos os desafios do estilo, que todos eles exigem uma disponibilidade (e uma dose de vontade) por vezes ausente. Mas acabo por me contradizer sempre que chegam desafios singulares e estimulantes, vindos, além disso, de pessoas que prezo. É o caso deste, que chegou através do João Ventura e sugere o seguinte: que escolha o livro mais próximo, literalmente; que o abra na página 161; que procure e transcreva a 5ª frase completa; que tenha o cuidado de não escolher a melhor frase nem o melhor livro; e que o passe a outros cinco bloggers. Vamos então a ele. Ao repto.

    Tentei seguir exactamente o prescrito, mas não o consegui à primeira. O livro mais próximo dos meus dedos, com o curioso título Como falar dos livros que não lemos?, de Pierre Bayard (ed. Verso da Kapa), e que ando a sublinhar com extremo proveito, tem apenas 158 páginas. E no seguinte, a edição do Pantagruel. Rei dos Dípsodos, da Frenesi, que me preparo para reler (garanto que não fiz batota e fui à procura dele), a referida página é toda ela ocupada por uma gravura na qual se representa «a derrota dos trezentos gigantes armados com pedras de cantaria». À terceira tentativa, porém, fui melhor sucedido. D’O Deserto dos Tártaros, do Dino Buzzati, saiu-me então qualquer coisa como: «O general era velhote e olhou o tenente Drogo com ar bondoso através do monóculo». O que me obrigou a um complexo exercício de abstracção, uma vez que sempre associei o uso do referido acessório a atitudes de autoridade ou de afectação, presumivelmente incompatíveis com a ostentação de um rosto capaz de exprimir aquela dose de brandura que habitualmente aliamos à bondade.

    Segundos depois, porém, apercebi-me de que tinha acabado de receber de Buzzati uma lição sobre os atalhos da complexidade humana e a falibilidade de todas, de rigorosamente todas, as aparências. Simples e eficaz como o são sempre as melhores lições. Procurarei pois não esquecer as duas linhas desta pág. 161. E, se ainda for possível encontrar algum por aí, sorrirei para o próximo general de monóculo com o qual me venha a cruzar. Ou mesmo para a minha mal-encarada vizinha do andar de cima.

    A sugestão segue para o Lutz Brückelmann (que não respondeu à última chamada pois estava noutro lugar), para as-duas-elas-que-se-entendam, para o António Godinho Gil, para o Eduardo e para o GAF.

    [31-10-2007] Três dias depois chegou-me uma proposta idêntica vinda da Carla Quevedo. E entretanto outra da Lídia Aparício. Agradeço o interesse, mas a verdade é que a única circunstância em que alguma coisa me saiu melhor à segunda vez foi no exame para tirar a carta de condução de veículos motorizados ligeiros de passageiros e turismo.

      Etc., Olhares

      Les amis du peuple

      Acabava de rever em DVD, muitos anos depois da primeira vez, La Chinoise, de Jean-Luc Godard. E, de repente, na pacatez da minha noite suburbana e burguesa, um monólogo que chega do passado:

      «Sabemos que a revolução social não está ao virar da esquina e que as lutas a travar em cada momento são aquelas que o estado de consciência das massas permite. É através da luta pelos seus interesses imediatos e objectivos parciais que os explorados se unirão e organizarão para lutas superiores. Exige-se-nos um trabalho paciente, que não se compadece com radicalismos verbais. Porém, ao empenharmo-nos nessas lutas diárias, por reivindicações muitas vezes modestas, não perdemos de vista que a sua utilidade é incutir gradualmente nos trabalhadores a confiança nas próprias forças, o repúdio pela ordem capitalista, a consciência e determinação revolucionárias. São positivas as lutas que contribuem para pôr explorados e exploradores em confronto, não as que semeiam ilusões na colaboração de classes. Alertamos os trabalhadores contra a miragem de que uma espiral infinita de reformas transformaria gradualmente o inferno capitalista num paraíso socialista. Dizemos que conquistas verdadeiras só com lutas superiores podem ser alcançadas e que tudo depende de se criar um campo resolutamente anticapitalista.»

        Cinema, História, Olhares, Recortes

        Fátima, os fariseus e o kitsch

        1. Fátima ressurge. Mas o que me preocupa no seu ressurgimento não é a intrusão, na paisagem caótica daquela incaracterística cidade de oito mil habitantes e de não sei quantos milhares de forasteiros, de mais uns quantos edifícios e de uma igreja gigantesca. É a forma acrítica como a comunicação social se extasia – tal como aconteceu com os estádios do Euro – com o seu luxo e dimensão. É a forma passiva como faz reverberar o significado dos acontecimentos de 1917 e da sua leitura pelos poderes instalados após o 28 de Maio. É o modo como a transmissão da «mensagem divina» nos é mostrada como acontecimento e não enquanto construção. A maneira como a ignorância, a superstição e o desespero surgem nas reportagens e nos ecrãs envolvidos numa atitude farisaica de benévola aceitação, de quase cumplicidade. A meu ver, também de crueldade.

        2. Os templos católicos são hoje, quase sempre, museus do kitsch. Juntam à sua arquitectura original, imagens toscas, peças avulsas, decorativas, onde predominam rendas e brocados, sedas e tafetás, acessórios electrónicos obsoletos, lâmpadas fluorescentes, alcatifas carmesim, anexos atípicos mandados erguer por um qualquer pároco ou benemérito. Num certo sentido, essa deprimente profusão de objectos sem norte cumpre a sua função sacralizadora, dado o padrão de gosto e a capacidade de elaboração simbólica da maioria esmagadora dos crentes. Por isso, a nova Cruz Alta de Fátima, concebida pelo alemão Robert Shad – e que, sempre optimista, Frei Bento Domingues tanto elogia numa crónica hoje publicada – é de facto, na sua concepção ousada, moderna, um objecto espúrio. Enquanto deambulam pelo terreiro grande da Cova da Iria, dele dizem quase todos os entrevistados que «é uma decepção», «não me diz nada», «não percebo». Poderia ser de outra forma?

          Apontamentos, Olhares

          Um caso à beira-serra

          Ao falar do comportamento dos dois senhores agentes da PSP que entraram armados em bufos dentro da sede sindical na Covilhã, Ângelo Correia, na televisão, colocou, em forma de boutade, o dedo na ferida: «No tempo do Dr. Mário Soares como primeiro-ministro isto nunca aconteceria.» Quando a cultura da liberdade passa a ser apenas uma florzinha rubra na lapela no dia vinte e cinco do quatro, e todos os atropelos se desculpam em nome da eficácia ou da autoridade do Estado, coisas destas acontecem. E eu até nem sou soarista. Nem ele, o Dr. Ângelo.

          Adenda: «O ministro da Administração Interna considera que, com base no relatório preliminar divulgado hoje pelo inspector-geral da Administração Interna sobre a visita da PSP às instalações do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) na Covilhã, segundo o qual a polícia não cometeu qualquer infracção, que ‘não há lugar à instrução de processo de inquérito ou processo disciplinar’.» [Público online]
          Tudo bem, portanto. E assim fica aquela gente a saber que pode agir impunemente. Que o poder político a protege e compreende. Afinal, atemorizar cidadãos não é, só por isso, crime previsto no código penal. Como o bicho-papão, o polícia mau faz parte do nosso imaginário colectivo e é conveniente que nele permaneça.

            Atualidade, Olhares, Opinião

            Suplemento educativo

            Vale a pena seguir a interessante série «Eles adoram queimar», publicada por Francisco José Viegas n’A Origem das Espécies. A propósito do episódio da incineração de uns quantos exemplares da revista Veja por esta incluir um artigo muito crítico da personalidade e da acção de Che Guevara. A série é, no mínimo, bastante educativa.

            Já depois de publicado este post chegou-me o número da Veja. O artigo em causa, do qual, aliás, em boa parte discordo – mais pela leitura parcial que propõe do que pelos factos que invoca – é um texto opinativo completamente banal, igual a milhares de outros que todos os dias nos chegam. O problema residirá na proposta de questionamento de uma certa dimensão do sagrado. E desta vez não se trata de Maomé…

              Apontamentos, Olhares

              Lágrimas e glamour

              A jornalista insiste com António Lobo Antunes. Trata-o quase como se tratam os velhinhos. «Comoveu-se» com a recepção que teve em Berlim? E «comoveu-se» com o Prémio Camões? Acontece que, por estes dias, comover-se – ou seja, chorar em público – passou a ser notícia. Uma patologia simpática, que se procura em certos rostos. As câmaras da televisão buscam sedentas as lágrimas nos olhos de Rui Costa, de Cristiano Ronaldo, de Nelson Évora, de Luís Filipe Menezes. Mesmo quando elas custam a sair. Sampaio foi durante algum tempo o nosso chorão de estimação e as câmaras procuravam-no: levou o lenço aos olhos? estava a fungar? a voz embargou-se-lhe? E se sim, que admirável! E que belas, que belas, as lágrimas amargas de Eusébio ou as ardentes dos jogadores da selecção de râguebi! E os duros, não se comovem? Gostamos de imaginar que sim, embora precisemos esperar para obter a prova. Câmaras prontas na direcção de Filipe Scolari, de Vasco Pulido Valente, de Manuela Ferreira Leite, de Valentim Loureiro, de Paulo Portas! E José Sócrates, chorará? Não importa se chora sozinho e com a cabeça entre as pernas, mas sim se o mostra em público. Será apanhado, um dia, e então rejubilaremos. E a Kate McCann, porque não chora baba e ranho, como Elton John quando soube da morte da Diana, que chorava todos os dias?

              Neste tempo seduzido pelo divertimento ininterrupto, pelo efémero que já era, pelo sorriso fácil, rápido e fotogénico, comover-se, chorar, torna-se notícia, um luxo, que irrompe no quotidiano previsível daqueles que vendem uma imagem de felicidade. Procura-se nos famosos o instante de abandono, a morte do familiar, a carreira em queda. E fotografam-se-lhes então as lágrimas. As daqueles que as vertem todos os dias, essas nada têm de particularmente interessante. São banais, por vezes um tanto sórdidas, e não importa perder tempo com elas. As de António Lobo Antunes, que todos reconhecemos, essas sim. Queremos vê-las, ou, pelo menos, que ele nos fale um pouco delas. Mas só mesmo um pouco.

                Apontamentos, Olhares

                Felizes para sempre

                Tamara Galkina era a mulher de K., um oficial de alta patente do Exército Vermelho. Envolveu-se com Y., um dos jovens subordinados do marido, e acabou por partir com ele para outra cidade. Y. ocupava então um posto de alta patente no NKVD. Certa noite, no ano de 37, eles chegaram e arrombaram a porta. Não se preocuparam com Y., mas a ela levaram-na. K., o seu ex-marido, vira o seu nome envolvido no caso do Marechal Tukhachevsky, um dos principais alvos das grandes purgas dos anos 30, e ela foi acusada de qualquer coisa, embora jamais tenha percebido muito bem do quê. Acabou condenada a dez anos num «campo de trabalho correctivo», por um crime que o homem do qual se separara havia supostamente cometido. O tempo foi passando e Y., entretanto promovido a general, foi destacado como administrador de uma região importante do Gulag, sendo nessa condição que acabou por reencontrá-la. Y. contou então a Tamara que ele mesmo tinha forjado algumas provas contra ela, de forma a ver-se livre de qualquer suspeita, mas propôs-lhe que esquecessem o passado e voltassem a ser amantes. Ela recusou. Alguns anos depois, após a reabilitação de Tamara, acabaram porém por tornar-se amigos. Passaram então a telefonar regularmente um ao outro e, ocasionalmente, encontram-se para tomarem chá e falarem dos velhos tempos.

                Parece o plot de um velho romance russo de terceira categoria, mas não é. Trata-se do resumo de um depoimento recolhido pela jornalista moscovita Irina Sherbakova no âmbito de um projecto destinado a preservar a memória dos sobreviventes do Gulag.

                  História, Olhares

                  O rosto de Jeanne

                  Quando vivemos sentimentos aparentemente incompreensíveis de atracção ou de rejeição em relação ao rosto de determinada pessoa, costumamos dizer que é «a química» a funcionar. Essa «química», ou lá o que seja essa coisa que chamamos de «química», actua em profundidade na nossa consciência, dando-nos instruções imperativas como «ama agora!» ou «odeia já!». Concentramo-nos então num rosto, num olhar, numa voz, por vezes associados a um odor, a um gesto ou a uma forma de andar, que nos perturbam ao ponto de não lhes ficarmos indiferentes. Mesmo quando a maioria dos outros não vê o que nós vemos e não acha nada daquilo que nós achamos.

                  Posso dizer que, desde que vi Jules et Jim, rejeitei o rosto provocador, e sobretudo o sorriso que me pareceu então demasiado largo e um pouco obsceno (comissuras dos lábios vincadas, dentes grandes e expostos), de Jeanne Moreau. E não foi por, na minha adolescência de pacato rapaz da província, ser um tanto impenetrável aquela história louca, contada por Truffaut, de um ménage à trois em início de século. Terá sido qualquer outra coisa, mais profunda. E tão profunda quanto impossível de descrever, provavelmente, sem uma aproximação a alguns dos meus fantasmas mais antigos. Talvez sejam eles também que possam explicar porque razão o actual rosto da Moreau, agora com quase oitenta anos, mais velho, mais pacificado embora não menos revolto, que entrevi ontem num documentário, me seja finalmente simpático. Ou então será dos ácidos e dos sais alterados dessa inexprimível «química».

                    Cinema, Memória, Olhares

                    «And now, ladies and gentlemen, the portuguese national anthem!»

                    Não gosto de hinos porque não gosto de guerras. Nem mesmo daquelas muito pequenas, travadas nos estádios à custa de petardos, palavrões e pontapés nas canelas. Os hinos são cânticos guerreiros, ou marchas militares, que lembram sempre o fogo cerrado e a morte em combate, falam de pátrias e de heróis, de glórias passadas ou previstas, e se destinam a motivar como um urro antes do mergulho num rio de água gelada. Mais prosaicamente, são também instrumentos de submissão do indivíduo ao colectivo, como a ordem unida que os exércitos ensinam aos recrutas desde o primeiro dia no quartel. E servem para exaltar o ânimo e a coragem. Não são cantilenas, lengalengas, como aquelas palavras entarameladas que balbuciam os jogadores-milionários da nossa selecção de futebol. São brados e estados de alma, como o cantam, vibrantes e únicos, os nossos rapazes da selecção de râguebi, neste momento a disputar em França o mundial da modalidade. Se não me entendem, vejam e oiçam como se canta um hino a sério, no próximo dia 15, cinco minutos antes dos corajosos Lobos defrontarem os esplêndidos All Blacks e a vozearia maori da sua haka. E depois cantem-no assim. Ou então façam como eu e calem-se para sempre.

                    Duas notas posteriores:
                    1. Para o L’Equipe, «enquanto se ouvia A Portuguesa eles cantavam com tanta força que até dava para desfazer os maxilares». O Guardian comenta que o hino foi cantado com «um orgulho fora do normal», e que «não houve o ‘estou a perder a compostura porque estou a cantar’ que tantos profissionais mostram hoje».
                    2. Bem procurei uma fotografia totalmente apropriada para ilustrar este post, mas quem a encontrou, magnífica, foi o Carlos Freitas, publicando-a no seu blogue Prosas Vadias. Pode vê-la também aqui, em todo o seu esplendor. E aqui o vídeo.

                      Apontamentos, Olhares

                      Esquecimento selectivo

                      Julgo tratar-se de uma doença. Gosto muito, mesmo muito, de cinema, passei uma fase da vida em que, cheio de olheiras mas sempre desperto, via em média uns 10 filmes por semana – antes ainda do surgimento do VHS, se bem me faço entender –, continuo a ver aquilo que posso, mas raramente consigo guardar a memória dos filmes por mais de umas quantas horas. Se não tomo umas notas ou guardo o recorte de alguma crítica que saiu na imprensa, lá se vão as imagens, os sons, as figurinhas a mexer e os «perfumes visuais». Por vezes, sobra um vestígio acessório associado a um artigo que possa ler, a um livro que evoque um certo filme, a um programa de televisão ou a uma passeata pelo You Tube. Dos Dez Mandamentos lembro-me apenas da dureza das cadeiras em madeira do Cineteatro da Figueira e de dar uma volta nos carrinhos de choque antes da sessão. De O Homem que Amava as Mulheres recordo-me só do vislumbre das pernas da Brigitte Fossey (mas já não me lembrava de todo do nome dela). De Saló ou os Cem Dias de Sodoma tenho a exclusiva memória de o ter visto com uma terrível dor de dentes. Isto para falar apenas de recordações com mais de trinta anos. Acho por isso extraordinária a forma como certas pessoas – de João Bénard da Costa, que tem sempre uma referência cinéfila para contar, até uma amiga minha que sabe mesmo dizer quais as condições atmosféricas e com quem foi ao cinema no dia tal do ano xis –, falam de filmes que viram há décadas. Com aquela mesma certeza descritiva que usamos para relatar um encontro da manhã ou a ida ao hipermercado. Invejo-os e acho que a medicina devia procurar uma cura para quem padece deste tipo de esquecimento. Faria da memória das vidas de quem dele padece, ou pelo menos da minha, um território com toda a certeza um pouco mais movimentado.

                        Apontamentos, Cinema, Olhares

                        Nada mudaram

                        Mais um desafio em cadeia. Este, chegado através do Eduardo Pitta, parece estimulante: contar os dez livros que não mudaram a nossa vida. Vale a pena verificar, nesta série, como obras reputadas «incontornáveis» são repetidamente citadas. Aqui ficam pois os meus livros-niet, todos eles lidos sem deixarem manchas. Dez obras que poderiam, claro, ser outras cem.

                        قُرْآن / Corão (séc. VI), de Abu al-Qasim Muhammad ibn ‘Abd Allah ibn ‘Abd al-Muttalib ibn Hashim (abençoado copy-paste)

                        A la Recherche du Temps Perdu / Em Busca do Tempo Perdido (1913-1927), de Marcel Proust

                        Ulysses / Ulisses (1922), de James Joyce

                        Der Zauberberg / A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann

                        Mrs. Dalloway (1925), de Virginia Wolf

                        Как закалялась сталь / Assim foi Temperado o Aço (1945), de Nikolai Ostrovski

                        Huis-Clos / Entre Quatro Paredes (1945), de Jean-Paul Sartre

                        Die Blechtrommel / O Tambor (1956), de Günter Grass

                        毛主席 / O Livro Vermelho (1964), de Mao Tsé-Tung (este não mudou, mas quase mudava)

                        Generation X: Tales for an Accelerated Culture / Geração X (1991), de Douglas Coupland

                        Mas, por supuesto, o primeiro livro da lista pode estar ainda a tempo de transformar a minha vida.

                        Desta vez, e tentando não me repetir (mas não garanto…), passo à Joana Lopes, ao João Tunes, ao Rui Ângelo Araújo, à Shyznogud e ao Lutz Brückelmann. Então vá.

                          Apontamentos, Etc., Olhares

                          A dúvida

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                          As revelações sobre a longa e profunda crise de fé que, contra todas as aparências, viveu Agnes Gonxha Bojaxhiu, Teresa de Calcutá, não podem deixar-nos indiferentes. A partir da correspondência mantida ao longo de 66 anos com os seus confessores e superiores, que o livro Mother Teresa: Come Be My Light põe agora à nossa disposição, é todo um percurso de dúvida que o acto de entrega ao tormento dos outros e às missões que lhe foram destinadas pela sua Igreja jamais foram capazes de resolver por inteiro. São ali recorrentes as referências a sentimentos de «secura», de «escuridão», de «solidão» e de «tortura», que, no constante convívio com o Inferno que foi quase sempre a sua vida, a levaram a duvidar da existência do Céu e até do próprio Deus. «O sorriso», o seu sorriso, escreveu Agnes, o sorriso que sempre lhe associamos, «é uma máscara» ou mesmo «um manto que cobre tudo». E este não parece tratar-se de um trajecto de ascensão espiritual rumo ao absoluto da fé, como o de Santo Agostinho (dizia ele, sabemos lá nós), mas exactamente o seu inverso: um olhar permanente, e inevitavelmente amargurado, sobre uma dúvida que não cessa e colide com o próprio sentimento de dever. O que não pode deixar de nos oferecer um olhar bem mais humano sobre a vida difícil desta albanesa pequenina, missionária, e, sabemo-lo agora, sempre sofrida e inquieta. Santidade é isto, é duvidar, é crer e descrer, não a entrega cega, segura e néscia seja a que fé ou a que causa for.

                          Citações retiradas de um artigo da Time que a revista Visão traduziu e publicou.

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                            EPC

                            A minha atitude diante da presença pública e do trabalho de Eduardo Prado Coelho (nascido em 1944 e morto hoje de forma súbita) foi oscilando sempre entre a admiração, pela constância da sua atitude pedagógica de polemista e intelectual empenhado (dos últimos, talvez), pela sensibilidade de muitos dos seus textos também, e a impaciência, motivada por atitudes aparentemente inexplicáveis de parcialidade, rejeição ou mesmo jactância que certas vezes exibia. Seja como for, e isso é o mais importante, e isso é aquilo que fica, EPC – como era, tantas vezes, impessoalmente chamado – manteve ao longo de vida uma atitude, de certa forma exemplar mas infelizmente rara, de intervenção crítica e de independência no campo largo da atitude cultural, do combate de ideias e da vivência da cidadania. Por isso, pelo que disse, escreveu ou deu a conhecer, foi sem dúvida, como escreveu Eduardo Pitta, o intelectual português mais influente dos últimos 25 anos. Vai fazer-nos bastante falta.

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                              Aquela vontade de ir

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                              A poucos dias de se perfazerem cinquenta anos sobre a sua saída em 5 de Setembro de 1957 para as livrarias americanas, um pequeno dossiê do suplemento Ípsilon rememora o impacto da primeira edição portuguesa de On the Road, de Jack Kerouac, lançada em 1960 pela Ulisseia com o título Pela Estrada Fora (numa tradução de Hélder dos Santos Carvalho, morto novo quando vivia em França a sua própria experiência «na estrada»). Num volume da colecção Découvertes Gallimard, Alain Dister sublinha o desconforto da viagem à boleia – ou em auto-stop, como se lhe referiam os jovens portugueses «francófilos» da década de 1950 –, relembrando a fadiga, o desconforto, o aborrecimento, o frio, a chuva, o perigo, mas recorda também como, para a geração que tomou On the Road como bíblia da perpétua deslocação, tudo isso era facilmente trocado pela sensação de liberdade, de procura e de vertigem que esta sempre possibilitava. A estrada de Kerouac, na sua imensidão, na melancolia dos cenários imutáveis ao longo de centenas de quilómetros, mas também no inesperado que a qualquer instante a podia cruzar, transformava-se na grande metáfora para uma vida em movimento que uma parte da juventude americana e europeia das décadas de 1950-1960 antevia como cenário da descoberta da felicidade, mas que fechará simbolicamente em 1969, com Easy Rider, o road movie de Dennis Hopper marcado já pela visão desencantada, pós-hippie, do fim da utopia.

                              O destaque dado neste conjunto de artigos a alguns portugueses que, por aquela época, perseguiram essa bela quimera, faz todo o sentido. Mas o que não é referido, e que por isso valerá a pena lembrar, é que num país periférico, silenciado e fechado ao exterior como o era Portugal na altura, esse desejo de evasão pela viagem se processou principalmente por vias bem diversas da procura individual e descomprometida dos membros da beat generation e dos seus discípulos. Aqui, para a esmagadora maioria das pessoas, e principalmente para os jovens urbanos e com alguns estudos, quando até a própria boleia era olhada com desconfiança por boa parte da sociedade e pelas autoridades, a vontade de fuga materializava-se principalmente nos consumos culturais possíveis – em especial naqueles mais solitários, proporcionados pela leitura, pela música, ou, em menor escala, pelo cinema – ou, no limite, na experiência da fuga através da imaginação de locais idealizados a partir de referências físicas que iam de Nova Iorque e Paris a Moscovo e Pequim. Os nossos beatniks ter-se-ão contado pelos dedos e permaneciam invisíveis, por muito que hoje se possa fantasiar acerca do seu papel ao longo da década e meia que antecedeu a revolução de Abril.

                                História, Olhares

                                As guerras de Martha

                                Marguerite Duras afirmou, em A Vida Material, que «o jornalismo só releva da literatura quando é exercido de forma passional». Acabei de ler A Face da Guerra (Dom Quixote), uma selecção de reportagens sobre diversos conflitos escritas no terreno por Martha Gellhorn (1908-1998) entre os anos 30 e 90 do século passado, começando com a Guerra Civil de Espanha (a primeira reportagem é de Julho de 1937), passando por Dachau, Saigão ou Jerusalém, e fechando com a invasão americana do Panamá. Ao percorrer aqueles textos, que quase não perecem datados, acabei por ficar ainda mais seguro da justeza da afirmação de Duras. Um jornalismo como o praticado por Gellhorn, que não receia a polémica, que informa mas também se emociona e toma partido – e não engana o leitor, pois assume que o faz – é o único que se distingue e permanece para além do instante. Separando-se daquele outro, supostamente «isento» e «objectivo», sem corpo, alma ou identidade. Que nos pode ser de alguma utilidade prática, revelando o onde, o quando ou o para quê, mas logo se torna irrelevante. E que acaba por morrer incógnito.

                                  Apontamentos, Olhares