
A «historicidade» inscreve factos, pessoas ou ideias do passado no tempo, no lugar e no contexto aos quais pertenceram. O seu uso é essencial para compreender a história de forma ajustada e mais completa, já que, quando pensamos qualquer passado fora das suas circunstâncias e apenas com o olhar do presente, a perspetiva resulta sempre distorcida ou falsificada. Surge então o anacronismo (do grego ἀνά χρόνος, aná chrónos, «contra o tempo»), essa falha cronológica que atribui a dada época factos e sentidos que pertenceram a outra, ou que são explicados a partir de prismas desajustados, deturpando tanto o passado que se pretende ler quanto o lado do presente que o interpela.
As representações da história realizadas por quem a conheça de forma superficial, ou dela se pretenda apropriar para legitimar objetivos, tende com frequência a alimentar este erro, gerando falsidades, confusões e distorções, e produzindo muitas vezes análises incorretas. Como professor de história, deparei em inúmeras ocasiões com este problema, com alunos a produzir juízos de valor desadequados ao universo a que acreditavam referir-se. O erro é inofensivo e fácil de resolver quando respeita apenas a dados objetivos, bastando corrigi-los, mas pode ser desastroso se aplicado a formas de pensar ou a estados de espírito. Para o ilustrar, recorro a dois momentos autobiográficos.
O primeiro recua até à forma como, muito cedo, me foi transmitido um conceito de masculinidade e uma perceção dos géneros e da sexualidade. No meio e no tempo onde nasci e cresci, eles pautaram-se por juízos sobre mulheres, homossexualidade e o que era «ser homem», que hoje tenho consciência de serem impróprios, mas eram então normalizados e adotados quase sem questionamento. O segundo momento evoca a forma como, ainda em ditadura, considerei a «violência revolucionária» como parte imprescindível do combate pela democracia, tendo participado, plenamente convencido da sua justeza, em iniciativas que lhe deram corpo. Em ambos os casos, meio, informação, cultura e ideologia apoiaram escolhas agora incompreensíveis ou superadas.
As circunstâncias históricas ganham um peso ainda maior em situações com um impacto duradouro e coletivo. Deixo quatro breves exemplos justificados pelo seu tempo. O primeiro é o da brutalidade usada durante a Revolução Francesa, destinada a apagar os sinais da sociedade opressiva, e não menos brutal, que procurou destruir. O segundo é o da dimensão patológica da conduta do «homem romântico» do século XIX, que visava libertá-lo das inibições impostas pela tradição. O terceiro é o da Revolução Russa de 1917, que se acreditou ser o prelúdio de um mundo justo, livre e igualitário antes de se transformar na sua caricatura. E o quarto é o dos «anos 60» nos países desenvolvidos, um tempo de otimismo e criatividade, de luta por direitos e pelo prazer de viver, que apenas se entende no contexto de expansão económica e demográfica da época.
Não menos controversos são, sob este aspeto, os percursos de figuras que tomaram decisões hoje em parte rejeitadas, mas que no seu tempo e circunstâncias tiveram um potencial positivo e criador. Se olharmos muitas opções públicas e privadas de Pombal, Robespierre, Napoleão, Garibaldi, Lenine, Churchill, Guevara ou Otelo, ou de intelectuais e artistas como Rousseau, Caravaggio, Wilde, Camilo, Picasso, Sartre, Hellmann ou Neruda, veremos que todas corresponderam a decisões e comportamentos, hoje em parte contestados, que na sua historicidade foram aceitáveis. Todavia, se dela retirados, torna-se fácil julgá-las, deturpar o seu trajeto e até cancelar a sua memória.
Rui Bebiano
Fotografia de Anita JankovicPublicado no Diário As Beiras de 13/6/2026
