Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.
O motivo explica-se facilmente: não pude aceitar que em todo ele nem uma palavra existisse sobre o comportamento do governo de Havana, que jamais deu um passo para negociar politicamente o fim do cerco – que Obama e Biden, por exemplo, chegaram a equacionar – e se colocou, como outrora em relação à União Soviética, na dependência energética da Venezuela de Maduro, agora cortada. É preciso dizê-lo com todas as letras: Cuba não é o mito que alguma esquerda conserva, mas uma ditadura de longo curso, um Estado repressivo, que impede toda a dissidência e, afora aquelas com 99% de votos em listas únicas, nem um simulacro de eleições convocou. O seu governo não é menos nocivo para o seu povo que o injusto cerco, agora brutalmente agravado. E, em nome da justiça para os cubanos, isso não deve nem pode ser completamente silenciado.

