Dar a cara

Não gosto de esconder a cara ou de trocar de nome. Quando essa atitude se torna um hábito, associo-a sempre ao medo, à perfídia, a formas ínvias de pensar, escrever ou falar sem assumir o que se pensa, escreve ou diz. Sim, também já usei um nom de guerre, conspirativo, que procurava camuflar a minha identidade. Aconteceu quando durante alguns anos fiz parte de uma organização clandestina que não era propriamente apreciada pela polícia política. Servi-me depois, episodicamente, de um pseudónimo literário, com o qual publiquei escassíssima poesia e dois ou três contos. Afora esses momentos, fiz umas pequenas investidas em blogues, servindo-me de nomes inventados, mas mais como ensaios de heteronímia do que como processos para dizer escondido aquilo que, supostamente, não seria capaz de pronunciar às claras. Ah, e usei ainda um ou outro nickname na Internet, embora sempre associado nos registos ao apelido e ao sobrenome verdadeiros que trazia inscritos no meu BI. A verdade é que me desagrada o anonimato sem uma justificação sólida, as máscaras que escondem facilmente a expressão, as vozes que se alteram para camuflar o seu proprietário, os anoraques que tapam rosto, cabelo e olhos, oferecendo uma sensação de impunidade. A coragem é ainda uma atitude apreciada pelas pessoas comuns, e isso deveriam saber os adeptos ou companheiros de viagem dos pequenos grupos de ativistas que, sob um regime injusto mas que não é propriamente totalitário, se manifestam apenas na sombra, sem cara, sem assumir como cidadãos as razões e as consequências das suas escolhas. Ao mostrá-la em nome da própria dignidade, dariam um rosto humano e ético à sua luta, às suas razões, e ficariam mais próximos, mais solidários, daqueles por quem protestam. Elevando a causa que os leva a erguer a voz ou a escrever sobre os muros. E elevando-se a si próprios também.

    Apontamentos, Democracia, Olhares.