Arquivo de Categorias: Apontamentos

A sete chaves

O governo do Irão acaba de proibir os académicos do país, todos eles, de contactarem cidadãos estrangeiros. Os motivos invocados são explicados de um modo muito directo: «os nosso docentes estão expostos a ameaças de espionagem», diz uma fonte governamental, e além disso «qualquer cidadão estrangeiro que estabeleça contactos não é de confiança». A paranóia instalada como eixo da razão de Estado não é uma experiência nova. Há mais disso por aí. Mas as lições do passado recente não deveriam ter caído assim tão facilmente no esquecimento.

    Apontamentos, Atualidade

    Jack

    Cap. Jack Sparrow

    Em «Nos Confins do Mundo», o terceiro e talvez último episódio da saga Os Piratas das Caraíbas, quase desaparece o humor e o estilo velhaco e tremendamente desajeitado do Capitão Jack Sparrow (Johnny Depp). É pena, pois os melhores super-heróis serão sempre aqueles que se não revelem demasiado graves ou previsíveis.

      Apontamentos

      O Alves

      Image Hosted by ImageShack.us

      Era um senhor com um tom voz que vinha do passado e gravatas de nó minúsculo. Capaz de comentar um jogo declarando sem um piscar de olhos, para um país com quase quarenta por cento de analfabetos, que «os garbosos mancebos da Briosa executam com elevado pundonor, e quiçá a maior distinção, um futebol deveras estereotipado.» A frase encontrei-a ontem, copiada a lápis numa agenda de 1965.

        Apontamentos, Devaneios

        O Quê? Onde?

        Ainda o espectro do fundamentalismo antitabagista, pois um dado novo faz-me regressar ao tema. De acordo com um estudo divulgado hoje pela Comissão Europeia(*) e noticiado em publico.pt, 9 em cada 10 portugueses apoiam a proibição de fumar em espaços públicos fechados, com uma clara maioria (cerca de 91%) a defender que a interdição abranja restaurantes e bares, e um pouco menos (88%) a exigir que ela seja alargada a aeroportos, estações de metro e lojas. Muito acima da média europeia, segundo parece. O curioso é que o mesmo inquérito revela que os fumadores portugueses — um em cada quatro inquiridos (24%, quando na União a média é 32%) — são daqueles que mais fumam, já que a esmagadora maioria (97%) fá-lo todos os dias, e 38% fumam mesmo mais do que um maço de cigarros por dia (a média comunitária é de 26%). Conclusão lógica: ou uma grande parte dos portugueses prefere fumar em lavabos, vãos de escada, separadores das autoestradas, áreas arborizadas e jaulas do Zoológico, ou alguém andou a gozar os tarefeiros da TNS Euroteste. Não sei porquê, inclino-me mais para a segunda hipótese.

        (*) Inquérito feito a 1.006 portugueses, num total de 28.584 cidadãos europeus.

          Apontamentos, Atualidade

          Terceiro-mundismo

          Nun

          Informa o Diário Digital que um padre algarvio anunciou este domingo, na Igreja da Praia da Luz, «a realização de uma oração nacional pela menina britânica desaparecida há 17 dias.» De acordo com a mesma fonte, a Congregação das Irmãs Carmelitas, organizadora da iniciativa, terá entretanto enviado «um e-mail a todas as paróquias do País para se juntarem ao momento de prece.» Percebemos já que a cidadania britânica implica, neste país, formas de discriminação positiva no que respeita à agilidade observada pelos mecanismos de polícia e à atenção prestada pela comunicação social. Fica agora a saber-se que também a Igreja católica portuguesa decidiu abrir uma singular linha directa para tratar o assunto.

          Adenda [21/5]: Todos os dias ocorre mais um lamentável episódio nesta infeliz história. Hoje foi a vez de «um minuto de silêncio e reflexão pela menina inglesa». As televisões mostram-no, em toda a silenciosa plenitude, nas filas formadas junto às caixas registadoras dos hipermercados algarvios. Não podemos saber para que servirá tal «reflexão», mas os familiares das muitas centenas de crianças portuguesas desaparecidas deverão tê-la sentido como uma afronta.

            Apontamentos

            Entre Marrocos e a Finlândia

            A discussão sobre o «fenómeno de Fátima» permanecerá para sempre inacabada. Parece que tudo já foi dito a propósito das circunstâncias nas quais emergiu, do significado teológico da sua mensagem, do comércio organizado à sua volta, da fé ou da superstição de quem ali ocorre em peregrinações salvíficas ou a pagamento de promessas. O padre Mário de Oliveira tem abordado o assunto com seriedade mas também alguns tiques de prosélito do contra. Fina d’Armada ou Moisés Espírito Santo, no passado, foram muito mais longe na especulação e no delírio «científico». E nesta altura parece difícil falar do assunto sem repetir argumentos e banalidades. Deixo, por isso, apenas dois apontamentos.

            Um de indignação, em relação à forma como a maioria das televisões e dos jornais têm tratado o «prodígio», referindo-se aos acontecimentos de 1917 como «aparições» que abordam como a um indiscutível facto histórico. A RTP1, em horário nobre e com o nosso dinheiro, passa mesmo The Miracle of Our Lady of Fatima (1952), de John Brahm, «baseado em factos reais» e que confunde os camponeses portugueses com balcânicos campesinos e os nossos galhardos republicanos com perigosos comunistas, arqui-inimigos bigodudos e ajuramentados da Santa Fé e das inocentes criancinhas.

            Um segundo apontamento sobre as pessoas que vi nas reportagens e que fui encontrando por estes dias ao ritmo da condução. Homens de boina xadrez, mulheres de lenço, muitos jovens também, às centenas, aos milhares, a comerem farnéis de broa e chouriço à beira das estradas nacionais (sim, que as auto-estradas, velozes e assépticas, não são para eles). Sentados à sombra de velhas camionetas, de destoante e assertoado colete reflector, parecem saídos do país dual, a preto e branco e marcado ainda por um catolicismo velho e tridentino, de há quarenta anos atrás. E nós que nos imaginávamos já a mais do que metade do caminho entre Marrocos e a Finlândia!

              Apontamentos, Olhares

              Da memória dos anos do fim

              Cracovia

              Os períodos de declínio oferecem-nos sempre um rastro de obsolescência. As sombras de quando já nada era como foi, ou se esperou que fosse, e nada é ainda aquilo em que talvez algum dia possa tornar-se. Fica-nos uma sombra de tristeza e de inércia, de teimosia inútil que alguns dos seus sobreviventes continuam a tomar como um resto de grandeza. Vestígios daquela vida-que-o-não-era de Kathrin Sass, a mãe de Alex que recuperava do coma em Good Bye Lenin!, o filme de Wolfgang Becker. Ao mesmo tempo, um sentimento de perda, como quando se reencontra, coberto de pó e das marcas do nosso próprio desleixo, o brinquedo da infância que afinal não havíamos esquecido.

              Assim podem percorrer-se, em Windows through the Curtain, as fotografias de David Hlynsky. Ruas sóbrias mas desoladas, a estética pobre das montras das lojas e dos armazéns do povo, as enfadonhas entradas dos nichos da burocracia ou de restaurantes que jamais recomendaríamos a um amigo em viagem, pessoas anónimas e que nos parecem errar por cidades como Moscovo, Sófia, Praga, Budapeste ou Cracóvia. Emergindo, longe dos desfiles nas praças centrais, de uma outra era, daqueles anos de fronteira que preencheram a leste a longa década de 1980. A do fim da utopia que já o não era.

                Apontamentos, História

                Ainda Talin

                Aquilo que posso responder ao texto de João Tunes, a propósito das conjecturas sobre os acontecimentos de Talin que deixei um pouco mais abaixo, é que concordo inteiramente com ele sem negar aquilo que afirmei. Mas admito que possa não ter sido suficientemente claro. Ou que tenha parecido demasiado ligeiro.

                Concordo com o facto de, se isolarmos o que se passou em Talin e aquilo que aconteceu em Santa Comba, depararemos com dois casos historicamente bastante distintos. Seria absurdo negá-lo. Por outro lado, também me parece irrecusável, no que se refere à essência dos dois momentos referidos, o facto de não existir, nem poder existir, «um corte entre a reprodução desejada e a recriação celebrada». Em um e outro dos casos, o passado não foi meramente inventado ou manipulado por quem desceu à rua. Ele existiu, deixou um rastro na memória, e, ademais, vive ainda na condição actual de parte significativa das gerações que dele receberam determinados legados.

                Aquilo que pretendi dizer foi que, para grande parte dos que não viveram aquele tempo, ele é em larga medida idealizado e, de alguma forma, reproduzido de acordo com fórmulas simplistas, as quais não integram toda a informação e reagem a estímulos dos media, sobrevalorizando aquilo que parece momentaneamente «útil» em termos políticos. No caso estoniano, os descendentes dos russos são convidados a subvalorizar o horror estalinista, ao qual muitos dos seus antepassados de modo algum permaneceram imunes, em detrimento de um revanchismo nacionalista que a imagem da resistência antinazi ajuda a definir e a legitimar no plano simbólico. No caso português, aqueles que nem os filmes a preto e branco sobre o Estado Novo viram, descem à rua, na sua rejeição da democracia, utilizando o rosto do ditador basicamente para concitar vontades e expectativas que são de agora.

                Sobram os mais velhos, que possuem leituras mais complexas e transportam vivências de um passado que não podem esquecer. Mas não são estes quem, ressalvando certos casos que roçam a patologia e o mais profundo ressabiamento, vem para a praça gritar «vivas ao António». Em Talin, pelas imagens que me chegaram, também não são os octogenários que combateram Hitler a vir para a rua atirar pedras às novas autoridades democráticas, embora muitos dos antigos combatentes se possam também sentir indignados pela remoção simbólica de uma parte das suas vidas.

                Não me parece que aquilo que defendo tenda a desvalorizar o impacto presente da memória do estalinismo ou do fascismo. Apenas tem em consideração a forma como as imagens do passado são decifradas na actualidade. As lunetas através das quais uma grande parte das pessoas que têm hoje menos de 30 ou 35 anos o observam. E, nestas «coisas da rua», agora são elas que contam.

                  Apontamentos, História

                  E agora Talin

                  Tallinn

                  Muitos dos participantes dos movimentos colectivos que vêm para a rua em nome do passado estão menos empenhados em compreendê-lo do que em manipulá-lo. Ainda que de tal possam não ter perfeita consciência. Parece-me razoavelmente claro que algumas das tomadas de posição mais radicais à volta da retirada do monumento ao soldado do Exército Vermelho em Talin, na Estónia (ou da construção do museu do Estado Novo no Vimieiro, a dois quilómetros de Santa Comba Dão), nada têm a ver, para a maioria dos que se manifestam, com um conhecimento efectivo do que significou a ocupação soviética (ou, no segundo dos casos, o salazarismo), ou sequer com uma memória vivida da sua experiência. Se exceptuarmos uns quantos sobreviventes, já quase sem voz activa, para a maioria dos manifestantes o passado (aquele passado) interessará, acima de tudo, para alimentar a sua imaginação e as causas do presente que resolveram tomar como suas. Ou então porque se encontra em condições de agregar diversas formas de descontentamento. Não para expressar, como por vezes tem sido insinuado, um desejo objectivo de meter o presente em marcha-à-ré na máquina do tempo.

                  Adenda: ler a continuação deste texto mais acima ou aqui.

                    Apontamentos, História

                    Vª Exª Mr. John Bull

                    Ze Povinho

                    O que mais me impressiona no caso da miúda inglesa que desapareceu no Algarve – para além, naturalmente, da situação em si – é a subserviência com a qual, fazendo notícia sobre a notícia, os canais de televisão portugueses se preocupam tanto com aquilo que se diz nas pantalhas ou nos jornais do Reino Unido (com o «insuspeito» The Sun citado à cabeça), falando, até à exaustão, dos reflexos do episódio nas ruas de Londres ou de Birmingham. Trata-se de mais um caso de servilismo bacoco, associando a excitação de «sermos falados» lá fora ao receio de sermos confundidos com um povo de raptores e de tarados sexuais. Não há paciência que resista!

                      Apontamentos, Atualidade

                      Sermos solidários

                      1º de Maio

                      Na generalidade dos países industrializados, fora de algumas organizações sindicais e dos militantes e simpatizantes dos partidos e movimentos tardo-marxistas, já poucos descem à rua no 1º de Maio para gritarem palavras de ordem. Longe das áreas nas quais as contradições sociais ainda inspiram, compreensivelmente, a consagração simbólica da luta de classes, por aqui trata-se apenas, para a imensa maioria, de mais um feriado. Dia de passeio que outrora foi pelo campo e hoje segue a passo pelos grandes centros comerciais, tempo para dormir uma sesta sem ninguém que incomode, às vezes para namorar um pouco, para acertar umas almoçaradas, para um jogo de futebol entre amigos. Quando se liga a televisão, podem ver-se os horríveis cortejos militares de Pequim ou de Pyongyang, a sombra de Fidel na Praça havanesa da Revolução, os velhos moscovitas saudosos do império que cantam a Internacional ao lado de uns quantos adolescentes de comportamento duvidoso. Um pouco mais de intensidade, talvez, em Beirute, Caracas ou Manila.

                      Por aqui, desfiles de rua com os mesmo sindicalistas (ou os seus clones) que há mais de 30 anos, inamovíveis nos seus lugares protegidos, gritam as mesmas palavras de ordem («U-ni-da-de-Sin-di-cal!», «Go-ver-no-Pará-rua!») que já ninguém sabe muito bem que coisa significam ou para que servem. Poucos são os trabalhadores sem enquadramento e quase não vejo jovens desempregados, imigrantes, contratados a prazo, tarefeiros, diplomados sem expectativa de emprego, ecologistas, gays, lésbicas, prostitutas, deficientes, mulheres em defesa dos seus direitos, membros de ONGs: largas centenas de milhar de pessoas, em breve muitas mais, situadas completamente fora do aparelho produtivo, e que o velho sindicalismo não sabe (ou não quer? ou não pode?) mobilizar. Não pagam quotas, não militam, não votam, não desfraldam bandeiras vermelhas, mas esperam por algo mais do que a compreensão da sociedade em que vivem. Ninguém lhe poderá dizer que «depois da revolução» os seus amanhãs cantarão. Mas também não está no seu horizonte que um dia, quando estivermos todos longe «da cauda da Europa» e a viver riquíssimos num país «de excelência», as oportunidades lhes sejam concedidas.

                        Apontamentos, Opinião

                        Vítimas e «mártires»

                        Franco

                        Em Espanha, a Igreja católica contra-ataca numa altura em que se discute a Lei da Memória Histórica, a qual propõe a reparação póstuma das vítimas do franquismo e da Guerra Civil. Prepara-se assim, para o próximo Outono, a beatificação em massa de 2 bispos, 24 padres, 462 religiosos, um diácono, um subdiácono, um seminarista e sete leigos, eufemisticamente designados pela hierarquia eclesiástica como «mártires da perseguição religiosa dos anos trinta». Os fantasmas do passado parece quererem retomar o seu lugar. Algumas das suas causas também.

                        Adenda: Vale a pena conhecer o edificante caso da beata Eusébia Palomino, patrona dos adivinhos.

                          Apontamentos, História

                          Homem-sanduíche

                          Uma rapariga com um sorriso atraente olha-me e considera, talvez pelo meu aspecto aparentemente asseado e pelo telemóvel de que me sirvo enquanto caminho, que deverei possuir «um automóvel recente e em bom estado». Parece-lhe-á que também tenho ar de quem «não utiliza parques de estacionamento». Entrega-me então um panfleto com uma proposta objectiva: deixo que o meu carro seja decorado com publicidade – «a imagem de grandes marcas» – e serei remunerado por isso. Em breve, alguém me sugerirá que cole um anúncio da Sony ou da Gillette na mochila e passeie em lugares públicos com ele bem visível. Depois que tatue o logótipo da BMW na testa e sorria com ar cool a quem quer que por mim passe na rua. Serei remunerado por isso, coisa que faz sempre jeito a um funcionário público presumivelmente honesto.

                            Apontamentos, Devaneios

                            Let’s dance!

                            Apenas 25 por cento dos trabalhadores da função pública poderão ter um nível de avaliação de desempenho relevante, dos quais cinco por cento poderão ter excelente. É esta a proposta de lei que desenha o novo Sistema Integrado da Avaliação de Desempenho da Administração Pública, aprovada hoje em conselho de ministros. Os restantes 75 por cento dos trabalhadores, naturalmente, não precisam esforçar-se muito: façam aquilo que fizerem, a «tal de excelência» será para eles uma eterna miragem. Talvez possa usar-se como mote para um fado, um vira minhoto, a letra de um rap.

                              Apontamentos, Opinião

                              Retrovisor

                              Emigrantes

                              Não, não se trata de um grupo de romenos, moldavos ou ucranianos emigrados que confraternizam numa noite de sábado. São portugueses, homens apenas, à espera de um comboio para França durante os nossos anos 60. A imagem – de grande utilidade para aqueles que padecem de amnésia – é retirada de Portugal, Um Retrato Social. Todos os episódios já emitidos desta notável série televisiva de António Barreto e Joana Pontes podem ser vistos, na íntegra, aqui mesmo.

                                Apontamentos, História

                                Format C:

                                Coreia do Norte

                                «Aqui É o Paraíso! foi a frase mais ouvida, durante toda a sua infância, pelo pequeno Hyok (…). A rádio, os altifalantes nas ruas, os próprios professores, repetem-na à saciedade: fora da Coreia do Norte, a vida é um inferno; mas lá, graças ao Grande Líder cujo culto é obrigatório, tudo corre da melhor forma.»

                                Os visitantes ocidentais mais honestos e descomprometidos têm mencionado o cenário catastrófico e a brutal repressão que se encontram instalados naquele lado do planeta. Os raríssimos testemunhos que nos chegam daqueles que conseguiram fugir e descobrir que, afinal, existia vida para além do silêncio, da servidão e do universo concentracionário, têm relatado, anos após uma custosa aprendizagem dos rudimentos da liberdade, o processo de formatação integral dos cidadãos norte-coreanos. É um testemunho desta natureza que surge em «Aqui É o Paraíso!». Uma infância na Coreia do Norte (Ulisseia), revelado pelo escritor e jornalista Philippe Grangereau a partir das conversas tidas em Seul com o jovem Hyok Kang. Que carrega consigo um factor suplementar de sofrimento: quando o convidam para ir a escolas falar sobre a sua experiência às crianças sul-coreanas, elas não acreditam nele.

                                  Apontamentos, Novidades

                                  O DN bate na avó

                                  Senti hoje de manhã que alguém me agarrava pelos colarinhos e me dava duas bofetadas. Havia já alguns dias que não comprava o Diário de Notícias – o jornal que me ensinou a ler e a perceber que existiam mais mundos que o mundo – mas de facto não há como ver para acreditar. O velho e respeitado diário transformara-se, de um momento para o outro, numa espécie de tablóide, com os maiores destaques concedidos ao crime e à desgraça, notícias espremidas e sem tutano, colunas minguadas e colunistas que desapareceram, e, à traição, sem um aviso sequer aos seus fiéis leitores, o suplemento cultural 6a. completamente evaporado (e substituído por um anódino caderninho com a programação da televisão subordinada ao prometedor título «Mariana está a dar a volta à minha vida»). Chama-se a isto cuspir na sopa. Ou, talvez mais propriamente, bater na avó. Então adeusinho, DN, até qualquer dia!

                                  O Daniel Oliveira e, sob um ponto de vista particularmente preocupante, o Luís Januário, chamam também a atenção para este triste episódio.

                                    Apontamentos