O perigo da irredutibilidade

Continuo a ver, sobretudo nas redes sociais, uma posição de recusa de um apoio à vitória na segunda volta de António José Seguro chegado de pessoas que formalmente se consideram de esquerda. Ela advém, por um lado, do facto de sobrevalorizarem o que de menos positivo para as suas opções contém a candidatura de Seguro, desvalorizando até a sua dimensão inquestionavelmente democrática e a favor da Constituição de Abril. Mas vem também, e até principalmente, de ela ter agora, à última hora, o apoio de muitas personalidades da direita, algumas efetivamente detestáveis, mas que se demarcam do caos e da violência associados à extrema-direita.

Como era de esperar, Ventura está a reagir em conformidade, avançando com a lengalenga populista assente no confronto entre «o povo», de que se diz porta-voz, e as elites, que visam apenas «enganá-lo». Todavia, isto pouco ou nada parece dizer a quem não é capaz de reconhecer o inimigo principal e, em nome de princípios rígidos, ou de uma mera antipatia pessoal por a ou b, considera não ser importante uma vitória esmagadora de Seguro. Não é uma posição surpreendente, pois de há muito um dos males da esquerda mais ortodoxa é a irredutibilidade, justificada por princípios que cegamente excluem a maleabilidade tática e a capacidade para identificar onde reside o maior perigo.

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