Salazarismo do quotidiano (1)

Chamo «salazarismo do quotidiano» às práticas, instaladas no dia a dia, que, a par da atividade política e cultural imposta, durante o Estado Novo moldaram a sociedade portuguesa no desprezo pelo outro (por vezes travestido de caridade cristã) e na desconfiança diante de tudo o que escapava à «normalidade» instalada. Algumas dessas práticas sobreviveram, aliás, ao 25 de Abril, e talvez só já neste século se tenham tornado raras. O que não significa que tenham desaparecido de todo, sobretudo entre pessoas que vivem imersas na cultura da violência e do ódio. É sobre este fenómeno que começo uma série espaçada, apoiada sobretudo em vivências pessoais do ante-1974. Evocando um tempo que alguns dos que o não viveram apontam como exemplar.

Escutei hoje na rua, por simples acaso, uma palavra que não ouvia desde a infância. Trouxe-me à memória um velho horroroso – na altura, de certeza mais novo do que eu próprio sou hoje – que dela se servia como insulto, sempre que me via, para me gozar como criança: «ó…!». E recordei como estava então normalizado o uso de palavras ou de expressões aviltantes para designar os mais frágeis: as crianças, pessoas com deficiência (o cego, o coxo, o marreco, o maneta, o mudo), certas mulheres, «pretos», «maricas», tontos e os mais pobres dos mais pobres. Uma prática que não me lembro de ter por desde cedo a considerar agressiva, só mais tarde passando a vê-la também como desumana. Hoje, ao ouvir a tal palavra na rua, tive um assomo de memória e de fúria em diferido.

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