Ladrões de livros

Este apontamento de não-ficção pode causar-me problemas. Desde logo, como se diz agora, «de índole reputacional», mostrando que já fui pessoa em quem talvez não se devesse confiar. Mas também outros, mais prosaicos, a ocorrer com a polícia e os tribunais. Confio, todavia, na prescrição dos crimes descritos, na omissão dos nomes envolvidos e na indolência causada pelo calor de agosto. Contém o breve relato de dois episódios, ocorridos no ano distante de 1972, ambos ligados a uma prática então comum entre estudantes universitários, sobretudo entre aqueles que se dedicavam a compor uma pequena biblioteca pessoal, algo que hoje será por muitos considerada uma excentricidade. Refiro-me ao roubo de livros em livrarias, prática que, entre alguns de nós, comportava ainda a ideia de que era essa uma forma suplementar de combater o capitalismo.

1. Em Coimbra, na antiga Livraria Atlântida, existia em 1972 um espaço, a meia distância entre o rés-do-chão e o primeiro andar, que era perfeito para o efeito. Nele estavam depositados muitos livros importados, como a coleção completa da útil «Que sais-je?», das Presses Universitaires de France. Naquela espécie de patamar não existia vigilância, tornando mais fácil e tentadora a nobre arte da locupletação literária. Pois foi aí que um dia fiz uma investida em conjunto com o meu amigo O. Inicialmente, ela parecia ter corrido bem, até que ambos descemos para a saída. Recordo-me de que trazia comigo apenas dois volumes, mas O., que tinha mais olhos que barriga, resolveu trazer uma data deles, acabando por dar nas vistas. Foi então intercetado pelo gerente, que, aos berros de «gatuno! gatuno!», resolveu aplicar-lhe na cara uma forte lamparina. De tal modo que os óculos de O. lhe saltaram da cara, saindo porta fora a voar e aterrando na Rua Ferreira Borges, com um elétrico a passar-lhes por cima. O. passou apenas pela humilhação, e acabou por recompor-se na vida, que percorreu, juro, como advogado especializado em propriedade intelectual. Quanto a mim, saí de mansinho e foi tal o susto que, em prejuízo da própria carteira, me retirei da profissão. 

2. O segundo episódio segue em ordem cronológica trocada, pois ocorrera meses antes. Era costume, no meu grupo de jovens da esquerda revolucionária, fazer a cada agosto um «acampamento de férias», no qual se misturava doutrinamento político, exercício físico, umas passeatas e, claro, algum namoro e boas comezainas. Aquele foi perto da cidade de X, no Minho, onde existia uma livraria-editora que tinha a particularidade de possuir dois pisos e uma só funcionária. Fácil, pois, foi organizar uma visita coletiva ao estabelecimento, desviando a atenção da menina e fazendo o que havia a fazer. Aí, sim, foi uma orgia de literatura, com a particularidade de, apesar do calor, um de nós, o L, ter feito a visita levando vestida uma gabardina de inverno, daquelas com uma dúzia de bolsos, como a do Inspetor Clouseau, protagonizado por Peter Sellers nos filmes da série A Pantera Cor-de-Rosa. O epílogo deste episódio ocorreu apenas comigo e cinquenta anos depois. Tendo sido convidado para realizar uma conferência na cidade, abri-me um pouco no jantar que se seguiu à palestra, contando, supostamente como momento de humor, aquele episódio. Ao que um dos presentes replicou: «Sabe, professor, eu sou filho do proprietário dessa livraria». Creio que empalideci e mudei logo de conversa.

    Devaneios, Leituras, Memória, Olhares.