
Completa-se o 65º aniversário da morte trágica de Albert Camus. O escritor, filósofo e jornalista morreu numa estrada secundária perto de Villeblevin, na Borgonha, ao início da tarde de 4 de janeiro de 1960. Regressava de umas curtas férias no Facel Vega do seu editor, Michel Gallimard, de quem aceitara a boleia, apesar de detestar andar de automóvel e de ter já no bolso um bilhete de comboio para Paris. Apenas com 46 anos, possuía uma obra de projeção internacional, que continuou, e assim permanece, a suscitar atenção e aplauso, mas também polémica e incompreensão. Sobretudo porque tudo o que escreveu – romances, contos e peças de teatro, ensaios e crónicas, diários, cartas e discursos – conserva uma carga política de elevada intensidade.
Uma carga tão moderna para o seu tempo, e ao mesmo tempo tão cheia de energia, que para além de responder aos dilemas e às convicções do autor, e ao seu modo de representar as circunstâncias e os problemas do mundo que conheceu, foi capaz de lhes sobreviver. Podendo servir, nas circunstâncias do mundo desigual e instável que habitamos na presente etapa histórica, para sustentar, em defesa da democracia e da liberdade individual, o combate necessário contra o discurso do ódio, a mentira, a ignorância, a desinformação, o assalto aos direitos fundamentais e a mais despudorada desumanidade.
Uma vida para além da sua vida
Camus foi amplamente lido e comentado, muito antes até de, em 1957, ter vencido o Nobel da Literatura, e assim permaneceu. Todavia, raramente é considerado um autor político no sentido convencional, pois a sua participação cívica desenvolveu-se quase sempre no território mais estrito da opinião e da intervenção como intelectual público, e não tanto como militante partidário ou ativista de causas. A exceção foi a participação no combate clandestino ao nazismo, o apoio crítico à independência da sua Argélia natal e a curta militância no Partido Comunista local, então um satélite do PCF, vivida entre o final de 1935 e julho de 1937, de onde saiu por discordar das purgas estalinistas e da coação sobre a sua personalidade libertária.
No entanto, as suas reflexões sobre política mantiveram-se uma constante, ampliando-se durante os anos da resistência ao nazismo e do imediato pós-guerra. Em 1944 escreveu num dos seus Carnets: «O homem moderno é forçado a ocupar-se de política. Da minha parte, faço-o porque, no meio dos meus defeitos, mais até do que no confronto com as minhas qualidades, sou incapaz de rejeitar as obrigações com as quais me vejo confrontado». Ao que pouco depois juntou: «Algo em mim me diz e persuade que não poderei escapar à minha época sem me mostrar cobarde ou sem me tornar escravo». Ideia que remete para o mais essencial do Camus político: o assumir da atividade cívica como dever inseparável do pessoal e do humano.
O centro do pensamento político camusiano é a democracia, entendida como o sistema que permite e facilita a vivência coletiva da liberdade, numa relação necessariamente respeitosa do outro e de aceitação da diferença, encarada como condição da plenitude da vida e da humanidade. Aspeto que torna Camus, no tempo que cruzamos, uma voz e um farol a contracorrente da deriva global de recorte autoritário e sectário. A sua abordagem política distribuiu-se por quatro eixos que sob este aspeto vale a pena observar: o papel do intelectual na esfera pública, a responsabilidade cívica na formulação de políticas concretas, o pluralismo político como condição da convivência, e a ética da intervenção pessoal enquanto fundamento das relações entre cidadãos.
O primeiro eixo foi tratado por Tony Judt em O Peso da Responsabilidade (Edições 70), onde este abordou o destacado papel desempenhado ao longo do século XX por três intelectuais públicos franceses – Léon Blum, Raymond Aron e Camus – documentando a forma como a atividade que nessa condição desenvolveram assentou sempre num esforço pela propagação de uma consciência cívica sólida e proativa por parte de um número crescente de cidadãos. No caso do autor de O Estrangeiro, Judt sublinhou o seu exemplo continuado e militante na defesa da articulação entre ética política e liberdade individual, sem que esta escolha traduzisse o alheamento perante os problemas e anseios do coletivo.
O segundo eixo traduziu-se na defesa de uma atividade política capaz de combinar o respeito pelo indivíduo com estratégias de governação. Foi aqui da maior importância a inscrição do escritor no campo, por ele considerado necessariamente plural, da esquerda política. Em frase escrita já perto do fim, quando se viu acusado pela ortodoxia do PCF e pelos seus companheiros de jornada de posições «conservadoras» ou mesmo «de direita», deixou bem claro, também nos Carnets, pertencer «a essa esquerda da qual faço parte, apesar de mim, apesar dela». O que implicou uma inscrição assumida sem rodeios, embora sempre crítica e vigilante, perante os seus eventuais desvios e perversões, no vasto e plural campo da política progressista erguida em demanda de um mundo melhor, mais feliz e mais solidário.
Já o terceiro eixo implicou a defesa do pluralismo político como condição da convivência democrática, o que levou Camus à rejeição de duas dimensões que a pervertem. Uma foi a de práticas que considerava desfigurarem a essência dos regimes de democracia representativa, confundindo-a com meros atos de gestão casuística e autoritária, num processo hoje degradado pelo uso das redes sociais, mas cujos perigosos contornos eram já percetíveis. Em Misère da la Kabylie, escrito em 1939, ainda como jovem repórter do Alger Républicain, falava já então, contra a «política politiqueira», da oposição que lhe deveria ser feita por uma política «generosa», «construtiva», que procurasse soluções para o coletivo e não vivesse do conflito pessoal.
A outra rejeição foi a das experiências totalitárias, fossem as dos fascismos, em particular a aberração maior que considerou o nazismo, ou a do estalinismo, praticado na União Soviética e sob os regimes que esta inspirou, e disseminado entre a maioria dos partidos comunistas nacionais. Ambas as formas políticas pautadas por uma subordinação à ideologia e por uma lógica de violência que alimentou um maniqueísmo, uma permanente luta entre um «nós» e um «eles». Foi esta escolha que esteve, aliás, na origem direta do isolamento por parte do PCF da atividade pública de Camus, desta divulgando uma «imagem negra» ainda recorrentemente usada pela esquerda mais ortodoxa.
Passou por aqui a polémica com Sartre, durante a qual manifestou a sua oposição ao modelo estalinista e ao visceral constrangimento da liberdade de pensamento e de opinião que ele traduzia. Passou também, quando da saída de O Homem Revoltado, em 1951, uma hipotética defesa como «contrarrevolucionária» da «revolta» individual como antídoto da «revolução» coletiva, quando, de facto, as considerou complementares. E passaram ainda as ondas de choque após declarações proferidas na Suécia, em 1957, onde rejeitou o terrorismo urbano, com bombas em bares e mercados de Argel julgadas legítimas pelos independentistas, que conduziram a uma acusação de «colonialismo». Mas não desistiu da escolha: «Porque não aceitei a matança, condenei-me a um permanente exílio».
O último dos quatro eixos foi uma ética da intervenção pessoal vista como fundamento das relações entre os cidadãos. Ela refere-se por uma lado ao papel da consciência individual, e, por outro, à sua ligação com o que Camus entendeu por moral. Se a atividade política aborda sempre «os assuntos de todos», devendo por isso defender-se do oportunismo, do clientelismo e do carreirismo, ela deverá partir de uma escolha profundamente individual e livre, que assenta num sentido de dever fundado em princípios e interiorizado. Em boa medida, como escreveu numa das Cartas a um amigo alemão, escritas na clandestinidade entre 1943 e 1944, porque «as palavras tomam sempre a cor das ações ou dos sacrifícios que suscitam».
Valores como normas de conduta
Este incorpora um forte sentido moral. Na década de 1940 o escritor chegou mesmo a escrever, nas páginas do Combat, o jornal da Resistência francesa ao nazismo que dirigiu entre 1943 e 1947, que «estamos mesmo decididos a suprimir a política e a substituí-la pela moral». Esta é entendida como «a ciência do bem e do mal», que requer uma teoria da ação motivadora de quem, ao mesmo tempo, a aplica no quotidiano, e que assenta numa escala de valores capaz de determinar normas de conduta que não podem ser aleatórias e casuísticas. Devem incutir coerência pessoal a quem delas se serve, tornando transparentes e positivas, embora sempre vigilantes, as suas relações com os outros.
O núcleo essencial dessas normas, claramente adaptável às circunstâncias em que nesta altura vivemos, foi constituído por Camus através da conjugação de seis fatores. A paz foi e permanece o primeiro deles, porque o mundo atual lembra o seu: uma paisagem manchada pela guerra, pela morte, pelo genocídio, pelo ódio e pelo racismo. «Diante das perspetivas aterradoras que se abrem à humanidade, percebemos cada vez melhor que a paz é o único combate que merece ser travado», escreveu em 1945. Sendo a violência inevitável, entendia que para se lhe reduzirem os efeitos perversos esta deveria ser fortemente coagida.
O segundo fator toma o otimismo como eixo. Ao contrário do que difundem alguns clichés sobre a sua obra, deteta-se nela a todo o instante uma poderosa dimensão de esperança diante das capacidades regeneradoras e positivas do humano. Em 1951, escreveu num dos confessionais Cahiers: «Resposta à pergunta sobre as minhas dez palavras favoritas: o mundo, a dor, a terra, mãe, os homens, deserto, honra, a miséria, o verão, o mar». No ensaio Albert Camus, Soleil et Ombre, de 1987, Roger Grenier deixou claro que nem uma só referência de teor pessimista está associada a qualquer dessas palavras nos seus escritos.
O terceiro fator é a valorização da felicidade. Superando a dimensão de tragédia e de solidão associada em regra à noção de absurdo proposta ainda em O Mito de Sísifo, o escritor esforçou-se depois por exaltar o que acreditava representar o sentido pleno da vida humana. Assegurou em L’Été: «Uma vontade de viver sem nada recusar da vida é a virtude que mais venero neste mundo.» É esta dimensão de existência preenchida que é o coração da conceção camusiana de felicidade, sentimento-motor da sua narrativa do mundo. Como perspetiva solar da existência, bebida nas manhãs mediterrânicas da infância que gostava de evocar. As mesmas desse «verão invencível» ao qual regressará no derradeiro romance, O Primeiro Homem, deixado por concluir na pasta que levava consigo no dia do acidente final.
A defesa da ideia de compromisso é o quarto fator. O conceito de política enquanto espaço de aplicação de um contrato social em condições de superar a mera expressão dos interesses de grupo ou de classe, estabelecido por Sartre, ganhou em Albert Camus um sentido peculiar, o adotado pelo franco-atirador, vinculado à denúncia pública e ao esforço pela emancipação, ainda que comprometer-se, sublinhou, «não significa aderir a uma religião», mesmo tendo esta a forma da ideologia. A liberdade não será então uma dádiva, algo que se obtém numa epifania revolucionária, mas uma conquista diária que passa pelo envolvimento com os ideais de justiça e solidariedade. Esgotada a relativização das certezas imposta na pós-modernidade, uma resposta à presente crise recoloca este tema como fulcral.
A indignação é o quinto fator que materializa a atualidade de Camus e resulta do anterior, pois o compromisso força o indivíduo a expor-se, assumindo o combate que o seu código ético reclama. Todavia, ela jamais pode ser seletiva: «É verdade que a indignação hoje declina. E o pior é que ela se exerce apenas em determinados momentos e com um sentido único», escreveu em «Le Parti de la Liberté», um artigo de 1956. Visava, evidentemente, os intelectuais e os políticos melindrados apenas com o que se passava a Ocidente. A indignação não lhe parecia, na verdade, poder ter outro dono e executante que não aquele que o sujeito julga indispensável e toma como seu, num exercício de coragem que está no cerne da moral política.
Já o sexto fator refere-se à defesa da solidariedade. A «revolta solidária», da qual tanto falou, correspondeu sempre à necessidade de equilibrar a vontade de liberdade do sujeito, e a sua noção de responsabilidade individual, com o interesse coletivo ligado à vida em sociedade e materializado no que pode chamar-se a «reivindicação do humano». Isto é, num reconhecimento de que os problemas da humanidade aos humanos compete resolver, num processo de afirmação solidária que os aproxima, não que os divide e coloca uns contra os outros. Daqui, aliás, a aversão de Camus pelo fanatismo, que desvaloriza a aproximação, ainda que não pelo militantismo, que sempre julgou absolutamente necessário para a promover.
Inspiração para o nosso tempo
As crises políticas, a deriva climática global, os riscos crescentes impostos pela desinformação e pela radicalização, a ascensão da extrema-direita e dos populismos, a polarização da comunicação, a expansão da demagogia, o desprezo pela verdade e até pelo conhecimento, requerem hoje a reflexão e a atuação do número mais alargado possível de cidadãos. Começando por aqueles que fazem da atividade política uma parte central das suas vidas, mas incluindo como componente primária aqueles que atuam no campo da opinião, dada a sua capacidade para ajudar, através da palavra, ao progresso dos ideais e das políticas do bem comum. Imperativo ao qual Camus sempre atendeu.
Ter em conta a responsabilidade política do intelectual sob a perspetiva camusiana ajuda a esclarecer a urgência da tarefa e os dilemas que ela agora enfrenta. A tentação de, no território da opinião, acomodar as representações da realidade a posições que visam sobretudo apaziguar os espíritos, pactuando com a distorção da verdade e com a apatia, deve ser combatida. O mesmo precisa acontecer, geralmente enfrentando análogos intérpretes, com a opção pelo prestígio pessoal em detrimento da preocupação com os outros. As orientações e as cautelas oferecidas por Camus a este propósito mantêm-se, por isso, inteiramente valiosas.
Este oferece um acervo ético de grande relevância em tempos de crise como os que vivemos. A ética camusiana da responsabilidade – que integra a defesa da liberdade crítica como experiência de solidariedade e partilha, de uma relação com o outro, seja o próximo ou o distante – pode servir como guia fundamental para uma atuação política renovada, contra os autoritarismo reemergentes e em defesa da democracia como fator de humanidade. Por mais que as suas linhas-mestras hoje possam parecer fantasiosas, a atualidade de Camus possui, pois, no cerne, uma meta profundamente realista: reivindicar o humano como via para imaginar a felicidade num mundo menos sombrio. Por isso lhe chamou o escritor e filósofo basco Fernando Savater, Prémio Sakharov de 2000, «um inspirador para tempos difíceis».
É conhecida, mas nem por isso deixa de merecer destaque a fechar este artigo, uma afirmação de grande lucidez pronunciada por Albert Camus na Câmara Municipal de Estocolmo, a 10 de dezembro de 1957, durante o jantar de celebração da entrega do Nobel: «Cada geração supõe-se destinada a refazer o mundo. Mas a tarefa da minha talvez seja maior. Consiste em impedir que ele se desfaça.» E um pouco adiante: «Em face de um mundo ameaçado de desintegração, em que os grandes inquisidores procuram estabelecer para sempre o reino da morte, ela sabe que deverá, numa espécie de louca corrida a contrarrelógio, restaurar entre as nações uma paz que não seja a da servidão, reconciliando trabalho e cultura, e voltando a estabelecer entre os humanos uma sagrada aliança». Neste nosso tempo, isto não pode deixar de ser politicamente inspirador.
Rui Bebiano
Fotografia de Daniel FallotSaído originalmente no diário Público de 4/1/2026
