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Ao sorriso, camarada!

Ségolène
Do encontro do Partido Socialista Europeu, no Porto, ficará um recanto da nossa memória visual. Uma tribuna na qual se destacava um tom de vermelho entremeado de fatos completos. Os participantes que se aproximavam em francês na segunda pessoa do singular. Uma vaga lembrança, presa na fala, da velha canção de Ferrat («C’est un joli nom Camarade / C’est un joli nom tu sais»). Ségolène Royale simpática, coqueta, coberta de flores, de mais flores e de muitos beijinhos. Da substância não me recordo muito bem: afinal já passaram dois dias.

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    Kramer vs. Bin Laden

    Cosmo Kramer
    Não terão sido as tiradas de Michael Richards numa sessão de stand-up comedy na Laugh Factory, no mínimo «politicamente incorrectas», a condicionarem a mudança. A decisão já estaria tomada. Mas existe algo de intrigante no facto de a TV-Cabo se preparar para, no pacote de canais que entra em vigor no próximo Janeiro, trocar a SIC-Comédia – que até ocupava a décima posição nas audiências – pela Al-Jazeera. Não acredito que seja a previsão de audiências a justificar a medida. E ficamos, literalmente, com menos razões para rir.

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      Era a guerra / É a guerra

      Paris - La guerre

      «Vous parlez tout le temps de guerres. Il ne pouvait pas être question de guerres. Ces gens étaient des hors-la-loi. On ne fait pas la guerre à des hors-la-loi. On les extermine. Des hors-la-loi! Mon garçon, c’était une grande époque. Oh! c’était du beau travail, une merveille de l’organisation et d’audace dans l’exécution.»

      Em De l’origine du XXIe siècle (2000), um filme de 17 minutos de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, contendo imagens de arquivo da 2ª Guerra Mundial e atrocidades nazis, entrecruzadas com extractos de Maurice Chevalier em Gigi, de Jerry Lewis em The Nutty Professor, e de À bout de souffle, do próprio Godard (ECM Cinema).

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        Fé (ou: o passado nunca existiu)

        Da entrevista concedida ao jornal Público por Blanco Cabrera, dirigente do Partido dos Comunistas do México que participa, em Lisboa, no Encontro Internacional que junta 63 Partidos «Comunistas e Operários»:

        «Na Coreia do Norte há fome. Não acha que há um grande distanciamento entre a clique política e o povo?
        Conhecemos a experiência da sociedade não capitalista na Coreia do Norte. Sabemos que é um caminho que conta com a aceitação do povo.
        Como é que sabe que conta com a aceitação do povo? A Coreia do Norte é um país opaco e repressivo…
        Recebemos a informação que nos é dada pelos companheiros do partido coreano e houve uma ocasião em que uma delegação do nosso Partido visitou a República. Efectivamente, é pouco o que se sabe, mas nós confiamos.»

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          Heróis com mácula

          Loren
          Poderão Simone de Beauvoir, Alexandre Solzhenitsyn, Sofia Loren, Mary Quant, Rainer Werner Fassbinder, a princesa Diana, Juan Carlos de Borbón, Franz Beckenbauer ou a Madre Teresa de Calcutá integrar, ao mesmo tempo, o admirável panteão dos heróis mundiais do pós-2ª Grande Guerra? Para a revista Time, que acaba de publicar o extenso dossier «60 Years of Heroes», podem, sem dúvida alguma. Claro que nenhum deles detém a heroicidade paradigmática de figuras como Aquiles, Alcibíades, El Cid, Francis Drake ou Giuseppe Garibaldi, mas a estes já o tempo e a lenda transformaram há muito em semideuses de visita aos parentes terrenos. E a Time possui, do conceito de herói, uma concepção bastante democrática.

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            Portugalete

            Recebi há cerca de dois meses um cartão de débito da Caixa Geral de Depósitos que substituía o anterior, em final de prazo de validade. Este apontava como novo «tempo de graça» aquele que se estenderia até Abril de 2009. Há dois dias, porém, chegou-me um novo cartão, agora com o diferente prazo-limite de 09/09. Ao procurar conhecer o motivo de tão rápida troca, tentando saber qual dos cartões deveria afinal utilizar, recebi da amável menina que me atendeu nos «serviços de apoio» da Caixa uma explicação edificante. «Sabe», disse-me a moça, «por razões informáticas foram omitidos nos anteriores cartões os títulos académicos de quem os possui», acrescentando que «entretanto recebemos inúmeras queixas por parte de clientes que se sentiam lesados». Olhei de novo para o cartão mais recente – enquanto ouvia mais um «obrigado por ter recorrido aos nossos serviços» – e lá estava, de facto, o tão requisitado e distintivo título. Situações como esta devolvem-me, por vezes, um certo respeito pelos tempos do tratamento igualitário. «Cidadão», «camarada», «irmão», «sócio», «parceiro», «pá», «amigo» igual a mim.

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              Provocação

              Uma palavra velha no ar, para legitimar a censura. A palavra é «provocação». O encenador Hans Neuenfels é «provocador» porque, no Idomeneo, colocou em cena as cabeças cortadas de Buda, de Cristo e de Maomé. O papa é «provocador» porque argumentou em nome da fé que julga «a verdadeira», confrontando os que consideram a sua como «a única». Lenine «provocou» quando escreveu O Estado e a Revolução. Saramago «provocou» quando criou uma nova leitura dos evangelhos. Stravisnky «provocou» quando produziu A Sagração da Primavera para os Ballets Russes de Diaghilev. Joyce e D. H. Lawrence «provocaram» quando escreveram Ulisses e O Amante de Lady Chatterly. Genet quando redigiu o Diário de um Ladrão. Rushdie quando lançou os Versículos Satânicos. Não constar do Index librorum prohibitorum será talvez, no limite, grosseira «provocação». Mas não existe criação, ou ideia inovadora, ou defesa coerente de uma causa, que vivam sem a suprema «provocação» de confrontarem outras. Dizer que não é conveniente porque, que não agora porque, que se deve silenciar porque, que pode ser chocante porque, é o argumento primeiro de todas as ditaduras e de todos os que desejam, ou admitem – o que é praticamente a mesma coisa -, um controlo «razoável» das consciências. Será que dizer uma verdade assim tão simples e tão essencial constituirá uma «provocação»?

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                O sublime do cigarro

                Magritte, Belga
                René Magritte: projecto de publicidade para os cigarros Belga (1936)

                Se existe leitmotiv certo nas imagens que tenho reproduzido nos blogues, ele pode ser encontrado na presença do cigarro. Não se trata de campanha contra o antitabagismo demencial que tem ocupado governantes de diferentes países. Nem de tique de dandy ou de rebelde, procurando no gesto singular a marca da diferença ou da insubmissão. Fui percebendo que o fazia de forma não-consciente, levado, talvez, tanto quanto pelo gosto do tabaco, pela beleza que detecto na volúpia do verdadeiro fumador. Não o viciado em nicotina, que já não fuma por prazer, mas aquele que sabe esperar o justo momento e se pode rever nas palavras de Richard Klein em Cigarettes Are Sublime (Duke Univ. Press, 1993). Assim: «Fumar um cigarro pode ser comparável a escrever um poema: inalando o fumo quente da própria criação, deixando que as palavras no papel possam arder ao ar visível de uma elocução surda, exalando em espiral figuras de desejo, conduzindo, com gestos modulados pelo fumo, uma conversa que ninguém mais pode escutar.»

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                  Private Road

                  Ser benigno, caro Luís Mourão, não é obviamente a mesma coisa que ser sensato. O pior que nos pode acontecer é que em nome da amabilidade, ou do desejo frouxo de permanecermos invisíveis, alguma vez, algum dia, esqueçamos a capacidade de pensar sozinhos e de falar de maneira única. De pronunciar o que pensamos como só nós pensamos e somos capazes de pronunciar. Concordemos pois em dissonância.

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                    Vida soviética

                    Shostakovitch
                    Nos cem anos sobre o nascimento de Dimitri Shostakovitch pode recordar-se a intensíssima capacidade criadora, a multiplicidade dos géneros dos quais se serviu, a dimensão monumental de quase todas as sinfonias, a dor e o grito que se podem escutar principalmente nos quartetos de cordas. Pode também falar-se da tensão constante que foi a sua hesitação entre o vermelho e o cinza. Do esforço, e do perigoso jogo que jogou, para sobreviver ao combate entre o seu interesse pelo experimental, pelas «perversões formalistas» e «cosmopolitistas», ou pelo introspectivo e melancólico, e o panfletarismo do realismo socialista, que o «paizinho dos povos» foi acompanhando com sucessivas exigências e ameaças pessoais. Mas prefiro lembrar a vida quase sempre solitária de uma figura pública. Homem de Mármore e comunista, e músico, que conviveu, por vezes como cúmplice, com a degradação do silêncio.

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                      Invenção do património

                      Passou por mim um autocarro dos transportes públicos chamando a atenção dos passantes para o «perímetro medieval» da urbe. Uma linha a branco sobre a chapa traçava os contornos do antigo e inexistente castelo, sublinhando a imagem de um património desenhado por dentro das cabeças. Afinal, tirando a velha porta de Almedina e meia dúzia de pedras perdidas na Couraça de Lisboa, já não existem muralhas, torreões, cubelos. Nem a poeira deles. Quase nada para além de algumas casas oitocentistas, de portas a ranger, alguns edifícios religiosos, pedras exaustas, as luzes e as paredes da universidade antiga. Dão-se porém alguns prospectos aos turistas e a estudantes do sétimo bê e eles crêem-se felizes a circular por entre almocreves, bufarinheiros e artesãos, camponesas, frades e mendigos. Resvalando pelo tempo, como num filme.

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                        Modo real

                        «Sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de justiça. Mas vejo frequentemente que é a esquerda que mais ameaça essas coisas que me levaram a aproximar-me dela.» Sei que Caetano Veloso falava em contexto brasileiro, mas esta frase que deixou numa entrevista à Folha de São Paulo poderia transformar-se na essência de um manifesto universal, de uma carta-aberta transatlântica, de um abaixo-assinado que eu assinava por baixo sem a mais pequena hesitação.

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                          As minhas agendas

                          Estava a pensar falar sobre as agendas da minha vida quando vi que o Pedro Mexia já havia feito coisa parecida numa crónica da Grande Reportagem (agora reunida a outras na colectânea Primeira Pessoa, ed. Casa das Letras). Vale a pena, ainda assim, escrever alguma coisa sobre o assunto. Por dois motivos essenciais. Primeiro, porque se aproxima o Outono e chega com ele a altura de procurar o caderninho mais conveniente, antes que o stock esgote e tenhamos de aceitar a oferta anual das carpetes Avelino ou das confecções M. Santos & Filho. Depois porque quase todos nós temos recordações e sentimentos particulares em relação a esse tipo de objecto íntimo. Eu não escapo à regra.

                          Lembro o prazer infantil que sentia em receber, em dose tripla ou quádrupla da responsabilidade de uma companhia de seguros qualquer, aqueles cadernos de capa cartonada ou em oleado, por vezes com um pequeno lápis lateral, e cheios de pormenores que achava abolutamente essenciais. Sobre coisas magnas e tão diversas como as fases da lua, o horóscopo chinês, a população de Copenhaga, os afluentes do Amazonas, o ramal da Lousã, a invenção do papel, «anedotas do Bocage», como tirar nódoas de azeite ou o cognome de D. Henrique, o tio e sucessor indesejado do Desejado. Folheava-as durante tarde inteiras, imaginando tudo a partir de muito pouco. Com uma única angústia: a minha vidinha sem responsabilidades não me dava motivos suficientes para apontar o que fazer. A parte da agenda propriamente dita ficava então em branco, com a excepção do meu aniversário, dos resultados do Sporting, e de um frase, exultante e em maiúsculas, inscrita a cada 1 de Julho: «COMEÇO DAS FÉRIAS GRANDES».

                          A seguir veio a filofax, com os seus separadores coloridos, lugar para cartões de crédito e credifones, uma presilha de botão. Pesada, com menos informação e ainda mais espaço para escrever notas e lembretes, nunca me entusiasmou particularmente. Usei-a principalmente para guardar moradas e, em casa, como pisa-papéis. E de repente, há uns cinco, talvez seis anos, passei a servir-me das agendas electrónicas. Nas quais parece caber de tudo. No meu actual Pocket PC, com inexploradas capacidades wi-fi e bluetooth, tenho agora uma agenda perpétua (sempre demasiado preenchida), um alarme, um processador de texto, uma base de dados, dicionários, programas para a Internet. Para não falar de versões das enciclopédias Compton e Britannica, um atlas sofrível, um guia de restaurantes, a Internet Movie Database, e toda uma série de obras de referência (como o Routledge Companion to Historical Studies ou diversos livros electrónicos sobre o cinema e a história do século XX), que consulto em desespero de causa. Mas falta-me um pouco aquele ritual da espera e da chegada das agendas do ano seguinte, o cheiro a cola e a tinta de impressão, a sensação de agarrar com as mãos a chave do mundo.

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                            Apenas palavras

                            Neste caso a memória permanece estranhamente presente. Tudo se esquece com facilidade, menos aquelas imagens cintilantes de aviões sob um céu azul, que sabemos lotados de passageiros em pânico, a colidirem em fogo contra as enormes torres de cimento, vidro e aço atulhadas de pessoas distraídas com a sua vida. Tudo se esquece menos o momento no qual soubemos que jamais voltaremos a jurar, onde quer que nos encontremos, que estamos em completa segurança. Menos perceber, como sugere Slavoj Žižek, «a ideia da existência de um agente Maligno que faz pairar constantemente sobre nós a ameaça de uma destruição total». A certeza, por mais debates que se façam sobre o conflito ou o entendimento das religiões – com todos os mulás, rabis, padres e demais pastores jurando sobre o seu livro, pelas barbas ou pelo sangue de um qualquer profeta, a benignidade essencial da sua -, de que podem as simples palavras, ou as boas intenções, não servir para nada.

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                              Tão gregos como nós

                              Revi há dias, com alguma nostalgia mas também o distanciamento crítico que na altura não era capaz de ter, a beleza ficcionada das aulas de uma excelente professora da faculdade. Um dos últimos e interessantes números dos Cahiers Science et Vie despertou essa recordação. Tinha como tema a travessia do tempo protagonizada por seis heróis gregos: Prometeu, Orfeu, Édipo, Teseu, Hércules e Sísifo. Porém, mais do que a habitual informação enciclopédica, colocava dúvidas e problemas sobre a forma como todos eles, e as suas respectivas lendas, foram apropriados ao longo do tempo por escritores, filósofos, cientistas ou pessoas comuns. Uma conclusão geral parece-me agora alguma coisa de óbvio: ao contrário daquilo que uma leitura ingénua ou entusiástica dos heróis gregos por vezes nos faz crer, os monstros, os milagres, os gestos heróicos e salvíficos, tal como aconteceu na sua posteridade, jamais foram tomados à letra pelos antigos. Como nós, como aqueles que se colocaram entre eles e nós, serviram-se dos mitos, das lendas, das narrativas, para produzirem imagens reflectidas do seu próprio mundo. Para proclamarem a recuada origem das suas cidades, a legitimidade das formas de poder nelas estabelecidas, a variedade dos problemas por resolver, dos enigmas por inquirir, dos medos por apaziguar.

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                                O Saturno

                                Saturno,  o chapéu
                                A cada vez mais rápida transmutação do presente em memória, e logo em esquecimento, obriga-nos a viver tudo como se da primeira vez se tratasse. Este sintoma de atracção pela velocidade detecta-se dramaticamente em parte substancial da prática jornalística. A mesma que, pelo menos do ponto de vista ético, deveria perspectivar o presente sem ignorar os «presentes» que o antecederam. A sedução da rapidez, a par, em muitos casos, de uma ignorância crassa – ou, pior, da completa incompetência – produz assim situações de confrangedora ausência de rigor. Segundo o Público, o papa Bento XVI saiu ontem à rua com um chapéu inteiramente «novo» e «inovador», o Saturno, o qual, de acordo com a mesmíssima notícia, foi também… utilizado muitas vezes por João XXIII e por João Paulo II, nos primeiros anos de pontificado. Acrescento: pelo menos Bento XV e Pio XII usaram-no também. Tem, aliás, um corte tradicional, muito ao estilo do cura de aldeia dos finais do século XIX, naturalmente em versão carmesim, que será do agrado de um papa objectivamente retrógrado como o actual. Este tipo de imprecisão pode parecer uma irrelevância. Repetida, como tem sido, é acima de tudo um sintoma.

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                                  Platão acabrunhado

                                  As nossas noites terão a partir de hoje menos um planeta. Como dizia um jornalista da RTP, Plutão «foi despromovido à divisão de honra» (sic). Exultante, um jovem astrónomo garantiu-nos representar este dia, vá-se lá saber porquê, «um ponto histórico». Aquele que acreditámos ser o nono calhau a contar do sol foi assim varrido para as traseiras do sistema solar. Nada que nos possa espantar, se recordarmos a sorte do seu velho orago: quando os três filhos de Cibele e Saturno fizeram a partilha do universo, Neptuno ficou com os mares, Júpiter tomou conta do Olimpo, e o desafortunado Plutão – a quem os gregos cavilosamente chamavam Hades – herdou os Infernos. Lá teremos então de reaprender a lengalenga da infância: «Mercúrio, Vénus, Terra…».

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                                    Agressor errado

                                    Foram demais. Centenas de milhares de mortos e um número de feridos que nunca poderá ser contabilizado. Eram quase todos muçulmanos e civis, em poças de sangue sobre a terra queimada. Como recordava alguém há pouco tempo, aconteceu Serbrenica e na altura poucos apontaram o dedo à Sérvia, aconteceu Grozny e desculpou-se a Rússia, aconteceu Darfur e praticamente não se ouviu uma voz contra o governo genocida do Sudão. Boat people conduzida ao deus dará pela maré errada.

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