Cabo Verde e a beleza das mulheres

A grande visibilidade que o Mundial de futebol está a dar a Cabo Verde tem trazido consigo, sobretudo nas redes sociais, apreciações simpáticas, aliás merecidas, sobre aspetos vários da sua realidade. Muitos deles, recorrentes, têm enfatizado «a beleza das mulheres caboverdianas», que é agora possível encontrar em abundância nas reportagens da televisão e na Internet. Não só concordo subjetivamente com a apreciação, como a estendo aos homens, pois grande número de naturais de Cabo Verde ou da sua diáspora, têm realmente, sob o meu olhar, uma beleza invulgar. Talvez advinda do processo de mestiçagem do qual resultam desde o povoamento inicial das ilhas, a partir de 1462, por portugueses e depois por pessoas escravizadas vindas de África.

É aqui que se ligam alguns artigos e comentários que tendem a considerar negativas aquelas apreciações. Dizem eles, basicamente, que muitas pessoas valorizam a beleza das caboverdianas por ela se aproximar mais do padrão que permanece dominante na Europa ou no ocidente, dessa maneira desqualificando aquele que é mais «caracteristicamente africano» (aliás, também ele plural). Apesar de ter ocorrido há muito tempo, lembro-me que nos meses que passei em Angola mergulhado em meios populares de Luanda, constatei, de facto, junto da população autóctone, situações de racismo contra caboverdianos associadas à sua dominante mestiçagem. Foi no ano de 1975 e na altura o complexo processo de independência estava a libertar fenómenos dessa natureza.

O problema é universal e trans-histórico: os conceitos de beleza, como os de fealdade, são plurais e dependem de muitas variáveis em termos de etnia, cultura, época, sensibilidade e outras circunstâncias, como aquelas impostas pela subjetividade de quem julga. É mesmo possível invertê-las de uma forma absoluta, tornando feio o belo e vice-versa, como demonstrou Umberto Eco. O que não pode acontecer – e é isso que tentam alguns daqueles comentários, parte deles até bastante agressivos – é desvalorizar gostos, tornando-os negativos e ilegítimos por razões da natureza política. Em casos como este, voltando, na verdade, pessoas contra pessoas, e depreciando aquelas que se considera estarem do «lado errado». Um triste fenómeno de incompreensão, comum no tempo de ódio que atravessamos.

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