Arquivos Mensais: Abril 2006

I de emancipação


A passagem doo 150º aniversário sobre o nascimento de Sigmund Freud tem servido a publicação de estudos, sínteses, polémicas ou entrevistas sobre a origem e os sentidos da psicanálise. Pelo menos nas partes do mundo nas quais a sua obra não é já objecto de um tabu científico. Nada de particularmente novo, numa área do conhecimento que, desde o seu nascimento, se transformou em terreno de intrincados debates e duras controvérsias. Não deixa, no entanto, de parecer algo estranho que, tantos anos após a saída de A Interpretação dos Sonhos (1899), os preconceitos, mal-entendidos e simplificações acerca do sentido das hipóteses e das descobertas freudianas permaneçam tão vivos. É assim, por exemplo, que num dossiê recém-publicado pela revista Visão, diversas personalidades lusas revelem esse lado não fundamentado, marcado até por toques de uma agressividade contida, de uma abordagem preconceituosa da «ciência do divã». Por outro lado, muitos dos seus defensores assumem repetidamente posições de um apaixonado parti pris, como tal quase sempre com um envolvimento pouco crítico.

Aquilo que se pode dizer é que a obra de Freud trouxe consigo um dos três grandes «Is» por intermédio dos quais, na viragem do século XIX para o XX, o edifício racionalista e cientificista, que a Europa reconhecera como dominador nos duzentos anos anteriores, começou a ser abalado. Ao instinto de Nietzsche e à intuição de Bergson, Freud juntou a integração de um novo continente humano – sediado no inconsciente – que contribuiu em larga escala para a reavaliação da subjectividade e para a abertura de novas possibilidades no domínio da criação. «Is» que integram hoje o património cultural da humanidade e são elementos centrais da emancipação do sujeito e da afirmação da liberdade individual.

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    Louvor da aceitação

    António Vieira, lisboeta e baiano, jesuíta por via do «estalo» (palavra sua) que sofreu aos 15 anos de idade, colocava a rigorosa e imutável planificação dos destinos, determinada pela Providência que d’Ele emanava, muito acima de qualquer possibilidade de refutação. Nada de particularmente notável para o seu mundo de fés temidas e inquebrantáveis, como para um homem com as funções que foi exercendo ao longo da vida. Fazia-o porém, como é público, com uma peculiar desenvoltura. Ei-lo no ano de 1654, em plena forma, durante o Sermão de Santo António que pregou no convento nordestino das Mercês, sito em S. Luís do Maranhão: «Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo Deus para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com nadar, e não queirais voar, pois sois peixes.»

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      História em diminuendo

      PREC em PT
      O livro de Adelino Gomes e de José Pedro Castanheira editado pelo Público (Os Dias Loucos do PREC) define uma útil e documentada viagem pela memória de um período tórrido da nossa história recente. A arrumar na estante ao jeito da mão, ao lado de O Pulsar da Revolução, a cronologia lançada há alguns anos pelo Centro de Documentação 25 de Abril, transformando-se rapidamente em mais uma obra de consulta para historiadores, jornalistas, políticos profissionais e amadores, activistas de diferentes causas e público em geral. Notam-se, entretanto, algumas lacunas, particularmente no que respeita às dimensões cultural, social, ética, e até estética, do Processo Revolucionário Em Curso no imediato pós-Abril. Sem a integração destes factores, para o leitor que o não viveu ou que dele conserva ténue lembrança, o PREC poderá parecer, muito erradamente, apenas uma sucessão de golpes, contragolpes, arranjos palacianos, greves, barricadas, sobrevoos, gritaria e tiros para o ar. Tratou-se, afinal, de uma escolha dos autores. Aquilo que definitivamente não me agrada é, porém, o prefácio de Gonçalo M. Tavares. Nele levantam-se genericamente algumas ideias interessantes para que o leitor comum possa perceber a morfologia de uma revolução e aceite os seus indispensáveis exageros. Mas GMT desenvolve também algumas reflexões, um tanto lacunares, acerca do modo como o conhecimento histórico encararia o carácter dinâmico da intervenção individual e do episódio, assim como a dimensão passional de determinados gestos ou manifestações. Descreve então a História – que escreve com maiúscula para, parece-me, de alguma forma a depreciar – «como uma espécie de ciência que considera as excitações individuais e colectivas focos de perturbação da verdade dos factos», olhando tais excitações «como aquilo que as ciências clássicas classificam de erros».

      É preciso dizer que, após a superação da fobia do acontecimento produzida pela primeira vaga das escola dos Annales e da intervenção da influência estruturalista que dominou as décadas de 1960-70, a História, enquanto saber preocupado com as leituras presentes do passado, superou esse handicap. Para qualquer historiador minimamente actualizado e aberto às crescentes possibilidades do seu métier, tal questão deixou simplesmente de se colocar. O regresso triunfante da biografia e os novos caminhos percorridos pela história política demonstram-no constantemente. Claro que existe ainda, neste campo, quem pense, escreva e diga o mesmo que pensava, escrevia e dizia há trinta anos, desvalorizando, por exemplo, o papel do olhar de desafio de Salgueiro Maia, ampliado aos olhos do apontador da Chaimite, o qual, por ele convencido, resolveu desobedecer às ordens do seu comandante e não disparar sobre os revoltosos de Abril, possibilitando a sua vitória. Mas contra isso nada se pode fazer se não aceitar criticamente a escolha. GMT é um excelente escritor, como todos sabemos, mas poderia ter a percepção de que a atitude que menciona é própria de uma espécie em vias de extinção. Evitando que fique a pairar a definição lapidar, desalmada e bafienta dessa História-saber que muitos leitores tomarão erradamente por essencial.

        História

        Fulgor e sombra

        playing
        Dois dias e meio no CCB, preenchidos por 115 concertos onde é possível escutar A Harmonia das Nações. Bach, Couperin, Handel, Purcell, Rameau, Scarlatti, Telleman, Vivaldi, Soler, ou Francisco António de Almeida e Carlos Seixas, numa embriaguez permanente de notas e de timbres. Um fulgor barroco – associado, por Luigi Russo, a «crise de valores, tensão so­cio-politica, instabilidade, evasão onírica, mag­nificência, crueldade, sentido do efémero, osten­tação, hipocrisia, voyeurismo, preciosismo, angús­tia, extravagância, gosto do horrível, hipérbole, utopia, artifício, luxúria, thanatos» – em tempos sombrios que se diriam mais de cantochão.

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          De espaldas

          Lola
          Espanholada‘, dizem os melhores dicionários da língua mátria, é ‘fanfarronice‘, ‘jactância‘. É o ‘exagero‘, a ‘hipérbole‘, aquilo que perturba, pelo ruído ou pelo excesso, a sensibilidade de um povo de costumes pouco ruidosos. Como por ‘espanholar‘ se entende esse pícaro «gabar-se de façanhas pouco verosímeis». Gente como nós, portugueses suaves, treinados desde o ovo «a controlar as emoções, a cuidar das maneiras» (assim se nos pudicamente refere Federico J. González, autor de umas Reflexões de um Espanhol em Portugal), não poderia ter produzido um Cervantes, um Goya, uma Dolores Ibarruri, um Cordobés, uma Lola Flores, um Almodóvar. Mesmo uma Isabel Pantoja. Ou, valha-nos Deus, um Zapatero. E jamais deixa de estranhar as suas inquietantes espanholadas.

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            Evasões

            Uma semi-surpresa tive-a ao ler, há alguns meses atrás, A Misteriosa Chama da Rainha Loana, de Umberto Eco. Um deambular autobiográfico, na forma de romance, pelas mais antigas leituras e experiências musicais das quais o autor é capaz de se lembrar. Reparei então que é possível detectar uma tradição comum à literatura infanto-juvenil da Itália dos anos 40 e à do Portugal dos inícios da década de 1960. Os heróis foram quase os mesmos, quase os mesmos os cenários de aventura e os mapas do exotismo, semelhantes os propósitos de evasão projectados, no interior de sociedades marcadas por um profundo conformismo, sobre territórios distantes, tempos recuados, destinos improváveis. Os vultos de Fantomas e de Buffalo Bill, de Arsène Lupin e do Corsário Negro, de Sandokan e de Rocambole («hoje em Madrid, amanhã em São Petersburgo, mas ainda ontem em Pequim»), andaram pendurados em idênticos cordéis nas travessas de Milão e de Lisboa, como nos de Marselha ou Barcelona. Experiências-reminiscências para sucessivas gerações de rapazes. Ou, assim se dizia outrora, de umas quantas «marias-rapaz».

              Olhares

              Insolência

              antevisão de pernas

              Os poetas machos da geração que me antecedeu
              falavam obsessivamente das pernas das mulheres.
              Viviam num universo móvel onde elas as pernas
              prefiguravam o indizível distante que as mãos,
              tangentes, iriam procurar e querer depois beijar.
              Habitavam o lugar distante lá onde todo o desejo
              perfazia em privado a intenção das linhas ondulantes.

              Os da minha, que eu saiba procuraram o corpo
              erotismo táctil ignorante de pernas porém ágil em pêlos
              odores líquidos nos lugares que não era preciso vigiar.
              Saíam de manhã as mãos abertas averiguando o vento
              preliminar de encontros indagados sob as árvores
              ou em camas cedidas nuas por companheiros solitários.
              Sabem da urgência diurna que antecede o silêncio.

                Etc., Poesia

                A eternidade a 750 graus Celsius

                Em declarações à TSF o padre Vaz Pinto considerou normal que o Vaticano tenha decidido agora passar a incluir a leitura de jornais, a navegação na Internet e a televisão em excesso como pecados que têm de ser relatados em confissão auricular. Não tanto pelo seu «uso», admite, mas antes pelo imoderado «abuso» do qual serão constante objecto (aceitemos ainda que possa existir um abuso moderado de tonalidade apenas semi-concupiscente), o qual fará com que se deixem de lado «coisas mais importantes: a mulher, os filhos, o desporto, a cultura, o serviço social e por aí fora». Não sei ao que se refere VP quando fala de um certo «e por aí fora». Ou se as mulheres que abandonam os homens para se passearem por pecaminosas mailboxes, ou pelo universo aviltante dos blogues, sofrerão de idêntica maldição. Por mim, que recomendo insistentemente aos meus alunos a leitura de jornais, e lhes aponto inúmeras vezes, como material de referência documental, programas televisivos e sites da Internet, estarei inapelavelmente condenado a viver a eternidade nos tórridos domínios do decaído Belzebu.

                Depois de escrito – Não terei outras respostas a estas questões senão aquelas que me possam ser sopradas ao ouvido pelo Deus dos romanos, mas será que tais pecados terão efeitos retroactivos? e incluirão atitudes profundamente anti-sociais como passar tardes inteiras no cinema, a ler romances com mais de 500 páginas, a ouvir um ciclo inteiro de óperas de Wagner ou a olhar para determinado pormenor de um quadro de Vermeer? e afectarão eles os milhões de idosos que têm por única companhia a televisão ou um exemplar gasto pelo uso do jornal local? e serão abrangidos os jornais desportivos? e também as longuíssimas bençãos urbi et orbi transmitidas por diversos canais em simultâneo? e a Missa do Galo? e o Preço Certo em Euros?

                  Opinião

                  África deles

                  Serpa Pinto
                  Jamais saberemos aquilo que resultará menos humilhante para a relação entre uns e os outros: se a antiga definição como exemplar do olhar ingénuo e predador dos exploradores da primeira vaga, se a exibição de frio calculismo do corpo de cavalaria empresarial por intermédio da qual a gerência da república procura agora promover o retorno das lusas gentes à África dos africanos.

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                    Cliché Itália

                    A história da Itália – seja ela a da península conquistada pelos romanos, a da grande nação pulverizada durante séculos ou a do Estado ressurgido ao longo de Oitocentos – encontra-se, tal como a história de todos os povos, manchada tanto pelo excesso e pelo crime quanto pelo heroísmo e pela crença. Apesar deste grau de normalidade, a imagem estereotipada que transmite e com a qual envolve os seus naturais, é em regra simpática e positiva. A beleza panorâmica e a da maioria dos seus habitantes – apenas comparável, para um certo padrão de gosto, à da Croácia e à dos croatas – é associada a um património artístico e monumental esmagador, a uma literatura ágil e envolvente, a um cinema eternamente dinâmico, a prodígios de design, ao bom-gosto das roupas e do calçado, à comida e aos vinhos inesquecíveis. Bem como a uma certa bonomia das atitudes que foi até capaz de amaciar a dureza fascista (se a compararmos com a rigidez nazi-alemã), de integrar como parte do folclore os crimes mafiosos, de combinar o catolicismo dominante com a licenciosidade da moral e dos costumes. Os próprios comunistas italianos sempre foram, aliás, comunistas suaves. O sistema político, tradicionalmente moralista, incorporou sem se desmoronar figuras como a pornstar Cicciolina ou o travesti Vladimir. O futebol ganha títulos jogando à defesa, na combinação de uma irritante falta de coragem com souplesse e incríveis golpes de sorte. O «italiano» que imaginamos tem sempre qualquer coisa de capitão Bertorelli, da série Allô! Allô!, falando alto, sorrindo cúmplice, não se levando muito a sério. A «italiana» que concebemos é sempre uma Lollobrigida, morena, esbelta, sensual. Não será pois estranho que, entre tanto estereótipo, seja fácil encaixar o diálogo do anúncio no pobre debate político em curso, com Berlusconi dizendo «mas é a pasta!» e Prodi retorquindo «mas não, é o molho!». Pode ser que de tudo isto irrompa uma manhã qualquer coisa de menos previsível.

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                      Selva manual

                      Apesar dos inevitáveis erros e do grau de incerteza que uma escolha entre diferentes leituras pode sempre conter, a decisão do governo no sentido de centralizar a escolha dos manuais escolares – atribuída nas últimas décadas a cada uma das diferentíssimas escolas, à competência sempre irregular de muitos dos seus docentes, às todo-poderosas influências comerciais das editoras – será positiva. Desde que não se aproxime da velha prática estado-novista do livro único, o que, bem vistas as coisas, a pluralidade essencial do tempo neste lado do planeta por certo impedirá. Permitindo um mais criterioso reconhecimento dos conteúdos e da qualidade pedagógica dos materiais, a medida poderá corrigir assim um dos efeitos nefastos da «regionalização no terreno». Ou, pelo menos, espera-se que assim aconteça.

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                        Uma noite em Xangai

                        As autoridades da República Popular da China, que a maioria dos governos ocidentais constantemente bajula apesar dos graves e constantes ataques às liberdades fundamentais e aos direitos dos trabalhadores – tal como lhes admite a prática ininterrupta de crimes económicos e ambientais em escala planetária – acabam de proibir os Rolling Stones de incluirem algumas das suas canções no concerto que vão dar em Xangai. Brown Sugar, por exemplo. Ou Honky Tonk Woman. Ou Let’s Spend the Night Together. Os nossos relativistas baterão palmas, claro, venerando as respeitáveis condições da especificidade cultural chinesa. Sir Mick Jagger, sabendo muito bem que na China os Stones não são propriamente um fenómeno de massas, foi apenas irónico: «”I’m pleased that the Ministry of Culture is protecting the morals of the bankers and their girlfriends that are going to be coming.»

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                          As pedras da calçada, ainda

                          Força já o bocejo a lengalenga sobre a impossível analogia que podemos estabelecer entre a rebelião estudantil francesa que se desenrola «sem horizontes definidos», e aqueles combates em redor de 1968 «que invocavam utopias futuras» (palavras de um daqueles invariavelmente seguríssimos textos dominicais de Mário Mesquita). Claro que a distância entre os dois momentos é enorme, como enorme é a separação abissal – ou «abismal», tal qual escreve e vulgariza a novilíngua jornalística – que distingue o actual meio estudantil daquele que existia há quatro décadas atrás (distância muito maior, sem dúvida, do que aquela que separa actualmente as realidades e as expectativas dos estudantes universitários franceses, portugueses ou mexicanos). Mas parece continuar sem se reconhecer a existência de um estado juvenil de «prontidão para a revolta», que, sendo historicamente recorrente a partir do pós-guerra, tem funcionado sempre como expressão de um profundo mal-estar e sinal de uma vontade de mudança tão intensa quanto mobilizadora. E que não é um simples caso de polícia.

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                            Folclore regional

                            caldo verde
                            Fala-se de novo em regionalização e vale a pena reparar nas tentativas para, aqui ou além, devagar ou mais apressadamente, às claras ou recorrendo a subterfúgios, reerguer aquilo que em referendo, num fugaz assomo de colectiva sageza, a maioria dos portugueses recusou. Porque a regionalização da qual nos falam não é a necessária descentralização, mas sim a criação de novas centralidades regionais. Com a agravante de, num país em estado de óbvia indigência na qualificação política e técnica dos quadros políticos locais, essa eventualidade reforçar os poderes de quem nem para gerir convenientemente uma pequena junta de freguesia – com todo o respeito para com as pequenas juntas de freguesia – possui muitas vezes visão e capacidades. Naquela que se imagina ainda a terceira cidade do país – contando com a concentração urbana e o crescimento demográfico, talvez seja, de forma optimista, a oitava ou a nona – sente-se particularmente esse drama. Há anos, muitos, que uma cidade triste e deprimida como Coimbra – cujo amor-prórpio é apenas ciclicamente reiventado por scholars e estudantes à procura de referências identitárias – se vê gerida de forma autista, kitsch e, num certo sentido, esquizóide. Autista porque, cidade de fortes tradições democráticas e de abertura ao mundo, tem sido governada de forma essencialmente anti-cosmopolita e fora de uma efectiva cultura da participação. Kitsch porque lhe definem constantemente horizontes culturais a partir do mais provinciano mau-gosto. Esquizóide porque a todo o momento lhe indicam a repetição ad infinitum, visível sinal do seu atraso, como prova provada da grandeza do mundo. Seria então com gente responsável por tais desvarios, ou por aquela que preludia outros, na eventualidade com acrescidos poderes, que seguiria avante a regionalização de todos os perigos. Na «cidade dos doutores» como em muitos outros locais mais ou menos plebeus deste país de magnos problemas e tão distraídos cidadãos.

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