Arquivos Mensais: Dezembro 2007

Of course, Mr. Mugabe

Como seria de esperar, a defesa de Mugabe diante das suaves críticas sobre a situação dos direitos humanos no seu país que teve de ouvir durante a cimeira UE-África centrou-se na recordação do papel histórico das antigas lutas de libertação do jugo colonial – parece que elas justificam a longa licença sabática da democracia em África – e na «arrogância» ou no «complexo de superioridade» dos governantes europeus brancos que fizeram essas críticas. Aguarda-se que os defensores locais das atrocidades consideradas «compreensíveis», ou mesmo «justificáveis» (ainda que eventualmente «lamentáveis»), em nome da emancipação de um sempre luciferino «Norte» e dos direitos perpetuamente legítimos do «Outro» – seja ele qual for, desde que seja de facto «Outro» –, façam agora ouvir a habitual lengalenga.

    Atualidade

    Nostalgia vermelha

    ODiario.info – uma revista electrónica apostada em ressuscitar, a partir das profundezas da memória, o espectro do antigo jornal da «verdade a que temos direito» –, acaba de editar, entre outros textos igualmente delirantes, um pedaço de prosa sobre a «revolução bolivariana» que se revela bastante pitoresco. Assinado pelos editores (José Paulo Gascão, Miguel Urbano Rodrigues e Rui Namorado Rosa), tem a particularidade de afirmar, preto no branco, aquilo que muitos dos membros da sua família política pensa, ou sonha, mas não tem o atrevimento de escrever. Nele se proclama entusiasticamente que «na pátria de Bolívar avança com ímpeto uma revolução que empolga os povos da América Latina e alarma o imperialismo pela sua meta assumida: o socialismo» e se lembra que a existência de desafios durante a «transição do capitalismo para o socialismo» constituirá sempre «um ensinamento inesquecível» desse «andamento maravilhoso e dramático da Revolução de Outubro de 17». Quando falam de uns malvados «trotskistas, anarquistas e toda uma chusma de intelectuais pseudo revolucionários – os pequeno burgueses enraivecidos de que já falava Lenine» que «somam agora as suas vozes às do imperialismo para profetizar o fim da revolução bolivariana» tenho a impressão que os autores se estão a referir a alguém mas não tenho a certeza de quem seja.

      Devaneios, Recortes

      Uma lança no Hollywood Sign

      De vez em quando, num assomo desse provincianismo atávico, associado a um forte complexo de inferioridade nacional, que regularmente atinge parte da nossa comunicação social, surge nos jornais ou nos noticiários uma referência destacada ao compatriota que trabalha a recibo verde algures na indústria cinematográfica de Hollywood. Pode ser o ex-estagiário das Produções Fictícias que por aqui ninguém conhece, o operador de câmara saído directamente da ilha do Pico ou o actor que decidiu tentar a sorte e conseguiu fazer de peixe-aranha na última sequela do Pirata das Caraíbas. Mas também não ficará mal contar, num daquelas peças de fait divers dos suplementos de fim-de-semana, que existe um técnico de luzes, um motorista profissional ou uma senhora da limpeza, de sobrenome Sousa, Almeida ou Menezes, que já foram a Beverly Hills e passam algumas vezes em serviço pela Mulholland Drive.

      Não surpreende por isso o destaque atribuído em certa imprensa à edição pela William Murrow (do grupo Harper Collins) e à eventual adaptação hollywoodesca de Codex 632, esse êxito dos escaparates da responsabilidade autoral de José Rodrigues dos Santos. E isto mesmo depois da porcaria de filme que resultou do Código Da Vinci, protótipo do género cultivado entre nós pelo conhecido jornalista, apresentador e docente. Claro que de argumentistas está atulhada a indústria americana do cinema da Costa Oeste, parte dos quais se distribui por aqueles filmes que podemos ver a partir da meia-noite ou nos domingos à tarde nas estações de televisão de sinal aberto, e que isso em nada abona a favor da qualidade ou do efectivo reconhecimento internacional da obra de Santos. Mas tal não demove a rusticidade bacoca do tipo de jornalismo que dá tanta importância a estas coisas. Reconheça-se, porém, que existe uma expectativa e um sinal de esperança em relação àquilo que poderá resultar desta lança cravada no Hollywood Sign: tradução e argumento são escritos em inglês.

        Apontamentos, Cinema

        O Irmão Líder e os kamikazes

        Posso andar distraído, mas não tenho encontrado comentários sobre os inenarráveis anúncios pagos que o presidente líbio tem feito publicar em jornais portugueses. Anúncios de página inteira, nos quais surgem frases – obviamente imunes ao livro de estilos – como «a análise intelectual é o código dos acontecimentos…» (as reticências fazem parte), «Kadhafy fala todas as portas são válidas para o conhecimento», «o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no uso exagerado na morte colectiva» ou «pela piedade há necessidade de apoiar o meu apelo para anular as armas metralhadoras exceptuando outras armas convencionais», entre muitas outras de idêntico recorte literário. Remetendo todo este arrazoado para a consulta do site www.algathafi.org, da suposta responsabilidade do «irmão líder» que foi recebido ontem aos gritos de «viva a revolução popular!». O mesmo que deu hoje, pasmem-se a orbe e as gentes, um seminário organizado pelo Centro de História da Universidade de Lisboa e subordinado ao tema Problemas da Sociedade Contemporânea, onde recordou sabiamente que «meia dúzia de pessoas decidem o futuro do mundo e depois uns reagem com palavras, outros com explosivos e outros com kamikazes». Para memória futura rezam as crónicas que foi «largamente aplaudido à chegada e à saída».

          Atualidade

          Frei Bento

          Tenho muito respeito pelo trajecto pessoal e pelo trabalho do teólogo dominicano e colunista Frei Bento Domingues. Ele é desde há muito, e começou a sê-lo numa época em que geralmente se pagava caro pela ousadia, uma das raras figuras da Igreja católica portuguesa que tem procurado levar o cidadão comum, crente ou laico, a pensar Deus e as religiões. A pensá-los, sublinho. E foi também um daqueles que, desde muito cedo, procurou mostrar-nos que a atitude religiosa apenas faz sentido como prática libertadora, não dogmática e eminentemente social. Principalmente quando a fé de quem a pratica se mantém numa dimensão necessariamente individual.

          É por isso que tenho lido com certa mágoa algumas das suas crónicas recentes. Nas quais, de uma forma cada vez mais incisiva, procura explicar certas posições da Igreja romana e do actual papa, ou se dedica a demonstrar a fragilidade das razões daqueles que recusam Deus e a própria religião. Os que, segundo ele, «têm medo que Deus exista» e, na afirmação de um cepticismo extremo, «comeram a razão toda». Uma atitude como esta, mesmo quando envolta em belas palavras e, admito, em excelentes sentimentos, tende sempre a solicitar uma rejeição da liberdade do outro. Dessa liberdade total, sem condições, fundada numa convicção tão forte e tão legítima quanto aquela que alguns, como Frei Bento, bebem principalmente na fé.

            Olhares, Opinião

            Um bombom para o tirano

            Quando, a propósito da vinda de Robert Mugabe à Cimeira União Europeia-África, o Secretário de Estado dos Assuntos Europeus afirma que «confontar tiranos é melhor do que não falar com eles», parece esquecer lições da História que, de tão fundamentais que são, nem será necessário evocá-las. Numa tirada propositadamente ambígua, típica do nosso melhor «diplomatês», pretende fazer-nos acreditar que uma palavrinha meiga pode sempre abrandar o déspota e levá-lo a mudar de atitude. A chamá-lo à razão. Mas será conveniente esperarmos sentados pelos resultados da benévola iniciativa. Já o povo do Zimbabwe, esse, segundo relatam as agências noticiosas, precisa mexer-se todos os dias para sobreviver à crise económica e às arbitrariedades do seu governo.

              Atualidade

              Intérpretes do Bem

              Em entrevista ao suplemento Ípsilon, Ricardo Araújo Pereira fala dos insultos que recebe de cada vez que o assunto das suas crónicas tem a ver com religião. «Nem preciso ser acintoso, basta tocar no tema.» À limitadíssima escala de quem não é uma estrela pop, passa-se o mesmo comigo: de cada vez que abordo o tema recebo mensagens e alguns comentários com a nítida intenção de me atirarem, em corpo e alma, para o quinto dos infernos. Tratando-se de matéria de uma natureza tão intensamente espiritual, tal não deixa de ser curioso. Mas os seus autores não estão para grandes subtilezas. Eles correspondem sempre aqueles leitores «pela metade» – para quem toda a leitura tem apenas uma camada – e que olham os profetas Cristo, Maomé ou Karl Marx como intérpretes de uma crença determinada por um Bem superior, infinito e completamente inquestionável. Diante do qual a indiferença, a falta de fé, e acima de tudo a apostasia, se revelam insuportáveis.

                Apontamentos, Olhares