Futebolices bem lamentáveis

Aviso prévio: gosto muito de futebol, joguei futebol de forma amadora e sou dos que, quando o meu clube, o Sporting CP, ganha na modalidade um jogo ou uma prova importante, dorme muito melhor e acorda mais bem disposto, acontecendo o oposto nas derrotas. Apesar de reconhecer tudo o que de muito mau envolve este desporto: demasiadas vezes negócios obscuros, informação deturpada, claques perigosas e adeptos fanáticos e de maus-fígados. Mas não considero o futebol, parafraseando a conhecida frase de Marx sobre a religião, «o ópio do povo». Sei até, bem diversamente, que para muitos ele acaba por integrar um dos poucos alimentos espirituais da sua vida, proporcionando conforto, paixão e companheirismo. Aliás, Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, considerava-o uma escola de vontade e de fraternidade. Lembro muito que as últimas palavras, horas antes de morrer, a mim dirigidas por pessoa muito próxima, foram para pedir um cigarro e saber o resultado do jogo do seu clube, por acaso rival do meu.

É por todas estas razões, às quais somo o natural gosto em que os adversários percam, que compreendendo muito bem a paixão pelo jogo e pelo clube que cada pessoa toma como seu. Abomino, todavia, o fanatismo e a doença da «clubite», que transformam rivais em inimigos, e são particularmente detestáveis quando quem os pratica é pessoa educada, racional, habitualmente tranquila e cordial, mas que na hora do jogo se transforma, comprazendo-se em insultar quem não é dos seus e, pior ainda, mostrando-se cego perante qualquer análise racional e lógica das suas incidências. Conheço várias, infelizmente, algumas no espaço das redes sociais. Ao ponto de, tratando-se de pessoas de quem em regra até gosto ou me sinto próximo, frequentas vezes escondo da vista, mesmo sendo elas do meu clube, para não conviver com os seus momentos, não de natural alegria, mas de irracionalidade, cegueira e, tantas vezes, falha de polidez. O que, em relação ao resto, me deixa também desconfiado.

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