O Dicionário Houaiss define a apostasia como «a renúncia de uma religião ou crença, o abandono da fé», mas também «a quebra de votos, o abandono da vida religiosa ou sacerdotal sem autorização superior», e ainda «o ato de renunciar a um partido, teoria ou doutrina» ao qual se pertence. Dirão as pessoas que verdadeiramente aceitam ser a democracia a melhor e mais livre forma de viver em sociedade – ou, pelo menos, como um dia disse sarcasticamente Winston Churchill, «a pior, salvo todas as outras» – que esse é um direito que, como gesto de liberdade, assiste a qualquer pessoa.
No fundo, ele exprime direito a mudar de opinião, ou de prática, ou de convicção, ou então de companhia, quando as pessoas com quem convivemos deixam de partilhar as nossas certezas, ou nós abandonamos as delas. Todavia, na generalidade das religiões, sobretudo nas consideradas «do Livro» e que são estruturadas como Igrejas, bem como em muitos partidos políticos, sobretudos aqueles organizados em função de uma teoria e de um destino histórico que se crê infalível, o apóstata é liminarmente renegado, como alguém que «teve a oportunidade de ver a Luz, e preferiu as Trevas».
É então afastado do convívio, objeto de insultos e calúnias, definido como alguém pernicioso e que é encarado, na expressão tradicional usada pela minha avó paterna, como «o diabo em figura de gente». E seja o que for que tenha feito ou passe a fazer em vida, ou mesmo depois de passar o transe da morte, jamais será perdoada ou vista como alguém confiável e a tratar, no sentido literal do termo, «de boa-fé». Diria que quem assim define a rejeição absoluta do apóstata pode deter fortes convicções, ser alguém firme e cheio de princípios, mas boa pessoa e verdadeiro democrata não pode ser.

