Arquivos Mensais: Julho 2007

O sumiço da utopia


Existe um livro de João Martins Pereira – No Reino dos Falsos Avestruzes, editado em 1983 pel’A Regra do Jogo – que, apesar de visivelmente datado sempre que refere determinados aspectos da vida política portuguesa da época, merece ser revisitado com alguma atenção, suscitando o reencontro com um padrão de reflexão política hoje praticamente inexistente. Quase ao acaso, dou de caras com uma frase sublinhada naquela altura: «A banalização do adjectivo «utópico» num sentido pejorativo não deveria impressionar nem complexar a Esquerda; foi a Direita que, ao pretender-se realista e pragmática, lhe lançou essa armadilha». Nesse mesmo ano, Tony Blair entrava pela primeira vez para o Parlamento britânico: o resto da história é conhecido.

    Apontamentos, Opinião

    Gina, a Lollo

    Nascida em Subiaco, uma aldeia perdida do Lázio interior, e filha de um pacato carpinteiro local, Gina Lollobrigida teve uma vida mais luminosa e movimentada que a das suas amigas de infância. Em 1947, com 19 anos, foi dama de honor, ao mesmo tempo que Gianna Maria Canale, num extraordinário concurso de Miss Itália ganho por Lucia Bosé. Um busto «generoso», como era modelar na época, uma voz aveludada, associados a algum talento para representar, iriam guardar-lhe um lugar, cativo e universal, nos devaneios nocturnos de muitos machos de diferentes gerações. A Lollo apoderou-se rapidamente da imagem de Gina, ao ponto de a maioria dos cerca de 70 filmes que interpretou terem sido realizados à sua medida. Foi também rainha dos calendários para motoristas de longo curso, a pin-up possível das páginas do Século Ilustrado, modelo subliminar dos desenhos do humorista José Vilhena, madrinha putativa de uma conhecida revista erótica «para homens». E inspirou até, por aquela «ser um navio muito bonito designadamente na convergência das linhas de proa e do convés», a alcunha da antiga fragata Pero Escobar, com direito a fotografia autografada na Câmara de Oficiais, pendurada ao lado do retrato do Presidente da República. Gina, a Lollo, faz hoje 80 anos, e convém agradecer-lhe.

      Apontamentos, Cinema, Etc.

      Sem vergonha

      Num passado ainda recente, na prática dos grandes partidos institucionais, certas coisas pensavam-se e faziam-se, mas não se diziam. Existia, ao nível do menor denominador comum da opinião pública, uma ética que descriminava quem verbalizava ideias, quem propunha atitudes, que contrariavam os fundamentos da vida democrática. Esses tempos passaram, e, como todos eles, foram substituídos por outros, nos quais a gente que ainda há algum tempo estava caladinha e quietinha perante o perfil ético e o passado de muitos dos quadros presentes na política activa, tomou o poder e só não perdeu a vergonha porque, de facto, jamais a teve.

      Pelas 12 horas e 50 minutos de hoje, ouvi no Rádio Clube de Coimbra (delegação do Rádio Clube Português), o président directeur général da Comissão Distrital do Partido Socialista e actual deputado Vítor Baptista, afirmar, num tom muito exaltado, que cargos como os de directores de hospitais e centros de saúde, ou de chefia de direcções-regionais, devem ser da confiança política do governo e cessar funções sempre que o partido de governo muda. E dizer que estes jamais deverão admitir que os seus subordinados exprimam internamente posições críticas do governo que lhes paga. Sabendo que a figura em causa é um dos mais consabidos exemplos do estado a que chegou o actual partido do poder, e da indigência política (e cultural, já agora) de uma grande parte dos seus apparatchiks, a desfaçatez não admira. Algo ingenuamente, confesso, pensava porém que estas pessoas ainda cuidavam minimamente das aparências. Pelo que oiço, já perceberam que não precisam de o fazer.

        Atualidade, Opinião

        Demofobia

        Através do João Tunes, cheguei a este texto do Marcelo Ribeiro. Uma espécie de carta-aberta, e um testemunho muito pessoal, exprimindo uma indignação e uma preocupação que democraticamente partilho. Embora ainda considere mais indigna, e mais preocupante, a sórdida legitimação da «bufaria», por parte de diversos responsáveis do partido do governo, que a repetição deste tipo de actos tem vindo a configurar. E muitos outros permanecem ainda fora do conhecimento público, como muito bem sabe quem anda de olhos abertos pela «vida real» de diversos organismos dependentes do Estado. Um sinal dos tempos que não pode ser tolerado. Seja qual for o percurso de quem o alimenta ou, pela via do silêncio, com ele pactua.

          Atualidade, Opinião