Blogues: (9) Um território amoral

Ódio

Existe um «lado negro da Internet» que passa principalmente pelos blogues. Nele sobrepõe-se a voz do mais forte (aquele que sabe produzir engodos, que dispõe de tempo e de estrutura para investir na agressividade). Não se trata apenas de caminhar por subúrbios perigosos pisando ou atravessando a fronteira do delito (o terrorismo, a pornografia, o extremismo político e religioso, a economia paralela, a fraude), mas de comunicar sem um código ético perceptível. Aqui a utilização do anonimato (não do pseudónimo consistente), associada à utilização parasitária das caixas de comentários, favorece o insulto, a calúnia, a provocação, a instalação da dúvida em relação à fala do outro. Quando alimentado, este ambiente torna-se insuportável, empurrando leitores e criadores para diferentes destinos.

[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

    Cibercultura, Etc.

    A tradução como crime

    Comprei Um Olhar Sobre o Holocausto, livro já com alguns anos da historiadora e antropóloga australiana Inga Clendinnen editado agora pela Prefácio (Reading the Holocaust, Cambridge U. Press, 1999), onde esta examina testemunhos de sobreviventes como Primo Levi ou Charlotte Delbo. Não conhecia a edição original e, reconheço agora que um pouco ingenuamente, confiei no facto de a qualidade das traduções de livros editados em Portugal ter vindo nos últimos anos a melhorar bastante. O volume tem 302 páginas, mas abandonei-o num instante. É que não tinha assim tanta necessidade de o ler que justificasse o tormento que foi seguir a tradução assinada por A. Mata. E foi praticamente impossível descortinar um parágrafo que não contivesse frases inteiras absolutamente incompreensíveis ou vertidas para um português inenarrável, quase ilegível, desprovido do mínimo exigível de cuidado literário ou mesmo de sentido. Ao acaso: «Eu estava especialmente aterrorizada com os alemães porque eles claramente glorificavam a sua perversidade»; ou «apesar da similaridade dos motivos, as duas experiências estudadas [as duas Guerras Mundiais] tiveram resultados diferentes»; ou ainda «sobre o Holocausto eu não tinha nenhum sentimento de compreensão acumulada». Isto só nas primeiras duas páginas de texto. Continuando: «Experimentei opiniões académicas correntes», «face a uma catástrofe destas dimensões, tão propositadamente infligida, a perplexidade é uma indulgência», «os ciganos eram classificados como insociáveis», «os ciganos fizeram do esquecimento uma arte», «há um mistério principal sobre a compreensão», etc., etc., etc. Já agora: como pode alguém que simplesmente leia livros com alguma regularidade referir-se aos Romani (os ciganos do leste europeu) como Romanos? E parei na página 48, final do capítulo I, pois toda a paciência tem os seus limites.

    Também em Passado/Presente

      Homem-sanduíche

      Uma rapariga com um sorriso atraente olha-me e considera, talvez pelo meu aspecto aparentemente asseado e pelo telemóvel de que me sirvo enquanto caminho, que deverei possuir «um automóvel recente e em bom estado». Parece-lhe-á que também tenho ar de quem «não utiliza parques de estacionamento». Entrega-me então um panfleto com uma proposta objectiva: deixo que o meu carro seja decorado com publicidade – «a imagem de grandes marcas» – e serei remunerado por isso. Em breve, alguém me sugerirá que cole um anúncio da Sony ou da Gillette na mochila e passeie em lugares públicos com ele bem visível. Depois que tatue o logótipo da BMW na testa e sorria com ar cool a quem quer que por mim passe na rua. Serei remunerado por isso, coisa que faz sempre jeito a um funcionário público presumivelmente honesto.

        Apontamentos, Devaneios

        Surpresas

        Gosto, gosto muito, dos blogues que me surpreendem com uma fala que nada tem a ver com a minha, com nomes que nada me dizem. Pensar como jamais poderei pensar, escrever como não sei escrever nem conheço quem saiba. E ler pelo prazer simples de ler.

          Etc.

          Blogues: (8) Lugares da memória

          Lugares da memoria

          A facilidade e a informalidade do acesso incorporam aqui um número cada vez maior de pessoas que transportam consigo uma experiência de vida e um acumular de referências capazes de se materializarem no fio da história. Tal como acontece com o testemunho oral ou com as cartas e os diários projectados no papel, são, por vezes, vestígios que contêm uma grande dose de erro, imprecisão ou subjectividade, mas nem por isso perdem necessariamente o interesse. Emergem então enquanto «lugares da memória» – territórios de materialização do passado colectivo, seguindo a expressão proposta por Pierre Nora – que servem para declarar informação, testemunhar representações, alimentar referências perdidas ou desfiguradas. Por vezes aproximam também as gerações.

          [De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

            Cibercultura, Etc.

            Voz da resistência

            Carmen

            Em ambiente rarefeito de clube de gangsters, num pub irlandês do século passado, gingando suado entre tabacaleras. Com João Bénard da Costa na crónica do Público de hoje [visível aqui].

            «Um dia suprime-se a cabeça do profeta do Idomeneo, de Mozart. O outro, os cigarros da Carmen. Ainda fica muita coisa para nos entretermos: as fogueiras de O Trovador, que jamais serviram para acender cigarros, o túmulo da Aida, onde não consta que nem ela nem Radamés fumassem, o quarto onde Otelo estrangulou Desdémona e onde o perfume do lenço era o único odor que ambos respiravam.»

              Recortes

              Que povo era esse?

              Povo-MFA

              O velho cartaz de um tempo raro, criador, agora antigo e quase proscrito, desperta uma incógnita. Que povo era esse que se nos apresentava na figura de um lavrador oitocentista arruinado pelo jogo, de um Zé do Telhado em dia de festa, de um jagunço sertanejo, de um Sandokan fora-de-horas viajando incógnito pela margem esquerda da Europa? O imaginário do 25 de Abril e do PREC tem ainda pistas por achar, expectativas por revelar, caminhos (se calhar, um dia talvez calhe) por retomar.

                Devaneios, História

                Limbo

                A Igreja Católica acaba de eliminar o limbo – a morada das almas que, não tendo cometido pecado mortal, se encontram afastadas da presença de Deus – onde a tradição colocava todas as crianças que morriam sem antes haverem recebido o sacramento do baptismo. Considera agora que aquele reflectia «uma visão excessivamente restritiva da salvação». Em documento acabado de publicar, a Comissão Teológica Internacional, que depende da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Tribunal do Santo Ofício), declara-se finalmente convencida de que existem «sérias razões teológicas para crer que as crianças não baptizadas que morrem se salvarão e desfrutarão da visão de Deus». Resta saber se esta decisão terá efeitos retroactivos e para que servirão as instalações até agora ocupadas por aquele serviço.

                  Etc.

                  Let’s dance!

                  Apenas 25 por cento dos trabalhadores da função pública poderão ter um nível de avaliação de desempenho relevante, dos quais cinco por cento poderão ter excelente. É esta a proposta de lei que desenha o novo Sistema Integrado da Avaliação de Desempenho da Administração Pública, aprovada hoje em conselho de ministros. Os restantes 75 por cento dos trabalhadores, naturalmente, não precisam esforçar-se muito: façam aquilo que fizerem, a «tal de excelência» será para eles uma eterna miragem. Talvez possa usar-se como mote para um fado, um vira minhoto, a letra de um rap.

                    Apontamentos, Opinião

                    Retrovisor

                    Emigrantes

                    Não, não se trata de um grupo de romenos, moldavos ou ucranianos emigrados que confraternizam numa noite de sábado. São portugueses, homens apenas, à espera de um comboio para França durante os nossos anos 60. A imagem – de grande utilidade para aqueles que padecem de amnésia – é retirada de Portugal, Um Retrato Social. Todos os episódios já emitidos desta notável série televisiva de António Barreto e Joana Pontes podem ser vistos, na íntegra, aqui mesmo.

                      Apontamentos, História

                      Format C:

                      Coreia do Norte

                      «Aqui É o Paraíso! foi a frase mais ouvida, durante toda a sua infância, pelo pequeno Hyok (…). A rádio, os altifalantes nas ruas, os próprios professores, repetem-na à saciedade: fora da Coreia do Norte, a vida é um inferno; mas lá, graças ao Grande Líder cujo culto é obrigatório, tudo corre da melhor forma.»

                      Os visitantes ocidentais mais honestos e descomprometidos têm mencionado o cenário catastrófico e a brutal repressão que se encontram instalados naquele lado do planeta. Os raríssimos testemunhos que nos chegam daqueles que conseguiram fugir e descobrir que, afinal, existia vida para além do silêncio, da servidão e do universo concentracionário, têm relatado, anos após uma custosa aprendizagem dos rudimentos da liberdade, o processo de formatação integral dos cidadãos norte-coreanos. É um testemunho desta natureza que surge em «Aqui É o Paraíso!». Uma infância na Coreia do Norte (Ulisseia), revelado pelo escritor e jornalista Philippe Grangereau a partir das conversas tidas em Seul com o jovem Hyok Kang. Que carrega consigo um factor suplementar de sofrimento: quando o convidam para ir a escolas falar sobre a sua experiência às crianças sul-coreanas, elas não acreditam nele.

                        Apontamentos, Novidades

                        Blogues: (7) Oficina das palavras

                        Teclado e Cha

                        Um dos reparos que os puristas da língua fazem à escrita através da Internet centra-se no seu funcionamento como pólo agregador dos processos de destruição do seu próprio ideal de «pureza». A simplificação, a rapidez e a mistura de registos serão factores decisivos de contaminação. Mas se este risco existe – e fica por discutir se ele é necessariamente negativo – também é verdade que uma boa parte daquilo que de melhor e de mais original se tem escrito nos últimos tempos tem, pelo menos em Portugal, começado por aqui, só depois migrando para outros suportes. Incluindo-se nestas contas a prática de muitos jovens bloggers, capazes de treinar aqui a agilidade da escrita e a capacidade para pensarem de forma autónoma. Há poucos anos, por falta de meios e de um estímulo, a maioria deles jamais escreveria com regularidade. Reescrever, rasurar, remeter, são práticas partilhadas que podem aqui apurar a forma, a clareza, a fala.

                        [De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

                          Cibercultura, Etc.

                          O DN bate na avó

                          Senti hoje de manhã que alguém me agarrava pelos colarinhos e me dava duas bofetadas. Havia já alguns dias que não comprava o Diário de Notícias – o jornal que me ensinou a ler e a perceber que existiam mais mundos que o mundo – mas de facto não há como ver para acreditar. O velho e respeitado diário transformara-se, de um momento para o outro, numa espécie de tablóide, com os maiores destaques concedidos ao crime e à desgraça, notícias espremidas e sem tutano, colunas minguadas e colunistas que desapareceram, e, à traição, sem um aviso sequer aos seus fiéis leitores, o suplemento cultural 6a. completamente evaporado (e substituído por um anódino caderninho com a programação da televisão subordinada ao prometedor título «Mariana está a dar a volta à minha vida»). Chama-se a isto cuspir na sopa. Ou, talvez mais propriamente, bater na avó. Então adeusinho, DN, até qualquer dia!

                          O Daniel Oliveira e, sob um ponto de vista particularmente preocupante, o Luís Januário, chamam também a atenção para este triste episódio.

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                            Manhãs de nevoeiro

                            Sebastiao

                            Em 1581, Filipe II (I de Portugal, como se ensinava em tempos na Primária), fez transladar para o Mosteiro dos Jerónimos um corpo que alegava ser o de D. Sebastião. O objectivo parece ter sido o de acabar com os rumores a propósito da sobrevivência do rei em Alcácer-Quibir e do seu eventual regresso na tentativa de resgatar o trono e a independência do reino. A incerteza, porém, manteve-se, alimentado esse «mito sebástico» que desde o início se fundou na crença do retorno messiânico de um salvífico «desejado». Em 1879, na História de Portugal, Oliveira Martins explicava-o assim: «A alma lusitana, ingénua na sua candidez – tombado agora por terra o edifício imperial (…) – rebentava em soluços, buscando no seio da natureza, onde se acolhia, uma salvação que não podia esperar mais das ideias, dos sistemas, dos heróis, nem dos reis em quem tinha confiado por dois séculos. A obra temerária dos homens caía por terra; e o povo, abandonado e perdido, abraçava-se à natureza, fazendo do lendário D. Sebastião um génio, um espírito, e da sua história um mito». Alguém, portanto, que transportava um anseio colectivo e vivia para aquém do seu desaparecimento físico.

                            Bastará uma consulta apressada de parte da imensa bibliografia que sobre o assunto se produziu ao longo dos últimos cento e vinte anos para se perceber que o sebastianismo não cresceu da dúvida sobre a identificação do corpo, mas de algo muito mais profundo que já as profecias do Bandarra (anteriores, aliás, à vida de Sebastião) enunciavam como a crença num herói providencial capaz de interpretar o colectivo destino dos portugueses. Sabe-se como o próprio Salazar não escapou a esta aproximação (tal como Sidónio Pais, Sá Carneiro, e até Cavaco, na sua versão hardcore dos anos 80). Parece, porém, que dois investigadores, um português e um espanhol, defendem agora a abertura do túmulo do rei e a realização de análises às ossadas ali depositadas, para «acabar de vez com o mito sebastiânico» (sic). Talvez valha a pena lembrar, a quem possa dar uma importância exagerada a este tipo de iniciativa, que o que importa aqui não é o corpo – muito provavelmente sem qualquer gene dos Áustrias, pois só o contrário seria surpreendente – mas sim a manhã de nevoeiro.

                              História

                              O homem da mala

                              Se comparadas com os testemunhos individuais, sempre mediados por aquilo que são hoje as pessoas que os revelam, perturbam bastante – talvez mais até a quem por dentro as viveu – as imagens do Portugal do tempo do outro senhor que António Barreto e Joana Pontes nos têm oferecido. Assim aconteceu, durante o episódio da noite passada, com as hesitações daquele homem, de gasto fato completo e chapéu de pano, a velha mala reforçada com um cordel, que tremia ao ver-se na obrigação de atravessar a rua movimentada da cidade grande. Que começava a travessia mas parava, voltando atrás, limpando o suor com um lenço, olhando desesperado como que a pedir auxílio. Naquele início da década de 1960, vindo de longe, provavelmente de uma aldeia ignorada dos mapas do asfalto, o homem tinha medo de Lisboa: dos automóveis que não abrandavam para o deixarem passar, das pessoas que não o saudavam, da incerteza de poder comer a hora certa e de encontrar a morada do conterrâneo que trazia escrita num pequeno rectângulo de papel que não sabia ler.

                                Apontamentos

                                Os 300 contra Ahmadinejad

                                Leonidas, rei de Esparta

                                Sempre preferi os reflexivos e polidos cidadãos atenienses aos seus vizinhos espartanos, descritos como eternamente guerreiros e brutais, e não será agora que vou mudar de opinião. Mas também não será por isso que, como o faz um crítico do Expresso, aceito que qualifique de «protofascista» o filme 300, de Zack Snyder – construído, a partir da BD de Frank Miller e Lynn Varley, e (naturalmente) do relato de Heródoto – sobre o combate desigual travado no desfiladeiro das Termópilas pelo rei Leónidas, acompanhado dos seus três centos de corajosos combatentes espartanos, contra as tropas numericamente muito superiores de Xerxes. Deve dizer-se que o filme idealiza bastante o lugar de Esparta no seu combate «pela liberdade» contra os ímpetos despóticos do rei dos persas. Que incorpora personagens mágicos, violentos ou grotescos que parecem caricaturas do bestiário de J. R. R. Tolkien. Que os medo-persas são de forma caricatural apresentados como chacais um tanto estúpidos, ora medonhos, ora efeminados, e sempre amorais. Mas, para além disso, trata-se de uma obra inteiramente concebida como um jogo de computador – até a coreografia dos duelos e das batalhas acompanha muito de perto a sua mecânica feita de impulsos – que me parece apenas mais uma daquelas experiências de cinema romanesco, «de aventuras», a tender, como milhares de outras, para o extremar da separação política entre heróis e vilões. A não ser que se queira dar alguma razão à impugnação do filme pelos círculos próximos do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que o fizeram proibir no seu país por considerá-lo parte da guerra psicológica lançada pelos EUA contra o regime que suportam. Quer-me parecer que é isto mesmo que este tipo de crítica nos pretende oferecer como observação essencial a ter em conta perante 300: com os «persas» não se deve brincar nesta altura dos acontecimentos mundiais.

                                  Cinema