A revolta popular, em especial aquela que está a acontecer nas grandes cidades, e a repressão do regime dos aiatolás, estão a acentuar-se no Irão, com a ditadura religiosa a usar a força bruta para sobreviver, usando balas reais e fazendo prisões em massa. Ontem deixei no meu mural do Facebook um pequeno apontamento chamando a atenção para o que de poderoso e dramático neste capítulo ali está a ocorrer. Como se tratou de um post aberto a comentários, recebi um de uma pessoa que não consigo perceber como era minha «amiga» – já o não é, felizmente -, pois sempre pondero com o cuidado possível os pedidos feitos nesse sentido.
Nesse comentário, o autor insurgia-se então, desabridamente, contra os revoltosos – de diversa natureza, sabe bem quem está minimamente informado e usa lentes em bom estado – e contra quem os apoia, defendendo o regime e acusando todos os que contra ele se insurgem de ser «agentes dos ianques e dos sionistas». Sem tirar nem pôr, repetindo o padrão de explicação que o regime de Teerão usa de modo recorrente. Depois dei um salto ai seu mural e constatei que basicamente era, além de um cego opositor da Ucrânia independente, um acrítico defensor do regime cubano, da Venezuela de Maduro e da Rússia. Como o fora também da criminosa ditadura síria de Assad e o é, ao com ele compactuar, do regime norte-coreano.
Ao fazer uma pesquisa mais alargada, percebi então que existe nas redes sociais um nicho – pequeno, embora muito ativo e ideologicamente imutável, inclusivamente ao nível da linguagem – que continua a preferir ditaduras, desde que estas possam servir para manter um vislumbre da ordem do mundo que desapareceu no final do século passado, mas que permanece na sua cabeça como exemplar. Não precisarei, creio, de identificar no plano político de onde chega esse nicho, que tem a desfaçatez de dizer-se defensor da democracia. Apenas invocando esta, sem ponta de ética, quando a operação parece útil aos seus propósitos e serve a conservação do seu pequeno e imutável universo.
[Originalmente no Facebook]

