Decomposição

Ao ler o volume Para Lá do Muro: Alemanha de Leste: 1949-1990, de Katja Hoyer (edição Vogais), uma recomendável, bastante completa e tão imparcial quanto o possível resenha da experiência histórica da República Democrática Alemã, deparei, inevitavelmente, com referências ao seu duro e eficaz sistema repressivo, aplicado na vigilância, no controlo e na punição da menor dissidência política ou social. Mesmo a daquela que pudesse ocorrer com alguém situado dentro do partido no poder (o Partido Socialista Unificado da Alemanha, SED) ou que no passado tivesse sido considerado como seu próximo.

Um dos aspetos para mim mais perturbantes foi a introdução formal no regulamento da STASI, a polícia política da RDA – pela Diretiva N.º1/76 do Desenvolvimento e Revisão de Procedimentos Operacionais, de janeiro de 1976 – do conceito de Zersetzung (decomposição). Este recomendava e definia o uso de sistemático métodos «silenciosos» (ou seja, de natureza psiciológica), para isolar, caluniar, prejudicar e atacar qualquer indivíduo suspeito de dissidência ou ativismo de oposição, aplicado sobretudo a artistas, escritores, jornalistas, músicos, cineastas e outras pessoas cuja atividade profissional beliscasse a pureza ideológica do regime.

O que mais me perturba – insisto no uso da palavra – é a forma como ele se relaciona com práticas comuns à parte mais ortodoxa da esquerda política, em prática há mais de um século e ainda não extintas, mas que foram particularmente aplicadas durante o trajeto do estalinismo e das suas variantes, no poder ou fora dele. E lembrei-me do corte radical num dado momento da minha vida, já neste século, com uma pessoa, entretanto desaparecida, em quem tanto confiara, e que queria à viva força que eu utilizasse o acesso à comunicação social para espalhar mentiras e calúnias sobre certa figura pública da esquerda moderada. Quando recordo isto, o meu estômago ainda se revolve.

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