Memória enganadora

Quem conhece os mecanismos da memória individual sabe que ela é frequentemente enganadora. Não só porque falha, apaga ou confunde, mas também, e até talvez sobretudo, porque mistura em uma apenas vivências de diferentes tempos, ou porque cria «recordações», respondendo na verdade a interesses do presente ou municiando a autoestima. Cada vez encontro mais pessoas da minha geração, cujo percurso em certos casos conheço razoavelmente, a inventar ou a adaptar marcas de um passado que viveu de um modo que, tenho a certeza, não foi rigorosamente aquele que descreve. E muitas vezes não mentem de propósito, apenas confundem, acreditando genuinamente contar ou recuperar a verdade. Não deixo, no entanto, de quando lhes escuto certas descrições – vivências, influências, convicções vindas de um outro tempo – pensar em como aquilo não foi bem assim ou «não pode ser verdade». Também já incorri na mesma confusão, naturalmente, embora a minha formação e a sensibilidade de historiador ajude em muitos momentos a evitá-la.

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