
Faço parte de uma das gerações para as quais grande parte do trabalho profissional ou do horário lúdico de leitura e escrita, de estudo e de reflexão, se faz no espaço público dos cafés. É, todavia, cada vez mais difícil manter este hábito, pois num número crescente destes sítios, além de se promover o desconforto por troca com o design, como se estes fossem incompatíveis, existe um ambiente demasiado ruidoso, sobretudo pela introdução de música ambiente ou de televisores. Mas ainda continuo a passar muitas manhãs a exercê-lo. Neste esforço, auscultadores e auriculares têm sido auxiliares preciosos, sobretudo com os novos modelos sem fios que, além de vedarem, cortam eletronicamente boa parte do som ambiente. Sem eles, por certo já teria passado por algumas crises de nervos e deixado o hábito.
Hoje, porém, deparei com uma situação que sempre me incomodou bastante: ter alguém, mesmo à frente do meu ângulo de visão, a «bichanar», isto é, a ler baixinho, papagueando as palavras, um livro em papel que tinha nas suas mãos. Trata-se de um costume antigo, usado sobretudo por crianças e pessoas com dificuldades de concentração, que tem, entre outras, a desvantagem, está estudado, de tornar a leitura bem mais lenta. Pior ainda, a meu ver, é ele impedir a leitura silenciosa, que além de mais rápida é também mais rica ao estimular a reflexão ou a meditação, fazendo com que o leitor mergulhe fisicamente no que lê. Claro que agora, no que me toca, posso sempre cortar o «bichanar» com os tais utilitários que trago sempre comigo. Mas ter diante dos olhos aqueles lábios «em perpétuo movimento» – como escreveria Gedeão – admito que incomoda.
P.S. – Tive no meu primeiro quarto de estudante longe de casa um camarada que fazia isto. Sugeri-lhe rapidamente que mudasse de poiso.
Fotografia de Priscilla Du Preez
