Quatro meses do meu ano de 68

Moscovo 2011: exposição de fotografias de Josef Koudelka sobre a invasão da Checoslováquia em Agosto de 1968

Em 1968 o mundo inteiro aparentava mover-se mais depressa, ainda mais depressa. Tudo parecia estar a acontecer em Paris, em Praga, em Berlim, nos Estados Unidos, Brasil e México, envolvendo a União Soviética, Cuba, a China, o Vietname, na verdade o mundo inteiro. Combates de rua com a polícia antimotim, guerrilhas urbanas e rurais, surgimento e auge da contracultura, revoluções sucessivas nas artes, no romance, na filosofia, no cinema, na música, acompanhando a rápida expansão da indústria cultural.

O anti-racismo e o anti-colonialismo na ordem do dia. E novos movimentos sociais: estudantis, ambientais, feministas. Explodiam o uso de drogas, a popularização da psicanálise, a generalização da pílula, a revolução sexual. O saber dos mandarins académicos a dar lugar nos anfiteatros ao dos jovens universitários. A luta operária e popular a tomar novos caminhos, menos previsíveis e uniformes. Mais o questionamento das democracias parlamentares ocidentais e o das experiências bloqueadas do socialismo autoritário. Ah, e foi também o ano em que Jim Morrison e os Doors gravaram o álbum Waiting for the Sun.

Esse foi um ano de viragem na minha vida de adolescente. Sobretudo em dois momentos vividos com grande intensidade. No primeiro, em Maio, era aluno interno no Colégio Nun’Álvares, de Tomar, e comprava religiosamente num quiosque próximo os números semanais da revista Vida Mundial, onde apesar da censura se entrevia o mundo novo que parecia emergir nas ruas de Paris. Relembro muito bem a mágoa e a revolta que sentia por estar tão longe daqueles espaços de liberdade, por não poder participar nos debates, por não estar nas barricadas. O meu mundo era o de The Times They Are a-Changin’, de Dylan, mas ainda à distância.

No segundo momento, em Agosto, chegaram as notícias da interrupção sangrenta pelos tanques russos da Primavera de Praga, a do «socialismo de rosto humano», por muitos olhada como uma réplica da revolta parisiense vivida do outro lado do espelho. Tenho a memória de na tarde do dia 21 ter chorado e escrito um parágrafo de raiva, que ainda conservo. Fiquei então vacinado contra as utopias afogadas na burocracia, no pensamento único e na bota militar. Em Outubro seguia para Coimbra, destinado a concluir o secundário e a outras experiências, mas boa parte daquilo que sou tinha sido fixado entre aqueles meses de Maio e Agosto.

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