A mutabilidade dos princípios e das certezas

A maioria das pessoas prefere a segurança dos princípios e o conforto das certezas para dar um sentido estável ao seu mundo e escapar às ameaças da incerteza e do caos. Contra a mecânica tradicional de Newton, a física quântica provou, com Heisenberg, como a variabilidade das partículas torna impossível prever cada movimento de forma total. Ora, sabendo-se hoje que esta dimensão de incerteza se alarga a todos os aspetos da realidade física ou espiritual, nada pode ser dado como inteiramente certo, seguro e definitivo. Por sua vez, o caos define um estado primordial de desordem e tumulto, concebido pelas religiões para justificarem o papel criador e regulador da intervenção divina, destinada a conferir um sentido inteligível à ação humana. 

Incerteza e caos são, de facto, condições de instabilidade que tendem a afligir-nos. Contra elas, ergue-se então a confiança trazida pelos princípios e pelas certezas. Qualquer dicionário identifica os primeiros, associando-os ao conjunto de regras, normas ou fundamentos que justificam uma atividade, apoiam uma forma de conhecimento ou dão corpo a um sistema de pensamento. Sem eles, indivíduos e grupos navegariam à deriva, sujeitos aos impulsos de ventos e correntes, e incapazes de um esforço consistente para definir determinadas escolhas. Já as certezas são de natureza diversa, pois traduzem principalmente atitudes e comportamentos tendentes a impor convicções sobre a nossa forma de conhecer o passado, de compreender o presente e de antecipar o futuro.

Porém, a gestão de princípios e certezas tanto pode ter um efeito mobilizador e positivo, quanto inibidor e perverso. Foco-me aqui na sua aplicação às ideologias – como o nacionalismo, o marxismo (e de forma mais geral o socialismo), o conservadorismo, o fascismo, o neoliberalismo ou o populismo –, aqui entendidas como conjuntos de ideias, valores, crenças e práticas que orientam visões do mundo e da iniciativa política, justificando de que modo as sociedades funcionam e evoluem. Elas podem, como instrumentos de liberdade, dinamizar a transformação e o progresso, mas podem também afirmar a violência e a estagnação, tornando-se fatores de opressão.

A história oferece exemplos ao mesmo tempo exaltantes e tristes desta ambiguidade. Destaco três deles. O primeiro refere-se à forma como, de instrumento emancipador gerado no âmbito do movimento romântico do século XIX, os nacionalismos se transformaram num pesado fator de autocracia e guerra. O segundo aplica-se à passagem de uma parte do socialismo, sobretudo depois da Revolução russa de 1917, de instrumento de emancipação social a fator de gestão de sociedades rígidas, despóticas e bloqueadas. O terceiro, mais atual, respeita ao desenvolvimento do populismo, que, de complexo de correntes assentes na valorização política do «homem comum», se transformou num veículo de afirmação da ignorância, da força bruta e da tirania.

A gestão dos princípios e das certezas é, pois, um campo de batalha que requer vigilância e empenho. No universo da política, a direita é, em regra, menos rígida nesse esforço, pois importam-lhe mais os interesses grupais que os direitos de todos. A parte dela aplica-se, aliás, a conhecida frase de Julius «Groucho» Marx: «estes são os meus princípios, mas se você não estiver de acordo com eles, eu tenho outros.» Já do lado da esquerda, onde a convicção tantas vezes tem dado lugar ao dogmatismo, essa gestão tem sido mais inflexível. A solução passa por esta aceitar que princípios e certezas, sendo sempre importantes, não podem funcionar como objetivos ou constituir-se como normas, mas ser ferramentas da emancipação e do futuro. 

Rui Bebiano

Fotografia de Igor Demidov
Publicado no Diário As Beiras de 11/7/2026
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