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Blogues: (4) Dating

Dating

O tímido revela-se expansivo, o solitário sociável, o misógino conquistador: como em todos os processos de sedução, também aqui a metamorfose acontece. Na blogosfera fazem-se amigos e conhecem-se pessoas, flerta-se, namora-se, engata-se. Imaginam-se aproximações a homens belos e magníficos, a belíssimas e magníficas mulheres, todos eles aparentemente perfeitos, aparentemente próximos. Tão sensíveis e tão logo ali. Combinam-se encontros em pracetas ou em bares obscuros. Alguns falham, outros permanecem. E a vida de cada um segue o seu caminho. Ou não.

[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

    Cibercultura, Etc.

    Blogues: (3) Quarto dos brinquedos

    Brincar

    Convivendo todos os dias com a elasticidade dos novos processos da comunicação, muitos dos utilizadores dos blogues desinibem-se e começam a escrever pelo prazer de falar, sem hesitações, por vezes de uma forma quase automática. Ultrapassam os processos morosos da reflexão e da escrita da era pré-Internet, que trocam por respostas rápidas, concebidas como um jogo, transformadas em jogo: a permuta de frases inesperadas, o alarde das pequenas descobertas, a provocação, o ruído repentista, as private jokes, instalam-se como um hábito, como uma linguagem.

    [De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]

      Cibercultura, Etc.

      Blogues: (2) Café

      Café

      Qualquer blogue pode ser um lugar de encontro. Recanto de café no qual um grupo de amigos, mais alguns convidados, mais uns quantos desconhecidos, se sentam (ou dele se retiram) sem pedir autorização. Juntos trocam ideias, contam algumas piadas, zangam-se um pouco, partilham as novidades, combinam almoços, idas a um concerto, ao futebol, a uma manifestação. Não jogam partidas de sueca, uma vez que o verdadeiro blogger não pode «perder tempo», pois vive em estado de permanente frenesim. Bebem, fumam, escutam, proclamam, sob/sobre os códigos de uma sociabilidade que simula uma outra.

      [De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra.]

        Cibercultura, Etc.

        Blogues: (1) O eremita

        Blogging_1

        No princípio o blogger é um solitário. Escreve num registo antigo, vizinho dos velhos diários íntimos, mas destinado a ficar aberto sobre a mesa, a ser visto, a deixar-se devassar. Esta característica assegura a preservação daquele que permanece o tom dominante num grande número de blogues. Uma escrita confessional, pautada sempre pelos códigos do grupo, mais ou menos disseminado, mais ou menos irregular, visível ou invisível, ao qual o seu autor acredita dirigir-se. O blogger é, sob esta perspectiva, um eremita. Habita um ermo, mas com vista para a cidade e visto pela cidade.

        [Este é o primeiro de uma dúzia de «postas» que utilizei, de forma aleatória, durante uma conversa pública sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra. Surgem aqui com algumas (pequenas e pontuais) alterações.]

          Cibercultura, Etc.

          A Torre de Tatlin

          A Torre de Tatlin

          Aço, cristal, ferro. Erguendo-se altiva, perturbante, como um manifesto, sobre a cidade de Pedro. A Torre desenhada pelo arquitecto Vladimir Tatlin – uma grande espiral circundando uma pirâmide, um cone e um cilindro rotativos e concebidos para alojar escritórios e salões – deveria ter representado, em 1919, um signo visível da modernidade soviética. E da actividade de um Comintern que, nesse tempo de socialismo primevo, se propunha ainda unificar «todos os meios disponíveis, inclusive armados, para derrubar a burguesia internacional e estabelecer uma República Soviética internacional como um passo transitório à completa abolição do Estado». Recém-instalada em Petrogrado, a futura Leninegrado, a IIIª Internacional detinha uma missão grandiosa e imprevisível que a Torre, de uma forma assombrosa, deveria projectar junto daqueles que a pudessem observar. Jamais foi construída. Como o não foi também a revolução mundial que então se anunciava aos céus e à terra. Em breve os tempos revelar-se-iam outros, menos propícios para magníficas quimeras.

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            Costeando Kamchatka

            Kamchatka

            O velho professor de Geografia gostava imenso de gozar com a nossa ignorância fazendo-nos perguntas absurdas sobre formações geológicas, rios e linhas de costa situados para lá dos Urais. Por causa dele, fui seguindo com o dedo os mapas de um velho Atlas, procurando alguma bibliografia adequada e ganhando uma certa relação de proximidade com paragens ignotas para a maioria dos meus concidadãos. Tornei-me assim, com mais dois ou três colegas da turma, um quase-especialista em questões siberianas, com interesses que se estendiam até ao ao Círculo Polar Árctico e, descendo depois uns quantos milhares de quilómetros, à inóspita península de Kamchatka. Talvez por isso, tenho vindo a seguir, com enorme prazer, Polaris, uma expedição em linha de Eduardo Brito.

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              A múmia

              O Mausoléu de Lenine, onde habita o fundador da extinta União Soviética, foi reaberto hoje ao público, após 59 dias fechado para obras, informou Serguei Deviatov, porta-voz do Serviço Federal de Segurança do Kremlin. Em declarações à agência russa RIA Novosti, Deviatov informou que todos os trabalhos dos cientistas responsáveis pela múmia concluíram que o túmulo pode ser visitado novamente pelo público. O director do Centro de Tecnologias Biológicas e de Medicina da Rússia, Valeri Bikov, afirmou que a múmia do fundador do Estado soviético se encontra em perfeito estado de conservação. Segundo Bíkov, o trabalho dos cientistas «permitirá conservar o corpo de Lenine por um tempo indefinido». O culto do mórbido prevalece: o Museu Britânico terá de esperar.

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                Bloco de notas

                Uma chamada de atenção para «Blogging, the nihilist impulse», um longo e excelente artigo do holandês Geert Lovink, teórico da comunicação, crítico e activista, publicado – em neerlandês, mas, descansem, também em inglês e com uma versão printable em pdf – no igualmente excelente e sempre estimulante Eurozine. E outra para as breves respostas do autor deste blogue ao inquérito acerca da blogosfera que tem vindo a ser revelado, no Miniscente, por Luís Carmelo.

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                  O meu problema com Leonard

                  Leonard Cohen
                  Tenho um problema com Leonard Cohen. Ou, pelo menos, com a imagem de poeta intoxicado, de habitante da penumbra e de beatnick renitente que de Cohen fui construindo entre livros (Let Us Compare Mythologies, logo em 1956), discos soberbos ou um pouco menos, concertos ocasionais e fotografias a preto e branco invariavelmente tiradas em bares e quartos de hotel. O canadiano de negro sempre me fez acreditar que a vida é dura e que só nas mulheres – as que se amam, aquelas que passam ao longe, as que apenas nos sorriem – é possível encontrar algum consolo. O problema consiste em continuar a acreditar nele.

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                    Presságio

                    Conversa numa manhã de Dezembro, entre cachecoles, quispos e bonés de xadrez. «Estás melhor, pá?» «Quase fino. Ao menos morro de boa saúde.» A piada domingueira, antiga, resulta sempre. Já que não podemos fintar a morte, fazemos pouco dela.

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