Arquivo de Categorias: Devaneios

Tento na língua

Uma grande delegação da União Europeia, chefiada por Durão Barroso, desloca-se à China para discutir a criação de um «mecanismo económico e comercial de alto nível». Pelo caminho, tentará convencer as autoridades do principal país emissor de gases causadores do efeito de estufa a comprometerem-se com esforços de combate às alterações climáticas. Os responsáveis europeus contam poder tratar ainda em Pequim de temas ligados aos direitos humanos e à situação no Tibete. Esperarão porventura, com toda a legitimidade, que os governantes chineses concedam aos últimos dois temas uns intensos cinco minutos.

Entretanto, as referências concertadas de manifestantes locais – como é sabido, no Império do Meio as manifestações são por via da regra livres e espontâneas – a Joana d’Arc, à independência da Córsega e ao carácter consabidamente «nazi» do estado francês, são no mínimo comoventes. Que se cuide o governo português e não se deixe enredar em questões menores, como os tais direitos humanos, para não ver nas ruas de Cantão ou Nanquim uma manifestação com cartazes declarando «Brites de Almeida=Meretriz» ou «Free Porto Santo Now!».

    Atualidade, Devaneios

    Previsão para Maio

    «Maio é, habitualmente, um mês de aguaceiros esparsos, mas a instabilidade que agora reina no clima trará chuvas torrenciais de uma violência inaudita. Verá o seu carro ser arrastado por uma enxurrada, mas isso deixá-lo-á primeiro indiferente e, depois, aliviado.»

    De O Que Está Escrito Nas Estrelas [Anos I & II], o «horóscopo de assombroso rigor científico» no qual o autor de BD José Carlos Fernandes transformou o seu último álbum (embora trabalho antigo), composto por 24 inquietantes histórias ilustradas. Por precaução, não o deverá perder (Ed. Tinta da China).

      Devaneios

      Erotismo no Porto

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      No comício-festa que reuniu num pavilhão do Porto a nata e a guarnição das clientelas do PS para «comemorarem» em conjunto «três anos de governo com resultados» foi perceptível, a quem o observou do lado de fora, a presença no ar de uma intensa carga erótica, associada a todo aquele feérico e teatral ambiente de cor, luz, alegria, autosatisfação, cumplicidade e feromonas. O poder funciona de facto como um estupendo afrodisíaco. Estimula a energia e ajuda a pintar o mundo de cor-de-rosa. Enquanto dura.

        Atualidade, Devaneios

        Lindas e despreocupadas

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        Dois dos mais respeitáveis jornais portugueses – o Público e A Bola – oferecem todas as sextas-feiras um indigente «semanário gratuito» chamado Sexta. Esta semana, o Sexta saiu também no sábado coincidente com o Dia Internacional da Mulher. Sempre «actual», o jornal oferece-nos por isso um «Especial Mulher», patrocinado pela Dove, que transporta a toda a largura da capa, acompanhada de um agradável rosto feminil, a frase «A beleza não tem idade». E aborda todos esses magnos problemas relacionados com tamanho das pálpebras, textura do cabelo, maciez da pele e manutenção da linha que, como se sabe, fazem a cabeça em água às mulheres, já que os homens não se querem bonitos e têm assuntos mais graves com os quais se devem preocupar. Ainda mal desperto, considerei a hipótese de ter retrocedido no calendário até aos anos trinta, quando se mostravam já ténues os ecos da primeira vaga feminista e a segunda tratava ainda de aprender a gatinhar. E, por breves instantes, voltei a datas e a lugares nos quais estas atitudes não eram olhadas com tanta indiferença.

          Devaneios, Etc.

          N e a sua Josefina

          A incerteza instala-se e percorre o planeta. Terá ou não o senhor do palácio do huitième arrondissement casado de papel passado com a ex-modelo, honrando os seus compromissos e comprovando a vertiginosa celeridade dos processos de divórcio em terras de França? Por via das dúvidas, os circunspectos responsáveis pelo Castelo de Windsor já fizeram saber que não gerem um motel, reservando aposentos separados para a sua estadia de Março, não fosse o espectro de Vitória, a rainha, retornar do além-túmulo de pistola na mão, garantindo o escândalo e um embaraçoso conflito diplomático. Ao mesmo tempo, as autoridades sauditas desaconselharam o fogoso gaulês a deslocar-se a Riade na companhia da sua mais recente companheira de quarto. Há que manter os elevados padrões de ortodoxia moral que fundam – porque não dizê-lo – as grandes civilizações. De outro modo, onde iríamos parar?

            Devaneios

            A prova do futuro

            «O presente é um território que exige que se vá além de todos os limites», escreve o filósofo espanhol Ignacio Izuzquiza. É o único território a partir do qual é possível sonhar com tempos diversos e preferíveis. Por isso, apenas numa tonalidade esquizofrénica é possível vivê-lo. Imaginando futuros possíveis projectados a partir de passados pouco mais que prováveis, localizados sempre para além daquilo que permanece convencionado como «o real». Os programas políticos que não assumam essa dimensão prospectiva e fantasiosa estão condenados a ficarem sempre aquém do possível. A gerirem o presente de forma apenas razoável («realista», dizem). A deixarem-se bloquear e a caminharem rumo a uma inevitável derrota histórica.

              Devaneios, Etc.

              Smoking

              O que acontecerá agora ao smoking, essa peça de vestuário masculino especificamente concebida para ser envergada em espaços e momentos destinados aos prazeres do fumo? Ficará definitivamente confinado às salas de jogo dos casinos? Apenas será vestido no interior das mansões à hora do bridge? Irá jazer dentro de escuros guarda-fatos na companhia de umas quantas bolas de naftalina?

              Imagem: Ian Fleming, agente dos serviços secretos da Royal Navy (código 17F) e criador de James Bond

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                Exultate, jubilate

                Tive hoje a oportunidade de presenciar dois fedayin proibicionistas a entrarem lampeiros e coruscantes num restaurante sem espaço para fumadores. Li-lhes nos olhos e bebi-lhes das palavras a alegria e o arrebatamento dos iluminados. E tremi.

                  Atualidade, Devaneios

                  Nostalgia vermelha

                  ODiario.info – uma revista electrónica apostada em ressuscitar, a partir das profundezas da memória, o espectro do antigo jornal da «verdade a que temos direito» –, acaba de editar, entre outros textos igualmente delirantes, um pedaço de prosa sobre a «revolução bolivariana» que se revela bastante pitoresco. Assinado pelos editores (José Paulo Gascão, Miguel Urbano Rodrigues e Rui Namorado Rosa), tem a particularidade de afirmar, preto no branco, aquilo que muitos dos membros da sua família política pensa, ou sonha, mas não tem o atrevimento de escrever. Nele se proclama entusiasticamente que «na pátria de Bolívar avança com ímpeto uma revolução que empolga os povos da América Latina e alarma o imperialismo pela sua meta assumida: o socialismo» e se lembra que a existência de desafios durante a «transição do capitalismo para o socialismo» constituirá sempre «um ensinamento inesquecível» desse «andamento maravilhoso e dramático da Revolução de Outubro de 17». Quando falam de uns malvados «trotskistas, anarquistas e toda uma chusma de intelectuais pseudo revolucionários – os pequeno burgueses enraivecidos de que já falava Lenine» que «somam agora as suas vozes às do imperialismo para profetizar o fim da revolução bolivariana» tenho a impressão que os autores se estão a referir a alguém mas não tenho a certeza de quem seja.

                    Devaneios, Recortes

                    Ares do campo

                    Hoje, na sempre animada secção de Classificados do jornal Público, uma cidadã que se descreve a si própria como «senhora da aldeia, desinibida e sem tabus» oferece-se para preencher a sua quota de trabalho socialmente produtivo, traduzido em «sexo sem pressas». A reconversão da população rural parece estar a avançar a todo o vapor, preparando-se para superar as mais optimistas metas do plano quinquenal. E sem stress.

                      Devaneios, Etc.