
A história, encarada como trajeto humano ao longo do tempo, ou então como forma de conhecimento analítico do passado, enfrenta sempre um paradoxo: ela parte de factos e de situações em boa parte objetivos, mas é ao mesmo tempo sujeita a interpretações, incluindo as realizadas pelos historiadores, com forte componente de subjetividade. É esta que conduz, lembrou Marc Ferro, à abundância das suas falsificações, levando também a interpretações opostas, assim como ao seu uso como instrumento dos poderes estabelecidos e como ferramenta para a manipulação das consciências. Podemos observar tudo isto perante a forma como, por estes dias, se recordou ou se celebrou, o que aconteceu em Portugal a 25 de novembro de 1975.
Lembro-me muito bem daquele dia. Apenas três semanas antes chegara de Angola, onde participara como militar, desde janeiro, na agitada transição para a independência. O meu «Verão Quente de 75» foi, pois, fisicamente vivido em Luanda. Todavia, porque me mantinha informado e então militava ativamente numa organização política da esquerda, acompanhei sempre o que ia acontecendo, tanto lá como cá. Posso por isso dizer que, já de volta a Portugal, vivi os acontecimentos desse dia – agora tão deturpados – com um sentimento de tristeza e de «fim de festa», pois tinha a consciência de que representavam uma viragem na nossa democracia, e o fim de um projeto tão incompleto e contraditório, quanto belo e solidário, no qual plenamente acreditara.
Permanecendo atento aos episódios que o integraram e lhe sucederam, logo percebi que quem saíra vencedor daquela conturbada terça-feira não fora a direita – a extrema-direita, essa praticamente nem se via -, mas sobretudo o Partido Socialista e o Grupo dos Nove, ala moderada do MFA composta por pessoas democratas que, à escala atual, seriam provavelmente vistas como de «extrema-esquerda». De facto, o que resultou do 25 de Novembro foi a confirmação da democracia representativa como modelo para Portugal, o que viria, aliás, a ser consagrado com a entrada em vigor, em 26 de abril de 1976 da nova e progressista Constituição da República. Prova de que a direita nada teve de vitoriosa foi, aliás, a rejeição imediata da ilegalização do PCP, que aquela na altura desejava, e a continuação da atividade do Conselho da Revolução.
No essencial, o 25 de Novembro foi isto. Avançar agora a direita com o relato de feitos e glórias que não cumpriu, e de um sentido político que jamais existiu, é demagogia e oportunismo, além de uma deformação da história. Quem, dada o seu tempo de vida, tem o dever de deter alguma memória daquele tempo, e ainda assim o afirma, mostra confusão ou visível má-fé, sendo cúmplice de uma lenda destinada, nesta fase que atravessamos, a diminuir publicamente a esquerda e o impacto da Revolução de Abril. Quanto a quem não pode lembrar o que não viveu, a sugestão é que não acredite em invenções e estude um pouco. Consultando jornais da época, escutando os seus atores, e sobretudo lendo o que sobre o tema tem sido escrito por historiadores. Porque a história, podendo sem dúvida deter diferentes leituras, não pode ser inventada.
Rui Bebiano
Fotografia de IncolorwetrustPublicado no Diário As Beiras de 29/11/2025
